O Garoto Feito de Sol e Terra
56 Capítulo 56 — Noite de Fuga
Depois de um tempo, a pergunta de Bruno continuou martelando na mente de Leo, como se tivesse se enraizado ali.
"Como que um cara se apaixona por outro cara?"
Como se fosse algo absurdo, algo que não deveria acontecer.
Ele queria ignorar. Queria fingir que não tinha se afetado, que não se importava com a ignorância de Bruno e com tudo o que aquilo representava.
Mas afetou.
Porque, no fundo, uma parte dele queria provar que aquilo não era verdade. Que ele não estava preso a Eduardo, que podia seguir em frente, que podia ser como todo mundo esperava.
Ele virou o olhar para a pista de dança, para o grupo de meninas que riam e dançavam, algumas já trocando olhares com os garotos ao redor.
Podia ser fácil.
Se Eduardo conseguia ficar com Kayla e seguir com sua “vida perfeita”, então ele também conseguiria.
Sentiu o corpo quente da bebida que já tinha consumido e respirou fundo.
Então, decidiu.
Se Gustavo sempre conseguia se aventurar nessas festas, se todo mundo conseguia, então ele também podia.
Leo passou os olhos pelo ambiente, procurando aquela garota morena que havia visto mais cedo.
Ela poderia ser alguém que o fizesse se esquecer de Eduardo. Alguém que provasse que Eduardo não era o único.
E então, ele a encontrou.
Ela ainda estava perto da pista de dança, conversando com algumas amigas, mas seu corpo se movia levemente no ritmo da música. O vestido justo realçava suas curvas conforme ela se balançava de um lado para o outro, e o sorriso despreocupado nos lábios a tornava ainda mais convidativa.
Leo respirou fundo, sentindo a adrenalina misturada ao álcool pulsar em suas veias. Ele precisava disso. Precisava sentir algo diferente, se perder por um tempo, se convencer de que podia.
Sem hesitar, atravessou o salão e parou ao lado dela. A morena o notou e ergueu uma sobrancelha, um sorriso brincando no canto dos lábios.
— E aí? — ela disse, a voz alta o suficiente para superar a música.
Leo sorriu de volta, jogando a cabeça para o lado, indicando a pista.
— Vamos dançar?
Ela riu, avaliando-o por um segundo antes de simplesmente pegar sua mão e puxá-lo para o meio da multidão.
O ritmo envolvente da música preencheu os espaços entre eles, e, pela primeira vez naquela noite, Leo se entregou ao momento. Deixou o corpo se mover junto ao dela, sentiu o calor, o toque, a proximidade.
Ele queria acreditar que aquilo era suficiente.
Mesmo que, lá no fundo, soubesse que estava apenas se enganando.
Leo estava dançando junto à garota, o corpo quente da bebida dando uma coragem que ele não sabia se era real ou apenas efeito do álcool. Ele não queria pensar. Não queria lembrar do rosto de Eduardo, da forma como ele ria, do jeito como seus olhos se estreitavam quando estava se divertindo.
Ele só queria se perder ali.
A música pulsava no ambiente, as luzes piscavam em tons de azul e vermelho, e ao seu redor, pessoas se moviam em sincronia ao ritmo alto da batida. Ele sentia o calor do corpo da garota contra o dele, os movimentos fluidos, chamativos. Ele ainda não sabia seu nome, mas isso não parecia importar agora.
Ela percebeu que ele a observava e sorriu de lado, se aproximando mais, os movimentos sincronizados com a música.
Leo não desviou o olhar.
A garota deslizou contra ele, e Leo sentiu as mãos dela deslizarem até seus ombros, puxando-o para mais perto.
— Sou Camila. Qual é o seu nome? — ela perguntou perto do ouvido dele, a voz abafada pelo som da festa.
— Leo — ele respondeu sem pensar muito.
Ela sorriu.
— Você dança bem.
Leo soltou um riso breve. Ele não sabia dançar bem, mas não ia dizer isso.
A música, a luz, o calor do corpo dela contra o dele.
"Eu consigo. Eu consigo esquecer."
Ele fechou os olhos por um instante, sentindo o cheiro adocicado do perfume dela, a forma como ela se movia tão livremente. Mas então, por um segundo, ele pensou em Eduardo.
Pensou em como era diferente.
Com Eduardo, tudo era natural, intenso, sem precisar de esforço. Eduardo o puxava para perto como se fosse impossível resistir.
E agora, ali, ele estava tentando forçar algo que não vinha naturalmente.
A garota se virou para ele, os rostos agora próximos.
— Você tá me olhando assim por quê? — ela brincou, os olhos brilhando.
Leo piscou algumas vezes, afastando os pensamentos da cabeça.
— Porque você é bonita — ele respondeu, e viu o sorriso dela se alargar.
Ela se inclinou um pouco, como se esperasse que ele a beijasse. E, por um momento, Leo pensou em simplesmente fechar os olhos e fazer isso.
Mas será que conseguia? Será que realmente queria?
Ele engoliu em seco, o coração batendo mais rápido.
Será que beijar aquela garota faria Eduardo sumir da sua mente?
Então, Leo se inclinou e finalmente a beijou.
Os lábios de Camila eram macios, o gosto adocicado da bebida ainda presente. Ela sorriu contra o beijo, puxando-o um pouco mais para perto, aprofundando o contato. Leo tentou se concentrar nela, no jeito que ela o segurava, no calor do momento.
Ele queria que aquilo o consumisse, que apagasse qualquer resquício de Eduardo em sua mente.
