O Golpe
4 Golpista e "alvo" frente a frente pela primeira vez
Notas iniciais
Pela vigésima vez ele checou as horas no relógio preso na parede a sua frente. Já fazia quase uma hora que a tal Sara estava na sala do delegado. Nesse meio tempo viu quando o recepcionista levou um copo de água até a tal sala. Provavelmente era para a garota que deve ter ficado desolada com a fatídica notícia.
"Eu vou te consolar muito bem, Sara!", pensou o bandido com um sorriso perverso.
Aquela garota seria sua. Ah, se ia! E a grana dela toda também.
Seu celular começou a vibrar e Will enfiou a mão no bolso da calça para resgatar o pré histórico aparelho celular, quando ia atender a chamada de Gary, viu a jovem aparecer na recepção. Na mesma hora, o bandido rejeitou a chamada e devolveu o celular ao bolso.
Hora de buscar contato com a garota e começar seu show com ela!
Notou que Sara estava arrasada, ainda chorava um pouco e as duas pessoas que chegaram com ela tentavam a consolar, principalmente o homem que mantinha um dos braços em torno da jovem de maneira íntima.
Quem será aquele sujeito?
Namorado dela, Will duvidava que fosse, pois era um sujeito mais velho que a garota. Tinha cara de ser algum tio ou amigo da família. Mas independente de quem fosse, William trataria de tirá-lo de seu caminho caso o engomadinho se mostrasse um obstáculo para os propósitos que o golpista visava.
Segundos mais os observando e pensando numa forma de abordagem na garota, William viu o delegado apontar em sua direção e Sara o olhou junto com os demais. Benson se ajeitou na cadeira e observou a garota enxugar o rosto e cochichar algo para o sujeito engomadinho ao lado dela, depois disso Sara se desvencilhou do braço dele e veio até Will sendo seguida mais de longe pelo mesmo homem que a abraçava e a mulher loira que estava com eles.
***
Sara ainda não se conformava com a perda dos pais. Enquanto saía da sala do delegado acompanhada pelo oficial, Catherine e Grissom, a morena era consolada pelos amigos. Estava difícil domar as lágrimas. Não havia perdido apenas seus pais, mas sua família inteira, já que Laura e Charlie eram seus únicos parentes, posto que seus pais tinham sido filhos únicos não havendo tios ou primos da parte deles para consolarem a jovem neste momento de dor.
— Sobre a liberação dos corpos.
— Eu mesmo vou tratar disto. — Grissom se adiantou em dizer enquanto mantinha um dos braços carinhosamente em torno da cintura de Sara.
A jovem ouviu aquelas palavras e sentiu vontade de chorar novamente.
— Amiga, vai ficar tudo bem.
Ela olhou para Catherine e quis retrucar dizendo que nada ficaria bem, já que não teria mais os pais junto dela, porém não ousou dizer.
— Sobre os pertences que o sujeito encontrou com o casal. Eles estão devidamente lacrados e terão que assinar uns termos para a liberação do montade.
— Eu também cuido disto. — Grissom outra vez pronunciou.
— Delegado como o senhor disse que o sujeito se chama?
Sara se interessou em saber. Momentos atrás pouco lhe importava quem era aquele homem. Mas agora, ela quis saber e gostaria até de falar com o sujeito.
— William Benson.
— Ele ainda se encontra na delegacia?
— Ali está ele. — o oficial apontou para frente e Sara seguiu com o olhar na direção apontada, encontrando um sujeito desconhecido acomodado em umas cadeiras há uns metros razoáveis de distância de onde ela estava. — Segundo o recepcionista me informou, o tal Benson se recusou em ir embora, pois queria estar aqui para ver a senhorita.
— Gil, eu preciso falar com ele. — ela olhou para o advogado que enrugou a testa.
— Se você quer. — ele não ia impedi-la mesmo não achando a ideia dela um tanto desnecessária.
A jovem se desvencilhou dos braços do advogado e rumou até o desconhecido que aquela altura lhe observava.
— William Benson?
— Sim!
O homem se pôs de pé e ajeitou seu casaco para estar mais apresentável para poder falar com a jovem.
— O delegado me disse que foi você quem encontrou meus pais.
Hora de atuar e ser o mais convincente possível, Will!, pensou o sujeito.
— Exatamente!... Talvez tenha sido o destino ou obra de Deus mesmo o meu carro ter dado prego justo onde ocorreu o acidente.
William nunca foi temente a Deus e tampoucou, acreditava no Pai celestial. Sua fé em um Deus ficou lá no passado, quando ainda costumava ser uma criança inocente. Cresceu e virou um ateu. E, agora, usava de seu santo nome em vão para comover aquelas pessoas, principalmente, a jovem que queria envolver em sua teia mentirosa.
— Muito honesto da sua parte ter entregado o dinheiro que encontrou.
Ela quando soube disto achou muito honrado da parte dele. Outro em seu lugar teria fugido com a grana.
