O Garoto Feito de Sol e Terra

54 Capítulo 54 — Entre Beijos e Feridas


Certo dia, Eduardo chegou à fazenda da família de Leo no meio da tarde, o céu pintado em tons quentes de laranja e rosa enquanto o sol começava a se pôr. Assim que desceu da bicicleta e empurrou o portão, não demorou a ouvir as vozes animadas chamando seu nome.

— EDUUUU! — Mariana correu em disparada na direção dele, Sofia logo atrás, os rostinhos iluminados por sorrisos largos.

Eduardo sorriu automaticamente, agachando-se um pouco para receber o abraço das meninas.

— Opa! Quanto tempo, hein? Já estavam com saudade?

— Sim! — Sofia respondeu com firmeza, abraçando-o forte.

Mariana o olhou com a seriedade típica dela.

— Você sumiu.

Eduardo soltou um riso fraco, coçando a nuca.

— Eu sei, pequenininha. Tava resolvendo umas coisas.

Rita apareceu na varanda, enxugando as mãos no avental ao vê-lo ali.

— Mas olha só quem tá vivo! Já achei que tinha se esquecido da gente, Eduardo.

Ele riu, subindo os poucos degraus da varanda e cumprimentando Rita com um beijo na bochecha.

— Impossível esquecer dessa casa, né?

— Pois muito bem. Tá com fome? Fiz bolo de fubá agora há pouco.

— Sempre tô com fome, dona Rita.

Ela deu um tapinha de leve no braço dele, rindo.

— Sabe que aqui nunca falta comida. Entra.

Eduardo sentiu uma pontada de nostalgia ao atravessar a porta e sentir o cheiro da fazenda, da madeira antiga, da comida recém-feita. Era um lar. Sempre tinha sido.

Mas nem tudo ali era aconchegante.

Porque, do outro lado da cozinha, Leo estava parado ao lado da pia, secando um copo com um pano de prato. E seu olhar ao ver Eduardo foi qualquer coisa, menos receptivo.

O sorriso de Eduardo diminuiu um pouco.

Rita e as meninas estavam distraídas demais servindo bolo e café para perceber a tensão repentina no ar.

Leo colocou o copo sobre a pia, jogou o pano de lado e virou-se devagar, cruzando os braços.

Eduardo conhecia bem aquela postura. Estava prestes a levar um coice.

Quando finalmente ficaram a sós em um certo momento, Leo soltou um suspiro pesado, os braços ainda cruzados.

— O que você tá fazendo aqui? Não devia estar com a sua namorada?

O tom de voz carregava ironia, mas também algo mais profundo. Uma pontada de dor bem escondida.

Eduardo apertou os lábios, desviando o olhar por um momento antes de responder.

— Eu queria te ver.

Leo riu sem humor.

— Jura? Que surpresa.

Eduardo passou a língua pelos dentes, tentando controlar a irritação crescente.

— Você pode, pelo menos, fingir que não me odeia?

— Não tô fingindo nada, Castilho. — Leo inclinou a cabeça levemente. — Mas você, ah… você é bom nisso, né?

Eduardo sentiu o golpe.

Ficaram em silêncio por alguns segundos, os olhares presos um no outro, como se tentassem decidir quem cederia primeiro.

Mas Leo não cedia.

E Eduardo não queria sair dali sem dizer o que precisava.

— Vamos pro celeiro.

Leo arqueou a sobrancelha.

— Tá brincando, né?

— Só me dá cinco minutos.

Leo soltou um riso cínico.

— Pra quê? Pra mais uma rodada de mentiras?

Eduardo suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Porra, Leo. Só me ouve.

Leo apertou os olhos, exalando devagar, antes de finalmente dar as costas e sair pela porta. Eduardo o seguiu.

Porque, apesar de toda a raiva, Leo ainda queria ouvir e Eduardo sabia disso.


◄☼►


O celeiro estava silencioso, com apenas o som distante das galinhas no quintal e o vento soprando suavemente entre as frestas de madeira. A luz do fim de tarde entrava em feixes dourados, iluminando o feno espalhado pelo chão.

Leo parou no meio do celeiro, os braços cruzados, observando Eduardo com uma expressão fechada. Não ia facilitar as coisas.

Eduardo inspirou fundo, passou a mão pelos cabelos e disse de uma vez:

— Eu não consigo parar de pensar em você.

Leo riu, irônico.

— E eu tenho que achar isso bonito?

— Não tô tentando te convencer de nada, porra. Só tô sendo honesto.

Leo balançou a cabeça devagar, como se estivesse processando a idiotice daquilo.