Mas algo dentro dele não se conectava.
Ainda assim, ele continuou.
A festa estava animada ao redor deles, as luzes pulsando no ritmo da música. Pessoas passavam, dançavam, riam, mas Leo e Camila estavam ali, presos no beijo, ignorando o resto do mundo.
Até que, sem que ele percebesse, Bruno os avistou de longe, meio cambaleante, segurando o celular com uma expressão de puro interesse embriagado.
— Eita… — murmurou para si mesmo, rindo.
Com os dedos trêmulos, ele abriu a câmera do celular e, sem pensar muito, tirou uma foto.
A imagem ficou um pouco borrada, mas era nítido o suficiente para ver Leo e Camila se beijando no meio da pista de dança.
Bruno riu de novo, confuso, achando aquilo engraçado por algum motivo que nem ele sabia explicar.
Sem pensar duas vezes, abriu o WhatsApp e procurou o nome de Eduardo.
Bruno: eira casthilhoooo olha esheeeeeekksksk
Bruno: [Foto]
Bruno: lro teu mininooooo
Bruno: agoraakksks
Ele enviou e ficou encarando a tela por alguns segundos, sem saber ao certo o que esperava de resposta.
◄☼►
Do outro lado da cidade, Eduardo estava deitado na cama, o celular na mão, rolando distraído as redes sociais sem realmente prestar atenção em nada.
Então, a notificação apareceu.
Ele franziu o cenho ao ver o nome de Bruno e, ao abrir a conversa, o estômago afundou.
A primeira mensagem era praticamente ilegível, mas a foto…
A foto era clara o suficiente. Leo estava ali, no meio de uma festa, beijando uma garota.
Eduardo ficou imóvel.
O peito apertou de uma forma estranha, sufocante.
Ele apertou o celular com força, os olhos cravados na imagem como se aquilo fosse se apagar e ele tivesse visto errado.
Mas não tinha.
Ele sentiu a respiração falhar, um gosto amargo subindo pela garganta.
Porra.
Aquilo doeu. Mais do que ele queria admitir.
Eduardo não conseguia tirar os olhos da foto.
O peito queimava, o estômago parecia ter virado um nó. Ele sentia uma raiva irracional crescendo, uma mistura de frustração e um sentimento que se recusava a descrever.
Sem pensar, abriu a conversa com Bruno e digitou:
Eduardo: onde vcs tão?
Nenhuma resposta.
Ele digitou de novo, com mais força.
Eduardo: bruno, porra, onde cês tão?
Os três pontinhos indicando que Bruno estava digitando apareceram e desapareceram algumas vezes.
E então, veio a resposta.
Bruno: eiaaaa casttiylhoo bro tyuudo beeeenm????
Eduardo fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Bruno estava claramente bêbado.
Eduardo: onde vcs estão, caralho?
Bruno: AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH KSKSKSKK GHAHGS JGHHG
Eduardo passou a mão pelo rosto, irritado.
Sem paciência para tentar decifrar mensagens completamente inelegíveis, ligou direto para Bruno.
O telefone chamou algumas vezes antes de ser atendido.
— AAAAALÔÔÔÔ! — Bruno atendeu berrando, a música da festa estourando no fundo.
Eduardo já sentiu a paciência se esgotando.
— Bruno, onde vocês tão?
— HMMMMMMMM... — Bruno fez um barulho pensativo, seguido de uma risada arrastada. — NNNÃAAAO SEEEEI SE DEVO TE CONTÁÁÁÁÁ, CASTILHÔÔÔ!
Eduardo fechou os olhos, respirando fundo.
— Porra, Bruno, só fala logo.
— HMMM… OOOKAY OOOKAY! — Bruno riu de novo. — A GENTTTEEEE TÁÁÁÁÁ NAQUELA FEXXXTAAAA DOOOO…
O resto virou um amontoado de sons desconexos, embolados pelo álcool e pela música. Eduardo franziu o cenho.
— O quê? Repete, cacete!
— NAQUELA LÁÁÁÁ, DOOO… DOOO… GUSTAVOOOOO! ISSO, ISSO! O IRRMÃÃÃO DO LÉÉÉÓÓÓ!
Eduardo travou a mandíbula.
— Você tá falando sério? — Eduardo já suspeitava qual festa era essa.
— ÓÓÓÓÓBVIO! — Bruno gargalhou, mas logo soltou um barulho estranho, como se alguém tivesse tentado arrancar o celular da mão dele.
Eduardo já ia desligar quando Bruno voltou a falar, a voz um pouco mais concentrada, como se estivesse tentando ser útil pela primeira vez na noite.
— VEEEERGADÔÔÔÔS! — Ele arrastou o nome, mas deu pra entender.
Vergados. Sabia onde era, pois sempre ouvia Gustavo falar dessa festa ao telefone quando ia na fazenda.
Eduardo ouviu uma voz irritada no fundo.
— BRUNO, ME DÁ ESSA PORRA AQUI! — Parecia Carla.
Antes que Bruno pudesse continuar falando merda, a ligação foi encerrada abruptamente.
Eduardo ficou parado por um momento, encarando a tela do celular, o peito subindo e descendo em uma respiração pesada.
Então, sem pensar muito, decidiu que ia até lá.
Ele não sabia exatamente o que faria quando visse Leo, mas precisava vê-lo.
Então desceu, pegou sua bicicleta e saiu pedalando.
