O Garoto Feito de Sol e Terra
55 Capítulo 55 — Verão Perdido
Mais tarde, naquele mesmo dia, quando estava no banho, Eduardo deixou a água quente escorrer pelo corpo, tentando afastar os pensamentos, mas era impossível. Sua mente estava presa em um passado que parecia tão distante, mas que ainda queimava dentro dele com uma força absurda.
A viagem para a praia.
Lembrou-se de como tudo parecia certo naquela época. Como ele e Leo estavam no auge do que tinham, sem medos. Era verão, e a liberdade daquele momento fazia tudo parecer ainda mais intenso.
Lembrou-se do sol refletindo nos cabelos de Leo, do sorriso despreocupado dele enquanto corriam pela areia, das risadas jogadas ao vento. Do jeito que Leo o olhava, sem nenhuma hesitação, sem medo de que tudo fosse desmoronar.
Naquela viagem, nada mais importava além deles dois.
E então, ele estragou tudo.
Eduardo fechou os olhos, sentindo o peso no peito aumentar.
Ele mesmo jogou fora o que tinham quando começou a ter algo com Kayla e, agora, namorar com ela.
Sabia que era errado. Sabia que ia machucar Leo, mas fez mesmo assim, se agarrando a uma versão de si mesmo que parecia mais segura, mais aceitável aos olhos das pessoas ao seu redor.
Agora, parado ali, com a água quente batendo em suas costas, sentia-se um completo merda.
Porque, por mais que tentasse se convencer de que escolher Kayla era o certo… no fundo, no fundo, ele sabia.
O certo sempre foi Leo.
Mas agora… talvez já fosse tarde demais.
◄☼►
Leo se jogou na cama, o rosto pressionado contra o travesseiro, tentando conter as lágrimas, mas era inútil.
Ele odiava chorar por Eduardo.
Odiava o jeito como aquele desgraçado ainda o afetava, como sua simples presença bagunçava tudo dentro dele.
A cada vez que tentava se afastar, Eduardo voltava. Sempre voltava.
E o pior de tudo?
Leo queria.
Queria Eduardo por perto. Queria os beijos, os toques, os olhares intensos que sempre pareciam prometer algo mais.
Leo apertou o travesseiro com força, os olhos ardendo.
A viagem para a praia passou por sua mente como um golpe cruel.
Eles estavam tão bem. Eduardo olhava para ele como se ele fosse tudo. Como se nada mais importasse. Como se fossem os únicos no mundo.
E então, tudo desmoronou.
Eduardo escolheu Kayla.
Leo engoliu em seco, sentindo o peito se apertar.
Ele sabia que não deveria ter deixado Eduardo se aproximar de novo. Sabia que deveria ter mandado ele se foder ali mesmo na fazenda, que deveria ter saído andando e nunca mais olhado para trás.
Mas no momento em que Eduardo o tocou, tudo desmoronou de novo.
E agora ele estava ali, sozinho no quarto, com o peito esmagado e um vazio que parecia impossível de preencher.
Talvez, um dia, isso passasse.
Mas não hoje.
◄☼►
No dia seguinte, Leo passou a manhã inteira inquieto, como se algo dentro dele estivesse queimando, pulsando, pedindo por uma saída. Desde a noite anterior, com o peito pesado e a cabeça rodando sem parar, ele sabia que precisava fazer algo, qualquer coisa, para aplacar aquela angústia.
Então, quando a aula finalmente acabou e ele pegou sua mochila, a decisão veio num ímpeto impulsivo, algo entre o masoquismo e a necessidade.
Ele queria ver Eduardo.
Não para falar com ele. Não para encostar nele.
Só para olhar.
Para se lembrar, talvez, do porquê de tudo aquilo doer tanto.
Na saída, Davi, Carla e Bruno já estavam se organizando, como sempre. Eles conversavam sobre algo qualquer, provavelmente o que fariam depois da aula, mas Leo não ouviu nada. Sua mente estava longe dali.
— Leo? Você tá ouvindo? — Carla chamou sua atenção.
Leo piscou, voltando à realidade.
— Que?
