O Garoto Feito de Sol e Terra
70 Capítulo 70 — A Risada No Momento Errado
O céu estava nublado naquela tarde, e o ar carregava um cheiro leve de terra molhada. Eduardo parou a bicicleta em frente à fazenda e desceu devagar, sentindo um peso no peito que parecia crescer a cada passo.
Ele não sabia exatamente o que estava fazendo ali.
Talvez só precisasse vê-lo.
Talvez só precisasse de algo que o fizesse esquecer o caos que sua vida tinha se tornado.
Caminhou pelo campo até avistar Leo perto do celeiro, ocupado com algo. O cabelo estava bagunçado, e ele usava uma camiseta surrada, provavelmente suja do trabalho. Mesmo assim, Eduardo o achou lindo, como sempre.
Leo ergueu o olhar e parou o que estava fazendo.
Por um momento, os dois só se encararam.
Então, Leo quebrou o silêncio:
— Achei que tivesse morrido.
O tom era uma mistura de ironia e mágoa, e Eduardo sentiu um aperto no estômago.
Ele abriu a boca para responder, mas nada saiu.
Leo limpou as mãos na calça jeans e se aproximou, cruzando os braços.
— O que você tá fazendo aqui, Eduardo?
Eduardo desviou o olhar, chutando levemente uma pedra no chão.
— Só… só passei pra ver como você tá.
Leo soltou um riso seco, balançando a cabeça.
— Engraçado. Passou os últimos dias me ignorando, e agora quer saber como eu tô?
Eduardo mordeu o lábio, desconfortável.
— Eu tava ocupado.
Leo arqueou as sobrancelhas, cético.
— Ocupado com o quê?
Eduardo hesitou.
A verdade dançava na ponta da língua. Ele queria contar tudo, sobre Samanta, sobre as fotos, sobre Tiago, sobre a pressão esmagadora que vinha sentindo.
Mas ele não queria tocar no assunto.
Não ali.
Não com Leo olhando para ele daquele jeito.
Então, mentiu.
— Coisas da escola… uns problemas com meus pais também. Nada demais.
Leo não respondeu de imediato. Apenas o observou por alguns segundos, como se tentasse decifrar algo.
— Certo — disse, por fim, sem demonstrar se acreditava ou não.
O silêncio se prolongou entre eles.
Eduardo queria dizer mais alguma coisa, qualquer coisa, mas não sabia por onde começar.
O silêncio entre eles era pesado. Eduardo sentia seu peito apertar enquanto observava Leo de perto, cada detalhe do rosto dele gravado em sua mente. Os olhos castanhos cor de mel, a curva dos lábios, o jeito como ele mordia a parte interna da bochecha quando estava pensativo.
Ele queria dizer que sentia falta. Que cada um dos dias sem falar com Leo tinha sido uma tortura.
Mas, no fim, Eduardo não disse nada.
Ele simplesmente agiu. Se aproximou, puxou Leo para dentro do celeiro.
O olhar de Leo encontrou o seu, surpreso, mas não se afastou.
Então, Eduardo o beijou.
Não foi um beijo faminto, desesperado, como os que costumavam trocar quando estavam escondidos do mundo. Não era movido pela luxúria ou pelo desejo imediato.
Era algo mais.
Era um pedido de desculpas mudo.
Era um lembrete do que eles ainda eram, apesar de tudo.
Leo correspondeu. Lentamente. Como se testasse se era seguro se deixar levar outra vez.
E, por um momento, tudo desapareceu.
Só existia o calor daquele beijo, o roçar das respirações, a forma como os lábios de Eduardo se encaixavam nos de Leo como se fossem feitos para aquilo.
Quando se afastaram, nenhum dos dois disse nada.
Leo apenas suspirou, desviando o olhar, e caminhou até um canto do celeiro, onde se sentou no fardo de feno mais próximo.
Eduardo o seguiu.
Se sentaram lado a lado, sem encostar um no outro, apenas olhando para a abertura do celeiro, onde o sol começava a se pôr.
O silêncio se estendeu entre eles, mas, dessa vez, não era um silêncio ruim.
Era um silêncio confortável.
◄☼►
O silêncio confortável que Eduardo e Leo compartilhavam se rompeu no instante em que viram, ao longe, uma bicicleta subindo a estrada de terra.
Eduardo sentiu um frio na espinha.
Kayla.
De longe, ela já os avistava. Mesmo sem correr, caminhava com pressa, determinada, com o rosto fechado e os olhos carregados de algo que Eduardo nunca tinha visto antes.
