O Grande Dia
20 Capítulo XX – Dói mais em Mim do que em Você
Notas iniciais
Capítulo XX – Dói mais em Mim do que em Você
POV Camus
Ouvi o grito de Isaac, segurei o nariz com a ponta dos meus dedos com os olhos fechados, contando até dez.
– Você não aprendeu nada, não é?
Vi ele me encarar, respirei fundo e, de pé, apontei para os meus próprios pés.
– Isaac, venha aqui agora!
– Não, não é justo, eu não sou mais criança, o senhor não vai me bater igual bateu no Hyoga nem em sonho! Eu não tenho cinco anos para ficar levando palmadas assim, não mesmo. Eu sei me defender...
Foi quando comecei a assistir Isaac falar sem parar, dando todos os motivos absurdos para eu não terminar o que já devia ter começado muito tempo antes. Eu olhei para ele naquela pose de “você não ousaria” e só fiquei ainda mais nervoso com tudo aquilo.
– CHEGA ISAAC! – Não cheguei a gritar, mas meu tom foi tão forte e firme que era notável que ele se assustou. – Você não precisa piorar sua situação! Você foi expulso da Austrália por comportamento inadequado, mentiu para mim, bebeu, fumou, chegou a se drogar, se meteu numa briga em meio a traficantes, fugiu de casa no dia do meu casamento, arruinou o casamento que nos esforçamos tanto para fazer, nos fez ser presos! Olha eu... – Foi a minha vez de parar um pouco para respirar passando minhas mãos nos meus cabelos
– Eu já me arrependi! Eu juro! – Ele disse, andando para trás, se espremendo na parede.
– Nossas ações têm consequências, Isaac! Você vai levar a maior surra da sua vida, e eu não estou brincando aqui. Já fui bonzinho com você antes, dando tempo para sua recuperação e olha só a presepada que você me aprontou!
– Eu juro que eu não vou fazer mais, eu juro!!! Juro!!!
Eu revirei os olhos, não tinha tempo para aquilo, não com Milo tendo um ataque no quarto ao lado. Em dois passos eu agarrei sua orelha e fiz caminhar ao meu lado até a cama. Me sentei empurrando a bagunça que Hyoga tinha deixado no chão e joguei Isaac por cima das minhas pernas com uma facilidade que o assuntou, vez que ele colocava toda sua força tentando me impedir.
– Por que você vai levar essas palmadas, Isaac? – Eu perguntei, e logo o interrompi. – Ora, você aprontou tanto que não tem como adivinhar os motivos de cada coisa, então é melhor eu te ajudar.
PAFT
Foi uma palmada por cima da calça jeans, mas eu sabia que doera, e como. Isaac se estremeceu inteiro no meu colo enquanto tentava se soltar para fugir, foi quando segurei um de seus braços atrás de suas costas o forçando a permanecer no lugar.
PAFT
– Você está levando essas palmadas pelas coisas que aprontou longe de mim, na Austrália.
PAFT
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– Você me implora para estudar fora porque quer aprimorar seu inglês, eu te matriculo no curso mais caro e conceituado que encontrei e você tem a CORAGEM de chegar lá e passar o dia vadiando? Fumando? Saindo com meninas?
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– Não tem problema sair, se divertir, mas tem MUITO problema em deixar de lado as responsabilidades. E MAIS, VOCÊ AINDA FEZ A MALUQUICE DE MEXER NO SISTEMA PARA QUE NINGUÉM CONSEGUISSE ME CONTATAR E DEPOIS AINDA MENTIU PARA MIM SOBRE SEU RETORNO! Como ousou?
– Me... – Ele chorava, apesar de tentar se controlar, e dizia entre soluços – Me desculpa... Eu...
Foi quando abaixei o jeans dele junto com a cueca, revelando um traseiro muito vermelho. Minha mão estava doendo.
– Isso é para você aprender a NUNCA MAIS TENTAR ME ENGANAR!
PAFT — AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAI
– Seu malcriado! Não vê o esforço que eu e Milo fazemos para te dar uma boa educação? Você joga tudo no lixo!
PAFT — DESCULPAAAAAAAAAAA
– VOCÊ NUNCA MAIS VAI MENTIR PARA MIM!
PAFT — aAAAAAAAAAAAAAH
– NUNCA MAIS!
PAFT
– NUNCA MAIS VAI VADIAR AO INVÉS DE ESTUDAR!
PAFT
– NUNCA MAIS VAI APRONTAR ESSE TIPO DE COISA!
PAFT
PAFT
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Ele chorava sem parar, se contorcendo no meu colo. Eu tinha tanto ainda para falar para ele que não sabia se ele aguentaria. Ele era menos escandaloso do que Hyoga, eu diria que era quase orgulhoso ao ser castigado, e a diferença entre os dois me lembrou de mim e Milo na mira de Shion quando éramos mais novos.
– Você merecia apanhar MUITO MAIS por isso, MUITO MAIS. Mas eu ainda vou te bater TANTO hoje e por TANTOS OUTROS MOTIVOS, que vou aliviar aqui. Mas, olhe bem para mim. – Eu o levantei e o encarei segurando em seus braços – Se você SONHAR em matar aula novamente ou mentir para mim eu juro por Atena que eu vou quebrar uma vara no seu traseiro, você entendeu?
