O Garoto Feito de Sol e Terra
65 Capítulo 65 — Onde Só Nós Existimos
O sol já entrava pelas frestas das cortinas quando Eduardo abriu os olhos. Sentiu o corpo quente de Leo contra o seu, a respiração leve dele batendo em seu pescoço. Eles estavam abraçados, encaixados de um jeito tão natural que parecia que sempre tinham dormido assim.
Eduardo sorriu de leve, fechando os olhos de novo por um instante, aproveitando aquele momento antes que a realidade voltasse a pesar.
Mas então, sentiu Leo se mexer.
Leo resmungou algo inaudível, virou-se um pouco e lentamente abriu os olhos. Quando percebeu onde estava e como estavam, seu corpo ficou mais rígido, como se a consciência tivesse voltado com tudo.
Ele ficou olhando para o teto por alguns segundos, perdido em pensamentos. Eduardo não precisava perguntar para saber no que ele estava pensando.
Ele sabia.
Sabia que, assim que voltassem, tudo seria como antes. Que ele voltaria para Kayla.
Mas Leo não disse nada sobre isso e Eduardo também não. Porque, por ora, eles estavam ali. E era tudo que importava.
◄☼►
Depois de tomarem banho e se vestirem, desceram juntos para o salão do resort. O lugar estava cheio de hóspedes tomando café. O cheiro de café fresco e pão quentinho inundava o ar.
Eduardo e Leo se sentaram em uma mesa perto da janela, após estarem com seus pratos cheios de comida. Leo estava mais animado do que de costume, brincando com a comida no prato enquanto falava sobre qualquer coisa aleatória.
Eduardo adorava vê-lo assim.
— Esse café da manhã tá bom pra caralho — Leo disse, colocando um pedaço de bolo na boca.
— Você fala isso porque come que nem um animal — Eduardo zombou.
Leo arqueou uma sobrancelha, pegou um pão de queijo e, sem pensar duas vezes, jogou direto no rosto de Eduardo.
O impacto não foi forte, mas fez Eduardo arregalar os olhos, completamente surpreso.
O silêncio durou apenas dois segundos.
E então, Leo caiu na gargalhada.
— Mano, olha sua cara! — Ele se segurava de tanto rir.
Eduardo pegou o pão de queijo do colo, piscou algumas vezes, sentindo as bochechas esquentarem. Algumas pessoas na mesa ao lado olharam para eles com curiosidade.
Ele respirou fundo e apontou para Leo.
— Você vai pagar por isso.
— Duvido.
Eduardo semicerrou os olhos, pegou um pedaço de pão e fingiu que ia jogar de volta.
— Você não teria coragem — Leo desafiou, rindo.
Eduardo ficou encarando ele por um segundo.
Leo realmente estava lindo ali, rindo, os olhos brilhando de diversão. Parecia tão leve, tão feliz.
Então, ao invés de jogar o pão, Eduardo apenas pegou um gole do suco, sorrindo de canto.
— Eu vou esperar o momento certo.
Leo revirou os olhos, mas Eduardo sabia que ele estava adorando aquilo.
Era nesses momentos, nesses instantes de descontração, que Eduardo percebia o quanto Leo era importante para ele.
O problema era que, em breve, eles voltariam. E Eduardo sabia que esse sorriso de Leo iria sumir.
Sentados ali, no salão de café da manhã, cercados por outros hóspedes que conversavam animadamente, Eduardo e Leo pareciam apenas dois amigos aproveitando a refeição juntos. Mas havia algo nos olhares, nos pequenos gestos, que denunciava o que realmente acontecia entre eles.
Leo ainda sorria depois da brincadeira do pão de queijo, tomando um gole do café, distraído. Eduardo, por outro lado, não desviava os olhos dele.
Em um momento, quando ninguém estava olhando, Eduardo deslizou a mão pela mesa e pegou a de Leo, apertando-a suavemente.
Leo piscou, surpreso, sentindo a pele quente de Eduardo contra a sua.
Por um segundo, pensou em puxar a mão de volta, mas não conseguiu. Ao invés disso, apenas entrelaçou os dedos nos dele, sentindo aquela familiaridade perigosa.
Eduardo abaixou o olhar para as mãos unidas sobre a mesa, um sorriso pequeno se formando em seu rosto.
