O Grande Dia
42 Bons Tempos
Notas iniciais
POV Shion
Estava de mão dado com aquele pequeno lemuriano de cabelos alaranjados, sua mãozinha era tão pequena e seu andar tão sutil. Eu jamais imaginei que teria outro conterrâneo no Santuário depois de Mu. Eu olhava para aquele garoto descendo comigo as escadas do santuário e foi como se eu fosse pouco a pouco transportado para uma outra época, naquele mesmo lugar.
Flashback
O céu límpido escondia a guerra em que os cavaleiros de Atena constantemente estavam envolvidos. Os pássaros contavam como se fora daquele lugar não existisse tanta morte e destruição. Shion olhava em volta contemplando aquilo enquanto andava de mão dada com seu pequeno discípulo Mu, na época com apenas quatro anos.
— Camus, venha...
Shion chamava Camus que nunca gostou muito de dar as mãos para andar pelo Santuário com seu protetor, vez que era um pouco avesso à demonstrações públicas de afeto desde a mais tenra idade. Camus os seguia com seus passos curtos.
— Mu, veja só que meleca.
Shion se ajoelhou com uma de suas pernas com o cenho franzido por ver que Mu havia derrubado todo o sorvete que estava tomando em sua camiseta e no chão. Quando percebeu que estava sujando mais do que limpando, disse:
— Vamos lavar isso, Mu.... Camus, onde você está?
— Aqui mestre!
— O que é isso na sua mão?
— Carrinho...
— Mas esse carrinho não é seu meu querido, de quem é?
Foi quando Shion se assustou com Shura chegando por trás de Camus com um chute em suas costas e puxando seus cabelos.
— DEVOLVE O MEU CARRINHO.
Não demorou até Dohko vir correndo atrás do discípulo e falar sério, num tom firme.
— Shura, o que é isso?
— Ele pegou o meu carrinho...
— Eu vi o que houve, ele pegou o carrinho no chão, você não estava brincando!
— Mas o carrinho é meu!
— Shura, você deve aprender a guardar melhor suas coisas e não as deixar jogadas. Além disso, deve aprender a emprestar seus brinquedos para os amigos... É muito feio não dividir, e ainda mais feio bater no seu amigo.
Shion segurava Camus em seu colo muito encolhido, o chuto havia machucado e feito uma marca.
— Shura, levante-se agora e peça desculpas ao seu amigo.
Shura se levantou e foi até Shion que o olhou muito sério e bravo.
— Me desculpa Camus?
Camus fingiu que não ouviu, continuando enfiado no colo de Shion, se escondendo entre os seus cabelos.
— Camus, querido, responda ao Shura. Ele não vai mais fazer de novo.
— Ele não vai mais fazer mesmo? – O menino sussurrou no ouvido do mestre.
Dohko interviu.
— Não, Camus, não vai. Shura, se você sonhar em encostar um dedo nos seus amigos novamente, sabe o que vai acontecer?
— Não...
— Você vai levar uma palmada no bumbum. É isso que você quer?
Shura começou a chorar pedindo desculpas ao mestre.
— Eu te desculpo, Shura.— Camus disse entregando o carrinho.
Dohko saiu com Shura pelas escadarias, enquanto Shion descia rumo à primeira casa do Santuário com os dois, Camus em seu colo e Mu de mão dada com ele. Naqueles momentos em que ele estava com os dois, parecia que a paz reinava no mundo e mais nada importava além de sua família.
Ele entrou na casa cheia de brinquedos espalhados pelo chão e sorriu satisfeito em ver que, apesar do treinamento, seus pupilos conseguiam ser crianças na medida do possível. Foi empurrando alguma bagunça com o pé e tirando a camiseta de Mu.
— E o senhor vai tomar um banho, está todo melecado de chocolate!
— OBA! CHOCOLATE!
— Mu, você já comeu chocolate demais por um dia.
Shion dizia rindo, enquanto observava de canto de olho seu outro pupilo aquariano brincando de organizar os brinquedos. Achava formidável o senso de organização e disciplina do pobre Camus, tão maltratado pela vida com tão pouca idade.
— Camus, meu amor, você quer tomar banho também?
O menino apenas ficou quieto, sem responder. Ele não lidava bem com perguntas, mas tão somente com ordens diretas e específicas. Shion levantou-se e caminhou até Camus.
— Camus?
— Sim senhor?
— Você quer ficar brincando ou quer tomar banho?
Camus não conseguia responder, as agressões sofridas pelo seu pai biológico o fizeram não expressar muito seus desejos. Ele apenas olhava para Shion se questionando sobre a resposta correta, sobre qual resposta não geraria uma reação agressiva.
— Amor, olhe para mim...
Camus olhou prontamente, com lágrimas nos olhos.
— Aqui você pode brincar com esses brinquedos e lá no banheiro tem um montão de brinquedos também, com os quais você pode brincar. Para mim tanto faz, o que você prefere.
Camus ainda não respondia, era difícil para ele lidar com aquele tipo de situação, apesar de já estar com Shion há algum tempo.
