O Grande Dia
19 Capítulo XIX - De ponta Cabeça
Notas iniciais
Capítulo XIX
Milo saiu bufando do encontro com Shion, era tão nítido seu estado que as pessoas que cruzavam com ele nas escadarias não cumprimentavam, apenas se afastavam receosas. O escorpiano pisava fundo, apertando as mãos em punhos firmemente cerrados.
Apesar do longo caminho, o cavaleiro da constelação de escorpião não tardou a chegar até a casa de aquário. Logo, não se preocupando com mais nada, irrompeu pelos aposentos em direção aos quartos, abrindo abruptamente a porta.
Os meninos que lá estavam pularam assustados soltando gritos quase histéricos.
– Milo! Você perdeu o juízo? Está louco? – Hyoga bradou com a mão no seu peito, sentindo o coração saltitar.
Milo apenas ignorou o loiro e andou em direção a Isaac que não entendia o que estava acontecendo, e se perguntava onde estava Camus.
– Saia daqui Hyoga. – Milo disse, ainda encarando Issac.
– Não saio não, não viu que quase me matou de susto? – Replicou Hyoga, já fazendo teatro.
Milo quase não se movia, apenas virou para trás na direção de Hyoga e o encarando com o cenho franzido repetiu.
– Saia daqui, Hyoga.
Hyoga sentiu um calafrio na espinha, nunca tinha visto Milo falar naquele tom tão grave, bem como nunca tinha notado uma face tão aborrecida no escorpiano. Milo, pela primeira vez na história, estava igualzinho o Camus. Hyoga ponderou as circunstâncias e decidiu fugir dalí o mais rápido que pudesse, antes que sobrasse para ele.
Correu para fora do quarto buscando Camus com a visão, que não estava lá. Saiu, então decidido a encontrar Camus, para que alguém pudesse controlar a ira de Milo.
Enquanto isso, Milo continuava de pé, no quarto, encarando Isaac que estava sentado em sua cama e acuado se espremendo na parede. Ele não tinha e nunca teve medo de Milo, mas aquele Milo era diferente de qualquer humor que ele conhecesse.
– Por quê?
Milo cuspiu entredentes a pergunta que se fizera durante todo o caminho, desde a torre do relógio. Tudo que ele queria saber era o motivo daquilo tudo, e ele queria ouvir diretamente de Isaac.
– Por quê? – Dessa vez Milo gritou, cerrando os punhos ao lado do corpo, tentando controlar sua raiva.
Issac não conseguia verbalizar o que estava pensando em responder, tinha receio que qualquer coisa que dissesse pudesse piorar ainda mais a situação do seu mestre que estava, aparentemente, fora de si.
– Eu vou pergunta pela ultima vez. POR QUÊ?! POR QUE VOCÊ QUIS DESTRUIR MINHA VIDA? ACABAR COM O MEU CASAMENTO?
Isaac suspirou com uma tristeza enorme no olhar, que Milo apesar de notar não deu importância. O grego sabia que o menino estava parcialmente arrependido, mas isso não apagava o que havia acontecido, toda a vergonha e humilhação que ele teve que experimentar no dia com o qual tanto sonhou.
– Não foi minha intenção te fazer sofrer, Milo. Eu apenas quis ir embora daqui...
– E ESCOLHEU O DIA DO MEU CASAMENTO PARA ISSO POR QUE?!
– Eu pensei que ninguém me notaria nesse dia e então...
Enquanto Issac falava, Milo levantou a mão direita e acertou Isaac no lado esquerdo de seu rosto. O jovem se assustou na hora e passou a encarar Milo com um olhar de revolta até que abaixou a cabeça transformando a afronta em lágrimas.
– Egoísta! Você não passa de um moleque mimado, infantil e malvado. Você não pesa os sentimentos alheios, não se preocupa com ninguém além de você mesmo. Mas eu vou te ensinar, vou te ensinar a ser alguém decente, nem que seja a última coisa que eu faça!
Dito isso, Milo pegou no chão o cinto que Camus tinha jogado lá depois de usá-lo para punir Hyoga.
POV Hyoga
Eu corria sem parar pelas escadarias procurando Camus, levei algum tempo até encontra-lo próximo à entrada da onde Shion morava, prestes a bater em sua porta.
– PAAAAAAAAAAAAI.... PAIÊÊÊ!!!
Eu gritei ao longe, até que cheguei ao seu lado ofegante, acabei por precisar apoiar minhas duas mãos em meus joelhos enquanto tentava respirar.
– Hyoga, você está de castigo!
Eu nem consegui responder dada a minha falta de ar, quando consegui me levantar e ia abrir a boca para falar, fomos surpreendidos por Shion falando a nossa frente depois de abrir a porta.
– Mas que gritaria é essa aqui?
Camus olhou para o mestre Shion com cara de interrogação e eu tentei explicar.
– Vamos pai, rápido. Milo chegou na nossa casa, e acho que vai matar Isaac!