— Tá afim de passar na casa do Bruno com a gente? A gente vai ficar lá um pouco.
Leo hesitou por um segundo. Queria dizer sim. Queria agir normalmente, como se não fosse cometer a maior idiotice da sua vida nos próximos minutos.
Mas a resposta saiu automática:
— Nah, não vou hoje. Tenho que resolver uma parada.
Carla o olhou desconfiada.
— Que parada?
— Ah, sei lá, coisa da minha mãe. Ela pediu pra eu passar num lugar.
Foi a pior desculpa do mundo, mas ninguém insistiu.
— Beleza, então. — Davi deu de ombros.
Carla ainda lançou um olhar suspeito, mas não disse nada.
Leo se despediu rápido e saiu andando em direção oposta a eles.
Com o coração batendo rápido, ele seguiu pelas ruas, o caminho já gravado na memória. Não era longe. A escola particular onde Eduardo estudava ficava a poucos quarteirões dali.
Ele andou rápido, mãos nos bolsos, a mochila pesando em suas costas. A cada passo que dava, o aperto no peito aumentava.
Ele já sabia que não ia gostar do que encontraria lá.
Já sabia que isso só ia machucá-lo mais, mas ainda assim, continuou.
Quando chegou perto da saída da escola, ficou do outro lado da rua, onde havia algumas lojas. Fingiu que olhava alguma coisa na vitrine de uma papelaria, mas seus olhos estavam fixos na entrada da escola.
Os alunos começavam a sair, em pequenos grupos, conversando e rindo, alguns indo direto para os carros luxuosos dos pais.
E então, ele apareceu.
Eduardo.
Leo sentiu o corpo inteiro tensionar.
Ali estava ele, saindo tranquilamente, rindo, o braço relaxado ao redor dos ombros de Kayla.
Ela disse algo e ele jogou a cabeça para trás, gargalhando.
Aquela risada. A mesma que Leo já ouviu tantas vezes, tão de perto.
Leo não conseguia desviar o olhar. Era como se estivesse paralisado, como se seu corpo se recusasse a se mover.
O peito apertou tanto que ele achou que fosse desmoronar ali mesmo.
Porra. Por que ele fez isso consigo mesmo?
Ele sabia. Sabia que ver Eduardo assim, com Kayla, feliz, despreocupado, só ia esmagá-lo ainda mais. Porque ali estava a prova de tudo que ele tentava negar.
Eduardo conseguia seguir em frente. Eduardo conseguia estar com Kayla, rir com ela, segurá-la, olhá-la daquele jeito.
Mas Leo?
Leo estava ali, do outro lado da rua, com os olhos marejados e um buraco crescendo dentro dele.
Ele queria sair correndo.
Queria nunca ter vindo. Mas ficou ali parado, sentindo cada pedaço de seu coração se partir, um por um.
◄☼►
Leo estava decidido.
Aquela cena na saída da escola de Eduardo foi o suficiente para fazê-lo perceber que precisava seguir em frente. Que não podia continuar naquele ciclo infinito de se machucar sozinho.
Se Eduardo conseguia estar com Kayla, rir com ela, viver a vida sem olhar para trás, então ele também podia.
E ele ia.
Foi por isso que, naquela mesma noite, bateu na porta do quarto de Gustavo, seu irmão mais velho, com a expressão determinada.
Gustavo estava deitado na cama, mexendo no celular, e ergueu os olhos com desinteresse quando viu Leo parado ali.
— Que foi?
Leo respirou fundo, cruzando os braços.
— Quero ir com você naquela festa na cidade que você sempre vai.
Gustavo franziu a testa, claramente surpreso.
— Que festa?
Leo revirou os olhos.
— Aquela. Que você e seus amigos vão toda semana.
O mais velho soltou uma risada curta, voltando a atenção para o celular.
— Nem fudendo.
— Por quê?
Gustavo o olhou como se fosse óbvio.
— Porque você é um pirralho.
Leo bufou.
— Para de ser chato. Eu já tenho idade pra ir em festa.
— Não nessas festas.
— Ah, qual é! — Leo insistiu, sentando na ponta da cama do irmão. — Você já foi menor de idade e já foi nessas festas.