◄☼►
Eduardo deixou sua bicicleta num bicicletário próximo e entrou na festa com passos pesados, os ombros tensos e o olhar afiado como uma lâmina. O lugar estava lotado, a música alta, o cheiro de bebida misturado a perfume barato e cigarro. Luzes coloridas piscavam pelo salão, pessoas riam, dançavam, se agarravam pelos cantos, mas ele não se importava com nada disso.
Ele só queria encontrar Leo.
O sangue ainda fervia enquanto ele atravessava o local, os olhos percorrendo o ambiente, cada vez mais irritado.
Foi quando avistou Davi, encostado perto do bar improvisado, segurando um copo de bebida e conversando com alguém.
Eduardo marchou até ele sem hesitar.
— Cadê o Leo?
Davi se virou devagar, franzindo a testa ao ver Eduardo ali.
— O que você tá fazendo aqui?
Eduardo apertou a mandíbula.
— Perguntei primeiro. Cadê ele?
Davi bufou, cruzando os braços, o olhar carregado de desconfiança.
— E por que você quer saber?
— Porque eu quero falar com ele.
Davi riu seco, negando com a cabeça.
— Ah, claro. Vocês estão sem se falar por dias e agora você aparece aqui do nada, numa festa, perguntando por ele?
Eduardo trincou os dentes, a paciência se desgastando.
— Davi, eu não tô com tempo pra essa merda.
— E eu não tô com paciência pra você, Castilho. — Davi retrucou, o olhar cortante. — Já fez merda suficiente, não acha?
Eduardo respirou fundo, tentando se controlar, mas a raiva crescia dentro dele como uma tempestade.
— Olha, não tô te pedindo permissão. Só me fala onde ele tá.
Davi deu um passo à frente, estreitando os olhos.
— E se eu não quiser falar?
Eduardo sentiu os punhos se fecharem ao lado do corpo.
— Eu vou encontrar ele de qualquer jeito.
Davi não desviou o olhar.
— Talvez ele não queira te ver, já pensou nisso?
Eduardo sentiu o estômago afundar por um segundo, mas não demonstrou. Ele deu um meio sorriso, cheio de raiva contida. E então, deu um passo para trás.
— Eu vou encontrar ele. Com ou sem a sua ajuda.
Virou-se sem esperar resposta e continuou a busca.
O coração batendo rápido.
O peito queimando.
Porque, porra… Leo tinha todo o direito de ter novas experiências. Ele podia conhecer outras pessoas, se divertir, seguir em frente.
Então por que Eduardo sentia como se estivesse prestes a explodir?
◄☼►
Leo sentiu os lábios da garota se movendo contra os seus, a música alta vibrando ao redor, os corpos dançando próximos. Mas dentro dele... nada. Absolutamente nada.
O beijo não tinha gosto, não tinha calor, não tinha vida.
Ele tentou se concentrar, tentou se convencer de que aquilo era certo. Que precisava seguir em frente. Que Eduardo não era a única pessoa no mundo.
Mas cada segundo que passava só fazia o incômodo crescer dentro dele.
O que ele estava fazendo?
Seus olhos se fecharam por reflexo, mas tudo que ele viu foi Eduardo.
O jeito como ele olhava para ele antes de beijá-lo. O modo como seus dedos deslizavam por sua pele. A forma como seu corpo ardia contra o seu, como se cada toque fosse urgente, como se cada encontro fosse o único.
Aquilo ali?
Era só um beijo vazio.
Uma tentativa fracassada de fingir que não estava completamente ferrado por uma única pessoa.
E então, num rompante, afastou-se.
A garota franziu a testa, confusa.
— O que foi?
Leo piscou algumas vezes, o coração acelerado, tentando encontrar uma desculpa. Mas não havia uma.
Ele apenas odiava tudo isso.
Odiava o fato de que nada daquilo fazia sentido. Odiava que, por mais que tentasse, por mais que não quisesse, só Eduardo conseguia bagunçá-lo daquele jeito.
— Nada... eu só... preciso de um minuto.
Virou-se e saiu antes que ela pudesse responder.
Leo saiu da festa com passos pesados, sentindo o ar quente da noite bater contra sua pele. O gosto do beijo ainda estava em sua boca, mas tudo que sentia era um vazio esmagador. Que merda estava fazendo?
Encostou-se contra um muro próximo, passando as mãos pelo rosto, tentando processar tudo. Tentando apagar o gosto daquilo.
Mas então, ouviu passos firmes se aproximando.
— Leo?
A voz de Eduardo atingiu seu peito como um soco.
Leo abriu os olhos e o viu ali, parecia irritado.
O maxilar travado, o olhar intenso, como se tivesse acabado de ver algo que o revirasse por dentro.
— O que diabos você tá fazendo aqui? — perguntou Leo, a voz saindo mais dura do que pretendia.
— Acho que eu devia perguntar o mesmo pra você — Eduardo rebateu, o olhar afiado. Ele deu um passo mais perto, inclinando a cabeça levemente. — Desde quando vem pra esse tipo de festa?
Leo soltou uma risada curta, cruzando os braços.
— Ah, agora tem tipo de festa certa pra mim? — arqueou uma sobrancelha, olhando Eduardo de cima a baixo. — Desculpa, não sabia que precisava da sua aprovação pra sair e me divertir.
Leo inclinou a cabeça levemente, desafiador, e continuou:
— Mas já que tá tão curioso… vim pelo mesmo motivo que todo mundo vem. Beber, dançar, aproveitar. Ter novas experiências.
As últimas palavras saíram carregadas de intenção, e Leo percebeu pelo jeito que Eduardo travou a mandíbula que o recado tinha sido recebido.
