O Garoto Feito de Sol e Terra
40 Capítulo 40 — A Viagem
Eduardo não conseguia se livrar da culpa. Quatro dias haviam se passado desde aquela festa, e o beijo com Kayla ainda pairava sobre sua mente como uma sombra persistente, silenciosa, incômoda, impossível de ignorar.
Por sorte, ou talvez ironia do destino, não haveria aula na semana seguinte à festa. Primeiro, por conta da arrumação e limpeza do colégio após o evento, e depois porque a direção havia programado uma semana inteira de atividades internas para os professores; aquelas reuniões pedagógicas que nunca envolviam os alunos.
Isso significava que Eduardo não precisou encarar Kayla, nem enfrentar os olhares, nem fingir uma normalidade que ele mesmo não conseguia sustentar.
Mesmo assim, ela estava presente.
Cada vez que o nome dela piscava na tela do celular, Eduardo escolhia ignorar. Não abria as mensagens, fingia que não via. Não sabia como lidar com aquilo, com a expectativa que Kayla talvez estivesse criando, com a mentira que, de certa forma, ele continuava alimentando.
Então, fez o que sabia fazer melhor: enterrou seus sentimentos conflitantes e decidiu agir.
Leo nunca tinha visto o mar. Não era justo.
Eduardo cresceu viajando, passando férias em praias paradisíacas, vendo o oceano como algo comum, garantido. Mas Leo? Leo, que pertencia à terra, ao campo aberto, ao vento quente da fazenda, nunca sentiu a areia sob os pés, nunca experimentou o gosto da água salgada.
Ele via que Leo olhava fotos do mar com curiosidade, que ouvia as histórias das viagens de Eduardo sem dizer muito, mas absorvendo cada detalhe.
A ideia surgiu de repente, mas, assim que apareceu, tornou-se impossível de ignorar.
Juntou dinheiro da mesada, fez os cálculos e comprou as passagens de ônibus. Seria uma viagem noturna, partindo na sexta-feira. Dois dias inteiros longe dali, longe das obrigações, longe da culpa. Apenas ele e Leo.
Quando Helena descobriu, a reação foi explosiva.
— Eduardo! Você acha que pode simplesmente sair viajando por aí? Sem me avisar? Sem nem dizer para onde vai?! — Ela gesticulava furiosamente, andando de um lado para o outro na sala.
Eduardo cruzou os braços, tentando manter a calma.
— Eu já comprei as passagens, mãe. Eu vou.
— Não, você não vai! — Helena apontou para ele. — Se acha que pode simplesmente sumir por um fim de semana como se não tivesse responsabilidades, está muito enganado.
— Eu não vou sozinho. — Eduardo respirou fundo. — Vou com o Leo.
Helena parou por um momento, como se processasse a informação. Então, bufou, irritada.
— Mas é obvio que é com esse garoto.
O tom dela fez algo dentro de Eduardo revirar, mas ele não mordeu a isca.
— O pai nem vai estar aqui esse fim de semana. Ele não vai se importar.
— Eu me importo! — Helena cruzou os braços, exasperada. — Você tem noção do quão irresponsável isso é?
Ele fechou a expressão.
— Eu sei o que estou fazendo.
Helena soltou um riso fraco, incrédulo.
— Claro que sabe.
Eduardo sustentou o olhar da mãe por um momento, antes de soltar um suspiro.
— Eu vou.
Helena o analisou, seu olhar exasperado suavizando levemente. Mas, no fim, ela apenas suspirou pesadamente.
— Faça o que quiser. — Disse, se afastando. — Mas quando seu pai souber, não venha pedir para que eu te defenda.
Eduardo não respondeu. Apenas subiu para o quarto e pegou o celular, ansioso para mandar mensagem para Leo.
Eduardo: vai fazer alguma coisa nesse fds?
Leo: hm… além de trabalhar pra caramba, acho q não
Eduardo: então cancela. vc vai viajar comigo
Leo: ????
Leo: oq
Eduardo: já comprei as passagens. saímos sexta à noite. segunda cedo ja estamos de volta.
Leo: pra onde???
Eduardo: surpresa.
Leo: vc tem cada ideia, castilho
Eduardo: só confia.
Leo: tá bom
Eduardo suspira, feliz por Leo ter topado. Até que Leo manda uma nova mensagem:
Leo: vc sabe q eu iria pra qualquer lugar com vc, né?
Eduardo parou por um segundo, o coração falhando uma batida.