Rita, sem imaginar o que se escondia por trás daquela visita, abriu o portão com sua habitual simpatia.
— Oi, querida, o que faz por aqui?
— Oi! Eu tinha combinado com o Eduardo e o Leo de vir aqui hoje — respondeu, a voz firme, sem brecha para dúvidas.
— Ah, pode entrar, eles estão logo ali, como pode ver. — Rita indicou o caminho do celeiro com um gesto leve, ainda sorrindo.
Kayla agradeceu e foi em direção a eles. O som seco dos passos contra a terra batida parecia martelar dentro do peito de Eduardo, como se cada estalo anunciasse o inevitável.
Leo, ao notar a aproximação dela, franziu a testa. Olhou para ela e depois para Eduardo. Seus olhos refletiam confusão e um certo pânico, como se, em silêncio, exigissem uma explicação imediata. Eduardo não conseguiu devolver nada além de um olhar vazio, preso entre o medo e a culpa.
Quando Kayla entrou no celeiro, os olhos dela estavam vermelhos, cheios de lágrimas contidas.
— O que você tá fazendo aqui? — Eduardo perguntou, tentando soar calmo, mas sua voz entregava o medo.
Kayla soltou uma risada amarga.
— O que eu tô fazendo aqui? Ah, Eduardo… — Ela passou as mãos pelos cabelos, desorientada. — Eu vim confirmar o que já sei.
Leo, que até então não tinha se mexido, ficou rígido ao lado de Eduardo.
— O que você quer dizer com isso? — Eduardo perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
— Samanta me contou, Eduardo. Me contou tudo! — Ela explodiu, sua voz tremendo de raiva e mágoa e apontou para os dois. — Contou que viu vocês dois juntos no estacionamento do shopping! Me mostrou as fotos! O vídeo!
Eduardo sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Leo desviou o olhar, cerrando os punhos.
— Você… — Eduardo tentou dizer, mas Kayla continuou, sua voz carregada de ressentimento.
— E sabe o que é pior? — Ela riu com ironia, lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto. — Você teve a audácia de me dar uma desculpa ridícula hoje! ‘Ah, Kayla, eu preciso resolver umas coisas, depois a gente se vê’. Resolvi confiar em você. Mas depois do que a Samanta me contou, algo me dizia que você viria pra cá. Então eu vim ver com meus próprios olhos.
E então ela olhou para Leo com um olhar afiado.
— E aí está ele. O grande segredo do meu namorado.
Leo olhou para o chão, incapaz de sustentar o olhar dela.
Eduardo respirou fundo, tentando se recompor.
— Kayla, eu…
— Não! — Ela o interrompeu, apontando um dedo trêmulo para ele. — Não tem nada pra falar! Nada! Você me traiu! Me enganou! E ainda fez isso pelas minhas costas com… com ele!
Ela se virou para Leo, que olhava para os seus próprios pés.
A voz dela ficou ainda mais amarga.
— E você? — Seus olhos brilhavam com lágrimas e raiva. — Você não tem pena de si mesmo por isso? — Houve uma pausa — Porque eu tenho.
Leo trincou o maxilar, mas não respondeu.
Eduardo sentiu um nó sufocante na garganta.
— Kayla, me escuta…
Mas ela já estava se afastando, enxugando o rosto apressadamente.
— Eu não quero mais ouvir nada! Você é um mentiroso, Eduardo! Um covarde! ACABOU!
Ela deu meia-volta e saiu correndo do celeiro, pegando a bicicleta jogada ao chão.
Eduardo ficou ali parado, sentindo o gosto amargo da culpa dominar todo o seu corpo.
Leo, ao seu lado, fechou os olhos e respirou fundo.
O silêncio que voltou a reinar não era mais confortável.
Era um silêncio esmagador.
Nenhum dos dois se moveu.
Por um instante, Eduardo ficou apenas encarando a saída do celeiro, vendo a poeira no ar ainda se assentar depois da tempestade que Kayla tinha deixado para trás.
Ele sabia que não adiantava correr atrás dela. Explicar o quê? Pra quê? Ela já sabia de tudo. O estrago estava feito.
O peito de Eduardo pesava como se um caminhão tivesse passado por cima. Mas, no meio daquele caos, um som inesperado rompeu o silêncio.
Leo ria.
Era um riso de choque, de quem não sabia como segurar o peso insuportável do momento.
Mas, para Eduardo, soou como deboche. Virou seu rosto para encará-lo, incrédulo.
— Do que você tá rindo? — Sua voz saiu mais dura do que ele pretendia.