Eduardo riu, mas o som saiu curto, seco. Seu olhar ficou ainda mais afiado, e ele deu mais um passo à frente, encurtando a distância entre eles.
— Ah, é? Novas experiências? — Sua voz carregava ironia, mas também algo mais sombrio, algo fervendo por baixo da superfície. — Então foi isso que aquele beijo agora há pouco foi?
Leo sentiu o peito apertar por um segundo, mas manteve a expressão impassível.
— E se foi? — desafiou, inclinando a cabeça levemente. — Algum problema?
Eduardo cerrou os punhos ao lado do corpo, os olhos brilhando de raiva.
— Nenhum — disse, mas a tensão na mandíbula dizia o contrário. — Só achei curioso.
Leo soltou uma risada seca, cruzando os braços.
— Curioso?
Eduardo estreitou os olhos.
— É. Porque parecia mais uma tentativa desesperada de provar alguma coisa pra si mesmo.
Leo sentiu o estômago afundar, mas não deu o braço a torcer.
— E você tava assistindo por quê? — rebateu, a voz carregada de provocação. — Algum problema em me ver com outra pessoa, Castilho?
Eduardo riu de novo, mas dessa vez havia algo mais ácido no som.
— Eu só acho engraçado — disse, balançando a cabeça devagar — como você simplesmente vai lá e age assim, como se nada importasse. Como se fosse só beijar qualquer uma e pronto, problema resolvido.
Leo piscou, incrédulo, como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— Você tá falando sério? — soltou uma risada curta, descrente. — EU que tô agindo como se nada importasse?
Eduardo apenas o encarou, a mandíbula travada, esperando uma reação.
Leo passou a língua pelos dentes, cruzando os braços.
— Ah, essa é boa. Essa é realmente boa. Você tá se ouvindo, Eduardo?
Eduardo abriu a boca para responder, mas nada saiu de imediato. Ele desviou o olhar por um instante, como se estivesse buscando as palavras certas, como se, por um segundo, tivesse hesitado em dizer o que realmente queria.
Então, respirou fundo e voltou a encará-lo.
— Só me responde, Leo. — disse, a voz menos firme do que antes — Você fez isso pra tentar me esquecer?
Leo franziu o cenho, sentindo um aperto estranho no peito. Eduardo umedeceu os lábios, dando um passo sutil para mais perto.
— Porque isso não é você — Eduardo continuou, a expressão mais contida, como se estivesse pisando em terreno instável. — Te conheço, Leo. Isso não é o tipo de coisa que você faz.
— Eu fiz isso porque eu quis — Leo devolveu, encarando-o de volta. — Coisa que você faz o tempo todo com a sua namorada perfeita, né? Por que eu não posso?
— Isso não tem nada a ver com a Kayla.
Leo riu, balançando a cabeça.
— Ah, claro. Tem a ver com o quê, então? Com você me vendo com outra pessoa e não gostando?
Eduardo abriu a boca, como se fosse responder no impulso, mas fechou de novo. Os dedos dele se apertaram ao lado do corpo, como se estivesse segurando algo que queria cuspir, mas não podia.
Eduardo respirou fundo, desviando o olhar por um segundo antes de encará-lo de novo.
— Eu não gostei de ver você com outra pessoa.
As palavras saíram baixas, mas firmes, mais como se Eduardo estivesse dizendo para si mesmo. O peito de Leo se apertou.
— E o que você acha que acontece quando eu te vejo com ela? — a voz de Leo saiu mais baixa agora, mas não menos intensa.
Eduardo piscou, parecendo ser pego de surpresa.
Leo deu um passo à frente, reduzindo ainda mais o espaço entre os dois.
— Me fala, Castilho. O que você acha que eu sinto quando te vejo com ela? Quando te imagino com ela? — A voz dele era firme, mas nos olhos havia um brilho de algo mais profundo, mais doído.
Eduardo umedeceu os lábios, os olhos presos aos de Leo, como se estivesse tentando encontrar uma resposta que fizesse sentido, mas não havia nenhuma que ele pudesse dizer sem se afundar ainda mais.
Leo riu, mas o som saiu amargo.
— Engraçado... quando é você, eu só tenho que aceitar. Mas quando sou eu... — Ele balançou a cabeça, soltando um suspiro pesado. — De repente, não é tão fácil de engolir, né?
Eduardo apertou os punhos ao lado do corpo, os olhos queimando de algo que ele não conseguia controlar.
Porque, porra, Leo estava certo. E ele odiava admitir isso.
Leo continua:
— Você pode namorar, pode fingir que sua vida é perfeita, pode fingir que eu nunca fui nada pra você, mas o momento que eu tento fazer o mesmo...
Leo deu um passo à frente.
— ...você surta.
Eduardo prendeu a respiração, as narinas inflando, como se estivesse segurando algo maior do que ele mesmo.
— Você acha que eu ligo pra Kayla? — Eduardo murmurou. — Você acha que, quando eu tô com ela, eu sinto metade do que sinto com você?
Leo ficou mudo.
Eduardo se aproximou mais um pouco.
Leo piscou, o peito subindo e descendo rápido, como se o ar de repente tivesse ficado mais pesado ao redor dele.
Por um momento, ele quis acreditar no que Eduardo estava dizendo, mas sabia que não podia.
Ele soltou uma risada curta e deu um passo para trás, afastando-se do calor sufocante daquele olhar.
— Vai se foder.
A frase saiu baixa, carregada, como se viesse do fundo do peito. Como se levasse junto tudo que Leo estava segurando havia tempo demais.
