O Garoto Feito de Sol e Terra

67 Capítulo 67 — Verdades Difíceis


A tela do celular de Leo brilhou no escuro do quarto.


Eduardo: leo, porra. a gente precisa falar


Leo olhou a mensagem e quis ignorar. Quis jogar o celular longe, como fazia sempre que Eduardo voltava pra cutucar suas feridas. Mas algo dentro dele não permitiu.

Os dedos tremiam quando ele digitou:


Leo: falar o q, castilho?

Leo: sobre como vc tava agarrado com sua namorada enquanto me olhava daquele jeito?

Leo: vai se foder


A resposta veio rápido.


Eduardo: eu não queria que fosse assim

Leo: MAS É ASSIM!


Eduardo ficou digitando, parando, digitando de novo. Até que outra mensagem apareceu.


Eduardo: vc sabe que eu não consigo ficar longe de vc

Eduardo: eu n sei como resolver isso

Leo: eu tbm nao. mas a diferença entre a gente é que eu queria resolver


Eduardo sentiu aquilo como um soco. Mas Leo não parou.


Leo: vc me leva pro resort, me olha daquele jeito, me faz achar que por um segundo a gente pode ser de verdade

Leo: e depois volta pra ela como se nada tivesse acontecido

Leo: qual é o seu problema, eduardo?


Dessa vez, Eduardo ficou muito tempo sem responder.

Leo apertou o celular na mão, sentindo a raiva misturada ao cansaço corroer tudo por dentro.

Então veio a resposta.


Eduardo: vc acha que é fácil? acha que eu posso simplesmente… escolher?


Leo sentiu o estômago afundar.


Leo: pode

Leo: vc só não tem coragem


Eduardo fechou os olhos, sentindo o peso de cada palavra.


Eduardo: eu queria ser forte como vc, leo

Eduardo: mas eu não sou


Leo sentiu os olhos arderem.


Leo: eu sei


E era isso que mais doía.

Porque Leo sabia que Eduardo nunca o escolheria. Não porque não queria, mas porque tinha medo.

E não importa quantas vezes Eduardo dissesse que não conseguia ficar longe dele, ele sempre ficava.

O celular de Eduardo ficou na mão por minutos, mas ele não soube o que responder. E Leo não esperou.


Leo: boa noite, castilho


E então, o celular foi jogado na mesa de cabeceira.


◄☼►


Eduardo não suportava mais a espera.

Três dias. Três malditos dias sem uma resposta, sem uma ligação atendida, sem sequer uma palavra de Leo.

Tentou se convencer de que precisava dar espaço. Tentou fingir que iria superar, que era melhor assim.

Mas era mentira.

Então, no fim do terceiro dia, ele montou na bicicleta e pedalou até a fazenda.

O céu já se pintava de laranja e rosa quando ele chegou. O vento quente cortava o rosto de leve, e o cheiro de terra úmida estava forte no ar. Ele desceu da bicicleta e andou pelo terreno, sabendo exatamente onde encontrar Leo.

E ali estava ele.

Sentado na grama atrás da casa, com os braços apoiados nos joelhos e o olhar fixo no pôr do sol, como se, por um momento, nada mais no mundo importasse.

Eduardo prendeu a respiração.

Porque Leo era lindo. Lindo de doer.

O rosto iluminado pelo dourado do sol poente, os cabelos bagunçados pelo vento, o olhar perdido no horizonte.

Eduardo se sentiu pequeno diante daquilo.

Diante da distância.

Diante da mágoa.

Diante do fato de que ele era o culpado por tudo.

Engoliu seco e, mesmo sem saber o que dizer, deu um passo à frente.

Leo percebeu sua presença, mas não olhou de imediato. Demorou um pouco. Como se estivesse ponderando se Eduardo realmente merecia sua atenção.

E então, finalmente, virou o rosto para ele. Os olhos de Leo encontraram os dele.

E Eduardo soube que estava ferrado. Porque nunca conseguia olhar para Leo e não sentir tudo de uma vez.

