O Garoto Feito de Sol e Terra
69 Capítulo 69 — Quando o Mundo Desaba
Eduardo chegou à escola naquela manhã sentindo-se normal, ou pelo menos tão normal quanto poderia depois da noite anterior. O beijo no estacionamento ainda queimava em sua mente, a forma como Leo estava tão entregue a ele, a forma como seus corpos se encaixavam perfeitamente. Era errado, ele sabia, mas como resistir?
Ainda assim, não havia culpa suficiente para fazer Eduardo se arrepender. Ele queria Leo. Sempre quis.
Mas então, durante o intervalo, Tiago apareceu do nada ao seu lado, os olhos carregados de algo estranho, um peso diferente.
— Depois da aula a gente precisa trocar uma ideia — Tiago falou baixo, sem rodeios.
Eduardo franziu a testa.
— O quê? Sobre o quê?
— Depois — Tiago reforçou, olhando ao redor como se não quisesse que ninguém ouvisse.
Eduardo não teve tempo de insistir, porque Kayla apareceu, o abraçando por trás.
Ele se forçou a sorrir para ela, mas sua mente ficou presa em Tiago.
O que caralho Tiago queria falar com ele?
A dúvida o seguiu pelo resto do dia.
◄☼►
Quando o sinal final tocou, Eduardo despediu-se rapidamente de Kayla, dizendo que precisava conversar com Tiago sobre algo da escola. Ela não desconfiou de nada e apenas sorriu, dizendo que mandaria mensagem depois.
Eduardo caminhou com Tiago até uma pracinha perto da escola, um lugar mais isolado onde eles costumavam conversar quando queriam fugir do barulho dos outros alunos.
Mas o clima estava estranho.
Tiago não estava relaxado como de costume. Ele parecia tenso, sério.
E então, sem enrolação, ele foi direto:
— Cara, é sério que você tá se pegando com um cara por aí?
A pergunta atingiu Eduardo como um soco no estômago. Seus músculos travaram na hora.
O pânico subiu pelo seu peito.
— O quê? — Sua voz saiu mais fraca do que ele queria.
Tiago estreitou os olhos.
— Não se faz de desentendido. É aquele Leo, né?
O coração de Eduardo martelava forte dentro do peito. Ele sentiu as palmas das mãos começarem a suar.
— Do que você tá falando?
Tiago soltou um riso curto, sem humor.
— Porra, Eduardo. Eu tô falando do que a Samanta viu ontem no estacionamento do shopping.
Eduardo sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Samanta.
Ela estava lá.
Ela viu.
Porra.
— Ela tem vídeo, fotos e tudo. — Tiago continuou, e Eduardo engoliu em seco, o peito apertado.
O ar ao redor parecia pesado demais.
— Você tá zoando, né? — Eduardo tentou rir, mas saiu forçado, nervoso.
Tiago não riu.
Ele enfiou a mão no bolso e puxou o celular.
Eduardo sentiu o estômago revirar antes mesmo da tela acender.
E então, ele viu.
A imagem estava ali.
Ele e Leo, grudados, os corpos colados na parede do estacionamento, a boca de Eduardo encaixada perfeitamente na de Leo.
As fotos não deixavam espaço para dúvidas.
Seu peito apertou tanto que doía.
— Como… — Ele mal conseguiu formar palavras.
Tiago bloqueou o celular e guardou no bolso.
— Eu não acredito que você tá fazendo isso.
Eduardo levantou os olhos para ele.
Tiago o olhava como se estivesse vendo outra pessoa. Como se estivesse vendo um estranho.
— Você tem uma namorada, Eduardo. — A voz de Tiago era carregada de reprovação. — E você tá por aí… fazendo isso… com um cara?
Eduardo sentiu seu rosto esquentar.
Ele queria responder. Queria se defender, mas não tinha palavras.
Porque Tiago não estava apenas julgando a traição. Ele estava julgando o fato de ser com um homem.
— Isso é nojento, cara.
A frase atravessou Eduardo como uma lâmina. O ar ficou preso na sua garganta.