— Você devia sentir isso pela Kayla. Não por mim.

O nome dela fez Eduardo cerrar os punhos.

Leo continuou, implacável:

— Ela é sua namorada, não eu.

A cada palavra, Eduardo sentia o peito se apertar mais. E então, sem pensar, deixou escapar:

— Esquece a Kayla, porra!

A frase saiu carregada, quase cuspida. O silêncio foi instantâneo. Apenas os dois, respirando forte, se encarando.

Eduardo passou a mão pelo rosto, respirando fundo.

Leo estreitou os olhos. Cruzou os braços, olhando para Eduardo com um meio sorriso cínico, mas os olhos carregavam algo mais profundo. Algo ferido, algo que latejava no fundo do peito.

— Como assim “esquece a Kayla”? É ela quem deveria ouvir essas palavras vindas de você. — A voz dele saiu baixa, quase suave, mas afiada como uma lâmina.

Eduardo abriu a boca, mas nada saiu. O silêncio dele pareceu dizer mais do que qualquer justificativa mal formulada poderia.

Leo inspirou devagar, como se estivesse tentando se manter inteiro. O meio sorriso cínico voltou, mas não alcançou os olhos, que tremiam naquela inquietação conhecida, onde raiva e dor se misturavam.

— Sabe o que eu acho? — Leo perguntou, inclinando um pouco a cabeça. — Que você deve ter tentado bastante.

Eduardo engoliu seco, o olhando confuso. Leo continuou:

— Você tentou sentir com ela o mesmo que sente comigo. Não funcionou, né? E agora você tá aqui.

Eduardo sentiu o estômago afundar.

— Cala a boca, Leo. — A resposta saiu no automático, mas sem força.

Leo riu, um riso curto e seco, sem humor nenhum. Deu um passo à frente, estudando cada mínima reação no rosto de Eduardo.

— Fala. Você tentou e não conseguiu, né?

Eduardo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Porque não tinha conseguido. Nunca conseguiu.

Leo percebeu.

Ele viu o silêncio, a forma como Eduardo desviou o olhar por um segundo, como se tentasse fugir da verdade que os dois já conheciam. E aquilo só fez algo dentro dele se partir mais um pouco.

— Porra, cara… — Leo balançou a cabeça, rindo de um jeito amargo.

Eduardo fechou os olhos por um segundo, tentando controlar o nó apertado no peito, tentando empurrar para longe o que queria fazer.

Mas então ele olhou para Leo.

Viu os olhos dele brilhando de frustração, os lábios entreabertos, a respiração um pouco acelerada. E soube que já era tarde demais.

— Leo, me diz… você me odeia? — murmurou, a voz rouca.

Leo prendeu a respiração.

— Eu… queria te odiar. — A voz dele saiu tensa, trêmula. E foi o fim da linha para Eduardo.

Antes que qualquer um deles pudesse pensar, ele agarrou o braço de Leo, puxando-o para perto, e seus lábios se chocaram em um beijo desesperado.

Leo soltou um suspiro entrecortado contra sua boca, mas não recuou. Pelo contrário. As mãos dele foram direto para os cabelos de Eduardo, puxando com força, como se quisesse castigá-lo por toda a dor que sentia.

O beijo era uma batalha.

Raiva e desejo se misturavam em cada toque, em cada movimento, em cada respiração entrecortada.

Eduardo apertou a cintura de Leo com força, colando seus corpos como se quisesse tatuá-lo em si. E Leo deixou. Porque, no fundo, ele queria a mesma coisa.

O ar entre eles ficou denso, carregado de algo sufocante. Os lábios de Eduardo roçaram os de Leo, e ele sentiu o corpo inteiro retesar, os músculos travados pelo conflito interno que gritava dentro dele.

Leo queria odiar Eduardo. Queria afastá-lo, empurrá-lo para longe, dizer que aquilo era errado, que era um erro, que ele era um covarde.

Mas nada disso saiu de sua boca.

Porque, no fundo, nada disso importava.

O que importava era o calor do corpo de Eduardo colado ao seu, o aperto dos dedos dele em sua cintura, a respiração quente contra sua pele.

Leo queria resistir, mas seu corpo não obedeceu.

Porque queria tanto, tanto, que qualquer tentativa de negar aquilo era uma mentira patética.

Ele fechou os olhos, como se aceitar fosse mais fácil no escuro, como se aquilo pudesse diminuir a culpa, a frustração, a dor.

Então, no instante seguinte, suas mãos seguraram Eduardo pelo pescoço e puxaram-no de volta para si.

O beijo recomeçou, mais feroz, mais desesperado.