— Cê sabe que a gente tá no meio de um monte de gente, né? — Leo murmurou, a voz baixa, mas sem afastar a mão.
— Sei — Eduardo respondeu, dando de ombros.
Leo o olhou por um instante, como se quisesse entender o que Eduardo estava pensando. Mas Eduardo só continuou ali, segurando sua mão com um toque firme, seguro.
Por mais que Leo soubesse que aquilo era errado, que no fim voltariam para a realidade, naquele momento, ele só queria sentir.
Então, ao invés de soltar a mão, apenas apertou um pouco mais forte.
◄☼►
Depois do café, Eduardo e Leo seguiram para a área da jacuzzi. O resort não era de luxo, mas era bom o suficiente, e naquela manhã o espaço estava vazio. A água borbulhava suavemente, convidativa, e o sol filtrava-se através dos vidros amplos da área fechada, deixando tudo com um brilho dourado.
— Tem certeza que não tem ninguém? — Leo perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Eduardo deu uma olhada ao redor e sorriu.
— Só nós dois.
Sem hesitar, Leo entrou na jacuzzi primeiro, sentindo a água quente envolver seu corpo. Eduardo logo o seguiu, submergindo até a cintura, fechando os olhos por um instante e soltando um suspiro satisfeito.
— Porra, isso é bom — murmurou.
— Pois é — Leo concordou, encostando-se na borda.
Por alguns minutos, ficaram ali, aproveitando o calor da água, deixando que o silêncio falasse por si. Mas Eduardo não conseguia simplesmente relaxar. Não quando Leo estava ali, molhado, com gotículas escorrendo pelo rosto e pelos ombros.
— Tá me olhando por quê? — Leo perguntou, desconfiado.
Eduardo deu de ombros.
— Porque você é lindo.
Leo revirou os olhos, mas o tom vermelho que subiu por seu rosto não passou despercebido.
— Para de falar merda — resmungou, pegando um pouco de água com as mãos e jogando no rosto de Eduardo.
Eduardo riu e revidou, jogando água de volta, e logo os dois estavam se provocando, salpicando água um no outro, rindo como duas crianças.
A risada de Leo ecoou pelo espaço, e Eduardo sentiu o peito apertar. Ele amava aquele som. Amava ver Leo assim, despreocupado, com os olhos brilhando, sem as sombras que normalmente pairavam sobre eles.
E então, sem pensar muito, apenas se aproximou e segurou o rosto de Leo entre as mãos.
Leo parou na hora, os lábios entreabertos, o coração martelando.
— O que foi? — murmurou.
Eduardo não respondeu. Apenas inclinou-se e o beijou.
Foi um beijo lento, intenso, diferente dos outros. A água morna ao redor tornava tudo mais envolvente, mais íntimo. Leo correspondeu na hora, as mãos indo instintivamente para a nuca de Eduardo, segurando-o.
A jacuzzi borbulhava ao redor deles, mas nada parecia mais quente do que o próprio toque.
Eduardo deslizou os dedos pela cintura de Leo, sentindo a pele quente sob seus dedos. Leo suspirou contra sua boca, o coração acelerado.
Ali, naquele momento, não havia Kayla. Não havia segredos. Não havia medo.
E Eduardo queria que fosse sempre assim.
◄☼►
O beijo ainda estava quente nos lábios de Eduardo quando ele ouviu o som de passos ecoando pelo espaço da jacuzzi. Seu coração deu um salto imediato, e Leo também percebeu, afastando-se no mesmo instante, os olhos arregalados.
— Merda… — Leo murmurou, limpando os lábios com a mão, como se aquilo fosse apagar o que tinham acabado de fazer.
Eduardo olhou ao redor e viu um casal entrando no ambiente. Os dois pareciam despreocupados, conversando baixo enquanto se aproximavam da jacuzzi.
— Vamos sair daqui — Eduardo sussurrou.
Leo apenas assentiu, e os dois saíram da água rapidamente, pegando suas toalhas e fingindo naturalidade enquanto passavam pelo casal. Eduardo sentiu o olhar de Leo em si, como se estivesse esperando alguma reação.
Mas Eduardo apenas sorriu.
— Foi quase — disse baixinho, enquanto caminhavam pelo corredor do resort.