Eduardo: eu sei
Leo: então tá. sexta né?
Eduardo: sexta
Leo não perguntou mais nada, ele apenas confiava.
E isso, de alguma forma, fazia Eduardo querer fugir com ele ainda mais.
◄☼►
Na noite de sexta-feira, Eduardo esperava no ponto de ônibus, mochila jogada no chão ao lado, os dedos tamborilando no celular. O frio da noite não era intenso, mas o vento trazia uma brisa fresca que fazia sua pele arrepiar. Ele olhava para os lados, procurando por Leo.
Não demorou muito.
Leo surgiu na rua de terra batida, vindo da direção da fazenda, uma mochila nas costas e o cabelo levemente bagunçado pelo vento. Ele sorriu ao vê-lo, mas a primeira coisa que saiu da sua boca foi:
— Castilho, você tá me sequestrando?
Eduardo riu, pegando a mochila do chão.
— Sequestrando nada. Você aceitou vir, lembra?
— Aceitei porque não me deu escolha! — Leo bufou, ajustando a alça da mochila no ombro. — Nem sei pra onde a gente tá indo.
Eduardo arqueou uma sobrancelha, provocador.
— E mesmo assim, confiou em mim e veio.
Leo deu de ombros, um sorriso discreto no canto da boca.
— Eu já disse que iria pra qualquer lugar com você.
Eduardo engoliu em seco, desviando o olhar antes que Leo notasse algo na sua expressão. Aquele tipo de resposta sempre o pegava desprevenido, sempre fazia algo dentro dele estremecer. Ele pigarreou e apontou para o ônibus que se aproximava.
Antes que pudessem subir, o funcionário que conferia as passagens franziu a testa ao olhar os documentos.
— Vocês são menores de idade? — questionou, erguendo uma sobrancelha.
Eduardo sentiu o estômago afundar, mas antes que pudesse pensar em uma desculpa, o homem leu o sobrenome impresso na identidade e hesitou. Seu olhar endurecido vacilou por um instante.
— Castilho... — murmurou, antes de devolver os documentos e dar de ombros. — Podem subir.
Eduardo soltou um suspiro discreto, sem ousar questionar a mudança de atitude. Apenas fez um gesto rápido para Leo.
— Vamos logo antes que você desista.
— Tarde demais, já tô aqui. — Leo riu, subindo os degraus depois dele.
O ônibus ainda estava vazio, e eles seguiram direto para um assento duplo no fundo, exatamente onde Eduardo havia demarcado. Ele jogou a mochila no colo e se recostou no banco junto à janela, soltando um suspiro discreto. Leo se sentou ao seu lado.
Finalmente estavam ali, e logo estariam afastados de tudo.
Leo não parava de encará-lo de lado, claramente desconfiado.
— Tá bom, Castilho, sério agora. A gente tá indo pra onde?
Eduardo apenas sorriu, cruzando os braços.
— Se eu te contar, perde a graça.
Leo bufou, largando a cabeça contra o encosto do banco.
— Se você me levar pra uma fazenda pior do que a minha, eu juro que te mato.
Eduardo riu.
— E se for pra uma fazenda melhor que a sua?
Leo o olhou indignado.
— Se me levar pra um lugar que tenha mais vaca e menos diversão, eu juro que te jogo desse ônibus.
— Relaxa. Você vai gostar.
Leo o olhou de soslaio, ainda desconfiado, mas não insistiu.
Depois de um certo tempo na estrada, pegou o celular e começou a mostrar algumas fotos que tinha tirado nos últimos dias — algumas das meninas fazendo bagunça, um bezerro recém-nascido, um pôr do sol absurdo na fazenda. Eduardo assistia, encantado com o jeito que Leo capturava as imagens.
— Sério, já disse várias vezes, mas você tem talento pra isso.
Leo sorriu, mexendo no celular.
O tempo passou devagar, e conforme a madrugada avançava, a conversa entre eles foi diminuindo, tornando-se apenas silêncios confortáveis entre uma ou outra piada.
O ônibus já estava mais escuro, com os passageiros dormindo ou apenas descansando. Eduardo estava recostado no banco, meio sonolento, quando sentiu Leo mexer-se ao lado.
Quando virou o rosto, encontrou Leo o encarando, os olhos iluminados apenas pelas luzes fracas da estrada.
— Tá com sono? — Leo perguntou baixo.
Eduardo deu de ombros, meio preguiçoso.
— Mais ou menos. E você?
Leo hesitou por um segundo antes de responder.