— Então venha comigo, vamos tomar banho todos juntos. Vai ser divertido. Depois teremos que descer para a arena e treinar um pouco.
Camus acompanhou Shion, bem como Mu e foram todos para a grande banheira. Não demorou até os dois meninos gargalharem jogando água um no outro, sendo observados por Shion sempre muito atento à Mu que ainda não sabia nadar.
Passaram-se quinze minutos e Shion os mandou sair da água, o que, obviamente, gerou a maior manha da parte de Mu. Muito rapidamente Shion acabou com aquela situação com um olhar sério que fez Mu obedece-lo.
Shion olhava o seu relógio enquanto secava os dois com carinho e gargalhadas. No fundo ele sofria por tê-los que fazer treinar em seguida, sua vontade era permanecer com eles no quintal da casa brincando de empinar pipa...
— Não fica tiste não, meste Shion – Disse Mu, ainda não capaz de pronunciar a letra erre.
Shion levantou uma sobrancelha desconfiado.
— Por que acha que estou triste, Mu?
— Você disse na cabeça.
Foi quando Shion abriu os olhos impressionado com o desenvolvimento precoce da telepatia de Mu, já que o normal seria os primeiros sinais aparecerem nos anos seguintes. Shion, então, decidiu se preocupar mais com seus pensamentos perto do menino.
— Mestre Shion?
— Sim, Camus?
— Como se diz algo na cabeça?
Shion riu e explicou calmamente:
— Camus, cada cavaleiro é especial ao seu modo. Eu e Mu, além de sermos arianos, somos ambos pertencentes à raça lemuriana que foi extinta recentemente, no Tibet era muito comum ver pessoas como nós, com esses pontos na testa e poderes de telecinese e telepatia.
— Tele o que?
— Telecinese é a capacidade de mover coisas com o poder do pensamento, já a telepatia é o poder de ouvir o que os outros pensam... Também, depois de aprimorado, você consegue transmitir mensagens na cabeça de outras pessoas, assim como imagens.
— E eu vou conseguir fazer isso?
— Não, Camus. Como eu disse, cada cavaleiro é especial ao seu modo. A constelação de áries, regida pelo signo de áries, traz pessoas bastante focadas e audaciosas. A sua constelação, aquário, sempre traz pessoas focadas e com marcas de futurismo. Os cavaleiros de sua constelação foram bravos guerreiros, muito importantes para o Santuário.
Camus olhou para baixo, pensando que não servia para nada. Shion vinha fazendo um trabalho constante na auto-estima destruída do garoto.
— Sabe Camus, posso te contar um segredo?
Camus olhou curioso.
— Sabe o que eu sei fazer?
— O que?
— Consertar armaduras destruídas em combate...
Camus abriu os olhos surpreso.
— Ah, é por isso que todas aquelas armaduras quebradas estão no nosso pátio?
— Sim.
— Você vai me mostrar como se faz?
— Sim, vou mostrar a vocês dois. Mas agora é hora do treino, mas antes... Quem quer um lanchinho?
Os dois sorriram gritando um sonoro “eu”.
oOo
Cheguei a porta da casa de Mu e Shaka e voltei dos meus pensamentos, acredito que pelo tanto que saímos antes deles, eles deveriam ter chegado em sua casa há pouco tempo. Kiki estremeceu, realmente, ele seria punido e eu não podia fazer nada a respeito.
Bati na porta que se abriu, me deparei com Shun sentado no sofá olhando para as próprias mãos e, por sua vez, Shaka e Mu de braços cruzados com os olhos no menino. Não tardou até Mu perceber minha presença e correr para abraçar Kiki.
Em seguida, Mu me olhou com lágrimas nos olhos e me abraçou com toda a sua força. Lágrimas caíram de forma contida dos seus olhos, nós não havíamos conversado direito desde que eu acabei lhe dando um corretivo – já que depois seus filhos haviam sumido.
— Mestre, obrigado por tudo... Eu não sei o que seria se o senhor não tivesse nos ajudado a encontrar as crianças...
— Não se preocupe Mu, eles são tudo para mim. Você e toda a sua família são tudo para mim.
Eu disse nitidamente cansado, eu realmente precisava dormir.
— Vá descansar, mestre. Eu queria me desculpar...
— Pelo que?
— Por tudo que eu fiz, por ter te desrespeitado, por ter acobertado as crianças, por tê-lo afrontado numa reunião de cúpula...
— Eu já te perdoei, filho. E você já foi punido por isso.
Vi, então, Kiki e Shun olharem curiosos. Os deixamos na curiosidade, sem explicar como Mu havia sido punido. Eu sorri para o meu filho e dei um abraço em Shaka, as coisas pareciam sob controle em comparação ao dia anterior.
— Vocês precisam de ajuda aqui?
— Não, mestre Shion, obrigado.
Shaka respondeu, muito seguro de si. Eu virei minhas costas, e sai da casa, deixando para trás uma família refeita, com Mu e Shaka juntos e Kiki e Shun aguardando por uma lição que, acredito, jamais seria esquecida.
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