Leo sentiu o gosto de Eduardo, sentiu as mãos dele explorando seu corpo com a mesma necessidade voraz que queimava dentro dele.

E, naquele momento, não existia Kayla, não existia medo, não existia futuro.

Só existiam eles dois.

E o desejo que sempre os arrastava de volta para aquele mesmo abismo.

Os beijos de Eduardo desceram para o pescoço de Leo, sua boca quente deixando um rastro de arrepios por onde passava. Leo fechou os olhos por um instante, sentindo a respiração descompassada, os dedos apertando os braços de Eduardo sem perceber.

O cheiro dele, o toque dele, a forma como suas mãos exploravam sua pele, tudo era viciante, tudo fazia sua mente girar, perder o senso de tempo e lugar.

Quando Eduardo o puxou ainda mais para perto, colando seus corpos novamente, Leo gemeu baixinho contra a boca dele. O amasso ficou mais intenso, os beijos mais desesperados, as mãos mais ousadas. O calor entre eles crescia rápido demais, como fogo consumindo o pouco controle que ainda tinham.

Até que, num lapso de sanidade, Leo afastou seu rosto bruscamente, respirando fundo, o peito subindo e descendo enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Eu… eu não posso fazer... aqui, não. Hoje não. — disse, a voz ainda carregada de desejo, mas firme o suficiente para cortar o momento.

Eduardo piscou, surpreso com a interrupção repentina. Ainda segurava Leo pela cintura, o corpo quente pressionado contra o dele.

Por um segundo, só o silêncio pesou entre eles. O olhar de Eduardo vagou pelo rosto de Leo, como se tentasse decifrá-lo, como se tentasse encontrar ali a resposta para algo que nem ele sabia direito.

Mas Leo desviou o olhar, afastando-se mais um passo.

Ele sabia que, se continuasse ali, se deixasse Eduardo tocá-lo por mais tempo, ia se perder de novo. E não podia. Não mais.

Eduardo respirou fundo, tentando recuperar o controle que estava se esvaindo entre seus dedos. Ele entendia. Sabia que não podia forçar nada, que não era assim que queria Leo para si.

Mas, porra, era difícil.

O corpo dele ainda queimava com a proximidade, com o gosto da pele de Leo, com o jeito como ele quase se entregou antes de parar tudo.

Eduardo fechou os olhos por um segundo, expirando devagar, tentando acalmar a pulsação acelerada. Então, sem dizer nada, se inclinou de novo, capturando os lábios de Leo num beijo mais lento, mais contido.

Dessa vez, não era sobre urgência ou desejo descontrolado. Era só ele querendo sentir Leo mais um pouco.

Leo suspirou contra a boca dele, não resistindo quando Eduardo aprofundou o beijo devagar, como se quisesse prolongar aquele momento pelo máximo de tempo possível.

O calor ainda estava ali, mas agora misturado com algo mais denso, mais perigoso.

Quando Eduardo finalmente se afastou, encostou a testa na de Leo, os olhos ainda fechados.

— Tudo bem — murmurou, a voz rouca.

Leo mordeu o lábio, sem saber o que dizer. Ele não queria que Eduardo parasse de beijá-lo. Não queria que ele fosse embora.

Mas também não sabia como lidar com aquilo.

Então, ficou quieto.

Eduardo deslizou os dedos pela nuca de Leo mais uma vez antes de dar um último selinho demorado em seus lábios.

Depois, recuou de vez.

O espaço entre eles ainda estava carregado, denso, cheio de coisas não ditas.

Mas, por agora, aquilo teria que ser o suficiente.

Eduardo não disse mais nada. Apenas respirou fundo, passou a mão pelos cabelos e deu alguns passos para trás antes de finalmente se virar e ir embora.

Leo ficou parado ali, sentindo o corpo ainda quente, a respiração um pouco descompassada, como se estivesse se segurando para não ceder de novo. Ele mordeu o lábio com força, os punhos fechados ao lado do corpo.

Eduardo, quando já estava mais longe, caminhando em direção à saída da fazenda, sentiu um impulso inevitável de olhar para trás.

E lá estava Leo.

Ainda parado no mesmo lugar.

Ainda olhando para ele.

Os olhos de Eduardo encontraram os dele por um breve instante, e algo dentro dele apertou.

Leo parecia perdido. Confuso. Mas não desviou o olhar.

Eduardo sentiu um nó na garganta e desviou primeiro, engolindo seco. Depois, apertou os olhos, praguejou baixo para si mesmo e continuou andando.

Porque, se ficasse mais um segundo ali, sabia que ia voltar correndo para ele.