O Golpe
9 Consolando
Notas iniciais
"[...]Este coração, bate, bate apenas por você, meu coração é seu[...]"
My Heart— Paramore
***
Grissom parou na soleira da porta do orquidário e sem que Sara percebesse, ficou a observar a jovem. Ela estava de costas e parecia mexer em um vasinho de orquídea sobre a mesa de madeira.
Por mais que o advogado tentasse dimensionar o quão insuportável a situação deveria estar sendo para ela, sabia que não chegaria nem perto dos reais sentimentos de sua amada. Desde que conheceu Sara sempre lhe foi visível o quão ligada aos pais ela era. E, decerto, aquela dupla perda repentina estava sendo um golpe duro demais para ela absorver.
Para ele também não estava sendo nenhum pouco fácil lidar com uma perda daquelas. Laura e Charlie tornaram-se amigos queridos. Gil tinha um carinho e uma gratidão eterna com eles por terem sido tão bons com ele desde que se conheceram.
Grissom conheceu o casal por intermédio de Albert, um advogado de renome que além de ter sido seu professor na faculdade, ainda lhe deu a primeira oportunidade de emprego em seu escritório de Advocacia. Al o recomendou a Charlie, quando o investidor o procurou querendo um advogado dos bons. Na hora, o dono do escritório só pensou em Grissom e o recomendou, tecendo os melhores elogios ao advogado, que tinha acabado de ganhar uma grande causa para o escritório.
A empatia entre Grissom e Charlie foi instantânea e o mesmo se estendeu quando conheceu a esposa de Charlie. Eles eram um casal fantástico, além de pessoas maravilhosas e simples apesar de terem um padrão de vida altíssimo.
A relação "advogado e cliente" acabou por virar amizade. E logo, Gil já frequentava a casa dos Sidle como se já fizesse parte da família há anos. Participava de eventos comemorativos, tais como aniversários ou datas festivas. Conforme os anos foram passando a amizade entre o advogado e a família Sidle se solidificou e Grissom se tornou a pessoa de confiança de Charlie.
— Gil?
Sara ficou surpresa ao se virar e ver o advogado parado há poucos metros de distância dela. Depois dele ter ido embora visivelmente aborrecido ontem, ela não imaginou que ele apareceria ali tão cedo. Talvez, no fim da tarde, quem sabe, ou até mesmo nem isso. Mas ficou feliz por sua presença ali. Ele era um amigo querido e uma pessoa com quem não queria ficar brigada em um momento tão conturbado pelo qual passava.
— Oi! — ele forçou um sorriso, mas logo já o desfazia ao ver Sara secar os olhos, o que denunciava que ela estava chorando enquanto se encontrava de costas para ele.
Seu coração apaixonado se apertou por ver sua amada naquele estado tão fragilizado. Se pudesse tomar sua dor para ele, o faria sem qualquer hesitação, apenas para não vê-la naquele estado. Era muito doloroso ser espectador de sua dor.
— Que bom que veio!... Achei que nem fosse te ver hoje por causa de ontem.
Enfiando as mãos no bolso da calça social cinza, o advogado caminhou para próximo da jovem em passos lentos.
— Sobre ontem... Me desculpe. — Pediu ao parar diante dela. Havia saído do prumo, algo raro de acontecer para ele, ainda mais sendo com ela a quem Gil sempre foi um poço de educação e carinho. Só que ele teve sua razão para tal destempero e fez questão de deixar claro isso a ela. — Eu só estava preocupado com sua segurança. Nem conhecemos este homem direito, Sara, pra você trazê-lo para dentro da sua casa.
Em seu apartamento o advogado quase não pregou o olho de tanta preocupação com a jovem e as demais mulheres da casa, que passaram a noite sob o mesmo teto que um estranho. Graças a Deus nada tinha acontecido a nenhuma delas. E se tivesse, ele iria acabar com a raça desse tal de William.
— Não acha que se ele fosse uma pessoa de má índole, não teria fugido com todo o montante valioso que encontrou com meus pai, ao invés de, entregar tudo a polícia?
Aquilo até podia contar um ponto positivo ao caráter do tal William, mas ainda sim, Grissom não conseguia vê-lo com bons olhos. Alguma coisa naquele sujeito incomodava o advogado, mas ele não ousou partilhar tal opinião com Sara e correr o risco de entrar em um novo conflito com sua amada.
— Talvez. — se limitou em dizer. Ia esperar pela investigação que pediu a Jim para saber se estava vendo coisas ou se sua desconfiança tinha fundo de verdade. E caso tivesse, não mediria esforços para afastar aquele homem de Sara. — Reitero meu pedido de desculpas por ontem. Você me desculpa? Não quis ser grosseiro como fui.
Ela assentiu em concordância estampando um semblante bem abatido, com visíveis olheiras.
— Como passou a noite?
Ele a viu baixar os olhos para encarar o chão.
Sua noite foi a pior possível. Insônia, lágrimas e a lembrança de seus pais o tempo todo em sua mente.
