O Garoto Feito de Sol e Terra
37 Capítulo 37 — Atitudes Inesperadas
A festa estava do jeito esperado. Luxuosa, organizada, cheia de gente bem vestida e conversas que oscilavam entre futilidades e planos para o futuro.
Eduardo sabia exatamente como se portar ali. Sabia sorrir nos momentos certos, cumprimentar as pessoas certas, fazer piadas que arrancavam risadas de Tiago e dos outros amigos.
E, para sua surpresa, ele estava se divertindo.
Kayla também era uma ótima companhia. Engraçada, espirituosa, cheia de comentários afiados sobre qualquer coisa. Quando algum professor mais sério passava por perto, ela fingia estar engajada na conversa mais intelectual do mundo, e assim que ele saía, soltava um comentário ácido que fazia Eduardo rir.
Tiago, Hugo e Giovane estavam no ápice da zoeira, empurrando um ao outro, roubando comida dos pratos e apostando quem conseguiria dançar pior durante a música mais animada. A energia deles era contagiante, e Eduardo se deixou levar.
Kayla não desgrudava dele, mas não de um jeito sufocante.
— Tá se divertindo, Castilho? — ela perguntou em algum momento da noite, erguendo uma taça com suco, porque, claro, ninguém ali bebia álcool sob supervisão da escola.
Eduardo deu um meio sorriso.
— Até que sim.
Ela arqueou a sobrancelha, como se duvidasse.
— Até que sim? Não me diga que esperava uma noite tediosa?
— Não é isso… — ele olhou ao redor, vendo seus amigos rindo alto de alguma besteira, o DJ trocando a música para algo mais agitado, a luz baixa criando um ambiente sofisticado e ao mesmo tempo juvenil. — Só… não sabia bem o que esperar.
Kayla sorriu, aquele sorrisinho de quem sabia mais do que dizia.
— Bom, espero que esteja valendo a pena.
Ela pegou na mão dele brevemente, como se reforçasse aquela conexão. O toque era confortável, mas nada além disso.
Eduardo retribuiu o sorriso.
E, por um tempo, ele esqueceu de tudo lá fora.
Esqueceu que essa noite poderia significar mais do que apenas uma festa.
◄☼►
O tempo parecia correr diferente naquela noite.
A festa estava no seu auge, com risadas, música e luzes dançando pelas paredes. Eduardo já tinha se permitido relaxar e se divertir. Estava leve, ou pelo menos tentava se sentir assim.
Foi então que Kayla puxou seu braço e sussurrou:
— Vem comigo.
O olhar dela brilhava de um jeito travesso, como se estivesse prestes a quebrar alguma regra. Eduardo hesitou por um segundo, mas quando percebeu, já estava seguindo-a.
Kayla o guiou pelo salão, desviando das mesas com naturalidade, ignorando os olhares curiosos de alguns colegas. Primeiro, passaram rapidamente por um corredor lateral, onde ela abriu uma porta estreita que levava a uma pequena sala de materiais esportivos. Eduardo ergueu uma sobrancelha, mas Kayla apenas sorriu e seguiu em frente, empurrando uma prateleira para o lado e revelando outra porta entreaberta.
— Isso sempre esteve aqui? — Eduardo sussurrou, enquanto a seguia para dentro do novo espaço.
Kayla apenas riu e fechou a porta atrás deles. O novo corredor era ainda mais escuro e silencioso, um contraste gritante com a música abafada que ainda ecoava do salão da festa. Eles andaram rapidamente por ali, os passos ecoando no chão polido, até chegarem a uma escada lateral.
— Isso é meio ilegal, não é? — Eduardo murmurou, olhando ao redor.
Kayla deu de ombros, puxando-o para subir os degraus com pressa. No topo, passaram por mais uma porta, que deveria estar trancada, mas Kayla abriu sem qualquer dificuldade.
— Como você sabe dessas passagens? — Eduardo finalmente perguntou, incapaz de conter a surpresa.
Kayla sorriu, fechando a porta atrás deles.
— Eu tenho meus contatos.
O lugar onde estavam agora era um terraço aberto. A brisa da noite era fresca, e a cidade se estendia diante deles, iluminada por postes e janelas distantes. Acima, a lua cheia pairava no céu limpo, derramando uma luz prateada sobre tudo.
Foi então que Kayla enfiou as mãos dentro do casaco e tirou duas garrafinhas, balançando no ar com um sorriso orgulhoso.
— Aqui tá a diversão de verdade.
