O Garoto Feito de Sol e Terra
42 Capítulo 42 — A Realidade
O conto de fadas havia acabado.
Eduardo voltou para a rotina, para a escola, para os corredores barulhentos e as conversas que não paravam. Voltou para a vida real.
E Kayla o abordou antes mesmo da primeira aula começar.
— Ei, sumido. — Ela surgiu ao lado dele, encostando-se no armário como se aquilo não fosse nada demais, mas seu olhar dizia o contrário. — Vai me dizer agora por que não respondeu nenhuma das minhas mensagens esse tempo todo?
Eduardo desviou o olhar por um segundo, passando a mão na nuca. Ele já sabia que essa conversa viria, só não queria lidar com ela agora.
— Ah… foi mal, Kayla. Tava resolvendo umas coisas e acabei me desligando um pouco esses dias.
Ela estreitou os olhos, analisando-o por um instante.
— Resolvendo o quê?
Eduardo hesitou.
— Coisas.
Kayla bufou, cruzando os braços.
— Você é mesmo péssimo com desculpas.
Eduardo deu um meio sorriso, mas não disse nada. Ele sabia que Kayla não era burra. Sabia que ela tinha percebido que algo estava estranho. Mas, por sorte, ela não insistiu mais naquele momento. Apenas revirou os olhos e murmurou um "a gente ainda vai conversar sobre isso" antes de seguir seu caminho.
◄☼►
No intervalo, a confusão aumentou.
Tiago jogou um braço ao redor dos ombros de Eduardo e o puxou para perto como se fossem melhores amigos desde sempre.
— Agora me diz, Castilho… — Tiago começou, um sorriso malicioso no rosto. — O que diabos você fez naquela festa? Porque, do nada, você sumiu… e a Kayla sumiu também.
Eduardo rolou os olhos, empurrando Tiago de leve.
— Para de ser idiota.
— Ah, não! Eu sabia! — Tiago apontou para ele. — Você não pode me dizer que nada aconteceu.
Eduardo bufou, sabendo que não tinha saída.
— Tá, a gente se beijou.
Os olhos de Tiago brilharam.
— EU SABIA!
Hugo e Giovane, que estavam por perto, riram.
— Caramba, Castilho, tá pegando a Kayla e nem conta pra gente? — Giovane brincou.
— Isso significa que vocês tão juntos? — Hugo perguntou.
— Não. — Eduardo respondeu rápido demais.
— Mas deviam! — Tiago se meteu de novo. — Olha só… Castilho e Albuquerque. Casalzão!
Eduardo revirou os olhos.
— Vocês falam como se fosse uma fusão de empresas.
— Mas é quase isso. — Tiago riu. — Só falta você tomar coragem e pedir ela em namoro.
Eduardo abriu a boca para protestar, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o sinal tocou, e os meninos seguiram para as salas, ainda rindo e jogando piadinhas.
No fim do dia, quando Eduardo achou que poderia ir para casa em paz, foi surpreendido na saída da escola.
Samanta, a namorada de Tiago e melhor amiga de Kayla, apareceu ao seu lado. Eduardo arqueou as sobrancelhas. Eles nunca tinham se falado diretamente antes.
— Oi? — Ele disse, incerto.
Samanta suspirou, parecendo cansada.
— Vou ser direta. Toma uma atitude logo.
Eduardo piscou.
— Como é?
Ela cruzou os braços.
— Kayla. Eu não aguento mais ouvir ela falar daquele beijo.
Eduardo sentiu o estômago revirar.
— Ela… falou sobre isso?
— O tempo todo. — Samanta revirou os olhos. — Você vai pedir ela em namoro ou não?
Eduardo abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Ele não sabia a resposta.
Ele não sabia o que queria.
Mas sabia que, naquele momento, estava prestes a ser empurrado para uma escolha que ele ainda não tinha certeza se queria fazer.
◄☼►
Eduardo sabia que devia uma explicação a Kayla.
Ele não gostava da sensação de estar evitando alguém que, no fundo, não merecia isso. Kayla sempre foi uma boa amiga, sempre foi divertida, sempre esteve presente. E, por mais que sua mente insistisse em puxá-lo para outro lugar — ou melhor, para outra pessoa — ele sabia que, de alguma forma, tinha uma certa responsabilidade ali.
