O Garoto Feito de Sol e Terra

53 Capítulo 53 — Distância


Os últimos três dias foram um silêncio absoluto entre Eduardo e Leo. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nada.

Eduardo tentou se convencer de que era melhor assim. Mas agora, no quarto dia, ele estava à beira da loucura.

Estava cercado de amigos, de risadas, de música alta tocando ao fundo, de gente se divertindo e vivendo a vida como se nada mais importasse. Mas, por dentro, ele não estava ali.

A confraternização estava acontecendo na casa de Tiago. Como sempre, um monte de gente da escola apareceu, mais do que o esperado. A casa estava cheia, o cheiro de churrasco misturado ao perfume de gente empolgada.

Eduardo estava encostado no sofá, com uma lata de refrigerante na mão, o rosto relaxado, um meio sorriso nos lábios, jogando conversa fora com Tiago e Hugo.

Por fora, parecia normal. Por dentro, estava em outra dimensão.

— E aí, Castilho, tá com a cabeça onde? — Hugo cutucou o ombro dele, rindo. — Tá muito calado, mano.

Eduardo piscou algumas vezes, voltando para a realidade.

— Que? — Ele riu, balançando a cabeça. — Tô ouvindo.

— Ah, tá — Tiago zombou. — Então me diz, o que eu acabei de falar?

Eduardo abriu a boca, mas não fazia a menor ideia.

Os dois amigos riram.

— Nem disfarça, porra. — Hugo zombou. — Tá pensando no quê, hein?

Eduardo tomou um gole do refrigerante para ganhar tempo, o olhar desviando para Kayla do outro lado da sala. Ela estava sentada com Samanta e algumas meninas do colégio, rindo de algo que alguma delas disse.

Ela parecia tão confortável, tão tranquila, como se estivesse exatamente onde queria estar. Ele não se sentia assim fazia tempo. Kayla percebeu o olhar e sorriu para ele. Eduardo forçou um sorriso de volta.

Hugo e Tiago se entreolharam, trocando um olhar malicioso.

— Kayla, né? — Tiago zombou. — Tá apaixonado mesmo.

Eduardo sorriu de canto, dando de ombros. Mas ele sabia muito bem que não era Kayla que estava na sua cabeça.

Era Leo.

Era sempre Leo.

Era a lembrança dele segurando o lençol com força, as costas arqueadas, o jeito como mordeu o lábio quando Eduardo o tocou daquela forma. Era a voz dele ofegante, o olhar perdido de prazer, os dedos cravados em seus ombros.

Era o gosto da boca dele.

A sensação do calor de Leo contra seu corpo.

Eduardo passou a língua pelos lábios, tentando afastar a lembrança, mas era inútil.


◄☼►


Enquanto isso, Kayla falava com Samanta e as outras meninas, completamente alheia ao que estava se passando dentro de Eduardo.

— O Eduardo tá estranho esses dias, né? — Samanta comentou, olhando na direção dele.

Kayla acompanhou o olhar, vendo Eduardo tomando mais um gole do refrigerante, com um semblante perdido por um segundo antes de forçar uma expressão normal.

Ela conhecia Eduardo o suficiente para perceber que alguma coisa estava errada.

— Estranho como? — perguntou, tentando não demonstrar preocupação.

— Não sei… tipo, ele tá aqui, mas não tá, sabe? Meio distraído. — Samanta respondeu, arqueando a sobrancelha. — Será que aconteceu alguma coisa?

Kayla se esforçou para não demonstrar a inquietação crescente dentro dela.

— Não que eu saiba — respondeu, pegando uma batata frita do prato na mesa.

Mas agora, aquela pulga atrás da orelha começou a crescer.

Ela e Eduardo não estavam brigados, mas ele realmente parecia distante ultimamente. E aquilo a incomodava de um jeito estranho.


◄☼►


Do outro lado da sala, Eduardo mal percebeu que Kayla o observava.

Ele pegou o celular quase no automático, desbloqueando a tela.

Nada. Nenhuma mensagem de Leo.

Ele rolou a conversa antiga, os olhos presos nas últimas palavras trocadas.


Leo: n importa, eduardo. no fim, sempre vai dar na mesma coisa.


Eduardo sentiu um aperto no peito.