Leo revirou os olhos, mas um sorrisinho apareceu em seu rosto.
— Você tem sorte que ninguém viu — respondeu.
— Eu tenho sorte de ter te beijado — Eduardo rebateu, piscando para ele.
Leo empurrou o ombro de Eduardo de leve, mas estava rindo, e Eduardo adorava isso.
Eles seguiram andando pelo resort sem rumo certo, apenas aproveitando o dia. O sol estava forte, iluminando os jardins bem cuidados, as áreas comuns movimentadas por outros hóspedes.
Em algum momento, Leo puxou Eduardo pelo braço e apontou para uma parte mais isolada, onde havia um pequeno lago artificial com um banco de madeira ao lado.
— Vamos sentar um pouco ali. — sugeriu.
Eduardo concordou e os dois se sentaram, observando a água calma, os reflexos do céu azul na superfície.
— Nunca pensei que passar um fim de semana assim fosse tão bom. — Leo comentou, mexendo em uma pedrinha no chão com o pé.
Eduardo sorriu.
— Eu também não.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas apreciando a tranquilidade do lugar. Eduardo queria guardar aquele momento para sempre.
Sem brigas. Sem mágoas.
E então, como se lesse seus pensamentos, Leo disse:
— Pena que não pode ser assim o tempo todo.
Eduardo olhou para ele e viu algo triste em seu olhar.
E por mais que quisesse dizer que poderia ser assim, que poderiam estar juntos sempre, sabia que não era tão simples.
Então, em vez de responder, apenas pegou na mão de Leo debaixo do banco, escondido dos olhos do mundo.
Leo apertou de volta. E por enquanto, isso era bom o bastante.
◄☼►
O restaurante do resort tinha um ambiente aconchegante, com mesas bem organizadas e uma vista panorâmica para os jardins. O cheiro da comida fresca pairava no ar, e Eduardo e Leo estavam sentados em uma mesa próxima à janela, onde o sol iluminava suavemente o espaço.
Eles já tinham feito o pedido e estavam distraídos, conversando sobre coisas aleatórias. Eduardo estava contando uma história sobre uma vez em que caiu da bicicleta quando era criança, e Leo ria, imaginando a cena.
— Eu voei, cara! Parecia cena de desenho animado — Eduardo gesticulou exageradamente, arrancando mais uma risada de Leo.
— E como você sobreviveu a isso? — Leo brincou, ainda sorrindo.
— Eu não sei — Eduardo deu de ombros. — Talvez seja um milagre.
Leo balançou a cabeça, prestes a fazer mais um comentário, quando o celular de Eduardo vibrou em cima da mesa.
O sorriso sumiu do rosto de Eduardo no instante em que o nome brilhou na tela.
Kayla.
O tempo pareceu desacelerar. Eduardo ficou paralisado, apenas encarando o celular vibrando ali, como se fosse uma bomba prestes a explodir.
Leo também viu.
O olhar dele ficou sério, a expressão fechada, mas sua voz saiu calma, quase fria:
— Atende.
Eduardo não se moveu.
— Edu — Leo insistiu, mais firme.
Eduardo apenas apertou os lábios, sem desviar os olhos do nome de Kayla.
A ligação continuava tocando. O tempo parecia se esticar em uma tortura silenciosa.
Leo cruzou os braços, encarando Eduardo como se estivesse esperando uma reação.
— Você não vai atender?
Eduardo respirou fundo, pegou o celular e, sem hesitar, virou-o com a tela para baixo, silenciando a vibração.
— Não agora — murmurou.
Leo soltou um riso seco, descrente.
— Sério? Você realmente vai ignorar?
Eduardo esfregou o rosto com as mãos, já sentindo o peso do que aquilo significava.
— Eu só… não quero falar com ela agora.
Leo ficou quieto por um momento.
A comida chegou, os pratos foram colocados na mesa, mas nenhum dos dois fez menção de comer.
Leo então pegou o próprio garfo, espetou um pedaço da comida e disse, sem olhar para Eduardo:
— Você sabe que, eventualmente, vai ter que falar com ela, né?
Eduardo assentiu devagar, sem responder.
Porque sim. Ele sabia. Mas ali, naquele momento, ele queria continuar fingindo que não.