Mal sabia a jovem que isso foi cogitado pelo bandido, porém ele desistiu para conseguir arrancar muito mais dela.
— Aquele montante não era meu, então... Não é da minha índole ficar com o que não seja meu.
Ele pensou em seu amigo Gary e em como ele ia gargalhar com tais palavras. E teve que se segurar para não rir ali e estragar sua atuação.
— Você contou ao delegado que era amigo do meu pai.
— Sim... Seu pai e eu éramos amigos. Conhecemos-nos anos atrás. Ele me socorreu quando mais precisei e pessoas próximas me viraram as costas, mas há dez anos perdemos contato.
Will falava com tanta naturalidade que Sara nem desconfiou que fosse tudo obra de uma tremenda mentira e assim, acabou acreditando no que aquele sujeito disse. Mas também, estava tão fragilizada pela perda dos pais que acreditaria em qualquer coisa que lhe dissessem.
Mas uma pessoa ali não acreditou muito naquela conversa fiada de Will ser amigo de Charlie e esta pessoa atendia pelo nome de Gillbert Grissom.
Gil para os íntimos, era advogado de Charlie há anos, além de um amigo do sujeito e de sua família. O jurista de quase trinta e seis anos, é um profissional honesto e exemplar, costumava ser o braço direito de Charlie Sidle, e escondia um segredo de todos, inclusive do amigo recém falecido: era completamente apaixonado pela filha dele, Sara. Só que a jovem e muito menos seus pais, amigos do advogado nem desconfiavam dos sentimentos platônicos dele por ela, porque Grissom os escondia muito bem.
— Me desculpe, mas Charlie nunca me mencionou seu nome. — comentou Gil com seriedade atraindo o olhar de William.
— Talvez porque como eu disse antes, fizesse mais de dez anos que não nos víamos.
Will notou que o outro homem não pareceu nada convencido com aquela história.
Era só o que faltava! Esse engomadinho para me atrapalhar.
Gil realmente não havia engolido nada a história que aquele desconhecido fosse amigo de Charlie e muito menos, o fato de fazer anos que eles não se viam. Parecia suspeito e ao mesmo tempo, providencial demais as circunstâncias com a qual esse "amigo" de Charlie apareceu.
Além do mais, o advogado não tinha ido nenhum pouco com a cara daquele sujeito desconhecido. Desconfiava que aquele tal de William pudesse estar mentindo por alguma razão que ele tentaria averiguar qual fosse mais tarde.
— Ainda assim, se eram muito amigos, ele tinha que em algum momento ter mencionado sobre você e não me lembro de isso ter acontecido desde que conheço Charlie, o que já faz mais de sete anos.
Por dentro do bolso do casaco William cerrou os punhos. Sentiu vontade de acertar um soco em cheio na cara daquele sujeito que claramente desconfiava dele, mas conteve-se.
Quando Will ia abrir a boca para dar uma nova resposta ao advogado, Sara interveio.
— Gil chega deste interrogatório. Vai ver o papai falou do William e você só não está lembrando agora. Este moço deve ser amigo dele e não teria porque inventar que não é. Pra quê ele faria isso?
''Pelo menos a garota acreditou em mim, isso é ótimo! Meio caminho andado.''
Grissom não se agradou em nada por Sara ter acreditado tão facilmente no que um desconhecido disse. Contudo, não ia contestá-la agora após a notícia trágica que ela recebeu, ainda mais, na frente daquele sujeito.
O advogado apenas se limitou a dizer à ela que iria acertar os tramites para liberação dos corpos dos pais de Sara e da valise com os pertences valiosos deles. Depois se dirigindo a Catherine pediu que ela não arredasse o pé de perto de Sara, pois não queria a jovem sozinha perto de estranhos. Essas suas palavras finais foram ditas enquanto lançava um olhar nada amistoso na direção de William.
"Você está me dando nos nervosos, cara!", pensou Will.
— Me desculpe pelo Gil.
Sara pediu a William assim que o advogado saiu dali. O golpista apenas assentiu e disfarçou a muito custo sua raiva do tal advogado. Aquele sujeito tinha cara de que seria uma pedra, ou pior ainda, um tremendo pedregunho para os seus propósitos com Sara.
"Vou pensar depois em algo para me encarregar de você, Grissom!"
— Ele está tão abalado quanto eu com o que houve por isso esse seu comportamento protetor e desconfiado demais.
— Eu entendo. Ele é seu namorado?
O bandido não perdeu a chance de sondar a proximidade entre seu alvo e o sujeito que saiu dali.
— Não, não. Ele é o advogado do meu pai e um amigo querido da família... E esta é minha amiga, Catherine.
Sara apresentou ao seu lado a melhor amiga, que até aquele momento se encontrava calada somente observando o sujeito desconhecido e também todo o diálogo que rolou.
— Olá, Catherine!
Will estendeu a mão para cumprimentá-la.
— Olá! — Catherine apertou sua mão.