Porque ele sabia que Leo estava certo. Porque ele sabia que, no fim, ele sempre ia ferrar com tudo.

Mas, porra, ele não queria que fosse assim.

O nome de Leo ainda brilhava na tela do celular.

Eduardo apertou o celular na mão, os olhos fixos no nome de Leo na tela, enquanto as vozes e a música ao redor pareciam ficar mais distantes. Ele sabia que não deveria estar sentindo isso.

Não deveria estar querendo Leo tanto assim.

Não deveria estar se torturando por algo que ninguém jamais aceitaria. Mas por mais que tentasse, não conseguia se desligar dele.

Ele jogou o celular no bolso, respirando fundo, tentando se concentrar em qualquer outra coisa.

— Aí, mano, que cara é essa? — Tiago cutucou seu ombro, rindo. — Você tá numa festa, porra. Para de pagar de emo e vem beber.

Eduardo forçou um riso, pegando uma garrafa de cerveja que Hugo estendeu para ele. Levou a bebida aos lábios, tomando um gole longo, como se aquilo fosse o suficiente para afogar o turbilhão dentro dele.

Ele precisava parar com essa merda.

Estava ali, no meio de seus amigos, com Kayla, com as pessoas certas. Isso era o que ele deveria querer.

Mas ele queria Leo. E isso o fazia se sentir um lixo.

Ele sabia o que significava desejar Leo.

Significava complicar tudo.

Significava manchar a própria imagem.

Significava se tornar o filho que seus pais nunca aceitariam.

Significava decepcionar seus amigos.

Ele tinha que escolher Kayla.

Kayla era segura. A garota perfeita.

Mas por que então ele se sentia como se estivesse se afogando?

— E aí, Castilho, caiu no buraco existencial de novo? — Hugo brincou, estalando os dedos na frente dele.

Eduardo piscou, tentando focar nos amigos.

— Tô suave — mentiu, forçando um sorriso.

Tiago riu, balançando a cabeça.

— Sei. Se ficar mais calado, a gente te confunde com um dos móveis.

Os outros riram, mas Eduardo não conseguiu nem se incomodar com a provocação.

Ele olhou ao redor, sentindo a agitação da festa. Todo mundo parecia estar exatamente onde queria estar.

E ele?

Onde diabos ele queria estar?

Seus dedos coçaram para pegar o celular de novo.

Para mandar uma mensagem. Para ver se Leo responderia.

Mas ele não fez isso. Porque sabia.

Sabia que a única resposta que receberia seria o silêncio. E sabia que o silêncio doía mais do que qualquer palavra que Leo pudesse dizer.

Então, Eduardo tomou outro gole da cerveja, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos por um instante.

Tentando ignorar a sensação de que estava vivendo a vida errada.


◄☼►


A noite avançava quando Eduardo e Kayla deixaram a confraternização juntos. Caminhavam lado a lado pelas ruas meio vazias, o vento fresco da madrugada quebrando o calor abafado do dia. Eduardo mantinha as mãos nos bolsos, os pensamentos ainda confusos, tentando se agarrar a qualquer coisa que o fizesse sentir que estava fazendo a coisa certa.

Ele precisava provar para si mesmo.

Precisava mostrar que conseguia esquecer Leo. Que Kayla era a escolha óbvia. Que ele podia se encaixar no que todo mundo esperava dele.

Kayla entrelaçou os braços ao dele e sorriu de leve, balançando a cabeça.

— Você tava meio estranho na festa — ela comentou, olhando para ele. — Tá tudo bem?

Eduardo respirou fundo e forçou um sorriso, desviando o olhar para a calçada.

— Só tô cansado. — respondeu, apertando de leve a mão dela. — Nada demais.

Kayla o analisou por um instante, mas acabou assentindo, aceitando a resposta.

— A festa tava cheia, né? — ela comentou, tentando desviar do desconforto. — E o Hugo falando merda como sempre.

Eduardo soltou um riso fraco, agradecendo mentalmente pela mudança de assunto. Ele se agarrou a isso, rindo junto, respondendo as brincadeiras dela, fazendo piadas. Tentando se convencer de que estava ali de verdade.

Quando chegaram em sua casa, entraram em silêncio, tentando não fazer barulho. Seus pais já estavam dormindo, então ele guiou Kayla direto para o quarto.