Respirou fundo.

— Oi.

A voz saiu mais baixa do que queria.

Leo não respondeu. Apenas desviou o olhar, voltando a encarar o sol se pondo.

Eduardo se aproximou devagar, parando ao lado dele.

O silêncio se estendeu.

O vento balançava os fios de cabelo de Leo, e Eduardo teve que resistir ao impulso de passar os dedos por ali, de tocá-lo, de sentir o calor da pele dele.

— Você não atendeu minhas ligações. — Eduardo quebrou o silêncio.

Leo soltou um riso fraco e não respondeu.

Eduardo fechou os olhos por um segundo. Ele merecia aquilo.

Ficaram mais alguns minutos calados, com Eduardo tentando encontrar palavras para cortar aquele silêncio.

— Não achei que você viria — Leo finalmente disse, ainda sem olhá-lo.

Eduardo respirou fundo.

— Eu sempre venho.

Eduardo podia fugir. Podia se esconder. Podia fingir que sua vida ao lado de Kayla era perfeita.

Mas no final…

Ele sempre voltava para Leo.

O silêncio voltou a cair entre eles, e Eduardo sentiu o peso da distância entre os dois. Sentiu a raiva silenciosa de Leo. Sentiu a própria culpa esmagando seu peito.

E então, baixinho, como um pedido de desculpa sem palavras, ele murmurou:

— Senti sua falta.

Dessa vez, Leo fechou os olhos. Porque, porra…

Ele também tinha sentido. Mas não disse nada.

Porque se dissesse, Eduardo ficaria. E no final… ele sempre ia embora.

Eduardo não aguentou.

Aquela distância, aquele silêncio, aquele olhar que dizia tanto sem dizer nada.

A mão dele se ergueu antes que pudesse pensar, os dedos deslizando pelos fios macios dos cabelos de Leo.

Ele esperava que Leo recuasse, que afastasse sua mão, que dissesse para parar.

Mas Leo não fez nada disso.

Não tirou a mão dele.

Não disse uma palavra.

Apenas ficou ali, parado, respirando mais fundo do que antes.

Eduardo passou os dedos devagar pelos fios, sentindo o toque familiar, sentindo a conexão que nunca desaparecia, não importava quantas vezes tentassem se afastar.

— Leo... — Eduardo murmurou, baixinho.

Leo fechou os olhos por um segundo. Só Eduardo fazia seu nome soar tão íntimo, tão cheio de sentimento.

Eduardo engoliu seco, os dedos ainda brincando com os fios.

— Eu sei que te machuquei.

Leo manteve os olhos fechados.

— Sei que sou um covarde.

Leo soltou o ar devagar, sem dizer nada. Eduardo abaixou a cabeça levemente, aproximando-se apenas um pouco.

— Mas eu nunca… — Sua voz falhou. — Nunca quis te perder.

Leo sentiu o peito apertar. Porque ele também não queria perder Eduardo. Mas será que Eduardo já não tinha sido perdido há muito tempo?

O vento soprou mais forte, bagunçando os cabelos de Leo e fazendo Eduardo respirar fundo.

Por fim, Leo abriu os olhos e encontrou os dele novamente.

Os olhos castanhos de Eduardo estavam carregados de algo que Leo não queria decifrar. Porque se decifrasse, sabia que ia cair.

De novo.

Como sempre.

Eduardo não resistiu.

A respiração quente de Leo estava ali, tão próxima. Seus olhos carregavam mágoa, mas também um brilho de saudade que ele conhecia bem demais.

Ele se aproximou devagar, esperando que Leo o afastasse. Esperando que dissesse não.

Mas Leo não disse nada.

Permitiu.

Mesmo magoado.

Mesmo sabendo que aquilo só o machucaria mais depois.

Os lábios de Eduardo tocaram os de Leo em um beijo hesitante, quase como um pedido de desculpas. Um pedido de desculpas silencioso, sem palavras, sem promessas.

Leo sentiu a mão de Eduardo ainda em seus cabelos, os dedos se fechando levemente, puxando-o para mais perto.