Camus continuou com uma cara de quem não entendia nada, e Shion fechou os olhos se focando nos meus pensamentos. Com certeza queria entender o que estava acontecendo, apesar da completa invasão de privacidade que eu sofria. Logo depois ele explicou.
– Acho que já entendi tudo. Camus, há pouco tempo Milo esteve aqui, quis ouvir de mim tudo que aconteceu. Eu percebi que ele estava muito nervoso quando saiu daqui, mas pensei que você estava na sua casa com as crianças. Pelo que Hyoga narrou e pensou, Milo estava realmente revoltado, eu sugiro que você retorne para a sua casa AGORA.
Assim que Shion terminou de falar, meu mestre virou as costas e saiu correndo em direção à casa de aquário. Eu ia correr atrás dele logo depois que vi Shion fechar a porta e voltar para dentro de casa, quando senti alguém me segurando.
– O que é isso?
– Bú!
– Ikki?
POV Milo
Com o cinto na mão e Isaac acuado na parede, eu levantei e desci com força naquelas pernas. Ele gritou correndo para o outro lado do quarto com um olhar que eu bem conhecia, era o olhar de Hyoga e Isaac para Camus quando estavam sendo punido.
Me virei para ele e levantei novamente o cinto, quando a porta do quarto foi aberta com força.
– Milo... – Era Camus, embasbacado com o que acontecia. Por que raios todos me olhavam com aquela cara de “você perdeu o juízo”.
– O que é? – Respondi, em fúria, com um olhar de “não me teste”.
– O que você está fazendo?
– Jogando truco, oras.
Cruzei os braços, ainda com aquele cinto na minha mão, foi quando vi Camus ainda perplexo me dar um olhar de desdém.
– Chega disso, não faça nada do que vai se arrepender depois.
– Ah, mas é claro, você pode bater neles quando quer para descontar sua raiva e eu não!
– EU NÃO BATO EM NINGUÉM PARA DESCONTAR A MINHA RAIVA – Ele fez sinal de aspas com as mãos no ar enquanto falava “descontar a minha raiva” – Se eu disciplino os meninos, é para eles aprenderem que existem limites. E não é quando eu quero, você sabe que só recorro a isso quando não há outras alternativas.
– E DESSA VEZ VOCÊ VÊ OUTRA ALTERNATIVA? – Foi minha vez de gritar.
– Milo, você é pai deles, tem direito de puni-los se quiser. Mas você está nervoso demais e não acho que agora seja um bom momento.
Eu permaneci carado o encarando, pois era muita audácia dele querer me segurar naquele momento.
– Por favor Milo, seja razoável. Quantas vezes eu não deixei de bater nos meninos porque você pediu? Quantas vezes adiei uma punição porque você me falou que era o melhor a fazer.
– VOCÊ NÃO ESTÁ COM MORAL AQUI NÃO ICEBERG!
Camus ficou sério, olhou para e Isaac e depois para mim. Sua expressão era de desapontamento e me dizia “não comece com ofensas na frente das crianças”. Pois bem, o geladinho estava magoado, mas magoado de verdade estava eu! Oras, ele que aguentasse.
– E NÃO ADIANTA ME ENCARAR ASSIM, SEU VASO CHINÊS RECAUCHUTADO MADE IN PARAGUAI... SAIA DAQUI! – Eu disse voltando a erguer o cinto para bater no Isaac.
– Pare já com isso! – Antes de conseguir descer o cinto, senti ele preso, era Camus segurando o cinto pela outra ponta.
– LARGA ESSE CINTO!
– Pare de fazer cabo de guerra comigo, você não está vendo como está sendo ridículo, Milo?!
– RIDÍCULO É VOCÊ!
Camus revirou os olhos e soltou o cinto abruptamente, o que fez com que eu fosse lançado para o outro lado do quarto, caindo em cima da escrivaninha de Hyoga. Obviamente me irritei muito com a atitude do meu noivo, noivo? Nem sabia mais como deveria chamar Camus.
Quando olhei de novo, ele estava avançando para cima de mim, falando com os dentes cerrados, o que me preocupou. Aquilo era sinal que ele estava nervoso. Muito nervoso. Mas eu não voltaria atrás, eu estava muito mais nervoso do que ele.
– Milo, você vem comigo agora. – Ele me pegou me arrastando pelo braço, mas antes olhou para Isaac. – Se você sabe o que é bom, Isaac, não vai levantar a bunda dessa cama, eu já volto.
Foi então que ele bateu a porta do quarto e saiu comigo em direção ao nosso. Chegando lá, liberou o aperto forte no meu braço me lançando na cama com força.
– Você perdeu o juízo, Milo?
– Eu perdi o juízo? Posso saber porque eu não posso bater no Isaac se é o que você faria?
– Você está nervoso demais, por favor, me escute!
Eu bufei, era verdade, eu estava.