Eduardo não respondeu.
Apenas ficou ali, parado, olhando para ele como se quisesse dizer algo, mas não soubesse como.
Leo balançou a cabeça, virou-se e voltou para a festa sem olhar para trás. Ele precisava sair dali. Precisava de mais um gole de qualquer coisa que fizesse a voz de Eduardo sumir da sua cabeça.
Eduardo, por sua vez, continuou parado no mesmo lugar. Os punhos ainda cerrados. O coração batendo forte no peito.
As palavras de Leo ecoando como um soco direto em sua consciência.
"O que você acha que eu sinto quando te vejo com ela?"
Eduardo respirou fundo, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os próprios pensamentos.
Mas era impossível. Porque, no fundo, ele sabia.
Sabia que Leo estava certo. Sabia que, por mais que tentasse fingir o contrário, não dava pra enganar o próprio coração.
◄☼►
Lá dentro, Leo atravessou a multidão sem realmente enxergar ninguém. O barulho da música era ensurdecedor, mas parecia distante, abafado pela confusão rodando em sua cabeça.
Ele não queria pensar.
Não queria sentir.
Eduardo tinha uma maldita facilidade em bagunçar tudo dentro dele e ele já estava cansado disso.
Então, sem hesitar, foi direto para o bar improvisado no canto da festa.
— Me dá qualquer coisa — disse para o primeiro cara que estava servindo.
O copo apareceu na sua frente antes mesmo de terminar a frase. Ele pegou e virou de uma vez, sentindo o líquido quente descer queimando pela garganta.
Mas não foi suficiente.
— Outro.
O segundo copo veio tão rápido quanto o primeiro. E o terceiro.
Leo não se importava com o que estava bebendo. Não se importava com o gosto forte do álcool, nem com o jeito que começava a sentir o corpo mais leve, mais solto.
Tudo que ele queria era apagar aquela conversa da mente.
Esquecer o jeito que Eduardo o olhou.
O jeito que ele admitiu, mesmo sem dizer diretamente, que Leo ainda significava alguma coisa.
Porque essa era a pior parte.
Leo sabia que significava. Mas nunca o suficiente. Nunca o bastante para Eduardo realmente fazer algo a respeito.
Então ele pegou mais um copo.
E bebeu.
Porque, porra, se Eduardo podia se enterrar na própria mentira, Leo também podia afundar na dele.
◄☼►
Eduardo entrou na festa pouco depois, o olhar varrendo o ambiente em busca de Leo. O som alto, as luzes piscando e a multidão agitada tornavam difícil encontrá-lo, mas ele não ia desistir tão fácil.
Ele passou pelos grupos espalhados pelo salão, desviando das pessoas que dançavam próximas demais, ignorando qualquer olhar curioso. A cada passo, sentia o peito apertar mais.
Onde diabos ele se meteu?
Pegou um drink qualquer no balcão, virou de uma vez, tentando desanuviar. Depois, outro. Não estava ali para beber, mas talvez ajudasse a acalmar a irritação que ainda queimava por dentro.
Mas nada ajudava.
A única coisa que ocupava sua cabeça era a forma como Leo tinha olhado para ele lá fora, com aquela mistura de dor e desafio.
"O que você acha que eu sinto quando te vejo com ela?"
Eduardo passou a língua pelos dentes, sentindo o peso daquelas palavras ainda grudado na pele. Por mais que tentasse, não conseguia ignorar.
Mais tarde, quando já estava convencido de que talvez Leo tivesse simplesmente sumido da festa, avistou um movimento perto da saída.
E lá estava ele.
Leo saía da festa, os passos vacilantes, o corpo balançando levemente para os lados enquanto tentava manter o equilíbrio.
Eduardo sentiu o estômago afundar.
Porra.
Ele não precisava de muito para perceber que Leo tinha passado do ponto.
Jogou o copo vazio em qualquer lugar e seguiu atrás dele, o coração acelerado e a raiva se misturando com algo mais profundo.
◄☼►
Leo cambaleou alguns passos para longe da entrada da festa, o gosto amargo de álcool revirando seu estômago. Ele apertou os olhos, respirando fundo, tentando afastar aquela sensação nauseante, mas era inútil. O enjoo veio forte e repentino, e antes que pudesse segurar, vomitou ali mesmo, apoiando as mãos nos joelhos.
Eduardo, que tinha ido atrás dele e estava o observando se afastar, instintivamente se moveu.
— Caralho, Leo... — Ele murmurou, indo até ele rapidamente.
Leo queria mandá-lo se foder, dizer para não encostar nele, mas mal conseguia falar. Eduardo segurou seu ombro firme, tentando mantê-lo estável.
— Respira, porra. — A voz dele não tinha mais o tom de raiva. Agora, era preocupação pura.
Leo vomitou de novo, apertando os olhos com força. O mundo girava, e ele odiava aquilo. Odiava ter bebido tanto. Odiava a festa. Odiava a si mesmo.
E odiava Eduardo por estar ali.
Mas ao mesmo tempo... não queria que ele fosse embora.
Eduardo passou a mão pelas costas dele, tentando ajudá-lo a recuperar o fôlego.
— Por que você bebeu tanto, caralho? — Ele perguntou, num tom baixo, quase cansado.
Leo riu fraco, ainda curvado.
— Porque eu quis. — Ele murmurou.
Eduardo balançou a cabeça, segurando firme quando Leo quase perdeu o equilíbrio.
— Vem cá, fica de pé direito.
Leo resmungou, mas deixou Eduardo segurá-lo melhor, porque seu corpo já não respondia direito.
