O Garoto Feito de Sol e Terra

73 Capítulo 73 — Gratidão


A manhã começou pior do que Eduardo esperava.

Ele ainda estava deitado, o corpo pesado, a cabeça girando por conta da noite anterior, quando a porta do quarto se abriu sem aviso.

— Levanta. — A voz dura de Frederico preencheu o espaço.

Eduardo apertou os olhos, se encolhendo nos lençóis, fingindo que não ouviu, mas o pai não era o tipo de pessoa que repetia ordens.

O colchão afundou levemente quando Frederico puxou o cobertor de cima dele, expondo Eduardo ao frio da manhã.

— Eu falei pra levantar. — Sua voz era firme, sem espaço para discussão.

Eduardo soltou um suspiro pesado, sentindo o peito apertar. Ele sabia que não tinha escolha. Seu pai tinha voltado depois de semanas fora à trabalho, e agora estava ali, impondo sua presença como sempre.

— Não quero ir. — Murmurou, a voz rouca.

Frederico cruzou os braços, impassível.

— Você já faltou demais. Chega dessa palhaçada.

Eduardo fechou os olhos com força. Seu corpo inteiro protestava contra a ideia de sair daquela cama e enfrentar a escola de novo. Enfrentar aquelas pessoas, aqueles olhares, aquelas risadas.

Mas Frederico não aceitaria desculpas.

— Cinco minutos. — Eduardo cedeu, sabendo que não adiantaria resistir.

O pai apenas assentiu e saiu do quarto sem dizer mais nada.

Eduardo ficou ali, encarando o teto por alguns segundos antes de finalmente se forçar a levantar.


◄☼►


Na escola, o ambiente parecia ainda pior do que na última vez.

Eduardo caminhava pelos corredores sentindo os olhares sobre ele. As pessoas cochichavam, cutucavam umas às outras quando ele passava. Alguns riam.

Ele se sentia um fantasma, alguém que todos conheciam, mas ninguém queria se aproximar.

Durante as aulas, ele ficou quieto, encarando o caderno sem realmente enxergar o que estava escrito. O barulho dos colegas parecia distante, como se ele estivesse preso em um aquário, isolado, sufocado por seus próprios pensamentos.

Mas foi no intervalo que tudo piorou.

Ele pegou sua bandeja no refeitório e se sentou sozinho em um canto afastado. Queria apenas comer e sair dali o mais rápido possível. Mas, como sempre, não foi deixado em paz.

— Olha lá o Castilho, todo quietinho. — A voz de Hugo cortou o ar. — Tá com saudade do namorado, é?

Os outros riram.

Eduardo cerrou os punhos sob a mesa.

— Tô achando que ele tá triste porque levou um fora do cara. — Giovane debochou. — Quem sabe a gente não arruma um substituto pra ele? O que acham?

Mais risadas.

Eduardo sentiu o sangue ferver, o rosto queimar de vergonha e raiva.

Ele podia levantar, podia responder, podia socar a cara de um deles, mas sabia que isso só pioraria tudo.

Então ele ficou calado.

Mas alguém não ficou.

— Vocês são patéticos.

A voz de Kayla surgiu de repente, cortante como uma lâmina.

O refeitório inteiro ficou em silêncio por um segundo.

Hugo arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Que foi, Kayla? Tá defendendo ele agora?

Ela cruzou os braços, o olhar afiado.

— Tô, sim. Porque ao contrário de vocês, eu tenho um pingo de dignidade.

— Dignidade? Ele te traiu! — Giovane retrucou.

— E vocês acham que isso dá direito de tratar ele como lixo? — Ela estreitou os olhos. — Eu sei muito bem o que o Eduardo fez. Eu fui a mais machucada nisso tudo, mas eu não sou uma criança birrenta que precisa ficar revivendo algo e rebaixar os outros pra me sentir melhor.

Um burburinho começou ao redor.

— Ah, qual é, Kayla... — Hugo resmungou.

— Qual é nada. — Ela rebateu. — Vocês estão agindo como idiotas. Cresçam.

