O Grande Dia
7 Capítulo VII - Gerações
Notas iniciais
Capítulo VII — Gerações
POV Isaac
Eu ainda me sentia meio aéreo, mas seria possível que Camus estava me tratando tão bem depois de tudo aquilo? Se fosse com Hyoga já o teria escalpelado vivo. Nem pude acreditar quando ele me largou no quarto e foi bater papo com Hyoga e Shion, deixando aquela louca maníaca por comida me entupir com toda a despensa da casa! Meu mestre não estava nem aí para mim, isso era fato, mas eu não ligava nem um pouco, ele que fizesse o que queria da vida dele.
– Vamos Isaac, você não terminou a sopa. Só mais um pouquinho...
– Isso é porque esse é o quinto prato que você me faz comer.
– Você precisa ficar forte, querido...Está muito debilitado por causa de tudo que aconteceu...
Revirei os olhos, já tinha cansado de discutir com Milo, continuei comendo apesar do meu estômago não suportar mais nem uma colherada. Camus me largara com uma babá enquanto discutia assuntos mais importantes com seu filhinho e aquele velho. Isso só aumentava minha raiva.
De qualquer maneira, eu precisava deitar e descansar um pouco, estava com náuseas e meu corpo doía muito. Se havia me arrependido por ter feito o que fiz? De certa forma sim, afinal, eu estava destruído e machucado. Era só, Camus nitidamente não se importava e Milo se importava demais, na realidade eu ainda não sei ao certo qual o papel de Milo naquela casa.
Bom, agora eu só precisava dormir. Amanhã eu decidiria o que fazer, o melhor a fazer seria realmente procurar outro lugar para ficar, eu não era bem vindo naquela família estranha e jamais me adaptaria. Hyoga era um fraco, sempre foi um fraco, e era perfeito para aquela babaquice de papai e mamãe.
Mas agora o que eu precisava era dormir, apenas dormir...
POV Milo
Eu estava realmente tentando dar carinho para Isaac, mas ele resistia bravamente. Ah, aqueles meninos me lembravam um antigo Camus, era difícil não cruzar os braços e revira os olhos diante daquela situação que eu já havia vivido tantas e tantas vezes.
Isaac comeu tudo que eu julguei necessário, mas era como se não estivesse presente naquele quarto, e sim perdido em seus próprios pensamentos, com seus próprios fantasmas. Suspirei profundamente, ele estava cansado, esse menino só precisava descansar.
Levantei e vi Camus saindo com o chifrudo do Tibet, não sei no que aquele sádico podia estar ajudando nessa situação. Por um momento me preocupei com Ikki, o que teria acontecido com ele e quem cuidaria do menino que estava nitidamente abandonado à própria sorte?
Eu adoraria ter um outro filho, sem pensar duas vezes... Talvez se a aquela mestra que eu nunca via de Ikki concordasse, ele pudesse ficar conosco... Acho que Camus não se incomodaria, na verdade ficaria até feliz com mais um adolescente na casa.
Bom, eu conversaria com meu noivo depois, queria aproveitar que Isaac havia dormido e que Hyoga estava no quarto estudando para resolver as coisas que Camus me passara do casamento que consistia em alguns depósitos bancários e verificar se devoluções pelos cancelamentos foram realizadas.
Sentei no computador para fazer os pagamentos listados, era uma ninharia. Claro que fiquei contrariado, Camus havia transformado meu casamento dos sonhos num baile funk de periferia com esse preço que ele estava disposto a pagar!
Fiz depósito por depósito contrariado através do meu internet banking, nem quis olhar direito o que estava pagando ou para quem. O dinheiro das devoluções também estava na conta dele, muquirana da Sibéria!
Mandei uma mensagem mal-educada para o celular dele “seu rico dinheirinho já entrou na sua conta, tio patinhas!”. Depois de apertar enviar, percebi que a mensagem não havia sido tão mal-educada quanto eu queria, então mandei outra: “A propósito, já fiz as caridades, ops, depósitos que você me pediu. Notei que normalmente gastamos mais com obras sociais do que com nosso casamento”.
