O Garoto Feito de Sol e Terra

66 Capítulo 66 — Eu Não Deveria Ter Vindo


O dia finalmente chegou. A casa dos Castilho estava cheia, com música tocando ao fundo, risadas ecoando pelos cômodos, amigos se cumprimentando e se servindo. Era exatamente o tipo de festa que ele deveria estar aproveitando.

Mas sua mente estava em outro lugar.

Eduardo olhava para a porta vez ou outra, como se estivesse esperando alguém. Como se, de alguma forma, Leo mudasse de ideia e aparecesse.

Mas ele sabia que ele não viria.

Quando fez o convite, já esperava que Leo recusasse. E, no fundo, não podia culpá-lo. Como poderia esperar que Leo estivesse ali, cercado de pessoas que não sabiam de nada, vendo Eduardo agir como se não existisse nada entre eles? Como se fosse apenas mais um dia, como se Kayla fosse a única pessoa importante ali?

Ele queria que Leo viesse. Queria sua presença, queria seu olhar, queria… ele.

Mas Leo não viria.

— Edu? — Kayla apareceu ao seu lado, segurando um copo e sorrindo para ele. — Você tá distante.

Eduardo forçou um sorriso e balançou a cabeça.

— Só tava pensando em umas coisas.

Kayla riu.

— Bom, espero que sejam coisas boas.

Ele apenas assentiu.

Bruno apareceu do nada, batendo no ombro de Eduardo.

— Aniversariante tem que estar feliz, porra! Bora beber.

Eduardo pegou uma cerveja, tentando se distrair.

A festa continuou. Amigos brincando, Kayla ao seu lado, o tempo passando, mas uma parte dele não conseguia parar de pensar em Leo.

Pensava se ele estava bem.

Se tinha ficado chateado.

Se estava pensando nele agora.

E, sem perceber, pegou o celular e abriu a conversa com Leo. Nenhuma nova mensagem.

Digitou algo, hesitou, e então apagou antes de enviar.

Talvez fosse melhor assim.


◄☼►


Eduardo estava lá, sorrindo, conversando, rodeado de amigos, com Kayla ao seu lado como sempre. Ele abraçava a namorada, ria das piadas de Bruno e Tiago, tentava se convencer de que estava realmente aproveitando seu aniversário.

Mas então seu olhar encontrou algo.

Ou melhor, encontrou ele.

Leo.

Parado ao longe, no canto da festa, de braços cruzados, com uma expressão que Eduardo conhecia bem. Um olhar que o perfurava, que carregava tantas coisas que nem precisavam ser ditas.

Dor.

Mágoa.

Saudade.

Leo estava ali. Ele veio.

O coração de Eduardo disparou.

Ele não sabia se ficava feliz ou se o aperto no peito o esmagava ainda mais. Porque ali, segurando Kayla pela cintura, Eduardo se sentiu um monstro.

Queria soltar Kayla. Queria correr até Leo. Queria abraçá-lo, beijá-lo, dizer que sentiu sua falta, que odiava vê-lo daquele jeito.

Mas não podia.

Kayla falou alguma coisa, rindo, e Eduardo assentiu, mas não escutou nada. Seus olhos estavam fixos em Leo, que desviou o olhar e pegou um copo de refrigerante na mesa, fingindo que não o via mais.

Mas Eduardo sabia que aquilo era mentira.

Leo nunca conseguia ignorá-lo de verdade. Assim como ele nunca conseguia ignorar Leo.

— O que você tá olhando? — Kayla perguntou ao seu lado, notando sua distração.

Eduardo piscou, saindo do transe.

— Nada não, só… me distraí.

Kayla aceitou a resposta e voltou a conversar com Samanta.

Mas Eduardo não conseguia mais focar em nada. Porque ali, do outro lado da festa, Leo estava sofrendo por ele.

E Eduardo estava sofrendo por Leo.

E, porra, ele odiava tudo aquilo.