E no meio daquela confusão toda, do álcool queimando em sua garganta, da cabeça pesada, de Eduardo segurando ele como se ele fosse quebrar… Ele queria chorar. Mas não ia fazer isso na frente dele. Não ia dar esse gostinho.
Então apenas se deixou ser segurado. E pela primeira vez naquela noite, não afastou Eduardo.
Naquele momento, o irmão de Leo, Gustavo, saiu da festa de braços dados com uma garota, rindo de algo que ela tinha sussurrado em seu ouvido. Ele mal notou Eduardo de primeira, ocupado demais com sua própria diversão. Mas quando viu o irmão apoiado em Eduardo, com a cara de quem tinha bebido bem mais do que conseguia aguentar, parou por um segundo e ergueu as sobrancelhas.
— Eita, Leo tá podre? — Ele riu, mas sem muito interesse. Olhou para Eduardo e deu um tapa leve no ombro dele. — Ainda bem que cê apareceu, hein? Se não, sei lá o que ia acontecer com esse moleque.
Eduardo só olhou para ele, ainda segurando Leo firme para que ele não desabasse no chão.
— Sério mesmo que você deixou ele vir numa festa dessas e encher a cara assim?
Gustavo riu de novo, despreocupado.
— Pô, ele quis vir, né? Não sou babá dele. — Ele deu de ombros, como se aquilo não fosse um problema. Depois, olhou para a garota ao seu lado e piscou. — Vamo nessa, gata?
Ela riu, concordando, e eles começaram a se afastar. Antes de sair, Gustavo ainda olhou para trás e gritou:
— Se cuida aí, Leo! E valeu, Castilho!
E então, desapareceu na noite, indo para outra festa, com os amigos e sua nova companhia.
Eduardo assistiu Gustavo ir embora, a mandíbula travada.
"Que irmão maravilhoso, hein."
Suspirou, voltando a atenção para Leo, que ainda estava encostado nele, meio perdido, os olhos fechados por causa da tontura.
— Vem, Leo. Vou te levar pra casa. — Murmurou, ajeitando melhor o braço dele ao redor de seus ombros.
E, sem dar espaço para discussão, começou a guiá-lo para fora dali.
Carla e Davi saíram da festa praticamente correndo. O coração de Carla estava acelerado, e a preocupação fazia seu estômago revirar.
— Cadê ele? — Davi perguntou, os olhos vasculhando a rua.
Então, eles viram.
Eduardo estava caminhando com Leo, praticamente segurando o garoto em pé. Leo parecia completamente entregue, exageradamente bêbado, a cabeça tombando para o lado de vez em quando.
— Leo! — Carla gritou, já acelerando o passo para alcançá-los.
Eduardo parou e olhou para trás, a expressão nada satisfeita ao ver os dois se aproximando.
— O que foi agora? — Resmungou, sem paciência.
Carla bufou.
— Que merda você tá fazendo, Castilho?
— Levando ele pra casa, óbvio. — Eduardo respondeu, oscilando o peso de Leo em seus ombros para ajustá-lo melhor. — Ou vocês preferem deixar ele desmaiar na rua?
— A gente vai junto. — Davi disse firmemente, cruzando os braços.
Eduardo revirou os olhos.
— Ah, beleza, agora todo mundo resolveu virar babá do Leo? — Eduardo retrucou, a impaciência escorrendo da voz.
Carla cruzou os braços, os olhos faiscando.
— Você não vai levar ele sozinho.
— Eu dou conta. — Eduardo respondeu firme, ajustando Leo melhor contra si, segurando-o com mais força.
— Não duvido. Mas não confio em você.
Eduardo soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
— Tá falando sério? Eu sou o único aqui que não largou ele bêbado no meio da festa.
— E também é o único que mexe com a cabeça dele desse jeito. Por que acha que ele bebeu tanto assim? — Carla rebateu sem hesitação.
Eduardo abriu a boca para responder, mas fechou de novo. O olhar dela era firme, acusador, como se enxergasse nele algo que ele mesmo tentava negar.
Davi suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Olha, podemos resolver essa treta depois. Agora a gente precisa levar o Leo pra casa. E a gente vai junto, Eduardo. Fim de papo.
Eduardo revirou os olhos, mas não tinha tempo nem paciência para discutir.
— Foda-se. Façam o que quiserem.
E, sem dizer mais nada, continuou andando, segurando Leo firme contra si, enquanto Carla e Davi seguiam ao seu lado, determinados a não deixá-lo lidar com aquilo sozinho.
Eles caminhavam pela rua lentamente, com Leo completamente apoiado em Eduardo. O caminho até a fazenda seria longo. E Eduardo já sentia que aquela noite ainda estava longe de terminar.
Enquanto caminhavam com Leo praticamente desmaiado entre eles, Carla e Davi não perdiam a oportunidade de despejar em Eduardo tudo que estavam segurando há dias.
— Você é um desgraçado, Castilho. — Carla começou, o tom ácido, a raiva fervendo nela.
Eduardo bufou, sem paciência.
— Lá vem...
— Sim, lá vem! — Carla aumentou o tom. — O que você esperava? Que a gente só ficasse olhando enquanto você bagunça a cabeça dele?
Davi balançou a cabeça, concordando.
— Ele tava tentando seguir em frente, cara. E você aparece aqui, atrás dele do nada? Aquele filho da puta do Bruno vai pagar por ter mandado aquela foto pra você.
Eduardo apertou a mandíbula, segurando Leo com mais firmeza quando o garoto resmungou algo incoerente.