◄☼►
Passaram-se alguns minutos.
Eduardo observou Leo largar os talheres na mesa, pegar o guardanapo e se levantar sem pressa. Mas ele conhecia Leo o suficiente para saber que aquele movimento calmo era apenas um disfarce.
Leo sempre tentava fingir que estava bem.
— Vou ao banheiro — disse, sem olhar diretamente para Eduardo.
Eduardo apenas assentiu, mas não conseguiu responder. O nó na sua garganta não deixava.
Leo saiu sem pressa, mas seu corpo estava tenso. Eduardo sentiu o estômago se revirar.
A tela do celular ainda brilhava, virada para baixo sobre a mesa. Ele não precisava olhar para saber que Kayla provavelmente mandaria uma mensagem logo, perguntando por que ele não atendeu.
Ele se sentia um lixo.
Como podia estar ali, com Leo, vivendo aqueles momentos como se fossem um casal de verdade, enquanto sua namorada tentava contato? Como podia desejar tanto Leo e, ao mesmo tempo, continuar mentindo para Kayla?
O pior de tudo era que ele queria que aquele fim de semana durasse para sempre. Mas o toque da realidade sempre voltava, como uma faca atravessando sua bolha de ilusão.
Ele suspirou, esfregando as mãos no rosto e olhando ao redor, tentando afastar a sensação sufocante de culpa.
Pegou o garfo, fingindo que ia comer, mas seu apetite tinha sumido.
Seu olhar vagou pela mesa, pela comida intacta, pelo lugar vazio de Leo, e tudo parecia errado.
A viagem tinha sido perfeita até aquele momento. Mas agora, o ar parecia pesado. Eduardo não sabia como consertar.
E o pior? Ele sabia que era o único culpado.
◄☼►
Eduardo endireitou a postura na cadeira quando viu Leo se aproximando. Ele forçou um sorriso, tentando mascarar a tensão, mas Leo não era burro.
Os olhos de Leo passaram pela mesa, pelo celular de Eduardo virado para baixo, e depois encontraram os dele. Um silêncio curto, mas pesado.
Eduardo respirou fundo e, antes que Leo pudesse dizer algo, decidiu agir primeiro.
— Demorou, hein? Achei que tinha fugido e me deixado pagar a conta sozinho.
Leo arqueou uma sobrancelha, desconfiado, mas puxou a cadeira e se sentou.
— Quem dera — respondeu, pegando um pedaço de pão.
Eduardo sorriu, pegou seu copo e balançou a bebida de leve.
— Então... depois daqui, a gente podia ir ver aquele campo de golfe que tem ali, só pra eu poder humilhar você na pontaria.
Leo bufou, revirando os olhos.
— Você nunca jogou golfe na vida.
— E você já?
Leo abriu a boca, mas hesitou.
Eduardo riu.
— Ah, sabia.
Leo balançou a cabeça, escondendo um sorriso enquanto levava um gole do suco.
Por alguns instantes, a tensão que pairava no ar começou a se dissipar. Eduardo sabia que não podia apagar a realidade com piadas, mas também sabia que se deixassem o clima pesar, a viagem ia por água abaixo.
Ele queria aproveitar o tempo com Leo. Queria esquecer o que esperava por eles quando voltassem para casa.
E, quando viu Leo rindo de um comentário aleatório, percebeu que, pelo menos por agora, tinha conseguido.
◄☼►
Depois do almoço, Eduardo e Leo seguiram até o campo de golfe do resort. O sol estava mais ameno naquela tarde, e o lugar estava praticamente vazio. Apenas um casal mais velho jogava em outra extremidade do campo, longe o suficiente para que os dois pudessem agir à vontade.
Eduardo pegou um taco e girou nos dedos, fingindo ser um profissional.
— Certo, agora observe um mestre em ação.
Leo cruzou os braços, rindo.
— Se errar feio, vou rir até amanhã.
— Como se isso fosse acontecer.
Eduardo ajeitou a postura, mirou a bola e deu a tacada. A bola rolou um metro e parou no meio da grama, miseravelmente.
Leo abriu um sorriso lento, maldoso.
— Uau. Que desempenho.
Eduardo apontou o taco para ele.
— Calado, faz melhor então.