Ela o puxou pela gola da camisa antes mesmo que ele fechasse a porta.

O beijo era suave, ritmado, do jeito que Kayla sempre fazia. Eduardo retribuiu, levando as mãos à cintura dela, puxando-a mais para perto, tentando se perder ali. Ela riu contra seus lábios, os dedos deslizando pelos cabelos dele.

Mas, por dentro, Eduardo sentia que faltava algo.

Faltava a urgência. Faltava o calor sufocante. Faltava a sensação de estar sendo completamente consumido pelo outro.

Ele intensificou o beijo, tentando buscar isso. Buscando, de alguma forma, sentir a mesma fagulha que queimava cada vez que tocava Leo.

Eles caíram na cama, os corpos se enroscando, e Eduardo fez tudo certo. Tocou Kayla do jeito que sabia que ela gostava, sussurrou as palavras que sabia que a faziam sorrir. Mas, a cada instante, sua mente o traía.

Porque quando fechava os olhos, não era o corpo de Kayla que sentia. Era o calor incandescente de Leo. O jeito como Leo o agarrava com força, as unhas cravando sua pele, como se quisesse fundir seus corpos em um só.

Era a respiração descompassada de Leo, os gemidos arrastados, a forma como ele se entregava sem medo, sem hesitação.

Com Leo, tudo era brasa. Era fogo. Era um desejo incontrolável que tomava conta de Eduardo sem que ele tivesse qualquer chance de resistir.

E ali, com Kayla, tudo parecia ensaiado. Bonito. Certo.

Mas nunca certo o suficiente.

Eduardo manteve os olhos fechados o tempo todo, concentrando-se apenas em cumprir o papel que era esperado dele. Em fazer o que era certo. Em convencer a si mesmo.

Mas, no fundo, ele sabia.

Por mais que tentasse se agarrar ao que era seguro, por mais que tentasse sufocar o que sentia, uma verdade gritava dentro dele.

Leo ainda queimava dentro dele.

E Eduardo não sabia por quanto tempo mais conseguiria fingir que isso não era verdade.


◄☼►


Na manhã seguinte, Eduardo estava sentado no fundo da sala, encarando a tela do celular enquanto fingia prestar atenção na aula. O professor falava sobre alguma coisa, mas as palavras passavam por ele como se fossem ruído branco.

Tudo o que conseguia pensar era em Leo.

Será que ele estava pensando nele também?

Ou será que, para Leo, aquilo já estava enterrado?

Eduardo girou o celular entre os dedos, se coçando para mandar uma mensagem, mas não sabia o que dizer e também não queria ser ignorado de novo.

E se Leo não respondesse? Só a ideia já era um soco no estômago.

Então, ao invés de mandar diretamente para Leo, abriu a conversa com Bruno.

Ele sabia que Carla e Davi não responderiam. Ou, se respondessem, seria para mandá-lo à merda. Eles o odiavam naquele momento, e com razão. Tinham estado ao lado de Leo o tempo todo, protegendo-o, tentando afastá-lo da bagunça que Eduardo causava. E Eduardo duvidava que qualquer um dos dois estivesse disposto a ajudá-lo a se aproximar de Leo de novo.

E Eduardo só queria uma resposta. Precisava saber como Leo estava.

Ele hesitou por um momento, os dedos pairando sobre o teclado, antes de finalmente digitar:


Eduardo: e aí, mano


A resposta não demorou.


Bruno: e aí


Eduardo respirou fundo.


Eduardo: cê sabe como o leo tá?


Bruno demorou um pouco mais para responder dessa vez.


Bruno: pq?


Eduardo passou a mão no rosto, tentando ignorar o incômodo crescente no peito.


Eduardo: só queria saber

Bruno: ele tá na escola aqui, normal


Eduardo apertou os lábios.


Bruno: mas tipo… se vc tá perguntando p saber se ele tá um caco, n sei te dizer

Bruno: ele tá com a gente aqui direto, não fala nada sobre vc

Bruno: e eu tbm não pergunto


Eduardo prendeu a respiração.

Então era assim? Leo seguiu em frente? O estômago dele revirou.


Eduardo: ah, entendi

Bruno: mas pq vc tá perguntando? quer q eu fale algo pra ele?