Então, sem pensar muito, foi até a floricultura da cidade, comprou um pequeno buquê de flores e seguiu para a casa de Kayla.
A mansão da família Albuquerque era impressionante, como tudo o que envolvia aquela família. O portão alto, a fachada impecável, o jardim bem cuidado. Eduardo respirou fundo antes de tocar a campainha.
A empregada abriu a porta e o olhou com um pouco de surpresa, mas logo sorriu.
— Ah, você é o Eduardo Castilho, né?!
Ele sorriu de volta, tentando parecer mais confiante do que se sentia.
— Eu mesmo… Kayla está?
A empregada assentiu e abriu espaço para ele entrar.
— Vou chamá-la, pode esperar na sala.
Mas Kayla nem precisou ser chamada.
— O quê? Castilho na minha casa? — A voz dela ecoou pelo corredor, e em segundos, Kayla apareceu, vestindo um short de moletom e uma blusa larga, o cabelo preso de qualquer jeito. Quando viu as flores na mão dele, estreitou os olhos, desconfiada, mas com um sorriso brincalhão. — O que é isso?
Eduardo ergueu o buquê.
— Um pedido de desculpas.
Kayla cruzou os braços, fingindo estar muito ofendida.
— Hmmm… não sei se vou perdoar tão fácil.
— Eu tentei. — Eduardo deu de ombros, se virando como se fosse embora.
— Ei! — Ela riu, puxando-o de volta. Pegou as flores, cheirou-as e então sorriu. — Tá bom, eu aceito… mas ainda assim, você me deve.
Eduardo arqueou uma sobrancelha.
— E o que eu preciso fazer para me redimir?
Kayla levou um dedo ao queixo, pensativa, e então seus olhos brilharam com uma ideia.
— Vem comigo. Quero te mostrar as coisas que comprei quando fui na Disney.
Eduardo hesitou por um segundo, mas assentiu. Não viu malícia naquilo. Era só Kayla sendo Kayla, empolgada para mostrar algo que gostava.
Ele a seguiu pelo longo corredor da casa, subindo a escada até o quarto dela. A decoração era impecável, moderna, espaçosa, com móveis claros e detalhes elegantes. Mas o que mais chamava a atenção era a coleção de lembranças espalhadas pelo cômodo.
— Tá vendo? — Kayla abriu o armário e começou a tirar algumas coisas. — Trouxe um monte de besteira, olha isso aqui…
Ela pegou um boneco do Mickey vestido de pirata e o entregou a Eduardo.
Ele pegou o brinquedo, analisando os detalhes.
— Isso é maneiro. — Eduardo acabou dizendo, sem muita convicção.
— Pois é! Sempre achei que a Disney soubesse fazer merchandising melhor do que qualquer um... a magia do capitalismo. — Kayla riu, mexendo em outra sacola.
Eduardo continuou observando o boneco, distraído, quando sentiu um movimento ao seu lado.
Kayla tinha se aproximado.
Ele só percebeu quando os dedos dela roçaram de leve em sua cintura.
Eduardo ficou tenso por um segundo, mas não se afastou.
Kayla deslizou a mão para o braço dele, lenta, como quem testava limites. Eduardo engoliu em seco. Quando olhou para o lado, encontrou os olhos dela fixos nele.
— Kayla…
— Você sumiu. — Ela murmurou, os dedos subindo pelo peito dele. — E eu senti sua falta.
Eduardo ficou em silêncio.
Não era como se não tivesse imaginado esse momento. Ele sabia que Kayla queria aquilo. Sabia que era o caminho óbvio a seguir.
E então, quando ela se inclinou em direção a ele e seus lábios tocaram os dele, Eduardo correspondeu.
O beijo começou lento, mas logo se intensificou. Kayla puxou-o mais para perto, as mãos deslizando pelo seu corpo com uma naturalidade que o fez esquecer de qualquer hesitação.
Por um segundo, ele lembrou de Leo.
Mas então, a realidade veio com força.
Aquilo era o certo.
Era o que traria um futuro, era o que Frederico e Helena aprovariam. Era o que seus amigos esperavam.
Kayla era a escolha fácil.
E então, sem pensar mais, ele a puxou pela cintura, aprofundando o beijo.
A respiração de Kayla ficou entrecortada, e ela sorriu contra os lábios dele.
— Quero você. — Ela murmurou.
Eduardo hesitou por um breve instante.