Leo pegou um taco, segurando do jeito errado de propósito.
— Tipo assim?
Edu revirou os olhos, rindo.
— Meu Deus, que desastre. Tá segurando igual um velho seguraria uma bengala.
Ele se aproximou por trás de Leo, pegando suas mãos e ajeitando a pegada no taco.
— Assim, ó. Se posiciona desse jeito… agora flexiona um pouco os joelhos…
Leo engoliu seco. Eduardo estava perto demais. Quente demais.
Ele então se desvencilhou, mirou e bateu na bola. Dessa vez, foi muito melhor que a tentativa fracassada de Eduardo.
Leo sorriu convencido.
— Melhor que você.
Eduardo fingiu indignação.
— Eu que ensinei, não conta.
— Conta sim.
— Ah, é?
Eduardo não deu tempo de resposta. Pegou um punhado de grama seca do chão e jogou na direção de Leo, que arregalou os olhos.
— FILHO DA—
Leo pegou um punhado maior e jogou de volta.
E foi assim que o jogo de golfe se transformou numa guerra boba de grama seca e empurrões leves. Eduardo corria para longe de Leo, rindo, enquanto o outro tentava agarrá-lo para revidar.
Por alguns minutos, nada mais existia.
No final, Leo conseguiu agarrar Eduardo e os dois caíram na grama, rindo sem fôlego.
Eduardo olhou para Leo, ainda rindo.
— Eu devia te odiar por isso.
Leo revirou os olhos.
Eduardo olhou para o rosto de Leo, para a curva dos lábios entreabertos, para os olhos que brilhavam sob o sol da tarde.
Leo desviou o olhar, meio desconcertado, e se levantou rapidamente, estendendo a mão para Eduardo.
— Vem, mestre do golfe. Vamos sair daqui antes que alguém reclame.
Eduardo pegou a mão dele, sentindo o toque quente e firme.
E, por um instante, pensou que talvez fosse capaz de viver naquele momento para sempre.
◄☼►
Depois de saírem do campo de golfe, Eduardo o puxou pelo braço e o levou para um canto mais afastado, onde havia algumas árvores altas e um banco de madeira. Era um daqueles lugares escondidos do resort, um cantinho que ninguém parecia notar.
Leo arqueou uma sobrancelha, olhando ao redor.
— Você planejou isso?
Eduardo sorriu de canto.
— Não, mas não vou negar que é perfeito.
Leo riu baixo e se recostou contra o tronco de uma árvore. Eduardo se aproximou devagar, sentindo a respiração de Leo desacelerar. Os olhos de Leo passearam pelo rosto dele, como se procurassem algo. Talvez uma resposta.
Eduardo ergueu a mão e tocou a bochecha dele com o polegar.
— Você tá lindo.
Leo revirou os olhos, mas Eduardo viu o leve rubor se espalhar por seu rosto.
— Cala a boca.
Eduardo não calou. Apenas inclinou a cabeça e encostou os lábios nos dele.
Foi um beijo calmo, diferente da fome que normalmente explodia entre os dois. Era quente e íntimo, mas sem pressa. Eduardo deslizou as mãos pelos braços de Leo, segurando sua cintura com firmeza.
Leo segurou a camisa de Eduardo entre os dedos, como se quisesse se ancorar ali.
O beijo era lento, profundo.
Eles não precisavam correr.
Ali, naquele canto escondido, sem ninguém olhando, sem ninguém esperando nada deles… eles podiam apenas ser.
Eduardo separou os lábios devagar, mantendo a testa encostada na de Leo.
— Se eu pudesse, ficaria aqui com você pra sempre.
Leo sorriu contra os lábios dele, os olhos meio fechados.
— E se alguém nos pegar aqui?
Eduardo deslizou o nariz pelo rosto dele, roçando de leve na pele quente.
— Então a gente inventa uma desculpa bem esfarrapada.
Leo riu, baixinho, e beijou Eduardo de novo.
Eles sabiam que, uma hora ou outra, o mundo lá fora chamaria por eles. Mas, por enquanto, ali, naquele canto escondido… só existiam os dois.
◄☼►
O dia passou mais rápido do que Eduardo queria.
