O Garoto Feito de Sol e Terra

74 Capítulo 74 — A Queda


O caminho de volta para casa foi um borrão. Eduardo caminhava sem realmente prestar atenção para onde ia, com as palavras de Kayla ainda queimando em sua mente.

Mas nada o prepararia para o que o esperava em casa.

Assim que abriu a porta, soube que algo estava errado.

A sala estava silenciosa demais, mas o peso no ar era sufocante.

E então, viu os pais.

Helena estava sentada no sofá, os braços cruzados sobre o peito, o olhar carregado de algo que Eduardo nunca tinha visto nela antes.

Frederico estava de pé, ao lado dela, o maxilar travado, o rosto vermelho, as mãos crispadas ao lado do corpo.

Eduardo não precisou perguntar nada.

O olhar do pai disse tudo.

— Você quer me explicar isso? — Frederico perguntou, a voz carregada de raiva contida.

Ele levantou o celular e deu um único toque na tela.

O vídeo começou a rodar.

Eduardo sentiu o chão sumir sob seus pés.

Era o vídeo. O maldito vídeo. Eduardo queria perguntar, queria gritar “Quem mandou isso?!”, mas sua garganta estava seca.

E já não importava mais.

O vídeo já estava ali. Na tela brilhante do celular do pai.

Agora não havia mais volta.

Ali, na tela do celular do pai, ele se via encostando Leo contra a parede do estacionamento. Vendo-se beijá-lo com uma fome desesperada, vendo os dedos se prenderem no cabelo dele, vendo o momento exato em que se entregou sem se importar com quem poderia ver.

O vídeo foi pausado bruscamente.

— É ISSO QUE VOCÊ FAZ QUANDO NÃO ESTOU EM CASA, EDUARDO? — A voz de Frederico explodiu no ambiente, reverberando nas paredes.

Frederico passava mais tempo viajando a trabalho do que em casa. Sua presença era rara, mas sua autoridade era absoluta. Sempre distante, sempre ocupado, ele assumia que sua ausência era preenchida por disciplina, não por segredos e escândalos. E agora, diante da cena no celular, tudo que ele via era uma falha colossal.

Eduardo congelou.

O silêncio que se seguiu foi sufocante. A tensão no ar parecia um peso invisível esmagando seu peito.

— E você, Helena? — Frederico virou-se para a esposa, apontando um dedo acusador. — Você fica em casa com ele o tempo todo e não percebeu nada? Não desconfiou de nada?!

Helena arregalou os olhos, visivelmente abalada, mas não respondeu de imediato.

— Frederico… — sua voz saiu hesitante, quase um sussurro.

— Não me venha com “Frederico”! — Ele cuspiu as palavras, furioso. — Você devia ter visto! Você devia ter feito alguma coisa! Mas não, né? Você sempre foi mole com esse moleque! Sempre passando a mão na cabeça dele!

Eduardo engoliu em seco. O sangue fervia em suas veias, mas ele não conseguia reagir. O nó em sua garganta parecia um bloqueio físico, o impedindo de sequer respirar direito.

— Eu suspeitei… — Helena finalmente disse, sua voz trêmula, sem encarar Eduardo. — Eu achei que… que essa amizade com esse garoto era próxima demais, mas eu não queria acreditar. Eu achei que era coisa da minha cabeça!

Aquelas palavras foram um golpe.

A própria mãe. Ela suspeitou. Ela sabia, mas escolheu ignorar.

Frederico riu, um som seco, sem humor.

— Pois bem. A realidade tá aí na sua cara agora. — Ele voltou a encarar Eduardo, o olhar carregado de fúria e decepção. — Me diz, moleque… — Ele ergueu o celular novamente, chacoalhando como se fosse uma prova inegável de um crime. — Desde quando essa palhaçada começou?

Eduardo abaixou o olhar, os dedos trêmulos ao lado do corpo.

Ele não queria responder.

Não podia responder.

Mas seu silêncio apenas inflamou ainda mais o pai.