– Eu vou lá ter com ele agora, você vai ficar aqui e se acalmar. Depois que eu terminar, se você estiver mais calmo, vai lá e dá a punição que achar melhor.
Me contentei com a ideia, eu poderia bater nele dolorido da surra que Camus daria nele. E aquele menino não perdia por esperar. Então cruzei os braços, balançando uma das minhas pernas e cuspi um “ok” sem encarar o aquariano.
POV Camus
Brigar daquele jeito na frente de um dos nossos filhos era a última coisa que eu pensava que aconteceria naquele dia, Milo desceu ao ridículo fazendo cabo-de-guerra comigo e me ofendendo na frente do nosso filho primogênito.
Mas, afinal, onde ele estava com a cabeça? Adolescentes erram. Ok, Isaac errou feio, além do que deveria, mas nós devemos encarar isso com um olhar maduro e não agir procurando algum tipo de vingança. Sem a cabeça no lugar e os objetivos bem definidos, o que é disciplina pode se tornar agressão muito rapidamente.
Abri a porta no quarto onde meu filho estava, e o que estava na minha cabeça não era o casamento desfeito, mas sim as lágrimas nos olhos dele quando eu disse que o amava naquele trem, enquanto eu o abraçava.
Isaac era apenas uma criança confusa. Sim, uma criança confusa que quase destruiu, ou talvez não tão quase, o meu relacionamento. Mas era apenas um menino que se sentia deixado de lado. Eu, confessando, preciso dizer que me senti dessa forma a vida inteira quando comparado ao Mu.
Afinal, aquilo tudo havia sido uma lição para mim também. Deixei meus devaneios de lado e fui me sentar na cama ao lado de Isaac. Apesar de seu olhar de medo, estende minha mão e arrumei uma mecha de seu cabelo delicadamente atrás de sua orelha.
– Você comeu os biscoitos e bebeu o leite que deixei aqui?
Ele acenou positivamente com a cabeça, eu percebi pelo prato e pelo copo que ele não havia comido muito, mas ao menos não estava em jejum. Olhar para aquele rostinho pálido e amedrontado estava me matando. Seria mais fácil se ele ainda estivesse com aquela pinta de durão de quanto eu o encontrei.
– Isaac, eu acho que o que tínhamos para conversar sobre eu ser seu pai e te amar na mesma intensidade quanto amo o Hyoga ficou claro, não é? Que aqui me preocupo com você e me dedico de maneira igual a vocês dois não é?
Ele novamente não emitiu nenhum som, apenas acenou positivamente com a cabeça, balançando aquelas mechas verdes no ar. Eu fechei os olhos quase desistindo de bater nele, tamanho seu arrependimento, mas então me lembrei aos poucos dos últimos acontecimentos e mudei de ideia.
– E você sabe que, porque eu te amo, eu vou castiga-lo.
Ao ouvir isso ele revirou os olhos, o que me ajudava e me impulsionava a fazer o que eu faria.
– Meio contraditório, não?
– Não Isaac, não é. Olhe para mim. Se eu perco meu tempo com vocês é porque confio no potencial dos meus filhos e me preocupo em vocês crescerem no caminho correto e se tornarem boas pessoas. Se eu não os amasse e não me preocupasse com vocês, simplesmente os trataria como cavaleiros qualquer e os expulsaria do santuário para tentarem a vida em outro lugar bem longe daqui.
Ele me olhou preocupado.
– Mas eu não vou fazer isso, sequer pensaria em fazer isso. Por que eu te amo. Se não me importasse, se quisesse apenas Hyoga como você diz, eu não teria te buscado no meio da madrugada e não teria arruinado o dia mais importante da minha vida e do Milo.
Quando falei sobre o resultado de tudo aquilo, os olhos de Isaac encheram-se de água e ele começou a falar chorando.
– Me desculpa... Me perdoa... Eu não imaginei que... Eu jamais pensei que você iria atrás de mim, não pensei que vocês notariam a minha ausência. Eu apenas queria ir embora, sem ser notado. Não era a minha intenção que fossemos presos ou que o casamento fosse arruinado.
– E você realmente achava que eu não iria atrás de você?
– Pensei.
– Isso é a maior besteira que eu já ouvi na vida. Você está comigo desde os seus sete anos Isaac, desde os sete! Você não me conheceu ontem, mocinho. Alguma vez que perdi uma reunião de pais e mestres suas? Alguma vez deixei de treiná-lo? Alguma vez deixei de comemorar um aniversário com você? Alguma vez te deixei largado para fazer o que bem entendesse? Alguma vez deixei que faltasse algo que você precisasse, roupa, comida, material? Alguma vez eu demonstrei não me importar com você?
– Mas o senhor sempre se importou mais com o Hyoga!
Ouvi o grito de Isaac, segurei o nariz com a ponta dos meus dedos com os olhos fechados, contando até dez.
– Você não aprendeu nada, não é?
Vi ele me encarar, respirei fundo e, de pé, apontei para os meus própios pés.
– Isaac, venha aqui agora!
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