A tensão no ar era palpável.

Os garotos se entreolharam, sem saber o que responder.

Hugo bufou, revirando os olhos.

— Aff, tanto faz. Só tava brincando.

— Engraçado, ninguém riu. — Kayla retrucou, antes de virar as costas e sair.

Eduardo permaneceu no seu lugar, paralisado.

Ele nunca esperava aquilo.

Kayla… o defendeu, depois de tudo que ele fez com ela.

Uma onda de culpa e gratidão o atingiu de uma vez.

Ele olhou para Kayla, que já estava saindo do refeitório, e sentiu um aperto no peito. Ela não o olhou de volta.

Mas, mesmo assim, aquela atitude significava muito mais do que qualquer coisa que ela poderia ter dito diretamente para ele.

E pela primeira vez em muito tempo, Eduardo sentiu que talvez, só talvez, ele não estivesse tão sozinho assim.


◄☼►


Eduardo não conseguiu pensar em mais nada pelo resto do dia.

A voz de Kayla ainda ecoava em sua mente, firme, cortante, cheia de uma força que ele não esperava. Ela o defendeu. Depois da humilhação, da traição, da vergonha que ele a fez passar.

E agora ele sentia que precisava falar com ela.

No fim da aula, ele esperou perto do portão.

O coração batia acelerado conforme via os alunos saindo, um por um. Mas seus olhos só procuravam por uma pessoa.

Então, lá estava ela.

Kayla caminhava com passos apressados, a mochila pendurada em um ombro só. O cabelo estava preso em um coque meio desajeitado, como se não tivesse se preocupado em arrumá-lo direito.

Ela o viu antes que ele pudesse chamá-la.

E por um instante, apenas se encararam.

Eduardo sentiu um nó no estômago. Mas então, ele tomou coragem.

— Kayla... — chamou, dando um passo na direção dela.

Ela parou. Respirou fundo, como se já soubesse que ele viria.

— O que foi? — Sua voz não estava ríspida, mas também não era acolhedora.

Eduardo hesitou por um segundo.

— Por que você fez aquilo?

Ela piscou devagar, como se tentasse organizar as próprias palavras antes de falar.

— No refeitório? Foi porque eu vi o que estavam fazendo com você. E eu não acho que você mereça isso.

Eduardo baixou o olhar por um instante.

— Depois de tudo que eu fiz?

Kayla soltou um suspiro longo, cruzando os braços.

— Eu não tô dizendo que eu não tô magoada, Eduardo. Eu tô. Muito.

Os olhos dela brilharam com algo que Eduardo reconheceu de imediato.

Dor.

Ele engoliu seco.

— Você me magoou muito. — Ela continuou, sem rodeios. A sinceridade dela era cruel, mas Eduardo sabia que merecia ouvir cada palavra. — Mas se você era apaixonado pelo Leo… — Sua voz saiu mais baixa agora. — Se você gosta dele, de verdade, eu entendo.

O peito de Eduardo apertou na hora.

Ele abriu a boca, mas nada saiu.

O que ele poderia dizer? Que não queria sentir aquilo? Que tudo teria sido mais fácil se ele a amasse da mesma forma?

Ele não tinha resposta.

Kayla observou o silêncio dele e sorriu, mas era um sorriso triste.

— Acho que foi isso que doeu mais. — Ela admitiu, piscando algumas vezes, como se tentasse conter as lágrimas. — Saber que eu nunca fui suficiente pra você. Que o tempo todo você queria outra pessoa.

Eduardo sentiu o estômago afundar.

— Kayla…

Ela levantou a mão, pedindo para ele parar.

— Eu já ouvi o suficiente.

Os olhos dela estavam marejados, mas ela não chorou.

Ela apenas respirou fundo, ajeitou a alça da mochila no ombro e deu um passo para trás.

— Se cuida, Eduardo.

E então, virou-se e foi embora.

Eduardo ficou ali, parado, assistindo-a desaparecer no meio dos outros alunos.

O peito dele parecia carregado com um peso insuportável.