O Garoto Feito de Sol e Terra

41 Capítulo 41 — Promessa Cumprida


O fim de semana passou rápido, como um piscar de olhos, mas foi o suficiente para viverem tudo o que queriam.

Eduardo e Leo exploraram a cidade como dois garotos soltos no mundo, sem ninguém para dizer o que fazer. Caminharam pela orla, comeram em quiosques, provaram frutos-do-mar que Leo nunca tinha comido antes. Leo fez questão de experimentar camarão no espetinho, fez uma careta quando percebeu que não gostava tanto assim e Eduardo riu até perder o ar.

Eles correram descalços pela areia, tomaram banho de mar até a pele enrugar e ficaram deitados sob o sol quente, sentindo o calor secar a água salgada em seus corpos.

Leo, deslumbrado com tudo, tirava fotos de qualquer coisa: o céu tingido de cores impossíveis, as ondas quebrando contra as pedras, um cachorro dormindo preguiçoso na sombra de um quiosque.

Eduardo apenas observava, sentindo um orgulho discreto ao vê-lo tão livre, tão vivo.

Mas, entre todas as risadas, os passeios, o sabor do sal na pele, havia também intimidade.

Nos momentos em que estavam sozinhos, dentro do quarto alugado em uma pousada simples, o desejo falava mais alto. Aquela noite de sábado foi lenta, quase reverente, como se cada um quisesse gravar no corpo do outro o que aquele momento significava.

Eduardo se entregou a Leo de novo, sentindo a diferença entre a dor e o prazer, aprendendo a se perder na sensação da pele quente contra a sua. Mas depois, Leo também se rendeu, também deixou Eduardo tomar o controle. Ele se arqueava sob o toque de Eduardo, gemendo baixinho contra o travesseiro enquanto Eduardo deslizava os dedos por sua cintura, segurando-o com força, como se quisesse impedir o tempo de passar.

E assim seguiram, um pertencendo ao outro, alternando entre se dar e se tomar, entre gemidos abafados e palavras arrastadas pelo desejo.

O mundo lá fora poderia esperar.

Ali, naquele fim de semana que parecia existir em um tempo diferente, só havia os dois.


◄☼►


Na manhã seguinte, Leo estava jogado na cama da pousada, ainda sem camisa, o cheiro de sal impregnado na pele quando o celular vibrou ao seu lado. Ele pegou o aparelho sem muita pressa, mas ao ver o nome de Carla na tela, franziu o cenho.


Carla: fiquei sabendo que vcs viajaram

Carla: cadê vc, leonardo?


Leo arqueou a sobrancelha.

— A Carla tá me interrogando — comentou, jogando o celular no peito de Eduardo, que estava deitado ao seu lado.

Eduardo pegou o celular, leu as mensagens e riu baixo.

— Como ela soube?

Leo puxou o aparelho de volta, digitando rápido.


Leo: quem te contou isso?

Carla: passei na fazenda p entregar umas coisas da minha avó pra sua mãe e ela disse q vc tinha viajado com eduardo, mas n disse pra onde

Carla: e eu achei estranho porque ela tava meio irritada

Carla: então resolvi perguntar direto pra vc


Leo olhou para Eduardo, que ainda parecia se divertir com a situação.

— Minha mãe deve estar brava comigo — disse, jogando a cabeça para trás. — Depois preciso ligar pra fazenda pra avisar ela onde eu tô.

Ele voltou a digitar.


Leo: tô viajando com o edu, só esse fds

Carla: e não me avisaram?

Carla: ingratos

Leo: kkkkkk foi meio em cima da hora

Carla: sei

Carla: e aí? onde vcs tão?


Leo olhou para Eduardo de novo.

— Ela quer saber onde a gente tá.

Eduardo esticou o braço e puxou o celular da mão dele.


Leo: oi carla, eduardo digitando aqui. resumindo: num lugar legal

Carla: para de ser misterioso, castilho

Leo: depois eu te conto, vai ficar enchendo meu saco se eu falar agora

Carla: óbvio q vou


Eduardo riu e devolveu o celular para Leo.

— Acho melhor deixar ela curiosa.

Leo balançou a cabeça, rindo.

— Ela não vai largar do nosso pé quando a gente voltar.

— Nunca larga — Eduardo disse, puxando Leo para mais perto e beijando sua nuca, sem pressa.

O celular vibrou de novo, mas Leo o ignorou.

Aquela era a última coisa que queria pensar naquele momento.


◄☼►


A volta no ônibus foi silenciosa, mas um silêncio confortável.