Por um momento, ele não conseguiu respirar direito.
Tiago deu um passo para trás, como se ele fosse contagioso.
— Olha, eu não sei o que a Sam vai fazer com isso, mas se eu fosse você, dava um jeito de contar logo pra Kayla.
E então, ele se virou e saiu andando, sem dar tempo para Eduardo responder.
Eduardo ficou parado ali, sentindo o mundo desabar ao seu redor. Ficou ali, parado, enquanto Tiago se afastava, as palavras dele ainda ressoando na sua mente como um eco cruel.
Seu peito subia e descia rapidamente, como se o ar estivesse preso em sua garganta e não conseguisse sair.
Ele queria gritar.
Ele queria socar alguma coisa.
Ele queria correr atrás de Tiago e dizer que ele estava errado, que isso não mudava quem ele era, que ele não era nojento, que… Mas não havia nada que ele pudesse dizer.
Porque, no fundo, ele sabia que Tiago não era o único que pensaria assim.
“Se isso vazasse, se alguém da minha família soubesse, Leo… Eu não sei o que aconteceria comigo. Eu não sei se teria casa pra voltar.”
A conversa com Leo na fazenda voltou à sua mente. Ele se lembrava do olhar machucado de Leo, do jeito que ele tinha comentado que se fossem homem e mulher, não haveria problema algum.
E era verdade. Se Leo fosse uma garota, ele o assumiria sem pensar duas vezes. Mas Leo não era. E por isso eles estavam ali. Presos.
Que porra ele ia fazer agora?
Eduardo passou as mãos no rosto, tentando acalmar a respiração. Seu peito estava apertado, seus pensamentos um caos.
"A Samanta tem vídeo, fotos e tudo."
Fotos.
Provas.
E se ela decidisse mostrar para Kayla? Para os amigos? Para qualquer pessoa?
Ele não podia deixar isso acontecer.
Com os músculos tensos e a mente fervendo, Eduardo pegou o celular e abriu o chat com Samanta.
Os dedos tremiam enquanto ele digitava.
Eduardo: oi!
Eduardo: preciso falar com vc. é urgente
Ele apertou "enviar" antes que pudesse pensar melhor. Se Samanta queria ferrá-lo, ela já tinha tudo que precisava, mas ele não ia esperar sentado para ver seu mundo desmoronar. Ele tinha que fazer alguma coisa.
O celular tremia nas suas mãos conforme as mensagens de Samanta chegavam. Seus olhos percorriam cada palavra com um aperto crescente no peito.
Samanta: aff
Samanta: vc é nojento cara
Samanta: traindo a kayla assim e ainda por cima com macho?
Samanta: q nojo, eduardo
Samanta: eu vou contar tudo pra kayla, ela merece saber q tá namorando um viadinho mentiroso
Eduardo sentiu um nó no estômago, um desespero sufocante tomando conta dele. Seus dedos tremiam enquanto digitava.
Eduardo: sam, por favor
Eduardo: não faz isso
Eduardo: me escuta pelo menos
Os três pontinhos de digitação apareceram e sumiram algumas vezes antes de outra mensagem dela chegar.
Samanta: não tem oq escutar, castilho. vc é um merda. a kayla é minha melhor amiga, vc acha mesmo q eu vou deixar ela ser enganada?
Samanta: vc tem q contar pra ela. se não contar, eu conto
O ar sumiu dos pulmões de Eduardo.
Ele não podia contar. Ele não podia perder tudo.
A escola inteira ia saber. Os amigos. Os pais. Kayla. O que ele ia fazer?
Eduardo: sam, pelo amor de deus. me dá um tempo. eu resolvo isso, mas não conta nada agora
Eduardo: eu imploro
O tempo pareceu se arrastar enquanto ele via Samanta digitando.
Samanta: vc tem até domingo pra contar. se até lá a kayla não souber, eu conto
Eduardo sentiu seu mundo ruir.
Domingo.
Três dias.
Três dias para destruir a própria vida.
Ele queria gritar.