— E eu fui um idiota por isso.
— Então me deixa ser um idiota também.
Gustavo estreitou os olhos.
— Qual é a tua, hein? Desde quando você quer ir nessas coisas?
Leo desviou o olhar, jogando a cabeça para trás no travesseiro do irmão.
— Desde agora.
— E o que você quer lá?
— Me divertir, ué.
— Você não bebe.
— Posso começar.
— Você é um merda pra dança.
— Posso melhorar.
Gustavo ficou em silêncio por um momento, estudando o irmão.
Leo manteve o olhar firme.
Por fim, Gustavo suspirou, jogando o celular no colchão e passando a mão pelos cabelos.
— Beleza.
Leo piscou, surpreso.
— Beleza?
— É. Se você quer ir, então foda-se.
Leo abriu um meio sorriso, se levantando rápido.
— Valeu, mano!
— Mas ó — Gustavo apontou um dedo para ele —, não enche o meu saco lá. Você vai por sua conta e risco.
— Relaxa. Vou levar meus amigos.
— Ótimo. Melhor pra mim.
Leo saiu do quarto com um sorriso satisfeito e pegou o celular na mesma hora, abrindo o grupo com Carla, Bruno e Davi.
Leo: pessoal, bora numa festa sexta??
A resposta veio rápido.
Bruno: ué
Davi: que festa?
Carla: oi?
Leo: a vergados, uma festa que o gustavo vai sempre la na cidade. ele deixou eu ir junto.
Bruno: mano sei qual é
Bruno: a gente nunca foi numa dessas kkk
Carla: que que tá rolando, leo? desde quando vc quer ir nessas coisas?
Leo rolou os olhos.
Leo: desde agora ué
Leo: vamoosss por favor!!
Davi: e pq vc tá tão insistente nisso?
Leo: porra, pq sim, né? quero sair um pouco. conhecer gente nova. ter experiências novas.
Bruno: HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
Carla: esse "experiências novas" tá com cara de putaria
Leo: vcs q tão dizendo
Davi: esse ai tá desesperado pra pegar alguém kkkkkkk
Leo: cala a boca
Bruno: HAHAHAHAHA
Carla: sei lá, hein...
Leo: mano, vcs vão ou não?
O grupo ficou um pouco em silêncio.
Então, a resposta veio:
Bruno: ah foda-se, bora
Davi: se o bruno for, eu vou kkkkk
Carla: ....
Leo: carlaaaaa
Carla: ai, tá bom, eu vou
Leo sorriu satisfeito.
Essa sexta-feira prometia.
◄☼►
A noite de sexta chegou mais rápido do que Leo imaginava.
Ele se olhou no espelho uma última vez antes de sair de casa, ajeitando o cabelo com os dedos. Vestia uma camiseta preta simples e jeans escuros. Nada demais, mas também nada que o fizesse parecer deslocado.
Sua mãe já tinha dormido, então ele saiu de casa sem precisar dar satisfações. No portão, Gustavo já o esperava.
— Bora, pirralho.
— Vamos. Carla, Bruno e Davi já tão lá.
Gustavo bufou.
— Não sei se isso é bom ou ruim.
— Relaxa.
Os dois saíram caminhando pela estrada de terra, seguindo em direção à festa. O caminho era iluminado apenas pelos postes espaçados e pelas luzes distantes da cidade rural.
A festa acontecia perto do centro, onde os terrenos eram mais amplos e as casas mais espaçadas. Conforme se aproximavam, Leo começou a perceber o brilho das luzes coloridas piscando ao longe e, logo depois, sentiu a batida forte da música reverberando no peito.
Quando chegaram, Gustavo apenas deu um tapa no ombro dele.
— Se cuida, moleque.
E então sumiu na multidão.
Leo olhou ao redor, tentando localizar os amigos. Não demorou muito. Carla, Bruno e Davi estavam perto de uma mesa, segurando copos de bebida que pareciam intocados.
— Até que enfim, porra — Bruno resmungou quando viu Leo se aproximar. — Achei que cê tinha desistido.
— Nunca. Eu que chamei vocês, como não viria?