— Péssima! — com a voz trêmula, ela admitiu, erguendo o olhar para encarar Grissom. Sua ficha não queria cair, mesmo depois de tê-los enterrado ontem. Era difícil acreditar que eles estavam mortos. — A sensação que eu tenho... É de que eles estão apenas viajando... E que vão voltar em uns dias... Só que eles não vão. Eu nunca mais vou vê-los, Gil. E isso está acabando comigo.
Foi impossível conter o choro diante de tais palavras. Uma nova onda de lágrimas doídas e sofridas vieram acometer a jovem.
Se perder alguém já causa uma dor terrível na alma, perder duas como foi o caso de Sara era mais devastador ainda. Não há nada que consiga atenuar aquela o dor tremenda que a jovem sentia.
Em um raro momento em que se permitiu agir quando se tratava da jovem dona de seu coração, Grissom agiu. Compelido da dor dela, ele a trouxe com delicadeza para seus braços e abraçou-a na tentativa de lhe dá um pouco do alento que sabia que ela necessitava naquele instante.
— Ah, Sara!... Queria encontrar neste momento as palavras certas para confortar o seu coração.
Ele nunca foi muito bom com as palavras, fora de seu âmbito profissional. Transmitir e expressar seus sentimentos através das palavras ditas, jamais fora algo que ele conseguisse fazer com a eloquência e facilidade com a qual as usava para defender seus clientes em um tribunal. E tal inabilidade ganhava uma dificuldade maior, quando se tratava de Sara. Perto dela, ele quase sempre não sabia se expressar. E naquele momento, em que ela mais precisava de palavras de alento e conforto para acalentar seu coração dolorido, ele não as tinha.
Era tão frustrante isto! Quisera ter o dom da palavra para assim saber quais dizer neste momento para lhe trazer um pouco de paz e atenuar, por mínimo que fosse, a dor e o sofrimento da mulher que amava em silêncio.
— Não é fácil saber o que dizer para quem teve uma perda tão dolorosa como a sua. — ele deslizou uma das mãos por seus cabelos castanhos e beijou o topo de sua cabeça, sentindo os braços dela rodearem seu quadril ao mesmo tempo que escutava os soluços alto de seu choro, rasgarem seu coração e seus ouvidos. Deus! Como ele a amava. Quisera ele ter uma varinha mágica para livra-la de tamanha dor e blinda-la das tristezas do mundo.
— Eu devia... Ter ido junto... com eles. — entre os soluços de seu pranto, ela proferiu alguns segundos após a fala de Grissom.
Devido estar em final de semestre do curso na universidade, realizando provas importantes, Sara não pode acompanhar os pais. Seria uma viagem de negócios, mas nada impedia de se transformar em uma viagem em família também. Charlie adorava quando a esposa e a filha iam junto em suas viagens de negócios. Era bem mais proveitoso.
— Assim eu também teria morrido junto com eles.
— Céus! Não repita mais isso, por favor! — pediu sem conseguir esconder o quão desesperador seria se aquela fala dela se concretizasse.
Imaginá-la como sendo mais uma das vítimas fatais daquele acidente, fez seu estômago se embrulhar e o coração falhar uma batida. Ele não saberia o que fazer se ela tivesse morrido junto com os pais dela.
Ainda que Sara gostasse dele apenas como um amigo e que possivelmente, isto nunca mudará, Grissom não cogitava se vê vivendo um em mundo que ela não estivesse. O simples fato dela existir e de ele poder estar perto dela ainda que como um amigo querido (mas que no fundo era apaixonado por ela), já era um alento. Sem ela seria o pesadelo!
— Eles não podiam ter morrido ainda!... Eu não estava preparada pra dizer adeus a eles, Gil.
— Ninguém nunca está preparado numa hora dessas, Sara... Mas o tempo vai se incumbir de curar a tristeza, a incompreensão e a raiva que você deve estar sentindo agora. É claro que a dor que você sente, não vai passar, mas ficará mais suportável conforme o tempo for passando.
— Eu vou sentir... Tanta falta deles. — ela confessou, se afastando de Grissom e desfazendo o abraço que trocavam.
— Eu também!... Principalmente, das piadas sem graça do Charlie.
O comentário provocou um breve sorriso em Sara e isso foi o bastante para Grissom se orgulhar de seu feito. Conseguir arrancar um sorriso por mínimo que fosse daquele rosto amado já fez meu dia valer a pena.
— Ele era péssimo em contar piadas mesmo. — concordou a jovem enxugando o rosto.
— E como era!
— Vai demorar para eu me acostumar com a ausência deles. — Sara proferiu após um breve instante de silêncio perdurar entre Grissom e ela logo depois do que o advogado havia dito.
— Sabe que qualquer coisa eu estou aqui para te dar toda a força e apoio necessário para suportar cada momento de angústia que, naturalmente, surgirá nestes primeiros tempos, não sabe?
Ele sempre estaria ali para ela, quer fosse a situação.
— Eu sei. E te agradeço por isso, Gil. Você é um amigo fantástico. — ela o abraçou apertado. Ele era seu porto seguro no momento. — Obrigada, de verdade.
"De nada, meu amor!"
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