— Olha, eu sei que fiz merda. — Disse, o tom seco.
— Ótimo, pelo menos tem essa consciência. — Carla rebateu. — Mas saber que fez merda não muda nada se você continua fazendo!
Eduardo suspirou, impaciente.
— Caralho, vocês acham que eu queria que fosse assim? Acham que eu não sei a bagunça que fiz?
— Então por que continua, Eduardo? — Davi perguntou, genuinamente cansado.
Eduardo não respondeu de imediato. Ele queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não tinha resposta. Ele não sabia por que continuava, não sabia como parar.
E então, Carla completou:
— Porque você é um covarde.
Eduardo parou de andar por um segundo.
A palavra o atingiu direto no peito.
Ele respirou fundo, cerrando os punhos antes de continuar caminhando.
Não tinha argumento. Não tinha desculpa.
Porque, no fundo, ele sabia que Carla estava certa.
◄☼►
Carla sentiu o celular vibrar no bolso pela terceira vez em poucos minutos. Ela já sabia quem era antes mesmo de olhar a tela.
Suspirou pesadamente antes de atender.
— Oi, vó...
Do outro lado da linha, a voz preocupada da avó não demorou a vir.
— Carla, onde você tá, menina? Já tá tarde!
Carla lançou um olhar rápido para Leo, que ainda estava apoiado em Eduardo, os olhos semicerrados, tentando se manter consciente.
— Tô resolvendo uma coisa, vó, já tô indo pra casa.
— Que coisa, Carla? É perigoso ficar na rua essa hora! Vem logo!
Ela pressionou os lábios, relutante. Não queria deixar Leo ali. Não queria deixá-lo sozinho com Eduardo, mas sabia que se demorasse mais, a avó ficaria ainda mais preocupada.
Davi notou sua hesitação e colocou a mão em seu ombro.
— Vamos embora, Carlinha. O Leo vai ficar bem.
Ela franziu a testa, insegura. Olhou para Eduardo, que a encarava de volta, sem dizer nada.
Então, sem pensar duas vezes, ela apontou o dedo na cara dele.
— Ai de você, Castilho.
Eduardo piscou.
— O quê?
— Ai de você se não cuidar dele direito. Se ele acordar pior do que já tá, se alguma coisa acontecer, se ele sofrer mais ainda por sua causa… — O olhar dela era feroz. — Você vai se arrepender pro resto da vida, entendeu?
Eduardo trincou o maxilar.
— Eu sei cuidar dele.
— Ah, cala a boca. — Carla bufou, revirando os olhos.
Ela queria dizer mais. Queria ficar, mas sabia que não podia. Suspirou, dando um último olhar para Leo, que resmungou algo inaudível.
— Tchau, Leo. — Murmurou, sabendo que ele nem estava consciente o suficiente para responder.
Então, virou-se e foi embora ao lado de Davi, sem olhar para trás.
Eduardo ficou parado ali, observando Carla e Davi se afastarem, sentindo o peso do aviso dela ainda queimando em seu peito.
E então, olhou para Leo. O garoto estava completamente fora de si.
E agora, Eduardo era o único responsável por ele.
◄☼►
Eduardo entrou na fazenda com Leo praticamente desmaiado contra seu ombro. O peso dele não era desconfortável, mas, depois de tanto tempo caminhando, começou a deixá-lo cansado. Ainda assim, a preocupação falava mais alto do que qualquer cansaço.
Assim que cruzou a porta da cozinha, Rita se virou e arregalou os olhos ao ver o filho naquele estado.
— Meu Deus do céu! — largou o pano de prato que segurava e veio até eles rapidamente. — O que aconteceu com esse menino?!
Eduardo tentou equilibrar melhor Leo, que murmurou algo ininteligível.
— Ele bebeu demais, dona Rita. — Eduardo explicou, meio sem ar. — Trouxe ele pra casa antes que fizesse alguma besteira.
Ela segurou o rosto de Leo com as duas mãos, vendo os olhos vermelhos e o jeito mole do filho.
— Leonardo! — A voz dela saiu cheia de preocupação e um pouco de raiva. — Pelo amor de Deus, menino, o que você tem na cabeça?!
Leo apenas resmungou algo inaudível e tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu.
Rita suspirou fundo, segurando o próprio nervosismo. Olhou para Eduardo com gratidão, mas a expressão ainda era severa.
— Obrigada, Eduardo. Sério. Não sei o que teria acontecido se você não tivesse trazido ele.
— Não precisa agradecer. — Eduardo disse rapidamente, tentando ignorar o aperto no peito.
E então, a voz dela mudou. Um tom cheio de raiva.
— A culpa disso é daquele irresponsável do Gustavo!
A voz ecoou pela casa.
Eduardo engoliu seco. Ela soltou uma pergunta:
— Você sabe onde está o Gustavo?
— Gustavo saiu pra outra festa. Ele nem parecia preocupado.
— Ah, mas quando ele voltar… — Ela balançou a cabeça, claramente segurando a vontade de quebrar alguma coisa.
Depois, voltou sua atenção para Leo.
— Vamos levá-lo pro quarto. Ele precisa descansar.
Eduardo apenas assentiu, ajeitando melhor Leo contra si antes de ajudá-lo a subir as escadas.
Cada passo era um lembrete do quanto ele ainda se importava.
E do quanto isso o destruía.
Eduardo deitou Leo na cama com cuidado, ajeitando o travesseiro sob sua cabeça. Mesmo bêbado, mesmo completamente acabado, Leo ainda era lindo. E isso o irritava profundamente.