E então, por um instante, Leo cedeu.

Porque, apesar da dor, apesar de tudo, ainda era Eduardo.

Ainda era aquele beijo que ele conhecia tão bem, aquele toque que fazia seu corpo inteiro arrepiar.

O beijo se aprofundou, mais lento, mais carregado de tudo o que eles não conseguiam dizer.

Eduardo deslizou a outra mão para a nuca de Leo, segurando-o com cuidado, como se tivesse medo de que ele desaparecesse.

Leo apertou os olhos, tentando esquecer.

Tentando esquecer que estava machucado.

Tentando esquecer que Eduardo ainda era de outra pessoa.

Tentando esquecer que, no fim, ele sempre saía perdendo.

Mas, por enquanto, só por enquanto, decidiu fingir que nada mais importava.

Só aquele momento.

Só aquele beijo.

Só Eduardo.


◄☼►


Leo continuava sentado na grama, as pernas dobradas, os braços apoiados nos joelhos e o olhar fixo no horizonte. O sol descia lentamente, tingindo o céu de tons quentes de laranja e rosa, e o vento soprava leve, mexendo de leve os fios do seu cabelo. O cheiro da terra úmida e do mato cortado pairava no ar, misturado ao som distante dos grilos que já começavam a cantar.

Ele inspirou fundo, deixando o ar quente do fim de tarde preencher os pulmões. O pôr do sol sempre teve algo de hipnotizante, algo que fazia parecer, por um instante, que o tempo parava.

Mas o tempo nunca realmente parava.

Eduardo estava ali, alguns passos atrás, parado em silêncio. Ele também observava, mas não o pôr do sol, ele olhava para Leo. Como se tentasse gravar aquele momento, aquele exato instante, antes que ele escorresse pelos dedos como sempre acontecia.

Leo percebeu, mas não disse nada.

O silêncio entre eles parecia confortável e pesado ao mesmo tempo, carregado de coisas não ditas. Eduardo passou a língua pelos dentes, desviou o olhar e enfiou as mãos nos bolsos.

— Eu vou indo. — murmurou.

Leo não respondeu de imediato. Só continuou olhando para frente, como se a luz do sol se apagando no horizonte fosse mais fácil de encarar do que ele.

Depois de alguns segundos, apenas assentiu.

— Tá.

Eduardo hesitou por um momento, como se estivesse esperando algo mais. Mas nada veio. Então, respirou fundo, virou-se e foi embora.

Leo ficou ali, ouvindo os passos dele se afastarem, até que o som sumisse por completo.

Ele fechou os olhos, soltando um suspiro longo.

O vento ficou mais frio.

Algum tempo depois, ainda sentado no mesmo lugar, sentiu o celular vibrar no bolso. Ele pegou o aparelho e viu o nome de Bruno na tela.


Bruno: mano cê sumiu

Bruno: carla e davi falaram q vc se afastou deles

Bruno: ela ta mal, acha q foi dura dms c vc

Bruno: disse q mandou varias msgs e vc n respondeu

Bruno: mano responde ela pelo menos, ela ta achando q vc ta chateado com ela

Bruno: e ela acha q eh culpa dela por ficar falando do castilho e te dando sermão

Bruno: disse q n vai mais encher seu saco com isso tbm


Leo passou os dedos pelo rosto, sentindo a culpa pesar no peito.

Carla.

Ele sabia que estava se afastando. Sabia que não era justo com ela, nem com Davi. Mas, ao mesmo tempo, não sabia como lidar com tudo isso.

Porque não era só sobre a confusão na cabeça dele, era também sobre a vergonha.

Vergonha de si mesmo, de continuar preso nesse ciclo com Eduardo, de voltar para ele mesmo sabendo que no fim sempre acabava machucado.

E Carla… Carla não deixaria isso passar.