◄☼►


Leo sentiu o aperto familiar no peito.

Ele sabia que não deveria ter vindo. Sabia.

Mas, como sempre, algo dentro dele queria testar seus próprios limites. Ver até onde conseguia suportar.

E agora, ali parado, segurando um copo que nem lembrava de ter pego, observava Eduardo envolvido nos braços de Kayla, sorrindo como se nada no mundo estivesse errado. Como se eles — ele e Eduardo — nunca tivessem acontecido.

A garganta de Leo queimava.

O estômago se revirava.

Os olhos estavam marejados, mas ele não ia chorar ali.

Respirou fundo, desviando o olhar, tentando se concentrar em outra coisa, mas tudo ao redor parecia uma grande piada de mau gosto.

As risadas ecoavam como zombaria.

A música alta, os amigos se divertindo, o clima leve… tudo contrastava violentamente com o que estava acontecendo dentro dele.

Ele tentou se convencer de que não era grande coisa.

Eduardo estava com a namorada. Era assim que deveria ser.

Mas não era o certo.

Porque Eduardo olhava para ele. Mesmo abraçado com Kayla, mesmo fingindo estar ali, Eduardo olhava para ele.

E Leo viu nos olhos dele o que já conhecia tão bem.

A culpa.

O desejo contido.

A saudade.

Só que, no fim, isso não mudava nada. Eduardo sempre escolheria Kayla. Sempre escolheria o caminho mais fácil, mais seguro.

Leo apertou os lábios, sentindo a garganta fechar.

Ele tinha que sair dali. Agora.

E então saiu sem olhar para trás.

Cada passo que dava para longe daquela casa parecia uma luta contra tudo dentro dele. Contra a vontade absurda de explodir, de gritar, de chorar, de virar para Eduardo e perguntar: Por que você faz isso comigo? Por que me olha desse jeito enquanto segura outra pessoa nos braços?

Mas ele não faria isso. Não se humilharia mais.

Seu peito estava em chamas, e a única coisa que conseguia pensar era: Eu não deveria ter vindo.

O ar frio da noite bateu contra seu rosto quando cruzou o portão. Ele queria correr. Sumir. Fingir que nada daquilo doía tanto. Mas então ouviu passos apressados atrás de si.

— Leo! — A voz de Eduardo.

Leo fechou os olhos, praguejando baixinho. Não, porra. Não faz isso.

Ele surgiu ao seu lado, meio sem fôlego, com os olhos carregados de urgência.

— Leo, espera.

Leo continuou andando.

— Volta pra sua festa, Castilho.

— Me escuta, por favor.

Leo explodiu:

— Escutar o quê? Mais desculpas? Mais ‘isso não pode acontecer, Leo’? Mais ‘eu não posso te escolher, Leo’?

Eduardo engoliu seco.

Ele parecia… perdido. Sem palavras. Porque sabia que tudo aquilo era verdade.

Leo parou de andar e virou para ele. Os olhos estavam vermelhos, mas ele segurava firme.

— Volta pra sua festa, Eduardo. Pra sua namorada. Pro seu mundo onde eu não existo.

O peito de Eduardo apertou.

Porque era mentira.

Leo existia em tudo.

Nos pensamentos dele. Nos desejos dele. No jeito que cada beijo de Kayla parecia sem gosto. No modo como cada momento com ela parecia um esforço, enquanto com Leo tudo era natural, fácil, viciante.

Ele queria dizer isso.

Queria falar tudo, mas as palavras simplesmente não saíam.

E então Leo sorriu, mas foi o pior sorriso que Eduardo já viu.

Cheio de mágoa.

De cansaço.

De desistência.

— Tô cansado, Eduardo. De verdade.

E então, sem esperar resposta, Leo virou as costas e foi embora.

Eduardo ficou ali. Parado, com os punhos fechados. O coração pesando como nunca antes.

Porque sentiu que estava realmente perdendo Leo.