Eduardo ficou parado ao lado da cama por um instante, observando Leo respirar devagar, ainda afundado na inconsciência do álcool. A respiração dele era pesada, o rosto relaxado de um jeito que Eduardo raramente via.
Antes que pudesse se perder demais nos próprios pensamentos, o som dos passos de Rita ecoou pelo corredor. Poucos segundos depois, ela apareceu na porta do quarto, os braços cruzados e a expressão carregada de preocupação.
— Ele tá bem? — perguntou, mais baixo agora, como se não quisesse acordá-lo.
Eduardo assentiu, passando uma mão pelos cabelos, exausto.
— Tá. Acho que só precisa dormir.
Ela suspirou, caminhando até a cama. Sentou-se na beirada e passou os dedos pelo cabelo de Leo, um gesto instintivo de mãe, como se tentasse confortá-lo mesmo inconsciente.
— Esse menino… — murmurou, balançando a cabeça. — Sempre foi cabeça dura, mas nunca fez algo assim antes.
Eduardo não disse nada. Porque ele sabia. Sabia que aquilo não era só uma bebedeira inconsequente. Sabia que Leo estava fugindo de alguma coisa.
E o pior de tudo é que ele sabia exatamente do quê.
Ela suspirou de novo e olhou para Eduardo.
— Você vai ficar um pouco com ele?
Eduardo hesitou por um segundo.
— É claro. — respondeu antes mesmo de pensar muito.
Ela assentiu, sem questionar.
— Olha, vou pegar um pano úmido e um copo d’água. Se ele acordar, tenta fazer ele beber um pouco.
Eduardo apenas concordou com um aceno de cabeça, e ela saiu do quarto, deixando-o sozinho com Leo outra vez.
Ele passou a mão pelo rosto, exausto, e se jogou na cadeira ao lado da cama. Leo se mexeu um pouco, os lábios se entreabrindo em um resmungo baixo.
Eduardo se inclinou um pouco, observando-o de perto e murmurou, a voz quase um sussurro:
— Você é um idiota, sabia?
Leo não respondeu, perdido no torpor do álcool. E Eduardo se odiava um pouco por desejar que ele acordasse.
Ele se pegou observando o rosto dele, os cílios longos, a boca entreaberta, o jeito como seu peito subia e descia devagar. Eduardo soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos, tentando afastar o pensamento de que queria beijá-lo ali mesmo.
Então, Leo murmurou alguma coisa.
— Hm? — Eduardo se inclinou um pouco. — O que você disse?
As palavras saíram emboladas, confusas, impossíveis de entender. Eduardo riu baixo, balançando a cabeça.
— Você tá um caco, Leo.
Leo franziu a testa, resmungando de novo. Dessa vez, Eduardo conseguiu pegar algumas palavras soltas.
— … filho da puta… Castilho… estragado...
Eduardo ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços.
— Ah, então eu sou um filho da puta estragado?
Leo não respondeu, apenas virou de lado, enterrando o rosto no travesseiro e soltando um suspiro longo. Eduardo continuou ali, parado, sentindo uma estranha mistura de raiva, carinho e culpa.
“Porra, Leo. Por que você me bagunça tanto?”
Sem saber o que fazer, apenas puxou o cobertor e cobriu Leo, garantindo que ele estivesse confortável.
E então, sem conseguir evitar, deixou a ponta dos dedos passarem levemente pelo cabelo dele antes de se afastar.
Eduardo ficou parado ali por um momento, apenas olhando para Leo, que respirava devagar, afundado na cama.
E então, sem conseguir evitar, se inclinou, dando um beijo leve no canto da boca de Leo.
Leo soltou um som baixo, quase inaudível, mas não se moveu. Eduardo sentiu o próprio coração disparar, o corpo quente, a respiração entrecortada.
O desejo estava ali, forte e perigoso. Mas ele não podia fazer isso.
Não podia ir longe demais.
Não com Leo naquele estado.
Eduardo se afastou, passando as mãos pelo rosto, tentando recuperar o controle. A culpa e o desejo se misturavam de um jeito que o deixava nauseado.
Ele precisava se acalmar.
Respirando fundo, saiu do quarto e desceu até a cozinha, onde encontrou Rita preparando um chá.
— Ele tá bem? — ela perguntou, preocupada.
Eduardo assentiu.
— Tá sim, só descansando.
Rita observou Eduardo por um momento, como se tentasse ler algo além do que ele dizia. Mas, no fim, apenas soltou um suspiro e apontou para um colchão dobrado no canto da sala.
— Pega esse colchão e coloca lá no quarto. Você pode dormir lá hoje.
Eduardo piscou, surpreso.
— Ah… não precisa, dona Rita, eu posso—
— Não. — Ela cortou, a voz firme, mas sem dureza. — Não vou deixar você ir embora sozinho essa hora da noite. Vai dormir aqui.
Eduardo coçou a nuca, hesitante, mas sabia que discutir com ela era inútil.
— Certo… obrigado.
Rita apenas assentiu e voltou para o chá, enquanto Eduardo pegava o colchão e voltava para o quarto.
Ao entrar, viu Leo ainda do mesmo jeito, respirando devagar, o rosto relaxado no travesseiro.
Ele colocou o colchão no chão ao lado da cama, ajeitando o lençol e o travesseiro que Rita havia deixado junto.
Antes de se deitar, olhou mais uma vez para Leo.
Aquela noite tinha sido um inferno. E, mesmo assim, ali estava ele, preso na mesma órbita de sempre.
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