Leo continuou olhando para o chão, um meio sorriso ainda nos lábios, mas não respondeu.
Eduardo sentiu o sangue ferver.
— Porra, Leo, cê acha isso engraçado?!
Leo ergueu os olhos para ele, e Eduardo viu algo ali que o fez explodir ainda mais. Não era diversão. Não era descaso. Era cansaço.
— Não, Eduardo, não acho engraçado. Mas, sei lá… o que mais eu posso fazer? — Leo deu de ombros.
— O que mais você pode fazer?! — Eduardo repetiu, a incredulidade crescendo dentro dele. — Leo, você não tem noção de porra nenhuma do que acabou de acontecer!
Leo ficou em silêncio.
Eduardo avançou um passo, a raiva borbulhando em sua voz.
— Você tem ideia do que isso significa?! O que essa merda toda vai causar?!
Leo abriu a boca para dizer algo, mas Eduardo não deu espaço.
— Você acha que dá pra sair dessa rindo, como se fosse só mais uma merda qualquer?! — Eduardo gesticulou, os olhos queimando. — Eu acabei de foder minha vida inteira, Leo! A Kayla sabe! O Tiago sabe! A Samanta tem fotos, porra!
Leo piscou, como se absorvesse a gravidade daquilo pela primeira vez.
— Eduardo, eu…
— Você o quê?! — Eduardo riu sem humor. — Vai dizer que sente muito? Que não queria que fosse assim? Minha vida inteira tá indo pro caralho e você rindo.
Leo abaixou o olhar, e Eduardo sentiu o peito apertar ainda mais.
— Eu… desculpa, eu não sabia de nada, eu não queria—
— Ah, vai se foder. — Eduardo bufou, passando as mãos no cabelo.
Ele não queria ouvir desculpas. Não queria ouvir nada.
Ele só queria sumir, desaparecer.
Com os músculos tensos e a cabeça prestes a explodir, Eduardo se virou e saiu do celeiro sem olhar para trás.
Leo ficou ali, parado, sentindo o vazio dentro dele crescer.
◄☼►
Eduardo chegou em casa bufando, os passos pesados ecoando pelo chão.
A raiva dentro dele era um turbilhão incontrolável.
Ele se jogou na cama e ligou o videogame numa tentativa desesperada de se distrair. Mas nada funcionava. Os dedos martelavam os botões com força, como se pudessem esmagar junto o turbilhão que dominava sua mente. Ainda assim, o caos da própria vida insistia em permanecer.
Era realmente inútil.
O peso no peito não ia embora.
Ele sabia.
Sabia que perderia o respeito dos amigos. Sabia que Tiago provavelmente já estava espalhando tudo para o grupo. Sabia que Kayla nunca mais olharia para ele da mesma forma.
E sabia que, em algum lugar, Samanta ainda guardava aquelas malditas fotos.
◄☼►
A noite caiu e o silêncio em sua casa só fez tudo ficar ainda mais sufocante.
Foi quando seu celular vibrou.
Ele olhou de canto de olho para a tela.
Leo.
Com um suspiro pesado, destravou o telefone e abriu as mensagens.
Leo: eduardo, por favor. eu não ri de vc. eu ri da situação, do quão fodida ela é
Leo: eu tava em choque
Leo: eu sei que pareceu escroto, eu sei, mas não foi isso
Eduardo apertou os lábios, o peito apertando.
Porra, Leo…
Passou a mão pelo rosto, exausto.
Viu os três pontinhos indicando que Leo ainda estava digitando.
Leo: me responde, por favor
Eduardo jogou o celular ao lado, sem coragem de responder.
Ele queria gritar, queria socar algo, queria fugir. Mas tudo o que fez foi encarar o teto, sentindo o peso da merda toda esmagá-lo.
Eduardo manteve os olhos fixos no teto, o peito subindo e descendo em uma respiração pesada.
O celular vibrou mais uma vez ao seu lado. Ele fechou os olhos por um segundo antes de pegá-lo de novo.
Leo: eduardo, me responde
Leo: por favor
Leo: sei que vc deve estar puto e me odiando agora, mas eu não consigo deixar as coisas assim
Eduardo apertou o celular com força.
Ódio.
Ele não odiava Leo. Não era nada disso.
Mas ele odiava a si mesmo. Odiava a merda toda em que tinha se metido. Odiava que, por mais que tentasse, por mais que soubesse que não tinha saída, ainda queria Leo.
Porra.
Passaram-se alguns minutos e mais mensagens continuaram chegando.