— Não consigo dormir direito em ônibus.
O silêncio pairou entre os dois, mas era diferente agora. Eduardo sentia algo ali, pulsando, vibrando no espaço entre eles.
E então, sem hesitar, Leo se inclinou um pouco mais.
Eduardo prendeu a respiração quando sentiu o calor se aproximando, o rosto de Leo chegando mais perto do seu. Era devagar, sem pressa, como se ele estivesse esperando que Eduardo recuasse.
Mas Eduardo não recuou.
Pelo contrário.
Os lábios se tocaram em um beijo calmo, lento, mas que carregava um peso absurdo. Não havia pressa, não havia urgência. Era apenas os dois ali, no meio da madrugada, entre estradas vazias e um ônibus adormecido.
Leo puxou de leve a nuca de Eduardo, aprofundando o beijo, e Eduardo sentiu seu peito vibrar com aquilo. Sentiu cada parte do seu corpo despertar para aquele momento.
Quando se afastaram, ficaram em silêncio por um segundo, as respirações misturadas no ar.
Leo sorriu de leve, passando a língua pelos lábios, sem dizer nada.
Eduardo apenas sorriu, fechando os olhos por um instante, sentindo o calor daquele momento se espalhar pelo peito. Leo se encostou ao seu lado, deixando a cabeça cair um pouco no ombro dele, e assim ficaram, enquanto a estrada continuava levando-os para longe.
◄☼►
O ônibus chegou ao destino bem cedo, pouco antes do sol nascer. Eduardo já estava acordado, mas Leo ainda dormia ao seu lado, a boca entreaberta, a respiração lenta. Ele teve que sacudi-lo levemente para que despertasse.
— Chegamos, Leo.
Leo abriu os olhos devagar, piscando contra a luz fraca da manhã. Estava completamente grogue.
— Hã?
— Vem, levanta.
Ainda meio perdido, Leo pegou sua mochila e seguiu Eduardo para fora do ônibus. O ar fresco da manhã os envolveu, e o som ao fundo já denunciava algo diferente.
O som das ondas.
Leo franziu a testa, confuso.
Eduardo pegou sua mão e o puxou.
— Vem cá.
Eles caminharam por alguns metros até que, finalmente, Leo viu.
A orla. O mar.
Seus olhos se arregalaram no mesmo instante.
O sol estava começando a nascer no horizonte, pintando o céu de tons dourados e alaranjados, e a imensidão azul do oceano se estendia à frente, brilhando sob a primeira luz do dia. As ondas se quebravam suavemente na areia, o cheiro salgado preenchia o ar.
Leo ficou em silêncio.
Eduardo apenas observava.
O rosto de Leo se iluminou com algo puro, genuíno, como se fosse uma criança vendo algo extraordinário pela primeira vez.
— Caralho… — ele sussurrou.
Eduardo sorriu.
— Gostou da surpresa?
Leo virou-se para ele, ainda sem acreditar.
— Você me trouxe pra ver o mar?
Eduardo assentiu.
— Você nunca tinha visto. Não achei justo.
Leo riu fraco, como se não soubesse nem o que dizer. Ele largou a mochila no chão e deu alguns passos à frente, sentindo a areia macia sob os pés.
E então, sem aviso, correu até a água.
Eduardo riu, pegando a mochila e seguindo Leo, que já estava com os pés dentro do mar, sentindo as ondas baterem contra suas pernas.
— Porra, é gelado! — Leo riu alto.
— Óbvio que é! — Eduardo respondeu, se aproximando.
Leo olhou para ele, os olhos brilhando.
— Isso é incrível.
Eduardo ficou ali, parado, observando.
O mar à sua frente era lindo. Imensidão azul, ondas quebrando suavemente na areia dourada, o vento salgado e fresco contra sua pele. Mas nada, absolutamente nada, era mais bonito do que a expressão no rosto de Leo.
Os olhos dele brilhavam com uma animação pura, quase infantil, como se estivesse vendo um pedaço do mundo que nunca soube que precisava. O vento bagunçava seus cabelos loiros, desalinhando os fios de um jeito que fazia parecer que ele pertencia àquele cenário, como se o mar e o céu tivessem esperado por ele esse tempo todo.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Era uma visão linda, quase etérea. Como se, por um instante, Leo fosse parte do próprio oceano: livre, intocado, vasto.
E Eduardo percebeu que, mais do que qualquer coisa, queria guardar esse momento para sempre.
Fale com o autor