Eduardo travou a mandíbula. Ele queria dizer sim. Queria que Bruno fosse até Leo e dissesse que ele ainda pensava nele. Que sentia falta. Que não conseguia tirá-lo da cabeça.

Mas Eduardo também sabia que aquilo era inútil. Leo não queria falar com ele.

Então, ele apenas digitou:


Eduardo: não, deixa quieto


Bruno leu, mas não respondeu.

Eduardo guardou o celular no bolso e passou a mão no rosto, tentando se concentrar no que quer que o professor estivesse dizendo.


◄☼►


Quando Leo se levantou da mesa, dizendo que ia comprar algo na cantina, Bruno aproveitou o momento. Ele olhou de relance para Carla e Davi, inclinando-se levemente para perto deles.

— O Castilho me mandou mensagem hoje — murmurou, baixo o suficiente para que ninguém mais ouvisse.

Os dois travaram na hora. Carla franziu a testa, largando o pacote de salgadinho que segurava.

— O quê? — sibilou, a voz carregada de irritação.

Davi cruzou os braços, encarando Bruno com desconfiança.

— E o que ele queria?

Bruno suspirou, coçando a nuca.

— Perguntar como o Leo tá.

Os olhos de Carla se estreitaram.

— Ele que vá perguntar direto, então.

— Pois é — Bruno concordou, dando de ombros. — Mas duvido que tenha coragem. Sabe que o Leo vai morder a cabeça dele.

Davi soltou um riso seco, balançando a cabeça.

— Não duvido.

Carla ficou em silêncio por um instante, olhando de relance para o lado, como se tentasse decidir se aquilo valia a pena ser mencionado para Leo depois.

Mas então suspirou, balançando a cabeça.

— Esse cara não tem jeito.

E quando Leo voltou, os três já estavam falando de outra coisa, como se nada tivesse acontecido.


◄☼►


Eduardo saiu da escola com o coração martelando contra o peito. Tinha inventado uma desculpa qualquer para Kayla, algo sobre precisar resolver um assunto de família. Ela não questionou muito, apenas o beijou de leve e disse que depois se falavam.

Ele queria desesperadamente ver Leo.

Era o sexto dia sem eles terem tido qualquer contato. Seis dias desde a última conversa truncada pelo celular, desde que Eduardo tentou fingir que conseguia seguir em frente. Mas não conseguia.

Ele precisava vê-lo.

Foi até a escola onde Leo estudava, torcendo para não estar fazendo algo muito estúpido. Mas, no fundo, já sabia que estava.

Quando chegou, viu alunos saindo pelos portões, conversando, rindo e indo para casa sem grandes preocupações. Então, seus olhos encontraram quem ele procurava.

Leo saía da escola acompanhado de Carla e Davi.

Eduardo apertou os lábios, respirou fundo e seguiu em direção a eles.

— Oi, gente.

O silêncio veio como um soco.

Carla cruzou os braços, os olhos se estreitando como se o simples som da voz de Eduardo fosse suficiente para irritá-la. Davi apenas o encarou.

Leo, por outro lado, travou no lugar. Seu corpo inteiro ficou rígido, como se não tivesse certeza se aquilo era real ou apenas uma miragem do cansaço acumulado dos últimos dias.

Eduardo ignorou o gelo e focou nele.

— Oi, Leo…

Leo piscou algumas vezes, se forçando a lembrar como se respirava.

Eduardo deu um meio sorriso, enfiando as mãos nos bolsos como se estivesse completamente tranquilo. Como se não tivessem passado os últimos dias sem falar um com o outro.

— Quer... ir comigo ali na sorveteria Verão?

A pergunta foi dita num tom leve, como se nada tivesse acontecido. Como se fossem os mesmos de antes.

Leo sentiu o coração errar uma batida. Por um instante, um único instante, quase disse que sim. Quase esqueceu de tudo e seguiu Eduardo como sempre fazia.

Mas então, Carla deu um passo à frente.

— Ah, vai se foder, Castilho!

A voz dela foi afiada como uma lâmina, carregada de raiva reprimida.

Leo acordou do seu torpor.

A mandíbula travou e, antes que Eduardo pudesse abrir a boca para responder à explosão de Carla, Leo se adiantou.