Queria quebrar o celular. Queria sumir.
Em vez disso, guardou o celular na mochila e enterrou o rosto nas mãos.
O que ele ia fazer?
◄☼►
Quando estava em seu quarto, perdido em seus próprios pensamentos, o celular vibrou, mas Eduardo não queria olhar. Ele já sabia o que ia encontrar.
Mas, como se seu corpo agisse por instinto, ele pegou o aparelho e desbloqueou a tela.
Tiago: resolve isso logo, mano
Tiago: samanta tá falando sério, ela vai espalhar essa merda
Tiago: se a kayla souber por ela, vai ser muito pior
Tiago: e eu ainda não to acreditando q vc era capaz disso
A última mensagem fez Eduardo sentir como se tivesse levado um soco no estômago.
Ele apertou o celular com força.
O peito subia e descia em respirações curtas e descompassadas.
Ele tentou engolir a sensação sufocante na garganta, mas era impossível. As lágrimas começaram a escorrer antes mesmo que ele pudesse impedi-las.
Eduardo se jogou na cama, enterrando o rosto no travesseiro. O quarto parecia pequeno demais, apertado demais. O ar parecia denso.
Seu corpo tremia.
Seu mundo estava desmoronando.
Ele estava prestes a perder tudo.
De repente, o celular vibrou de novo. Dessa vez, não era Tiago.
Kayla: oi, amor
Kayla: senti sua falta hoje, tava tão corrida a escola...
Kayla: a gente podia sair amanhã só nós dois, né?
Kayla: te amo <3
A ironia daquilo foi cruel.
Kayla, doce, inocente. Achando que seu namorado era só dela. Achando que ele era o cara perfeito. Achando que ele a amava da mesma forma que ela o amava.
Eduardo não conseguiu segurar o soluço que escapou.
As lágrimas escorriam sem controle.
Ele queria gritar, desparecer.
Mas tudo que fez foi se encolher ainda mais na cama, segurando o celular como se aquilo pudesse impedir o inevitável.
Três dias.
Ele só tinha três dias antes que seu segredo fosse descoberto.
◄☼►
O dia seguinte foi um inferno.
Eduardo caminhava pelos corredores da escola e sentia o peso dos olhares sobre si. Mas, na verdade, ninguém estava olhando. O problema era que ele sentia como se estivessem.
Tiago, que sempre estava ao seu lado, agora mantinha distância.
Ele conversava com os outros, ria com os outros, mas nem olhava para Eduardo.
Aquela distância parecia um abismo intransponível.
E ele sabia o motivo. A qualquer momento, sua vida poderia ruir. Samanta estava segurando um segredo que poderia destruí-lo, e ele sabia que não poderia confiar nela.
Precisava agir antes que fosse tarde demais.
Kayla, por outro lado, continuava igual. Mandando mensagens fofas, sorrindo para ele nos corredores, segurando sua mão como se nada estivesse acontecendo.
Como se seu mundo não estivesse prestes a desmoronar.
Antes do sinal tocar, Eduardo tomou uma decisão.
Precisava falar com ela.
Mandou uma mensagem rápida.
Eduardo: preciso falar com vc depois da aula
Kayla: tá bom, amor! Algo sério?
Eduardo: sim
Kayla: tudo bem, te encontro no final da aula
Eduardo guardou o celular e respirou fundo.
O nó no peito apertava mais a cada segundo.
◄☼►
No final da aula, Kayla apareceu animada, com aquele sorriso genuíno no rosto.
— Oi, amor — ela disse, segurando a mão dele. — Do que você quer falar?
Eduardo sentiu o estômago afundar.
Olhou para Kayla e sentiu um aperto no peito.
Ela não merecia isso.
Não merecia ser enganada. Mas ele não conseguia dizer. O peso da culpa, do medo, da vergonha… tudo esmagava sua garganta.
Então ele hesitou.
— Ah… não é nada, não — Eduardo desviou o olhar, forçando um sorriso. — Esquece.
Kayla franziu a testa.
