O Garoto Feito de Sol e Terra
6 Capítulo 6 — Escolhas Que Não São Escolhas
O sol da manhã iluminava as ruas de São Tomás quando Helena Castilho desceu do carro e caminhou até a pequena floricultura local chamada "Flores da Dona Aurora".
A loja de dona Aurora ficava perto da praça central, um espaço aconchegante com vasos coloridos e um cheiro doce de flores frescas no ar.
Assim que adentrou a loja, seus olhos percorreram os arranjos meticulosamente organizados antes de se voltarem para a proprietária, uma senhora de cabelos grisalhos e olhar atento, que a recebeu com um sorriso acolhedor.
— Bom dia, a senhora é a dona Aurora, certo? — perguntou Helena, adentrando a loja e olhando os arranjos com interesse.
Dona Aurora sorriu educadamente.
— Bom dia, sou sim. E a senhora é Helena, a nova moradora, certo?
Helena assentiu, sorrindo levemente.
Houve uma pausa confortável, até que dona Aurora perguntou:
— Veio escolher alguma coisa especial?
— Ah, nada demais... Quero algumas flores para decorar a casa. Aquele lugar precisa de um pouco mais de vida, sabe?
Dona Aurora apenas assentiu, continuando a ajeitar um buquê.
Enquanto percorria os olhos pelas prateleiras repletas de flores, Helena suspirou, como quem tenta decidir se deve ou não compartilhar um pensamento.
— Ah… e também tenho outra preocupação. Estou tentando conseguir uma vaga para o meu filho Eduardo na escola particular da cidade.
Dona Aurora ergueu os olhos.
— Ah, é?
— Sim, não vejo a hora de tirá-lo daquela escola pública… — Helena fez uma pausa e torceu o nariz. — Uma verdadeira espelunca, se quer saber. Já demorou demais. Ele foi parar lá por falta de opção, mas esse não é o lugar para o meu filho.
Dona Aurora continuou ajeitando as flores, mas seu rosto se fechou por um instante.
Ela queria muito dizer alguma coisa. Queria defender a escola onde sua neta estudava, onde tantas crianças boas estavam crescendo e aprendendo. Mas, em vez disso, apenas apertou os lábios e forçou um sorriso discreto.
— É… entendo.
Helena não percebeu o tom seco da vendedora.
— Espero que essa vaga saia logo. Não aguento mais esperar.
Dona Aurora apenas assentiu, entregando as flores que Helena havia escolhido e finalizando a compra.
◄☼►
Carla morava com a avó desde pequena. Sua mãe, filha única de dona Aurora, havia se mudado para outra cidade anos atrás em busca de melhores oportunidades de trabalho, deixando a menina aos cuidados da avó. Com o tempo, a casa pequena e aconchegante, com suas paredes cobertas de fotos antigas e vasos de flores espalhados por todos os cantos, tornou-se o único lar que Carla conhecia de verdade.
Naquela noite, enquanto Dona Aurora fechava a floricultura e trancava a porta da frente, Carla já estava confortável no sofá da sala, com um pacote de biscoitos na mão e os olhos presos na novela.
Dona Aurora suspirou ao se sentar ao lado dela, massageando os próprios ombros, cansada do dia longo.
— Ai, ai... Cada coisa que a gente tem que ouvir, viu…
Carla desviou o olhar da televisão, mastigando devagar antes de responder:
— O que foi agora?
O tom dela era casual, mas também carregava um traço de curiosidade. Com uma avó que passava o dia atendendo clientes e ouvindo todo tipo de conversa, sempre havia alguma novidade ou fofoca vinda da floricultura.
— Tem uma nova moradora rica na cidade, tal de Helena. Comprou flores comigo hoje. Ela ficou falando que tá desesperada pra tirar o filho dela da escola pública. Disse que é uma espelunca.
Carla revirou os olhos.
— Nossa.
Dona Aurora suspirou.
— Como se o filho dela fosse melhor que os outros daqui. Mas eu fiquei quieta. Vai discutir com gente assim? Só fingindo que concorda mesmo.
Carla fechou a cara.
— E esse filho dela, quem é?
— Não lembro o nome, mas ele já estuda lá.
Carla ficou pensativa.
— Já estuda lá…
Foi só então que sua mente conectou os pontos.
A nova moradora rica. Um filho que estuda na escola pública.
Será que era Eduardo?
◄☼►
Na manhã seguinte, Carla encontrou Eduardo no recreio, como sempre. Leo estava junto, sentado no chão enquanto tentava abrir um pacote de salgadinho amassado.
Carla, sem rodeios, se sentou ao lado deles e foi direto ao ponto.
— Eduardo, é verdade que sua mãe tá desesperada pra te tirar dessa escola?
Eduardo, que estava distraído mexendo nos cadarços do tênis, parou no meio do movimento e levantou o olhar.
— O quê?
— Minha avó me falou que uma nova moradora rica foi lá na loja dela e ficou dizendo que a escola pública é uma espelunca e que não vê a hora de tirar o filho dela daqui. Tô achando que esse filho é você.
Leo, que até então estava mais focado no salgadinho, levantou a cabeça na hora.
— Sua mãe quer te tirar da escola? — sua voz mudou, ficando mais séria.
Eduardo hesitou.
— Eu… minha mãe realmente quer que eu vá pra escola particular no ano que vem.
—E quando você ia me contar isso? — Leo indagou.
Eduardo engoliu seco.
— Eu ia contar…
— Ia? Quando? — Leo perguntou. — Quando você já tivesse saído e estivesse estudando com os riquinhos do centro?
— Não é assim, Leo!
— E como é, então?!
Eduardo sentiu um aperto no peito.