Pronto, agora estava bom. Hunf! Estava até com vergonha de receber convidados para o tipo de recepção que ele deveria estar planejando. Que ódio! Nem os meninos conseguiam me desviar dessa raiva que fiquei de Camus, ainda que momentânea.
POV Camus
Estava conversando com Shion sobre outros assuntos do santuário, mais amenos, se posso chama-los assim. Estávamos pensando em recolocação de pessoal no administrativo do santuário, assim ficaríamos menos sobrecarregados com funções banais que qualquer um poderia cumprir com um mínimo de boa vontade.
A realidade é que tudo acabava em nossas costas no santuário, por incompetência de alguém, normalmente. Precisávamos estabelecer uma forma de organização mais eficaz, em que colocássemos outras pessoas apenas para trabalhos administrativos.
Saga havia se tornado um peso há algum tempo, já que apenas se preocupava em se divertir ultimamente. Mas essa era uma questão que eu não podia resolver, ele era mais velho que eu e ocupava cargos de comando há mais tempo. Eu percebia bem que Shion se incomodava com a situação.
Após uma hora, já havíamos feito toda uma reestruturação da área administrativa, com pessoas remanejadas. Nosso olhar era de satisfação, meu celular tocou com a chegada de uma mensagem, era Milo:
“Seu rico dinheirinho já entrou na sua conta, tio patinhas!”
Eu tinha pedido ao meu noivo para verificar alguns depósitos e devoluções do casamento. Olhei bem, não entendi ao certo, era piada ou a habitual ironia ofensiva de Milo que estava nervoso com os cancelamentos da festa? Mas já não havíamos resolvido isso? Tentei não transparecer preocupação com assuntos familiares, afinal, não estava sozinho. Quando ia guardar o telefone, uma nova mensagem chegou.
“A propósito, já fiz as caridades, ops, depósitos que você me pediu. Notei que normalmente gastamos mais com obras sociais do que com nosso casamento”.
Raios! Milo não conseguia deixar certas coisas para trás! Quando olhei para Shion, ele estava rindo.
– O senhor ri porque não é o senhor que tem que aguentar três adolescentes em casa!
– Essa história do casamento de vocês está hilária, Camus, desculpe.
– Como o senhor sabe dos problemas do casamento?
– Ora, todo mundo sabe!
Revirei os olhos.
– Sinto falta da época em que eu tinha alguma privacidade...
– Com Milo você nunca teve privacidade, Camus.
Eu ri, era verdade, Milo fora uma pedra no meu sapato desde nossa infância. Uma pedra preciosa, mas ainda assim, uma pedra.
– Eu vou dar uma festa bacana para ele, não sei porque esse circo todo!
– Sabe que na sua adolescência eu não aprovava o relacionamento de vocês, mas hoje vejo que estava errado. Vocês formam um ótimo casal, se complementam...
Abri os olhos embasbacado, como diria Milo. Era isso? Shion que sempre me criticou e mandou eu me afastar de Milo estava dizendo que estava errado? Shion que me castigava junto com Milo mesmo sabendo que eu não era culpado, apenas por andar com o escorpiano?
Percebi que Shion estava olhando pela janela, devia ter lido meus pensamentos, mas não teceria qualquer comentário, seu recado já tinha sido dado. Eu fiquei realmente comovido com as palavras dele, na verdade, a aceitação dele era muito importante para mim.
– Mestre?
Ele me olhou.
– O senhor gostaria de ser meu padrinho?
– Claro filho, claro.
Shion disse sorrindo, eu me levantei e parti em direção à minha casa. Tinha Milo que com certeza queria discutir a relação, Isaac para ver em que estado se encontrava e ainda tinha prometido estudar com Hyoga.
oOo
Abri a porta, Milo estava sentado na frente da televisão com as pernas e braços cruzados, comendo compulsivamente um pacote de balas de goma. Eu cheguei perto devagar, colocando um braço por trás das costas dele para um abraço e ele pulou para o lado me afastando.