Mas então, se permitiu.
Os beijos se tornaram mais intensos, os gestos mais urgentes. Entre sussurros e toques, deixaram-se levar pelo momento, entregando-se um ao outro até que não houvesse mais espaço para dúvidas ou hesitações.
Mas, por um instante, apenas um, Eduardo fechou os olhos e viu outra imagem. Outra pele contra a sua. Outro toque, outro cheiro.
Leo.
Foi rápido. Rápido o suficiente para que ele afastasse o pensamento antes que tomasse forma, antes que se aprofundasse. Mas foi o bastante para deixar um gosto estranho em sua boca.
Ele se concentrou em Kayla, na forma como ela se movia contra ele, nos sons que escapavam de seus lábios. Tentou se agarrar ao presente, ao momento, ao que era certo.
E, por fim, se forçou a acreditar que aquilo era o suficiente.
◄☼►
Eduardo se recostou na cama, os olhos fixos no teto, sentindo a respiração ainda pesada. Kayla estava ao seu lado, o corpo relaxado contra os lençóis bagunçados, um sorriso satisfeito nos lábios.
— Foi bom demais. — Ela murmurou, deslizando os dedos preguiçosamente pelo braço dele.
Eduardo sorriu de canto, mas não disse nada.
A transa foi melhor do que ele imaginava. Kayla sabia o que fazia, sabia como se mover, como tocar. Mas…
Não era igual a Leo. E ele não conseguia evitar a comparação.
A forma como Leo o tocava era diferente, carregava algo que ia além da atração física. Com Leo, tudo parecia mais intenso, mais urgente, mais real. Ali, com Kayla, era bom, mas… algo faltava.
Ele virou a cabeça para o lado e a observou.
Kayla estava linda. Os cabelos castanhos um pouco bagunçados, a pele quente, o olhar satisfeito. Ela estava ali, presente, de corpo e alma. Ela queria isso. Queria ele.
E aquilo deveria ser o suficiente.
Ele sabia que essa era a escolha certa.
Ele não podia passar a vida preso em algo que nunca daria certo, que nunca seria aceito. Nunca poderia assumir Leo, ele sabia. Nunca poderia levar isso para frente sem que houvesse consequências. Mas com Kayla? Com Kayla, tudo era fácil.
E então, Eduardo fechou os olhos e respirou fundo, tentando convencer a si mesmo de que estava exatamente onde deveria estar.
◄☼►
Eduardo chegou em casa sentindo o corpo exausto, mas a mente inquieta. Jogou-se na cama, o celular ainda na mão, esperando por algo que nem ele sabia o quê.
Não demorou muito para a tela acender com uma nova notificação. Kayla.
Kayla: hj foi incrível. vc é incrível. <3
Eduardo ficou olhando para a mensagem por alguns segundos antes de responder.
Eduardo: <3<3
Kayla respondeu com um emoji de beijo, e Eduardo apenas sorriu de leve, sem saber bem como reagir.
A vontade de falar sobre aquilo com alguém o corroía. Não era algo que ele pudesse guardar só para si. Mas Leo estava, obviamente, fora de cogitação.
Apenas a ideia de falar com ele sobre aquilo era absurda. Eles tinham acabado de voltar daquele fim de semana, um tempo só deles, onde puderam se esquecer do mundo e viver algo que parecia existir fora da realidade. E agora, depois de tudo, como ele poderia contar? Como poderia olhar para Leo e dizer que, no instante em que voltaram, ele transou com outra pessoa?
Leo acreditava nele. Acreditava no que tinham, mesmo sem nome, sem promessas explícitas. E Eduardo sabia que, se dissesse qualquer coisa, veria essa confiança se desfazer diante de seus olhos.
Leo não merecia isso.
Ele merecia a lembrança intacta da praia, do mar, do fim de semana que foi só deles.
Então, suspirando, abriu a conversa com Tiago.
Eduardo: mano
Tiago: oq
Eduardo: aconteceu
Tiago: meu deus castilho, define acontecer pq dependendo eu n quero saber
Eduardo: com a kayla
Tiago: NÃO ACREDITO
Tiago: pera
Tiago: P-E-R-A
Tiago: vc finalmente pegou ela????
Eduardo: mais q isso
Tiago: NAAAAO PARA PQ SE EU IMAGINEI FOI ISSO MESMO?