Eles provocaram um ao outro o tempo todo, como se fossem dois garotos sem nenhuma preocupação no mundo. Riram enquanto jogavam água um no outro na piscina, disputaram para ver quem conseguia prender a respiração por mais tempo, roubaram beijos sempre que tinham certeza de que ninguém estava olhando.
Era fácil esquecer da realidade ali.
Era fácil fingir que tudo era simples.
Mas então a tarde caiu, e o relógio não teve piedade.
Eduardo olhou para Leo enquanto arrumavam suas coisas no quarto. Leo estava sentado na cama, dobrando devagar uma camisa, o olhar distante.
Ele também sentia aquele fim iminente.
— Vamos? — Eduardo perguntou, tentando manter a voz leve.
Leo olhou para ele, hesitou por um instante, depois se levantou.
Os dois pegaram suas mochilas e seguiram para a saída do resort. Caminharam lado a lado até o ponto onde o ônibus os buscaria, sem falar muito.
A adrenalina que tinham sentido o dia inteiro, os sorrisos, os toques furtivos, tudo parecia mais pesado agora. Eduardo queria dizer algo, mas nada parecia suficiente.
Quando o ônibus chegou, os dois subiram, sentando-se lado a lado. Eduardo olhou para Leo, que olhava pela janela. O reflexo do vidro mostrava seu rosto tranquilo, mas Eduardo conhecia Leo o suficiente para saber que era só fachada.
Eduardo queria segurar sua mão, queria prolongar aquilo, queria continuar no paraíso que criaram naquele fim de semana.
Mas o ônibus deu a partida, e com ele veio a lembrança cruel da realidade.
O fim de semana tinha acabado.
E, quando chegassem em casa, Eduardo voltaria para Kayla.
O ônibus avançava pela estrada, a paisagem do interior passando lentamente pela janela. O silêncio entre eles era quase palpável, como se cada um estivesse tentando segurar as últimas horas dentro de si, prolongando o inevitável.
Leo sentia o peso daquele momento no peito. A vontade de chorar apertava sua garganta, mas ele não derramaria nenhuma lágrima ali. Não na frente de Eduardo.
Ele manteve os olhos fixos na janela, assistindo o mundo passar, como se pudesse congelar o tempo com o olhar.
Então, sentiu um toque quente.
Eduardo entrelaçou o braço no dele, sem dizer nada. Apenas encostou seu corpo contra o de Leo, oferecendo um gesto simples, mas carregado de significado.
Leo não se afastou.
Ele fechou os olhos por um instante, absorvendo o calor do toque. Queria guardar aquele momento para sempre, porque sabia que, assim que o ônibus chegasse, tudo aquilo ficaria para trás.
Eles não eram um casal.
Eles não podiam ser.
E Leo se permitiu viver aquilo por mais alguns instantes antes da realidade os alcançar.
◄☼►
A rodoviária estava movimentada, com gente indo e vindo, carregando malas, sacolas, conversando alto. Mas, para Eduardo e Leo, tudo parecia abafado, como se o mundo estivesse acontecendo em outro plano, distante deles.
Eles estavam parados ali, lado a lado, sem dizer nada. O fim de semana tinha sido perfeito. Por algumas horas, eles puderam esquecer tudo, deixar de lado as mentiras, os segredos, as obrigações. Mas agora, voltando para suas realidades separadas, a sensação era quase sufocante.
Eduardo olhou para Leo, querendo dizer algo, qualquer coisa que fizesse aquele momento durar mais um pouco. Mas as palavras não vinham.
Então, em um impulso, pegou na mão de Leo.
Foi rápido. Um toque breve, quase imperceptível para quem olhasse de longe, mas carregado de significado.
Leo sentiu os dedos de Eduardo se entrelaçarem nos seus por um segundo antes de soltarem.
Eles trocaram um olhar.
— A gente se fala — Eduardo murmurou, tentando soar despreocupado, mas a tensão em sua voz entregava tudo.
Leo assentiu e disse:
— Se cuida.
E então, sem mais palavras, cada um seguiu seu caminho.
Leo caminhou para longe, sem olhar para trás. Eduardo ficou parado por alguns instantes, observando até que Leo desaparecesse no meio da multidão.
Ele soltou um suspiro pesado e, com um aperto no peito, virou-se para ir embora.
Fale com o autor