— Eu nem sei se vou mesmo!
— Como não? Logo mais você vai estar naquela escola dos riquinhos do centro.
Eduardo travou a mandíbula.
— Ah, então agora eu sou o culpado? Minha mãe quer que eu vá, não eu!
— Mas você não faz nada pra impedir, né?
— O que você queria que eu fizesse, Leo?!
Leo cruzou os braços, encarando Eduardo como se estivesse esperando que ele dissesse algo diferente, algo que mudasse o rumo daquela conversa.
Mas Eduardo não disse nada.
O silêncio entre os três foi tenso. Carla olhou de Eduardo para Leo, sentindo a tensão aumentar a cada segundo.
— E por que você não pode reagir? — perguntou Carla, sua voz soando desafiadora. — Por que você não pode dizer que quer ficar aqui?
Eduardo bufou, desviando o olhar.
— Vocês não entendem. Não é assim que as coisas funcionam.
— Como assim, não é assim? — Carla insistiu.
Eduardo passou a mão pelos cabelos escuros, sentindo a pressão crescer.
— A vida de vocês é diferente da minha. Eu não posso simplesmente decidir tudo sozinho. Minha mãe quer que eu vá pra escola particular porque acha que é o melhor pra mim. Eu posso até reclamar, mas no fim… no fim, vocês sabem que eu vou acabar indo.
Leo, que estava calado, encarou Eduardo por um instante. Então, sem dizer uma palavra, se levantou e saiu, caminhando rapidamente para longe.
Carla acompanhou Leo com o olhar e suspirou.
— Ele deveria saber que isso aconteceria.
Eduardo olhou para ela, confuso.
— O quê?
— Que um dia você ia embora. Ele sempre soube — Carla disse, cruzando os braços. — Só não queria aceitar.
Eduardo sentiu um peso se instalar no peito. Ele queria dizer algo, queria correr atrás de Leo e explicar. Mas explicar o quê? Ele mesmo não sabia como evitar aquilo.
Porque, no fundo, Leo estava certo.
Ele ia embora, mais cedo ou mais tarde.
◄☼►
Eduardo passou o resto do dia inquieto.
As palavras de Leo e Carla ecoavam na sua cabeça como um eco interminável. Ele sabia que Leo estava magoado, sabia que Carla estava frustrada, e, no fundo, sabia que eles tinham razão. Ele nunca tentou impedir sua mãe de procurar a vaga na escola particular. Nunca brigou por isso.
Porque sempre soube que, no fim das contas, não adiantaria.
Mas agora, depois da briga, depois de ver a expressão de decepção nos olhos de Leo, algo dentro dele o impulsionava a fazer o que nunca teve coragem.
Ele precisava perguntar.
Naquela noite, depois do jantar, Helena Castilho estava sentada na sala, folheando uma revista de decoração enquanto tomava um chá. Eduardo respirou fundo e se aproximou.
— Mãe.
Ela ergueu os olhos, surpresa com o tom sério do filho.
— Sim?
Eduardo cruzou os braços, tentando organizar os pensamentos.
— Por que eu não posso continuar na escola onde estou?
Helena piscou, fechando a revista com calma.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que eu gosto da escola. Gosto dos meus amigos. Gosto da minha vida lá.
Helena suspirou, colocando a xícara sobre a mesa.
— Eduardo, nós já conversamos sobre isso. Você não vai ficar nessa escola para sempre.
— Mas por quê? Qual é o problema de eu ficar?
Ela o encarou por um momento antes de responder.
— Porque essa escola não é o seu lugar.
Eduardo franziu a testa.
— E por que não seria?
— Porque você não vai passar a vida toda correndo por aí, se sujando de terra e indo para aquela fazenda. Você precisa acordar para a vida real, filho.
Eduardo sentiu o estômago revirar.
— E a vida real é o quê? Estudar em uma escola cheia de gente rica, onde eu nem quero estar?
Helena apoiou os cotovelos nos braços do sofá, cruzando as mãos com paciência.
— A vida real é entender que certas coisas são passageiras, Eduardo. Seus amigos são importantes, claro. Mas um dia, você vai crescer. Vai precisar de um ensino de qualidade, de oportunidades melhores. O que é melhor para você não é brincar no campo ou correr pela cidade. É estudar, se formar, ter um futuro.
Eduardo apertou os punhos.
— E se o que eu quero for diferente do que você acha que é melhor para mim?
Helena não pareceu abalada com a pergunta.
— Então um dia você vai entender que eu estava certa.
Eduardo sentiu a raiva crescer dentro dele.
— E se eu ficar?
Helena soltou uma risada curta.
— Eduardo, por favor. Você acha que pode decidir isso? Você acha que vai conseguir convencer seu pai a desistir de pagar uma escola boa pra você? Ele sabe o que é melhor para o filho dele. Acha que vai convencer ele a manter você na escola pública só por que você quer? Você acha que, daqui a alguns anos, quando estiver mais velho, ainda vai querer brincar com os mesmos amigos, ir para a mesma fazenda, fingindo que sua vida não precisa mudar?
Eduardo abriu a boca para responder, mas as palavras travaram.
Helena percebeu.
Ela se inclinou um pouco para frente e disse com suavidade, mas com firmeza:
— Acho que você já sabe a resposta.
Eduardo sentiu algo apertar em seu peito.
Ela pegou a revista novamente e voltou a folheá-la como se a conversa já estivesse encerrada.
Ele ficou ali, parado, olhando para a mãe como se esperasse que ela dissesse algo diferente. Algo que o fizesse acreditar que ainda tinha uma escolha.
Mas, no fundo, ele sabia.
Ele nunca teve escolha.
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