– Nem vem, nem vem!
– Ah Milo... Já não tínhamos conversado sobre isso?
– Sim, sobre cortar gastos do casamento, mas o que você fez foi ridículo! Vou ter vergonha de receber meus convidados com algo tão chinfrim!
– Mas Camus, você apenas fez depósitos, e foram só alguns. Eu já gastei muito mais do que você viu hoje...
– Por que você está escondendo tudo do casamento de mim?
– Porque será tudo simples, lindo, perfeito e surpresa! Vamos desamarre essa cara vai, hoje o dia foi cheio para nós dois!
Milo revirou os olhos, sei que estava preocupado e contrariado.
– Vem aqui vem, Milo. Para com isso, vai...
Ele continuou fazendo charme por um tempo.
– Promete de não vai exagerar na pobreza da nossa festa?
Eu ri, ele pediu com aquele jeitinho dele...
– Ok amor, ok. Será bonito, prometo para você.
Milo acabou adormecendo no sofá depois de pouco tempo, tinha trabalhado demais em prol da pronta recuperação de Isaac naquele dia – o que se podia notar claramente pelo número de panelas que estavam secando na pia.
Andei até o quarto de Isaac, e sentei-me o admirando dormir. Vê-lo a salvo me deixava aliviado, mas a questão das drogas me tirava do sério, quando percebi, estava devaneando sobre a infância dos meus meninos...
Lembro-me de quando olhei para aqueles dois dormindo quando pequenos, era muito mais fácil quando eles estavam dormindo daquele jeito. Dois desengonçados, não tinham o menor jeito para serem cavaleiros. Eu precisava me segurar muito para conseguir ser duro com eles, ainda mais quando me olhavam com aqueles olhinhos brilhantes e cheios de energia.
Isaac chegou para mim com seus seis aninhos, Hyoga tinha quatro. Isaac sempre fora mais valente, me enfrentava mesmo, Hyoga chorava quase todo o tempo em que estava acordado buscando por sua mãe. Quando o loirinho dormia, acordava com pesadelos desesperado, revivendo a tempestade que gerou o naufrágio do navio onde estava com sua mãe.
Era difícil para mim tê-los tão frágeis, precisando dar uma vida dura de treinamentos a eles. Mas eu não fracassaria, faria deles homens fortes, que jamais sofreriam por nada nem ninguém. Eles trouxeram para a minha vida um sentimento que desconhecia, e nem sei denominar. Só sei que depois de recebê-los, torna-los prontos para a vida tornara-se minha sina.
Pena que percebi tarde, porém em tempo, que apenas força não bastava para formar um homem. Eles precisavam de atenção, carinho e não me imitarem escondendo sentimentos.
Saí da minha nostalgia e fui até o quarto de Hyoga ajuda-lo com os estudos. Eu estava exausto, mas conseguia ficar de pé, mas a química nos esperava. Abri a porta do quarto e me deparei com aquele loirinho sorrindo com a minha chegada, nada era mais valioso do que aquele sorriso sincero.
Baguncei o cabelo dele, sentei-me ao seu lado na cama e peguei o livro em minhas mãos me concentrando ao máximo para não acabar adormecendo com aquela matéria que para mim era tão banal.
– Pronto para encarar a química? Vamos começar pela estrutura atômica?
– Sim! Já sei tudo sobre isso!
Ele disse empolgado e começou a me narrar perfeitamente a matéria, não deixando escapar um detalhe sequer do livro. Peguei seu caderno para acompanhar, não faltava nada. Claro que eu puxava perguntas que saiam do que ele tinha estudado, a fim de verificar se ele entendeu a lógica da matéria e estava pronto para discutir problemas não tão previsíveis.
Ele continuou falando por duas ou três horas, e eu o acompanhei até sua exaustão. Saí de lá suspirando de cansado, dei uma última olhada em Isaac, depois caindo na cama como uma pedra.
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