— E agora? O que a gente faz? — Davi perguntou, olhando ao redor, meio perdido.
Carla deu um gole na bebida e fez uma careta.
— Primeira coisa: nunca mais aceito bebida do Bruno.
— O QUÊ? — Bruno indignado. — Tá ótimo isso!
Leo riu, pegando um copo para si.
Ele observou as pessoas ao redor. Tinha gente de todas as idades, e claramente eles não eram os únicos menores ali. Isso o fez relaxar um pouco.
O cheiro de álcool e cigarro pairava no ar, misturado com o perfume das pessoas que passavam por eles. O som era alto, fazendo o peito vibrar.
Leo respirou fundo.
Ele estava ali. Pronto para ter novas experiências. Ou pelo menos, era isso que ele queria acreditar.
A bebida desceu quente na garganta de Leo. Ele bebeu alguns drinks e começou a sentir o álcool começar a fazer efeito. Tudo parecia mais leve, as risadas mais fáceis, o peso no peito diminuindo, pelo menos por enquanto.
Bruno também estava soltinho, rindo alto de algo que Davi falou, enquanto Carla apenas observava a cena com um meio sorriso, balançando a cabeça como se dissesse "esses dois são um caso perdido".
— Mano, eu tô feliz que a gente veio! — Bruno ergueu o copo, brindando ao nada. — Tá legal pra caralho!
— Você só tá falando isso porque já tá bêbado — Carla zombou.
— E não é esse o objetivo? — Bruno abriu os braços, como se fosse óbvio.
Leo riu, apoiando os cotovelos na mesa. Sua cabeça já estava mais leve, o calor do álcool se espalhando pelo corpo. Ele deixou o olhar vagar pelo salão, tentando encontrar alguém que despertasse seu interesse. Havia muitas garotas bonitas ali, algumas sorrindo, outras dançando, mas nenhuma parecia realmente chamar sua atenção.
Ele bebeu mais um gole, quase frustrado, até que seus olhos pararam em uma morena encostada perto da pista de dança. Os cabelos longos caíam soltos sobre os ombros, e o vestido justo realçava suas curvas. Havia algo nela, talvez o jeito despreocupado de rir ou a confiança na forma como se movia, que finalmente o fez endireitar a postura e prestar atenção.
Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, uma gargalhada alta ao seu lado o puxou de volta. Ele piscou, desviando o olhar da morena e focando nos amigos, que trocavam piadas e relembravam histórias absurdas da escola. O clima era descontraído, o álcool deixando tudo mais solto, e por um instante, Leo se permitiu apenas rir junto, esquecendo-se da busca por companhia.
Mas então, no meio da conversa, Bruno, com a imprudência típica de quem já bebeu demais, soltou uma pergunta no ar:
— Ei, Leo... — Ele virou para ele, os olhos semicerrados, como se estivesse ponderando alguma coisa. — Você e o Eduardo já fizeram... tipo... aquilo?
O riso de Leo morreu na hora.
Carla arregalou os olhos, engolindo em seco, e Davi soltou um "puta merda, Bruno" baixinho.
Bruno piscou, meio confuso.
— O quê? Não pode perguntar?
Leo sentiu o coração acelerar. Não sabia se era pela bebida ou pelo assunto inesperado. Ele tentou rir, mas soou fraco.
— Que porra de pergunta é essa?
— É que, tipo… eu sempre fiquei curioso sobre isso. Vocês dois… — Bruno gesticulou com a mão livre, como se estivesse procurando as palavras certas. — Como era? Tipo, vocês fizeram mesmo? Porque, sei lá, são dois caras. Deve ser diferente, né?
Carla e Davi trocaram olhares nervosos.
— E por que quer saber disso? — Leo indagou, tentando soar despreocupado, mas sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Bruno piscou devagar, confuso.
— Ué, só tô perguntando. Tipo, curiosidade mesmo. Papo reto. Sobre como funciona e tal…
Leo apertou o copo nas mãos. O álcool já não parecia tão quente e reconfortante.
— E acha que eu sou algum tipo de enciclopédia do assunto?