— Não.

Eduardo piscou, surpreso com a firmeza na voz dele.

— Leo…

— Eu disse que não.

A resposta foi seca, dura.

Eduardo olhou para ele, tentando encontrar alguma abertura, mas o olhar de Leo era puro gelo.

Carla bufou ao lado, cruzando os braços.

— Você é burro ou só finge?

Eduardo sentiu o peito apertar, mas manteve o rosto impassível.

— Eu só queria conversar.

Carla riu sem humor.

— Conversar? Depois de tudo? Ah, vai à merda.

Leo respirou fundo, tentando manter a calma.

— Eduardo, só… vai embora.

Eduardo engoliu em seco, olhando diretamente para ele.

Leo sustentou o olhar, mas era difícil. Difícil porque, por mais que estivesse magoado, por mais que odiasse tudo o que Eduardo fez… ainda queria ele. Mas não podia mais ceder.

Eduardo percebeu. Os ombros dele caíram um pouco, como se finalmente entendesse que não ia conseguir convencê-lo.

Por um instante, ninguém disse nada. Então, Eduardo deu um passo para trás.

— Tá bom, tudo bem.

Sua voz saiu mais baixa do que pretendia.

Olhou mais uma vez para Leo, esperando alguma hesitação, algum sinal de que ele não queria que ele fosse embora.

Mas não havia nada.

Leo ficou ali, imóvel, a expressão fechada. E Eduardo, sem opção, apenas virou as costas e se afastou.

Assim que Eduardo foi embora, Carla explodiu.

— EU NÃO ACREDITO!

Leo piscou, ainda olhando para onde Eduardo tinha sumido, mas logo virou o rosto para Carla, que estava vermelha de raiva.

— Você viu isso, Leo? Você viu o que esse desgraçado fez?! Ele chegou aqui, na maior cara de pau, como se NADA tivesse acontecido, como se fosse só mais um dia qualquer!

Davi cruzou os braços, balançando a cabeça com descrença.

— Ele acha que pode simplesmente aparecer aqui e te chamar pra tomar sorvete como se não tivesse ferrado com a tua cabeça…

Leo suspirou pesadamente.

— Chega, pessoal. Eu já disse não, tá bom? Acabou.

Carla apontou um dedo na direção dele.

— Ah, não vem com essa! Não tenta fingir que isso não mexeu contigo.

Leo passou a mão no rosto, sentindo o cansaço pesar sobre os ombros.

— Carla…

— Você quase disse sim.

A frase bateu em cheio.

Leo travou.

— Que?

— Você quase disse sim — Carla repetiu, olhando diretamente para ele. — Por um segundo, ficou completamente paralisado. Eu vi, Davi viu!

Davi suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Leo, fala sério, cara… Depois de tudo que ele fez...

Leo ficou em silêncio. Carla suspirou e comentou:

— Você não consegue, né?

Leo desviou o olhar.

— Carla, não começa.

— Eu NÃO VOU parar! — Ela gesticulou, irritada. — Porque eu tô puta, Leo! Você já sofreu pra caralho por causa dele! Você chorou, você se afastou da gente, você ficou todo fodido… e agora? Agora ele aparece e você quase vai atrás dele de novo?!

— Mas eu NÃO fui!

A voz de Leo saiu mais alta do que pretendia. Os três ficaram em silêncio por um momento.

Leo respirou fundo, tentando recuperar o controle.

— Eu não fui — repetiu, agora mais baixo.

Carla cruzou os braços, ainda frustrada.

— Mas queria ter ido, né?

Leo fechou os olhos por um instante.

Não respondeu. E isso já era resposta suficiente. Carla suspirou pesadamente, passando as mãos pelos cabelos, exausta.

— Leo… só me diz uma coisa.

Ele a olhou.

— Você ainda acha que, de alguma forma, ele vai escolher você?

Leo sentiu o estômago revirar.

Davi estreitou os olhos.

— Cara, se você ainda acredita nisso, eu vou te dizer, amigo… Você tá se iludindo. De novo.

Carla assentiu ao lado, concordando.

Leo engoliu em seco, desviando o olhar.

— Eu sei.

Mas será que sabia mesmo?

Ou será que, no fundo, ainda havia uma parte dele que queria acreditar?