— Como assim esquece? Edu, você tá estranho esses dias… me fala o que tá acontecendo.
Ele engoliu seco.
Diz.
Diz agora.
Antes que seja tarde demais.
Mas as palavras não saíram.
Eduardo sentiu o peito apertar e só balançou a cabeça.
— Nada, sério. Só tô cansado.
Kayla o olhou por um tempo, desconfiada. Mas então, sorriu.
— Você anda estudando demais, só pode — ela brincou, cutucando a costela dele. — Mas se precisar desabafar, sabe que pode contar comigo, né?
Eduardo forçou outro sorriso.
— Sim, claro.
Kayla se aproximou e lhe deu um selinho.
— Bom, já que tá tudo bem, quer sair mais tarde?
Eduardo sentiu o estômago revirar.
Mas, sem saber o que fazer, apenas assentiu.
— Claro.
E, assim, mais uma vez, ele escolheu o silêncio.
◄☼►
Mais tarde no mesmo dia, Eduardo e Kayla estavam sentados em um restaurante pequeno, o tipo de lugar aconchegante que ela adorava.
Ela falava sobre o dia, sobre como Samanta estava meio esquisita ultimamente, sobre os planos pro final de semana, mas Eduardo não conseguia prestar atenção.
Sua mente estava distante.
Seus olhos, focados na tela do celular que permanecia virado para baixo sobre a mesa.
Ele sentia o peso dele ali.
E então, o celular vibrou. Eduardo pegou o aparelho rapidamente, sem pensar.
Leo.
O nome brilhou na tela.
Seu peito apertou. Ele sabia que não deveria, mas seus dedos deslizaram pela tela, abrindo a mensagem.
Leo: tá ocupado?
Era simples.
Uma mensagem qualquer.
Mas Eduardo sabia que não era só isso.
Era Leo testando as águas.
Eduardo sentiu o peito doer, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, Kayla chamou sua atenção.
— Quem é? — ela perguntou, casualmente, bebendo seu suco.
Eduardo travou.
Ele sabia que tinha segundos para reagir, então simplesmente bloqueou a tela e colocou o celular de volta na mesa.
— Ninguém.
Kayla sorriu, sem suspeitar de nada.
Eduardo sentiu um nó na garganta, ignorando a culpa que latejava em seu peito. Porque, naquele momento, ele sabia que tinha feito uma escolha.
Mas era a escolha certa?
◄☼►
Eduardo tentou.
Tentou inúmeras vezes.
A verdade pairava em sua garganta como um grito preso, mas sempre que olhava para Kayla, as palavras morriam antes de serem ditas.
Ele ensaiava mentalmente. "Kayla, eu preciso te contar uma coisa", "Tem algo que você precisa saber", "A gente precisa conversar sério"… Mas no momento de abrir a boca, tudo se desmanchava.
A forma como Kayla o olhava, os olhos confiantes, cheios de carinho, fazia seu peito apertar de um jeito insuportável.
Porque ela não merecia aquilo. Não merecia as mentiras. E a vergonha que sentia era maior do que sua coragem.
Então, mais uma vez, não disse nada.
E novamente, quando voltava para casa, encontrava o celular cheio de mensagens de Tiago.
Tiago: mano, cê tem que falar logo
Tiago: samanta não vai segurar isso pra sempre
Tiago: e, na moral, que vergonha. dois caras se agarrando é ridículo
Tiago: todo mundo vai te zoar se souber
Eduardo apertava o celular com força a cada mensagem.
O peito ardia em frustração, raiva, medo.
Ele queria gritar com Tiago, dizer que não era tão simples, que Tiago não entendia nada.
Mas qual seria o sentido?
Tiago já tinha sua visão sobre aquilo.
Pra ele, dois caras juntos era algo ridículo. Pra ele, Eduardo estava desperdiçando tudo.
Então ele simplesmente não respondia.
Só ficava ali, deitado na cama, encarando o teto, sentindo o peso de tudo esmagá-lo mais um pouco a cada dia.
Porque, no fundo, ele sabia.
O tempo estava acabando.
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