O Garoto Feito de Sol e Terra
36 Capítulo 36 — Um Convite Que Ecoa
O restante do ano passou como um turbilhão. As aulas, as provas, as tardes divididas entre a escola e a fazenda. Eduardo tentou manter o equilíbrio entre tudo; entre as noites com Leo, os dias com Kayla e as expectativas que os outros pareciam ter sobre ele.
E então, chegou a época da festa de fim de ano letivo da escola.
Não era obrigatório, mas já era tradição: todo mundo ia com um par.
Mais do que um simples evento, a festa era um marco do colégio, uma noite em que alunos trocavam uniformes por roupas bem escolhidas, onde fotos eram tiradas para ficarem guardadas para sempre, e onde as escolhas de companhia para o baile serviam de combustível para fofocas que durariam semanas.
Alguns casais iam juntos porque já estavam namorando. Outros se uniam por conveniência, amizade ou só para manter a tradição. O importante era não ir sozinho, ou, pelo menos, não ser a exceção entre os grupos de amigos.
Tiago já tinha garantido Samanta. Hugo chamou Noemi. Giovane convidou Luísa. E, como sempre, Eduardo foi o último a se mover.
— E você, Castilho? — Tiago cutucou, os três amigos sentados ao redor dele na mesa do intervalo. — Vai sozinho ou finalmente vai tomar vergonha na cara?
Eduardo apenas riu, mas sentiu a pressão aumentar.
Ele sabia o que todos esperavam. Sabia o que Kayla esperava.
Então, depois de algumas brincadeiras e incentivos, ele tomou coragem.
Na última aula do dia, enquanto fingia prestar atenção na explicação do professor, rabiscou às pressas um cartão improvisado no canto do caderno. Escreveu a pergunta de forma simples, mas com uma caligrafia cuidadosa: Quer ir comigo à festa? Adicionou um desenho rápido de um sorriso ao lado e arrancou o pedaço de papel antes que pudesse se arrepender.
Quando o sinal bateu, ele respirou fundo e foi até Kayla, encontrando-a perto dos armários, conversando com algumas amigas.
— Ei — chamou, o coração acelerado sem motivo aparente.
Ela virou para ele, erguendo as sobrancelhas.
Sem dizer nada, Eduardo entregou o bilhete. Kayla pegou o papel, leu e, no mesmo instante, um sorriso brilhou em seu rosto.
— Claro que sim, Castilho.
Os amigos que estavam por perto vibraram, aplaudiram e fizeram piadas sobre como ele finalmente tomou uma atitude.
Eduardo sorriu, aliviado com a resposta, ou talvez apenas por ter superado o momento de tensão. Mas, ao mesmo tempo, uma parte dele não conseguia ignorar um incômodo sutil, como se estivesse assinando um compromisso maior do que apenas uma noite de festa.
Como se, de certa forma, estivesse selando uma mentira.
◄☼►
Eduardo não mencionou a festa para Leo. Não porque quisesse esconder, mas porque... simplesmente não queria lidar com o peso daquela conversa. Ele sabia que Leo ficaria chateado se soubesse que havia convidado Kayla para o baile e que eles iriam juntos. Leo não fazia ideia, e Eduardo preferia manter assim. Era mais fácil. Leo estudava na escola pública e, de qualquer forma, não poderia ir ao evento exclusivo. Era uma justificativa conveniente para não contar, mas Eduardo sabia que, no fundo, não era a verdadeira razão.
Evitar o assunto significava evitar a culpa. E talvez, se não falasse, não precisasse encarar o quanto aquilo o colocava em conflito com os dois mundos que tentava equilibrar.
◄☼►
No dia da festa, assim que saiu da escola, Eduardo tomou uma decisão impulsiva e seguiu direto para a escola pública. Não sabia exatamente o que esperava ao fazer isso, mas algo dentro dele dizia que queria ver Leo antes da noite que tinha pela frente.
Ficou do outro lado da rua, observando os alunos saindo em grupos, até que finalmente o avistou. Leo caminhava pela calçada com a mochila pendurada em um dos ombros, a postura relaxada e um boné surrado cobrindo parte dos cabelos bagunçados pelo vento.
Ao vê-lo, Leo arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— E aí, riquinho, o que tá fazendo aqui? — perguntou, ajeitando o boné. — Veio buscar uma educação de verdade?
Eduardo sorriu de canto.
— Sei lá… tô com fome.
Leo abriu um sorriso convencido.
— Então vambora.
Sem precisar de mais explicações, os dois foram direto para a vendinha do Seu Zé, o ponto de encontro de sempre. Pediram pastéis e refrigerantes e se sentaram para comer, como já tinham feito tantas vezes antes.
Leo começou a contar sobre uma briga besta que tinha acontecido mais cedo na escola, exagerando os detalhes para tornar tudo mais cômico. Eduardo ria, se deixando levar pelo momento.
Tudo parecia exatamente igual. Como se aquela noite não trouxesse nenhuma outra expectativa além disso. Como se ele não tivesse um compromisso marcado com outra pessoa apenas algumas horas depois.
E Leo? Leo voltaria para casa sem fazer ideia de onde Eduardo estaria naquela noite.
Depois de um tempo, Leo simplesmente esticou os braços e se levantou.
— Vou nessa. Tenho que ajudar meu irmão lá na fazenda.
Eduardo apenas assentiu, observando enquanto Leo ia embora, as mãos enfiadas nos bolsos, a mochila balançando nas costas.
Ficou ali por um tempo, olhando o resto do pastel no papel.
Então, soltou um longo suspiro e pegou o celular.
Hora de ir para outra realidade.
◄☼►
Ao chegar em casa, foi direto para o banho, deixando a água quente lavar qualquer resquício do dia. Mais tarde, escolheu a melhor roupa do armário, ajeitou cada detalhe diante do espelho, borrifou perfume nos pontos certos. Fez tudo como deveria ser.
Frederico estava esperando na sala quando ele desceu. O pai o analisou de cima a baixo e deu um meio sorriso satisfeito.
— Agora sim. Tá parecendo um Castilho de verdade.
Eduardo apenas sorriu de canto, aceitando o elogio silencioso.
No carro, a caminho da casa de Kayla, Frederico parecia mais falante do que o normal.
— Então… Kayla Albuquerque, hein? — ele comentou, satisfeito. — Ótima escolha, filho. Excelente família. O pai dela é um homem de negócios muito respeitado.
Eduardo apenas soltou um "hmm" vago, olhando pela janela.
Quando chegaram, Kayla já estava esperando do lado de fora. O vestido impecável, o cabelo perfeitamente arrumado. Ela parecia saída de uma revista, como se fosse feita para aquele tipo de evento.
Ela entrou no carro com um sorriso fácil.
— Boa noite, senhor Castilho.
— Boa noite, Kayla. — Frederico respondeu, parecendo ainda mais satisfeito.
Eduardo lançou um olhar para ela, e Kayla piscou, divertida.
— Tá bonito, Castilho.
Ele sorriu.
— Você também.
E então, partiram para a festa.
A noite prometia ser inesquecível.
Mas Eduardo não sabia dizer se isso era algo bom… ou ruim.
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