Leo estava encostado na janela, os olhos meio pesados de sono, mas a mente ainda revivendo os últimos dois dias. A areia grudada na pele, o cheiro de maresia, o barulho das ondas. Tudo ainda pulsava nele como uma lembrança vívida, uma felicidade palpável que ele não sabia descrever.

Foram os dois dias mais felizes de sua vida, mas ele não disse isso em voz alta.

Eduardo, ao seu lado, estava desperto, olhando para ele de soslaio de vez em quando. A luz fraca do ônibus iluminava apenas parte do rosto de Leo, e Eduardo não conseguia evitar a lembrança de como ele parecia diferente naquela cidade à beira-mar. Os cabelos loiros bagunçados pelo vento, os olhos brilhando como se tivessem descoberto um mundo novo. A expressão pura de encantamento quando viu o oceano pela primeira vez, os pés descalços tocando a areia quente, o riso livre quando correram um contra o outro na beira da água.

Eduardo apertou os lábios, desviando o olhar para a janela.

Virou a cabeça para Leo de novo e, sem pensar, deslizou os dedos levemente sobre a mão dele, um toque discreto, mas que fez Leo abrir os olhos preguiçosamente e olhar para ele.

Nenhum dos dois disse nada.

Mas, naquele instante, não precisavam.


◄☼►


Chegaram à rodoviária de São Tomás quando o sol ainda estava alto. O calor da cidade parecia mais intenso depois dos ventos frescos da praia, mas nenhum dos dois reclamou.

Eduardo e Leo pegaram suas mochilas, desceram do ônibus e seguiram para fora do terminal, onde precisariam se despedir para seguir caminhos opostos. Ficaram ali por um instante, um diante do outro, sem saber direito como encerrar aquele fim de semana.

Leo coçou a nuca, desviando o olhar, meio sem jeito.

— Foi… muito legal. — disse, simples, mas carregado de significado.

Eduardo sorriu de lado.

— É, foi sim.

Leo assentiu, respirando fundo, e então deu um tapa leve no ombro de Eduardo, um gesto casual, como se tentasse aliviar o peso daquele momento.

— Valeu por isso.

Eduardo retribuiu o gesto, empurrando Leo de leve.

— Sempre.

Eles se despediram ali. Sem cerimônias, sem promessas faladas, mas ambos sabendo que aquela viagem os tinha marcado.

Eduardo pegou o caminho de casa e, ao chegar, jogou-se na cama, exausto, mas com a mente ainda presa nos momentos na praia.

O celular vibrou ao seu lado.

Novas mensagens.


Leo: mano...

Leo: eu não sou bom com essas coisas, mas queria falar isso

Leo: essa viagem foi incrível, de verdade

Leo: vc cumpriu sua promessa, me levou pra ver o mar

Leo: e eu amei cada segundo

Leo: obg por isso

Leo: eu te amo


Eduardo ficou olhando para a tela, sentindo o coração bater forte no peito. Eles nunca tinham dito aquilo um para o outro. Nunca assim, com todas as letras, sem se esconder atrás de piadas ou silêncios confortáveis.

“Eu te amo.”

As palavras estavam ali, simples e nuas, mas carregadas de tudo o que eles vinham evitando admitir em voz alta. Eduardo leu e releu cada linha, como se não acreditasse no que estava vendo. Sentiu a garganta apertar, o peito aquecer, a mente se encher de memórias: o riso de Leo na areia, o toque dele à noite, o jeito como seus olhos se perdiam no mar como se tudo fizesse sentido ali.

Ele também queria dizer. Queria escrever de volta “eu te amo” com a mesma coragem, com a mesma entrega. Porque sentia, talvez há mais tempo do que estivesse pronto para admitir.

Mas, naquele instante, algo o travou.

Talvez fosse o medo. Talvez fosse o peso de tudo o que ainda estava entre eles: Kayla, os segredos, a realidade voltando.

Então ele respirou fundo e escreveu o que conseguiu:


Eduardo: idiotice ficar agradecendo por isso

Eduardo: vc merecia ver o mar

Eduardo: e eu tô feliz que foi comigo


Ficou olhando para as palavras por alguns segundos antes de enviar. Não era tudo o que queria dizer, mas, por agora, era o que ele conseguia.

Respirou fundo e apertou "enviar".


Leo: :)

Leo: bora dormir, tô morto


Eduardo soltou um riso baixo, balançando a cabeça, antes de bloquear o celular e fechar os olhos. Ainda podia sentir o cheiro do mar na pele, como se a viagem não tivesse realmente terminado.