Leo: eu juro que não quis rir de vc! sei q está lendo
Leo: eu não quis piorar as coisas, não quis te deixar mais puto do que já tava
Leo: eu tava nervoso, porra. eu ri porque se eu não risse, eu ia surtar
Leo: me responde, cara, de verdade
Leo: diz alguma coisa
Eduardo fechou os olhos, o estômago revirando.
Ele queria responder.
Queria dizer que também odiava aquilo. Que tudo tinha saído do controle. Que ele estava completamente ferrado.
Mas não queria e nem conseguia falar com ninguém neste momento.
Se deitou na cama, pressionando os olhos com as mãos, enquanto a culpa e o silêncio o esmagavam.
O celular vibrou de novo.
Leo estava ligando.
Eduardo apertou os olhos, sentindo um nó subir na garganta. O toque ecoava pelo quarto, insistente.
Mas ele não atendeu.
Não podia.
Não agora.
Esperou até a ligação cair sozinha e então bloqueou a tela do celular, jogando-o na escrivaninha.
Se virou na cama, fechando os olhos com força.
◄☼►
Na fazenda, Leo estava em frangalhos.
Estava sentado no chão do quarto, com as costas encostadas na cama, o celular apertado entre os dedos. Os olhos ardiam, e a respiração estava falha.
Não deveria ter rido. Que merda, ele não deveria ter rido.
Mas foi um reflexo, um impulso estúpido, uma reação desgraçada ao caos de ver Kayla ali, ao surto dela, à realidade caindo sobre Eduardo como um meteoro. E agora ele estava pagando o preço.
Eduardo não falava com ele.
Nada. Nenhuma resposta. Nenhuma reação.
O silêncio de Eduardo estava o matando.
Leo passou a mão pelo rosto, os olhos marejados, e digitou de novo.
Leo: edu, me responde, por favor
O celular continuava mudo. Nenhum sinal de Eduardo.
Leo engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. O coração batia forte, uma angústia crescente que só piorava.
Ele tentou ligar de novo.
Chamou. Chamou. Chamou. E caiu na caixa postal.
O peito de Leo se apertou tanto que ele sentiu uma onda de desespero subir pelo corpo.
— Porra, Eduardo… — murmurou baixinho, sentindo a voz embargar.
Ele jogou o celular na cama e esfregou as mãos no rosto, tentando conter as lágrimas.
Mas não conseguiu.
As lágrimas começaram a cair, silenciosas, carregadas de tudo que ele estava segurando há dias. A mágoa, a culpa, o desespero de ver Eduardo se afastando e não poder fazer nada.
— Desgraçado… — sussurrou, apertando os olhos. — Me responde.
Mas o celular permaneceu mudo.
Leo chorava.
Silencioso no início, mordendo o lábio com força, como se quisesse conter tudo aquilo. Mas logo a respiração ficou irregular, o peito subindo e descendo em soluços abafados. As lágrimas caíam quentes, sem controle.
Ele odiava isso.
Odiava se sentir tão vulnerável. Odiava que Eduardo tivesse esse poder sobre ele. Odiava mais ainda ter ferrado tudo.
Puxou o celular de novo, os dedos trêmulos, e digitou outra mensagem, mesmo sabendo que Eduardo não ia responder.
Leo: cara, me responde, por favor
Leo: eu tô mal pra caralho
Nada.
O silêncio no celular era pior que qualquer resposta.
Pior que um "foda-se", pior que um xingamento, pior que qualquer briga.
Leo sentiu os soluços aumentarem, então puxou a coberta e se enfiou embaixo dela, como se pudesse se esconder do mundo, de Eduardo, de si mesmo.
Mas não adiantava.
Porque, não importava o quanto ele tentasse fugir, Eduardo ainda estava lá.
Na cabeça dele. No peito dele. Em cada lágrima que caía sem parar.
◄☼►
Eduardo revirou na cama várias vezes e não conseguia pegar no sono. Passou a noite em claro.
Ele não queria olhar o celular, mas não conseguia ignorar o peso no peito toda vez que ele vibrava. Toda vez que via o nome de Leo piscando na tela.
Cada mensagem não respondida parecia uma faca enterrada em seu peito.
Ele queria odiar Leo por aquela risada fora de hora, mas sabia que não podia. Porque nada daquilo era culpa dele.
Leo não destruiu nada.
Eduardo fez isso sozinho.
Agora, sua vida estava de cabeça para baixo. Mas nada disso doía mais do que saber que Leo poderia estar sofrendo.
Ele podia imaginar Leo tentando falar com ele, desesperado, provavelmente chorando em seu quarto, se sentindo um lixo. E Eduardo o deixou assim.