Ele acenou prontamente mostrando seu perfeito entendimento.
– Pois bem, vamos continuar a novela, foi tanta coisa que é difícil me lembrar – Eu coloquei a mão no queixo olhando para o teto mostrando ironia – Bem, você chegou aqui e eu mandei você fazer algo, não?
Ele permaneceu em silencio.
Eu peguei o cinto que tive que disputar com Milo havia pouco tempo, o dobrei e encarei Isaac que arregalou os olhos e instintivamente cobriu os fundilhos.
– O que eu mandei você fazer assim que chegou ao Santuário?
Eu perguntei, calmo, centrado, enquanto o encarava. Ao perceber que não recebi nenhuma resposta, desci o cinto com força na coxa esquerda dele.
– AAAAAAAAAAAAII – Ele gritou, pulando para trás.
– Eu fiz uma pergunta. – Voltei ao meu tom calmo de antes – O que eu mandei você fazer assim que chegou ao Santuário?
– Me matricular na escola...
Ele respondeu olhando para os próprios pés. Na hora me levantei rapidamente e o joguei na cama de bruços.
SLAFT – AAAAAAAAAAAAAH, CHEGA!
– E o que você fez, Isaac? O que você fez? O que você me disse?
– Que não haviam mais vagas... Me desculp....
SLAFT
SLAFT
SLAFT
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Ele chutava o ar e mordia os lábios na vã tentativa de não fazer escândalo.
– EM QUE UNIVERSO VOCÊ ACHA QUE É PERMITIDO MENTIR PARA MIM?
– Chega... Chega, me perdoa!!!
SLAFT
SLAFT
SLAFT
SLAFT
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SLAFT
SLAFT
SLAFT
SLAFT
SLAFT
Eu já me perguntava se teria que adiar a metade do castigo de Isaac para outro dia, porque nunca tinha visto uma traseiro tão vermelho e marcado quanto o dele. Devia estar doendo, e muito, mas eu não ia parar, aquela era uma lição que jamais seria esquecida.
Quando levantei novamente o cinto, ouvi um barulho abrupto de uma porta se abrindo, olhei para trás nervoso pensando que era Hyoga para me atrapalhar e me deparei com Milo com cara de raiva.
– Eu já disse que depois que eu terminar você bate nele se quiser.
– CHEGA CAMUS.
Eu arqueei a sobrancelha me perguntando o que o escorpiano queria agora.
– Você vai matar o menino.
Pronto, era só o que me faltava. Milo, que minutos antes eu tive que quase trancar no nosso quarto para não bater no Isaac, agora me interrompia.
– Só pode ser brincadeira...
Isaac aproveitou que afroxei o aperto para se sentar e ficar amuado na parede de trás de sua cama. Eu olhei para ele com uma careta, mas voltei a atenção ao Milo.
– Chega.
– Milo, ele...
– Eu disse CHEGA!
– Você precisa de tratamento, eu mesmo sem ser psicólogo te diagnostico como bipolar.
– Não preciso dos seus diagnósticos. – Ele cuspiu nervoso para a minha gracinha e começou a andar em direção ao nosso pupilo estendo a mão para ajuda-lo.
– Milo, não...
Ele me ignorou.
– Milo, NÃO!
Falei segurando ele pelo braço. Ele rapidamente puxou o braço com força e eu percebi que ele se segurou para não me xingar.
– Eu vou terminar o que comecei e você não vai atrapalhar! Chega disso! Mas que absurdo, há meia hora atrás você queria acabar com a raça dele e agora está aí tentando me segurar?
– Você já bateu demais.
– Milo, eu não vou discutir com você agora. É sério!
– Ah, então eu não tenho voz aqui. Você é o pai e eu não sou nada.
Eu fechei os olhos e coloquei a mão no meu rosto tentando me acalmar. Eu entendia o estado do Milo, mas aquilo realmente não era adequado, muito menos na frente do nosso filho que assistia de camarote nossa discussão.
– Sim, eu sou o pai e você está...
Fui interrompido pelo choro alto e agudo de Isaac. Eu e Milo paramos imediatamente e olhamos para o menino que chorava copiosamente. Percebi que Milo ia começar a brigar comigo por bater demais novamente, quando Isaac começou a falar.
– Me desculpem, eu não queria fazer vocês brigarem... Eu só queria ir embora... Não queria... Eu não sabia...
Ele estava arrependido, percebeu a gravidade do que tinha feito e estava realmente magoado consigo mesmo. Eu quase sorri vendo Milo abraçar o adolescente dizendo para ele nunca mais fugir.
– Milo, eu não terminei.
– Me deixa, Camus!
– É deixa ele!
Pronto, Isaac que não era bobo estava abraçando Milo na tentativa de acabar com a surra. Eu revirei os olhos e levantei o cinto de novo, acertando ele pela lateral.
– AAAAAAAAAAAAAI, doeu, doeu, doeu.
Isaac que não fez nenhum escândalo até então, começou o teatrinho a fim de comover ainda mais o escorpiano revoltado que estava no quarto.