A mulher loira era filha da governanta da casa dos Sidle. Por possuir cinco anos a mais que a filha dos patrões, que possuía 20 anos de idade e se conhecerem desde que Sara nasceu, as duas se tornaram amigas e irmãs. Catherine fazia as vezes de irmã mais velha de Sara.
Enquanto trocava um breve aperto de mão em cumprimento com William, Cath como era mais comummente chamada pelos mais próximos, não deixou de medir com discrição e rapidez o sujeito desconehcido de cima a baixo. A loira chegou rapidamente à conclusão de que o estranho era bonito, muito bonito, na verdade.
William de fato tinha atributos que chamavam a atenção das mulheres. Seu ar de homem misterioso combinado com suas vestes escuras, o rosto liso, olhos de um azul acinzentado e os cabelos loiros e lisos, cortados em um estilo bowl cut*, já fizeram muitas prostitutas suspirar e isso, antes mesmo do programa ter acontecido.
Após cumprimentar a amiga de Sara, William voltou sua atenção a jovem morena recém órfã dos pais.
— Sinto muito por sua perda, Sara. E lamento muitíssimo que tenhamos nos conhecido de uma forma tão trágica.
Ela apenas assentiu com cara de choro e depois com uma voz embargada lhe confessou:
— Ainda não consigo acreditar no que houve! ... Meus pais, eles...
Ela não teve coragem de completar sua fala. Cobrindo o rosto com ambas as mãos Sara começou a chorar. William viu naquilo a oportunidade perfeita para se aproximar bem mais da jovem com a desculpa de consolá-la.
Dando dois passos a frente, ele não se fez de rogado e a envolveu com os dois braços trazendo-a para junto de seu corpo em um abraço cheio das piores e mais perigosas intenções.
Sem imaginar quais eram as reais intenções por trás do gesto do desconhecido, Sara retribuiu o abraço se agarrando a William como se ele fosse o mais velho de seus conhecidos ou amigo íntimo seu.
A jovem foi incapaz de se conter e desabou mais ainda em um choro, escondendo o rosto no seu pescoço de Will.
Enquanto a abraçava e embalava, o homem pediu a amiga da jovem que ela fosse arranjar um copo de água com açúcar a Sara para acalmá-la. Na verdade tal pedido, era mais uma desculpa furada mesmo para que ele pudesse ficar uns minutinhos que fossem a sós com a jovem.
Catherine sem desconfiar das verdadeiras intenções de Will e se esquecendo do que Grissom havia lhe pedido, foi atrás da água deixando assim, o homem desconhecido sozinho com sua melhor amiga.
— Você tem que ser forte agora, Sara.
Ele usava um jeito carinhoso e suave para falar com ela, tudo encenação sua para fazê-la crer que ele fosse uma boa pessoa, que estava ali compelido de sua dor. Quando, na verdade, não se tratava nada disso! Ele estava se lichando para ela e sua dor.
— Estou aos pedaços, William!
— Eu sei, mas olha...
Ele separou-se um pouco dela e segurou seu rosto com ambas as mãos para poder olhar em seus olhos e ela nos seus.
— ... Você pode contar comigo... Seu pai, com certeza, ia querer que eu cuidasse de você e vou fazer isso!
— Vocês eram tão amigos assim?
— Sim! Devo minha vida ao Charlie. E mesmo fazendo anos que não nos víamos, eu acredito piamente, que ele confiava em mil o bastante, a ponto de tomar conta da jóia mais valiosa que ele tinha... Você!
Até ele estava se surpreendendo com a facilidade com que ia endossando aquela mentirada toda sem grande esforço. Além de vigarista e golpista era um ótimo ator! Digno de um Oscar ou um Globo de Ouro, com muito louvor!
Ela o abraçou novamente e mais lágrimas vieram.
— Agora estou sozinha... Meus pais que eram os únicos familiares que eu tinha, não estão mais aqui comigo!
— Você não está sozinha, Sara. Eu estou aqui do seu lado. Posso não ser seu parente e nem tão conhecido assim para você, mas quero que saiba que já me considero seu amigo e gostaria que me considerasse como tal também. E como um amigo do seu pai e agora seu, eu vou cuidar muito bem de você, prometo!
Sem que ela pudesse ver ele sorria discreta e cinicamente de suas palavras. Estava disposto a ser um verdadeiro gentleman com ela até conseguir conquistá-la e assim fazer o que tinha em mente. Lhe aplicar um golpe que o deixaria rico, milionário e ela pobre e na sarjeta.
De longe um par de olhos azuis preocupados avistou a cena do estranho de costas sendo abraçado por Sara. Gil procurou com o olhar Catherine e ao não avistá-la o advogado praguejou silenciosamente.
Ele tinha vindo fazer uma pergunta a filha de seu amigo e acabou se deparando com tal cena de Sara nos braços daquele estranho. Aquilo foi não só como um soco na boca de seu estômago, mas também uma cena desagradável demais para seu coração apaixonado.
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