Porque, em vez de responder, ele o puniu com silêncio.
E isso foi muita covardia.
O sol já nascia quando Eduardo finalmente pegou o celular. Ele abriu a conversa e leu todas as mensagens de Leo novamente. Cada uma delas.
Podia sentir a angústia de Leo em cada palavra digitada.
Ele nunca deveria ter deixado as coisas chegarem nesse ponto.
Eduardo: leo
Foi tudo que conseguiu escrever no primeiro momento, mas logo viu que escrever não seria o suficiente.
Ele apertou o nome de Leo e chamou.
O coração batia forte, as mãos suavam.
A chamada demorou alguns toques, e Eduardo chegou a achar que Leo não ia atender.
Mas então, ouviu o som da respiração do outro lado.
— Oi Leo… — A voz de Eduardo saiu baixa.
Por um momento, Leo não respondeu. Só dava para ouvir sua respiração.
Eduardo quase podia sentir o alívio dele só por ouvi-lo ali.
— Edu… — a voz de Leo saiu rouca, fraca, como se tivesse chorado a noite toda. E talvez tivesse. A culpa bateu ainda mais forte.
Eduardo fechou os olhos e respirou fundo, dizendo:
— Me desculpa, cara. Mesmo.
Leo soltou um suspiro tremido.
— Só fala comigo. — Eduardo pediu, quase num sussurro. Ele precisava ouvir mais. Precisava saber que Leo ainda estava ali. Porque se existia uma coisa que ele ainda podia fazer direito, era não deixar Leo sozinho de novo.
O silêncio entre eles foi longo.
Leo respirava pesado do outro lado da linha, como se ainda estivesse tentando se recompor.
Eduardo sentiu o peito apertar. Ele passou a mão pelos cabelos, fechou os olhos, sentindo o peso da culpa esmagando suas costelas.
— Eu tô aqui, Leo. Me desculpa. — disse, finalmente.
— Eu achei que você não fosse mais falar comigo. — A voz de Leo saiu fraca, rouca, e Eduardo podia jurar que ele ainda estava segurando o choro.
Eduardo engoliu seco e continuou:
— Eu fui um merda.
— Eu… eu ri porque foi ridículo. — Leo disse, de repente, a voz vacilante. — Foi ridículo tudo isso acontecer desse jeito. Eu nem sei porque eu ri. Mas eu ri porque eu queria chorar. Eu ri porque não sabia o que fazer.
Eduardo fechou os olhos com força.
— Eu sei. — repetiu, porque não havia nada mais a dizer.
O silêncio ainda pesava entre eles, mas, dessa vez, não era um silêncio de mágoa ou afastamento.
Eduardo fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de dizer, com sinceridade, mais uma vez:
— Me desculpa.
Do outro lado da linha, Leo ficou quieto. Mas Eduardo sabia que ele ainda estava ali.
— Eu fui um merda com você. — Eduardo continuou. — Eu… eu tava puto com tudo, com o que aconteceu, com o que vai acontecer, com o que eu perdi. Mas nada disso era culpa sua. Eu só... — Ele passou a mão pelo rosto, exausto. — Só descontei tudo em você.
Leo respirou fundo antes de responder.
— Eu fiquei desesperado. — A voz dele saiu baixa, quebrada. — Eu achei que você ia me odiar de verdade.
Eduardo sentiu um aperto insuportável no peito.
— Nunca. — disse, firme. — Nunca, Leo.
— Mas você não respondia.
Eduardo fechou os olhos, sentindo a culpa queimando dentro dele.
— Eu sei. — murmurou. — E eu me odeio por isso.
Leo ficou quieto por um momento, mas então soltou um suspiro.
— Não se odeie.
Eduardo franziu a testa.
— Por quê?
— Porque eu já me odiei o suficiente por nós dois.
Eduardo sentiu algo dentro dele se partir.
— Porra, Leo.
— É sério. — Leo suspirou de novo. — Eu me odiei por rir, me odiei por estar lá, por sentir tudo isso. Me odiei por você não responder.
Eduardo apertou o celular entre os dedos e respondeu:
— Eu sinto muito. De verdade.
O silêncio voltou, mas, dessa vez, era um silêncio mais leve, um silêncio de entendimento.
Eduardo passou a mão pelos cabelos, respirando fundo. O peso da culpa ainda estava ali, mas já não parecia tão esmagador.
Do outro lado da linha, Leo também permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se estivesse tentando encontrar algo para dizer, mas desistindo no meio do caminho.
Eles não precisavam de mais palavras.
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