— Não, cara, calma! — Bruno riu, levantando as mãos em rendição. — Só tô dizendo que... eu nunca soube como funciona. Tipo, tem um jeito certo? Como decidem quem faz o quê? Sabe, tipo... tem um que come, certo?
Carla bufou, passando as mãos no rosto.
— Bruno, pelo amor de Deus.
— O quê? — Ele olhou ao redor, meio perdido. — Não posso perguntar?
Davi suspirou, pegando a bebida da mão dele.
— Não agora, não desse jeito, não pra ele.
Bruno piscou, parecendo refletir sobre isso.
Leo, por sua vez, sentia o rosto esquentar, não sabia se de raiva, vergonha ou do álcool.
Porque ele não queria estar pensando nesse assunto agora.
Leo pegou o copo de novo e virou o resto da bebida de uma vez, sentindo o líquido quente descer queimando pela garganta.
— Vou no banheiro — ele murmurou, já se levantando, sem olhar para ninguém.
Carla o observou sair no meio da multidão, os ombros tensos, a expressão fechada.
Assim que Leo sumiu de vista, ela virou para Bruno com um olhar afiado.
— Você é um idiota! — disparou.
Bruno franziu o cenho, ainda sem entender direito.
— O que foi? Só fiz uma pergunta.
— Uma pergunta?! — Carla bufou, cruzando os braços. — Você basicamente esfregou na cara dele o que ele tá tentando esquecer!
Bruno piscou algumas vezes, o efeito da bebida ainda embaralhando sua percepção.
— Mas ele nunca falou que queria esquecer…
— Ah, nossa! Você precisa que ele escreva um cartaz agora? — Carla retrucou, exasperada. — Você não percebeu como ele ficou na hora?
Davi soltou um suspiro e passou a mão pelos cabelos.
— Bruno, sério… O Leo já tá todo ferrado por causa do Castilho. Isso que você fez foi tipo cutucar uma ferida aberta.
Bruno finalmente pareceu entender o peso do que tinha falado. Ele baixou o olhar para a própria bebida e soltou um suspiro.
— Merda… Eu não queria fazer ele se sentir mal.
— Pois é, mas fez — Carla resmungou.
Bruno mordeu o lábio, claramente arrependido.
— Quer que eu vá atrás dele?
Carla revirou os olhos.
— Não, deixa ele respirar um pouco. Você já falou merda demais por hoje.
Bruno afundou no sofá, frustrado consigo mesmo, enquanto o peso do silêncio se instalava entre os três.
Enquanto isso, Leo se trancava no banheiro, apoiando as mãos na pia e respirando fundo, tentando afastar as lembranças que vinham com a pergunta de Bruno.
Mas era inútil.
◄☼►
Leo saiu do banheiro depois de um tempo, com os ombros tensos, passando a mão pelo rosto e tentando se recompor. Mas Carla já estava de pé, o esperando do lado de fora com os braços cruzados e uma expressão preocupada.
— Leo — chamou, sem rodeios.
Ele parou, mas não olhou para ela.
— Eu tô bem — disse rápido, já tentando desviar para voltar para a mesa onde estava.
Carla bufou, segurando o braço dele antes que ele escapasse.
— Para de bancar o fodão e fala comigo — pediu, mais suave dessa vez. — Não precisa fingir nada.
Leo engoliu seco, desviando o olhar.
— Eu tô bem, relaxa. — mentiu.
Carla ergueu uma sobrancelha, cética.
— Ah, claro.
Ele fechou os olhos por um segundo, exausto.
— Carla, eu só queria relaxar um pouco, tá? Não precisa fazer um interrogatório.
Ela soltou um suspiro, mas não soltou o braço dele.
— Olha, eu sei que o Bruno foi um idiota agora há pouco. Ele não devia ter perguntado aquilo.
Leo soltou uma risada sem humor.
— Ele só perguntou o óbvio — murmurou.
Carla revirou os olhos.
—Leo… tá tudo bem mesmo?
Leo não respondeu. Respirou fundo, passando a mão pelos cabelos antes de finalmente assentir, sem encará-la diretamente.
Ela deu um pequeno sorriso de lado, sem insistir mais.
— Vamos voltar?