Tiago: SEU DESGRAÇADO
Tiago: Q ORGULHO PQP
Eduardo: mano, aconteceu do nada
Tiago: "do nada" AHAM SEI
Tiago: o castilho santo, puro e intocado finalmente virou homem
Eduardo: vai se ferrar
Tiago: kkkkkkkkkkkkkkk
Tiago: e ai? foi bom?
Eduardo: foi
Tiago: NOSSA, QUE ANIMADO VC TÁ
Eduardo: foi bom ué, quer q eu fale oq
Tiago: esperava uma reação mais emocionada mas ok
Eduardo: kkkkkkk
Tiago continuou mandando mensagens freneticamente, mas Eduardo já estava cansado demais para continuar a conversa.
Então, outra notificação apareceu na tela.
Leo: (foto dele segurando uma empadinha, já mordida, com um sorriso satisfeito no rosto)
Leo: tava pensando aqui… quando cê vier, traz mais dessas
Leo: valeu
Eduardo riu baixo, mas o riso morreu rápido.
O aperto no peito veio de imediato, pesado, sufocante.
A vida continuava. Leo continuava sendo Leo, falando com ele como se nada tivesse mudado. Como se Eduardo ainda fosse o mesmo cara de dois dias atrás, o cara que viajou com ele, que riu com ele, que tocou sua pele como se o mundo lá fora não existisse.
Mas agora, esse mundo existia. E era um peso esmagador.
Eduardo ficou olhando para a tela do celular, para a foto de Leo com a empadinha, o sorriso despreocupado, a mensagem casual. Como se nada tivesse mudado. Como se ele não estivesse se sentindo um completo lixo naquele momento.
Ele quis responder no mesmo tom de sempre, brincar com Leo, dizer algo sobre a empadinha, fingir que tudo estava normal. Mas nada estava normal.
Eduardo sentiu a garganta fechar. A ideia de Leo descobrindo o que ele tinha feito apertava seu peito de um jeito sufocante.
Ele odiava pensar nisso.
Odiava pensar na expressão que Leo faria, no olhar que perderia o brilho espontâneo, na forma como ele provavelmente desviaria o rosto para esconder a decepção.
Leo fingia ser alguém que não ligava para nada. Que encarava tudo com desdém e sarcasmo. Mas Eduardo sabia.
Sabia que Leo sentia as coisas com intensidade.
Com os dedos hesitantes, digitou uma resposta breve.
Eduardo: para de ser esfomeado, leozinho
Leo: leozinho??????
Leo: c tá carente, sr. castilho? Kkkkk
Leo: se quiser, eu deixo vc me chamar assim pessoalmente... mas só se trouxer a empadinha
Eduardo soltou um riso fraco, mas o aperto no peito continuava lá.
Leo sempre tinha esse jeito de transformar tudo em brincadeira, de provocar só o suficiente pra arrancar uma reação dele. Em outro momento, Eduardo teria entrado na onda, retrucado com algo à altura, feito a conversa se estender só pra aproveitar um pouco mais da presença de Leo, mesmo que fosse só através de mensagens.
Mas agora? Agora, tudo parecia errado.
Porque Leo não sabia.
Leo não fazia ideia do que tinha acontecido algumas horas atrás, do que Eduardo tinha feito, da linha que ele tinha cruzado.
Depois de uma hora encarando o teto, tentando ignorar a culpa que corroía seu peito, Eduardo pegou o celular de novo.
Ele não queria deixar Leo no vácuo.
Não importava o nó no estômago, não importava o que tinha acontecido, ele e Leo sempre falavam um com o outro.
Respirou fundo antes de finalmente digitar uma resposta.
Eduardo: vai sonhando, sou seu entregador agora?
A resposta veio quase instantaneamente, como se Leo estivesse esperando.
Leo: ué, quem disse q não? vc q me acostumou mal, riquinho
Eduardo sorriu de canto, mesmo sentindo um peso no peito.
Eduardo: lide com seus problemas
Leo: ingrato
Eduardo conseguia fingir normalidade. Conseguia continuar a dinâmica de sempre com Leo, mas, no fundo, sabia que tudo dentro dele estava desmoronando.
Ele rolou na cama, encarando o teto, tentando ignorar a culpa que subia pelo peito. Mas, por mais que tentasse, o peso da culpa não o abandonou.
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