Ela sempre jogava verdades na cara dele, sempre dizia as coisas como eram, mesmo que doesse. Ela já tinha falado mil vezes que ele precisava se afastar de Eduardo, que precisava parar de se deixar levar. E agora, depois de tudo que aconteceu, Leo simplesmente não queria mais ouvir.

Ele não queria ter essa conversa.

Não queria ter que admitir que, mais uma vez, tinha feito exatamente o que ela sempre aconselhou a não fazer.

O celular vibrou de novo.


Bruno: cara, responde ela ai


Leo encarou a tela por um momento antes de bloquear o celular e jogá-lo de lado na grama.

Ele sabia que precisava responder.

Mas, por enquanto, só queria mais alguns minutos de silêncio.


◄☼►


Os dias passaram, arrastados como se o tempo tivesse perdido o ritmo.

Leo e Eduardo ainda conversavam, mas não era como antes.

As mensagens ainda vinham, mas sem aquela fluidez, sem as brincadeiras idiotas no meio da conversa. Não havia mais aqueles memes espontâneos, nem as provocações que sempre os faziam rir. As respostas demoravam mais para chegar. E quando chegavam, pareciam… vazias.

Porque havia algo ali agora. Algo que pesava entre os dois.

Mágoa.

Era quase palpável. Como uma rachadura que, por mais que tentassem ignorar, estava sempre presente.

Eduardo sentia isso a cada mensagem curta de Leo. A cada vez que ele relia as conversas antigas e percebia a diferença.

Eduardo sentia isso a cada vez que digitava algo e apagava antes de enviar.

Os dois ainda estavam ali. Ainda se procuravam.

Mas a verdade era que nada voltaria a ser como antes.

E ambos sabiam disso.


◄☼►


Os dias se arrastavam entre conversas mornas, respostas vazias e um peso que nenhum dos dois sabia como aliviar.

Mas a tensão crescia.

E então, começaram a brigar.

Muito.

Discussões que começavam com uma provocação qualquer e terminavam com palavras afiadas demais para serem esquecidas. Eduardo sempre tentava aliviar as coisas, mas Leo não deixava. Ele não queria fingir que estava tudo bem. Não queria continuar nesse teatro de normalidade quando, por dentro, estava um caos.

Ele já não conseguia mais engolir a frustração, a raiva, a dor de sempre acabar no mesmo lugar com Eduardo.

Mas o desejo ainda estava ali. E era isso que tornava tudo pior.

Porque, mesmo depois de gritos abafados, de mensagens cortantes, de silêncios pesados demais para suportar… os dois cediam ao desejo e se entregavam um ao outro.

Muitas vezes.

Com a mesma intensidade com que brigavam.

Era quase inevitável. Como se cada discussão deixasse uma carga elétrica no ar que só pudesse ser dissipada no toque, no beijo, no jeito desesperado com que se puxavam para perto.

Era bruto, era intenso, era algo que consumia os dois.

Mas, depois, sempre sobrava um gosto amargo.

Porque o problema continuava lá.

E Leo não sabia por quanto tempo ainda aguentaria viver nesse ciclo.

E Eduardo… Eduardo também não sabia mais como segurar aquilo.

Mas quando estavam juntos, quando as palavras se esgotavam e o silêncio ficava pesado demais… o desejo tomava conta.

Eles se entregavam um ao outro.

Era sempre urgente, intenso, como se quisessem arrancar um do outro tudo o que não conseguiam dizer.

Leo se entregava completamente. Deixava que Eduardo o tomasse, que marcasse seu corpo do jeito que só ele sabia fazer. Porque, no fundo, era isso que ele queria: sentir. Mesmo que doesse depois.

E às vezes, Eduardo também se entregava.

Havia noites em que era ele quem cedia, quem fechava os olhos e deixava Leo dominá-lo. Noites em que, por alguns instantes, ele largava o peso do mundo e apenas sentia.

Mas, depois, sempre vinha o silêncio. Sempre vinha o vazio.

E, no fundo, Leo sabia que isso nunca era suficiente.

Porque, no final, não importava o quanto se entregassem um ao outro.

Eduardo nunca ficava.