Ele soltou um suspiro, ajeitou a postura e assentiu devagar.
— Vamos.
Os dois caminharam de volta para a mesa, mas o peso dentro de Leo continuava ali, teimoso, grudado em cada pensamento.
◄☼►
Quando voltaram para o grupo, a festa ainda estava agitada. As luzes piscavam, a música alta fazia o chão vibrar, e Bruno estava… pior do que antes.
Ele balançava a cabeça de um lado para o outro, rindo sozinho, segurando um copo que já devia ser a terceira ou quarta dose misturada de alguma coisa forte.
— Leozinho, Leozinho… — Bruno arrastou as palavras, apontando para ele com um dedo meio trêmulo. — Eu não queria te magoar, mano. Sério.
Carla e Davi trocaram olhares exasperados.
— Cala a boca, Bruno — Davi murmurou, tentando puxar o copo da mão dele.
Bruno ignorou, tropeçando levemente antes de se ajeitar.
— Mas é sério! — insistiu. — Leo, você sabe que eu sou seu amigo, né?
Leo suspirou, esfregando o rosto.
— Sei, Bruno. Tá de boa.
Mas Bruno não calava a boca.
— Mas tipo assim — ele continuou, apontando o dedo novamente, dessa vez se aproximando demais. — Você é mesmo apaixonado pelo Castilho?
O silêncio foi instantâneo.
Carla fechou os olhos, exausta.
Davi soltou um xingamento baixo.
E Leo… Leo sentiu o estômago afundar.
— Bruno, pelo amor de Deus… — Carla começou, mas não teve paciência para terminar a frase. Ela simplesmente deu um tapa na cabeça dele.
— Ai, porra! — Bruno protestou, levando a mão ao lugar onde ela bateu.
— Cala. A. Boca. — Carla falou entre dentes.
Leo continuava parado no mesmo lugar, o peito apertado. Ele não respondeu nada. Só pegou uma bebida qualquer da mesa e virou um gole grande, como se aquilo fosse apagar a pergunta idiota de Bruno.
Bruno, ainda meio perdido, olhou para ele e arregalou os olhos.
— Pera… — Ele piscou. — Você é mesmo, né?
Carla levantou a mão de novo, ameaçando bater outra vez.
— CHEGA, BRUNO.
Davi, vendo que Bruno já tinha falado demais e provavelmente continuaria falando, passou um braço ao redor dele e começou a arrastá-lo dali.
— Vem, amigão, acho que já deu pra você hoje.
Bruno ainda olhava para Leo, mas dessa vez sem falar nada.
Leo simplesmente desviou o olhar e virou outro gole da bebida.
Não precisava responder, pois a verdade já estava estampada na cara dele.
Bruno ainda estava se debatendo um pouco enquanto Davi o puxava para longe, mas a bebida o deixava mais lento, as palavras saindo emboladas.
— Não, mas sério… — Ele apontou para Leo, cambaleando um pouco. — Eu tenho curiosidade, sem zoeira! Tipo, como que um cara… se apaixona por outro cara?
Carla bufou, apertando mais o braço dele.
— Pelo amor de Deus, Bruno!
Davi revirou os olhos.
— Cala a boca antes que eu largue você no meio da rua.
Bruno riu, totalmente alheio ao peso do que tinha acabado de perguntar.
— Mas é sério! Nunca entendi! Como é que funciona? Tipo, sei lá…
— Funciona igual pra todo mundo, seu imbecil! — Carla cortou, exasperada.
Davi o empurrou mais forte para frente, tentando tirar ele dali de uma vez.
— A gente resolve essa sua dúvida outro dia, amigão. Agora, cala a boca e anda.
Bruno continuou rindo, meio zonzo, ainda murmurando alguma coisa sem sentido.
Leo, que permaneceu parado no mesmo lugar, sentiu as palavras ecoando na cabeça dele.
"Como que um cara se apaixona por outro cara?"
Ele respirou fundo e virou o resto da bebida que tinha na mão, ignorando o gosto amargo queimando sua garganta.
Não ia se deixar afetar por isso. Ou, pelo menos, ia fingir que não.
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