O Garoto Feito de Sol e Terra

7 Capítulo 7 — Consertando os Estragos


Nos dias que se seguiram, Eduardo sentiu o peso do distanciamento de Leo.

O amigo não o evitava completamente, mas também não fazia questão de estar por perto. Quando estavam no mesmo grupo, Leo ficava calado, sem o entusiasmo de sempre. Se Eduardo falava com ele, as respostas eram curtas, secas, sem a mesma energia de antes.

Bruno e Davi notaram.

— Então é verdade mesmo? — perguntou Bruno, um dia, enquanto estavam sentados na escadinha perto do pátio.

— O quê? — Eduardo perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

— Que sua mãe tá tentando te transferir pra escola particular.

Davi balançou a cabeça.

— Fiquei sabendo disso ontem. Todo mundo tá falando.

Eduardo suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Sim, ela quer. Mas eu não queria que fosse assim.

Bruno deu de ombros.

— Bom, se você for, pelo menos já conheceu os dois lados. Vai poder falar tanto da vida dos ricos quanto da nossa.

Eduardo riu fraco, mas Davi não pareceu tão tranquilo.

— Mas você ainda vai andar com a gente, né? Tipo, mesmo que vá pra outra escola.

Eduardo hesitou por um segundo antes de responder:

— É claro que sim. Isso não vai mudar.

Davi assentiu, mas ainda parecia desconfiado.

O problema era que Eduardo sabia que mudaria. Mesmo que ele não quisesse, algumas coisas mudariam.


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Naquela tarde, Eduardo tomou uma decisão. Pegou sua bicicleta e pedalou direto para a fazenda dos Souza.

Ele não avisou que estava indo. Não sabia como Leo reagiria, mas precisava tentar fazer as coisas voltarem ao normal.

Quando chegou à entrada da fazenda, desceu da bicicleta e foi até a casa, batendo na porta de madeira.

Foi Rita, a mãe de Leo, quem abriu. Ela piscou algumas vezes, surpresa.

— Eduardo?

— Oi, dona Rita. — Eduardo forçou um sorriso. — O Leo tá aí?

Ela cruzou os braços, avaliando-o por um instante, e então sorriu de leve.

— Está no quarto. Pode subir.

Eduardo assentiu e entrou, subindo as escadas e passando pelo corredor familiar até chegar ao quarto de Leo.

A porta estava encostada. Eduardo bateu duas vezes e empurrou devagar.

Leo estava deitado na cama, com os braços cruzados atrás da cabeça, olhando para o teto.

Ele virou a cabeça quando viu Eduardo entrar, mas não se levantou.

— O que você tá fazendo aqui? — perguntou, sem muita emoção na voz.

Eduardo fechou a porta e se encostou nela.

— Eu queria falar com você.

Leo suspirou e voltou a olhar para o teto.

— Falar o quê? Que sua mãe conseguiu a vaga? Que você vai embora?

Eduardo mordeu a parte interna da bochecha.

— Eu não sei ainda. Mas eu sei que isso não significa que a gente precisa parar de ser amigos. Não importa onde eu for estudar, você ainda vai ser meu melhor amigo.

Leo ficou em silêncio.

Eduardo sentou-se no chão do quarto, esperando alguma reação.

O silêncio se arrastou por longos segundos, até que Leo suspirou e sentou-se na cama.

— Você quer tomar um sorvete na sorveteria Verão? — perguntou, do nada.

Eduardo piscou, confuso.

— O quê?

— Sorvete. Tá calor.

Eduardo demorou um segundo para entender o que estava acontecendo.

Era isso. Leo não queria mais falar sobre o assunto. Pelo menos, não agora.

Eduardo sentiu o alívio crescer dentro dele e sorriu.

— Claro. Vamos.

E, naquele instante, soube que, mesmo que tudo estivesse mudando, algumas coisas ainda continuariam no lugar. Eduardo sentiu um peso sair de seus ombros. Não era uma grande reconciliação, mas era um começo.

Leo suspirou, pegou um boné jogado no canto do quarto e o colocou na cabeça antes de sair.

Lá embaixo, Rita viu os dois passando e sorriu de canto.

— Vão pra onde?

— Sorvete. — Leo respondeu simplesmente.

— Voltem antes do jantar.

— A gente volta.

Eles saíram da casa e pegaram as bicicletas encostadas no lado da varanda.

Eduardo ainda estava um pouco tenso. Leo não estava exatamente agindo como antes, mas já não parecia tão distante.

Eles pedalaram pelas estradas de terra, saindo da fazenda e seguindo para a cidade. O sol começava a baixar no céu, deixando o ar mais fresco, e o vento batia no rosto dos dois enquanto atravessavam as ruas tranquilas de São Tomás.

A sorveteria Verão ficava no centro, em uma esquina movimentada. Era um dos lugares favoritos de todo mundo na cidade, principalmente nos dias quentes.

Quando chegaram, estacionaram as bicicletas ao lado da entrada e entraram.

O lugar tinha uma decoração simples: balcões de madeira, mesinhas com cadeiras coloridas e um enorme letreiro escrito "SORVETERIA VERÃO – Desde 1982" na parede.

Atrás do balcão, Luísa, a dona da sorveteria, sorriu ao ver os dois.

— Ora, ora, olha quem apareceu! Hoje vai ser o de sempre?

Leo apoiou os cotovelos no balcão.

— Sim, flocos pra mim.

— E você, Eduardo?

Eduardo pensou por um instante.

— Chocolate.

Luísa pegou os copos e começou a preparar os sorvetes enquanto os meninos se sentavam na mesa perto da janela.

Por um tempo, só ficaram ali, aproveitando o silêncio e o frescor do ventilador girando devagar no teto. Luísa entregou os sorvetes e os dois começaram a comer. Até que Leo quebrou o silêncio:

— Você ainda não me convenceu.

Eduardo olhou para ele, segurando a colher de plástico no ar.

— De quê?

— De que a gente ainda vai ser amigos se você for embora.

Eduardo franziu a testa.

— Leo, é claro que vamos.

— Sei lá. Você diz isso agora, mas daqui a pouco tá com novos amigos, em outra rotina, em outro mundo. Vai se esquecer da gente. De mim.

Eduardo soltou a colher dentro do copo de sorvete.

— Você acha mesmo que eu vou esquecer tudo isso? Esquecer de você?

Leo desviou o olhar para fora da janela, observando a rua.

— Eu acho que… não importa o que você quer, algumas coisas mudam. A gente não tem controle sobre isso.

Eduardo se inclinou um pouco na mesa.

— Mas a gente tem controle sobre algumas coisas. Tipo, eu posso continuar vindo aqui. Podemos continuar brincando na fazenda. Só porque eu vou mudar de escola não significa que minha vida toda tem que mudar.

Leo ficou quieto, pegando um pouco de sorvete com a colher, sem olhar diretamente para Eduardo.

— Eu espero que seja verdade.

— É verdade.

Os dois ficaram em silêncio por um momento, apenas comendo.

Eduardo não tinha certeza se tinha conseguido convencê-lo, mas pelo menos Leo estava ali.

E, por agora, isso já era o suficiente.