– CHEGA CAMUS!
Eu estava tão nervoso, mas tão nervoso, que até quis acertar uma cintada no Milo, o que não seria nada apropriado. Eu diria que seria até suicídio.
– Milo, ele levou umas palmadas por ter sido expulso da Austrália e mentido para nós, umas cintadas por fingir que não tinha vagas na escola e, novamente, mentir para nós. Você quer deixar a questão da boca de fumo e do nosso casamento arruinado sem punição, é isso?
– Você já bateu demais!
– Ele apanhou menos que o Hyoga, e eu acho que dessa vez ele aprontou bem mais!
– Mas você já bateu demais!
– Então, eu repito, vamos deixar o que ele fez com os traficantes e a fuga no dia do nosso casamento sem punição?
Milo ficou quieto me encarando.
– Se você quiser, pode bater você. – Eu disse estendendo o cinto para o Milo. – Ou se preferir podemos pedir para o Shion terminar.
Milo revirou os olhos e decidiu sair do quarto, e me olhava com tanta raiva que pela primeira vez eu fiquei feliz em não ser telepata.
– Mãos na escrivaninha, Isaac.
– Mas, mestre...
– Sem artimanhas agora, acabou a pausa, mãos na ESCRIVANINHA AGORA.
Ele se arrastou até a escrivaninha de Hyoga, enquanto eu peguei a vara que escondi no armário.
– Eu odeio ter que fazer isso Isaac, odeio.
Levantei a vara e desci com força em direção ao traseiro dele, quase fechando os olhos.
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Ele gritou e saiu da posição pulando. Eu peguei pela orelha e o coloquei novamente na mesa.
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– Isaac, drogas são terminantemente proibidas. Sejam lícitas ou ilícitas. O que você estava pensando quando começou a beber e fumar?
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– Não vai responder?
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– Eu falo, eu falo – Ele disse, parando de gritar e chorar. – Eu estava sem o que fazer, estava revoltado, eu...
– Revoltado com o que?
– Esse limbo em que estamos. Essa paz. Eu sou um guerreiro, não sei o quefazer em tempos de paz.
– Nós lutamos pela paz, meu filho, e conseguimos a paz. O que mais me doía nos últimos conflitos era ver você e seu irmão não podendo aproveitar a infância, a juventude... Então eu quase dei minha vida para que vocês pudessem viver em paz. E agora que podem, como pode jogar tudo no lixo com esses comportamentos destrutivos?
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– Agora, POR ZEUS, me fale por que você foi se meter naquela boca de fumo com o Ikki?
Ele ficou em silêncio.
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– Eu não sei! Eu não sei! Eu só pensei... Só pensei em sair daqui!
– E o que há de tão ruim aqui? Você tem o seu quarto, seus livros, seus discos, seus jogos, eu te dou tudo que você quer. Por que toda essa revolta?
Isaac ficou quieto, então continuei.
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– Ciúmes de Hyoga não é?
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Eu parei de bater por um momento, não conseguia mais vê-lo pular nem gritar. Se eu batesse mais com certeza abriria uma ferida.
– Vem aqui...
Eu me sentei e puxei ele para o meu colo. Ele ficou nitidamente desconfortável.
– Você entendeu que eu amo vocês dois na mesma intensidade?
– Sim.. – Ele disse com os olhos inchados de tanto chorar, tentando conter os soluços.
– Sabe, eu tinha essa mesma sensação que você. Nunca tive um mestre tão presente quanto eu sou para vocês, Shion que cuidava do santuário acabava fazendo essas vezes. E eu o amava como um pai, mas sempre mesenti preterido a Mu...
Vi Isaac arregalando os olhos com a minha confissão. Com certeza ele nunca me viu como filho de alguém, nunca me viu como alguém passível de ser cuidado por alguém. Eu quase ri da sua expressão.
– Nem preciso dizer que com um mestre telepata, isso me rendeu algumas surras. Mas nenhuma delas me convenceu de que Mu não era seu preferido. Eu só fui entender isso agora, com você.
– Co-como assim?
– Meu amor, vendo esse seu ciúmes eu me lembrei e mim mesmo. E então eu entendi Shion. O coração de um pai não tem tamanho, não tem limites. É possível amar um, dois ou dez filhos infinitamente. Eu entendi Shion depois de tantos anos, só espero que você não leve tanto tempo para entender o quanto eu te amo.
Apesar da dor, da vergonha, vi Isaac sorrir para mim em meio às lágrimas. Ele me abraçou ternamente, e eu pude para minha alegria devolver o abraço afagando sua cabeça enquanto ele chorava no meu ombro.
Eu não podia mais bater nele. Eu sei que eu devia, mas não conseguia.
– Milo!
Milo apareceu, com os olhos cheios d´água e obviamente me encarando como se eu fosse o maior crápula do mundo.
– Senta aí por favor.
– Vai me bater também agora? – Perguntou, irônico ao e sentar.
– Eu quero que você fale o que você sentiu quando viu que eu estava atrasado e não sabia onde eu estava, se eu ia aparecer, se estava tudo bem comigo e o Isaac...
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