— DESDE QUANDO, EDUARDO?! — Frederico berrou, e a próxima coisa que Eduardo sentiu foi um tapa forte estalando contra o lado do seu rosto.

A dor foi instantânea.

Sua cabeça virou com o impacto, e ele cambaleou um passo para trás. O lado do rosto queimava, latejando, enquanto seus olhos ardiam não apenas pela dor física, mas por algo muito mais profundo.

— Frederico! — Helena gritou, dando um passo à frente, mas hesitando.

Eduardo não reagiu.

Ele apenas fechou os olhos por um segundo, tentando controlar a respiração.

Seu peito subia e descia rápido, os batimentos martelando em seus ouvidos.

A vergonha.

A humilhação.

O desespero.

Ele sentiu tudo aquilo ao mesmo tempo.

Quando abriu os olhos novamente, Frederico ainda o encarava com nojo.

— Você é uma vergonha, Eduardo.

Helena desviou o olhar, os olhos marejados.

Frederico respirou fundo, o rosto vermelho de raiva, os olhos cravados em Eduardo como se estivessem perfurando sua alma.

— No ano que vem, você vai estudar no exterior. — Sua voz saiu afiada, cheia de desprezo. — Uma faculdade de prestígio, longe daqui, longe dessa palhaçada toda.

Eduardo sentiu um arrepio frio subir pela espinha. Ele já imaginava que o pai fosse reagir mal, mas isso... isso era mais do que ele esperava.

— Um Castilho não se porta dessa forma. — Frederico cuspiu as palavras como se fossem veneno. — Você não vai manchar esse nome com esse... esse absurdo!

Helena estava em silêncio, os braços cruzados, o rosto fechado. Ela não protestava, não defendia. Apenas o olhava com uma mistura de decepção e resignação.

— Agora, sobe para o seu quarto. — Frederico ordenou, a voz baixa, carregada de fúria contida.

Eduardo apertou os punhos, o peito queimando de raiva, humilhação e desespero, mas não disse nada. Apenas virou as costas e subiu as escadas, sentindo-se menor a cada passo.

Assim que fechou a porta do quarto, se encostou contra ela, o corpo inteiro tremendo. O peso de tudo o esmagava de uma vez, como se, finalmente, a realidade tivesse caído sobre ele sem piedade.

Os olhos ardiam, a respiração saía em solavancos. Ele engoliu seco, apertando os olhos com força, tentando segurar o que estava vindo.

Mas foi inútil.

O choro veio sem controle.

Um soluço rasgou sua garganta, e Eduardo deslizou pela porta até o chão, encolhendo-se contra a madeira. Ele abraçou os joelhos, enterrando o rosto ali, tentando sufocar o som dos próprios soluços.

As palavras de Frederico ecoavam na sua cabeça como um pesadelo que não ia embora.

"Um Castilho não se porta dessa forma."

"Você vai estudar no exterior."

"Longe dessa palhaçada."

Longe. Longe de tudo. Longe da sua casa, longe da escola, longe de... Leo.

O pensamento doeu como um soco no estômago. Eduardo apertou ainda mais os olhos, como se pudesse apagar tudo. Como se pudesse fazer tudo desaparecer.

Mas não podia.

Seu próprio pai o desprezava. Sua mãe estava decepcionada. Seus amigos riam dele. Sua ex-namorada estava magoada. E Leo...

Leo.

Eduardo mordeu o lábio com força, sentindo mais uma onda de desespero sufocá-lo.

A última vez que ouviu a voz de Leo, Eduardo estava pedindo desculpas.

Ele queria voltar no tempo. Queria impedir aquele vídeo. Queria impedir a si mesmo de ser quem era.

Mas agora, não havia mais para onde fugir.

A respiração acelerada fazia seu peito doer, os soluços vinham desordenados, como se cada parte dele estivesse quebrando. Ele não sabia como parar. Não sabia como respirar direito.

Não sabia o que fazer.

A única coisa que sabia era que estava sozinho.

Completamente sozinho.