Eduardo riu, pegando uma das garrafas.
— Você realmente não brinca em serviço, hein?
Kayla piscou para ele, antes de abrir a própria garrafa e dar um gole.
— E é por isso que você não vai se arrepender de ter me chamado.
Ela piscou e abriu a própria garrafa, tomando um gole antes de se sentar na beirada do terraço. Eduardo a acompanhou, sentando-se ao lado dela, com os pés balançando no ar.
Tomou um gole e sentiu a bebida quente escorrer pela garganta. Não era forte, mas era o suficiente para esquentá-lo por dentro.
Os dois ficaram ali, conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo. Sobre professores insuportáveis, sobre os colegas mais sem noção da escola, sobre as pegadinhas mais idiotas que Tiago já tentou fazer.
E, então, o silêncio se acomodou entre eles.
Kayla olhava para Eduardo.
Os olhos dela estavam meio brilhantes por causa da bebida, ou talvez por causa da lua.
Eduardo sentiu o peito apertar.
Aquela era a pessoa certa. A garota que qualquer um escolheria. Era a escolha óbvia.
E se…?
E se pudesse sentir algo por ela?
E se pudesse aprender a querer o que era mais fácil? O que não precisava ser escondido?
Kayla inclinou a cabeça levemente, observando-o com curiosidade.
— O que foi? — perguntou, a voz mais baixa, como se aquele instante exigisse um tom diferente.
Eduardo hesitou. O mundo ao redor pareceu diminuir, os sons da festa lá embaixo ficaram distantes. Ele notou o reflexo das luzes nos olhos dela, o jeito como Kayla esperava, paciente, mas atenta.
E então, sem realmente pensar, apenas se inclinou para frente.
O primeiro toque dos lábios foi hesitante, como se ambos testassem o momento, a sensação, o que aquilo significava. Mas logo o beijo se tornou mais firme. Kayla deslizou os dedos pela nuca dele, aprofundando o contato.
O gosto da bebida ainda estava ali, misturado à eletricidade do instante. O frio da noite contrastava com o calor do toque. E, por alguns segundos, Eduardo simplesmente se deixou levar.
Era bom. Kayla beijava bem; o jeito certo, a pressão certa. Tudo seguia um ritmo natural, como deveria ser.
Mas não era Leo.
O calor era diferente, a sensação não despertava aquela corrente elétrica que fazia seu peito apertar e o ar ficar mais raro. Seu corpo não reagia da mesma forma; não havia aquela urgência, aquela inquietação sob a pele. Era um beijo técnico, quase ensaiado, que deveria ser suficiente.
E, ainda assim, Eduardo não se afastou.
Porque, por um instante, ele queria acreditar que poderia ser. Que, se se entregasse àquilo, talvez o que sentisse por Leo se dissolvesse, talvez os olhares cheios de expectativa ao redor fizessem sentido, talvez ele pudesse ser quem todos imaginavam que fosse.
Então, fechou os olhos e continuou.
Não porque queria desesperadamente, mas porque precisava se convencer de que queria.
Os lábios se soltaram devagar, e Eduardo abriu os olhos, observando Kayla à sua frente. Ela estava radiante, os olhos brilhando com um entusiasmo genuíno, como se aquele momento tivesse sido exatamente como imaginou.
Ela sorriu, mordendo o lábio de leve.
— Isso foi... inesperado. — disse, sua voz carregada de uma leve excitação.
Eduardo piscou algumas vezes, tentando decifrar o que sentia. O beijo foi bom. Mas... não o arrebatou, não o fez perder o ar, não o deixou tonto da mesma forma que os beijos de Leo deixavam.
Ainda assim, ele sorriu para Kayla. Porque achava ela incrível. Porque não queria vê-la decepcionada. Porque, naquele momento, ele queria acreditar que aquilo poderia ser suficiente.
Kayla riu baixo, ainda o olhando como se tentasse ler seus pensamentos.
— Por que tá me olhando assim?
Eduardo balançou a cabeça, desviando o olhar por um instante antes de voltar a encará-la.
— Nada. Você tá bonita.
Kayla ergueu uma sobrancelha, mas seu sorriso só cresceu.
— Você também não tá nada mal, Castilho.
O vento noturno soprou entre eles, bagunçando os cabelos de Kayla, e Eduardo sentiu um aperto estranho no peito.
Ele não podia voltar atrás naquele momento.
Então, apenas continuou sorrindo, enquanto Kayla se aconchegava ao seu lado, segurando sua mão.
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