O Garoto Feito de Sol e Terra

30 Capítulo 30 — Devaneios


O quarto estava banhado pela luz suave da manhã quando Eduardo desviou o olhar para o chão. Entre os lençóis bagunçados e as roupas espalhadas, viu o preservativo usado ali, jogado no canto.

Engoliu seco.

Por um segundo, ficou parado, encarando aquilo como se fosse uma evidência proibida, um segredo que ninguém poderia descobrir. O coração acelerou levemente. Não podia deixar ali. Nem pensar em jogar no lixo do quarto, qualquer um poderia ver.

Sem muita escolha, abaixou-se e pegou, dobrando o plástico com cuidado antes de enfiá-lo no bolso lateral da mochila.

Do outro lado da cama, Leo observava tudo em silêncio. Seus olhos seguiram os movimentos de Eduardo, mas ele não disse nada. Apenas esfregou o rosto com uma das mãos, como se ainda estivesse processando a noite anterior, e talvez estivesse.

Eduardo não sabia o que dizer. Não sabia nem o que pensar direito. O peso do que tinham feito ainda pairava sobre ele, não de um jeito ruim, mas de um jeito estranho. Como algo que não podia ser desfeito.

O silêncio se arrastou por mais alguns segundos.

Leo se mexeu ao lado dele, passando a mão pelos cabelos bagunçados, como se tentasse dissipar o que quer que estivesse pesando ali também. O colchão rangeu levemente com o movimento. Então, ele soltou um suspiro e pegou o travesseiro ao seu lado.

— Você tá me encarando faz uns cinco minutos. — Disse, antes de jogar o travesseiro em direção ao rosto de Eduardo.

Eduardo segurou o travesseiro, estreitando os olhos para Leo, mas sentindo um alívio quase instantâneo. Era o jeito Leo de dizer que as coisas ainda estavam bem, que o mundo ainda funcionava do mesmo jeito.

E, então, Eduardo sorriu.

— Para de me encarar desse jeito. — Leo resmungou, se esticando na cama. — A gente tem um longo dia de trabalho pela frente.

Eduardo arqueou uma sobrancelha.

— Tá querendo dar ordem agora, fazendeiro?

Leo bufou, jogando as pernas para fora da cama.

— Eu sempre mando nessa roça.

Ele se espreguiçou, os braços se estendendo preguiçosamente para cima antes de se levantar completamente. Seu corpo parecia mais relaxado do que o normal, um reflexo do que tinham feito na noite anterior. Eduardo percebeu e tentou não encarar por tempo demais.

— Sei, sei… — murmurou, desviando o olhar.

Leo pegou uma camisa jogada por perto e atirou na direção dele.

— Anda logo. Temos coisas pra fazer.

Eduardo pegou a camisa com um sorriso torto e começou a se vestir sem pressa. A verdade era que a última coisa que queria era sair daquele quarto. Mas sabia que, se ficassem ali por muito tempo, não conseguiriam fingir que nada tinha acontecido.

E fingir parecia ser a solução mais segura.


◄☼►


O dia seguiu como qualquer outro. Eles saíram para cuidar das coisas na fazenda. Leo levou alguns sacos de ração até o estábulo, enquanto Eduardo tentava fingir que sabia o que estava fazendo ao ajudar. O sol estava alto, o vento morno passava pelo campo, e por um tempo, tudo pareceu voltar ao normal.

Como se a noite anterior tivesse sido um sonho, um devaneio qualquer.

Eles se provocavam como sempre, empurrões sutis aqui e ali, insultos disfarçados de brincadeira.

Enquanto limpavam o estábulo, Eduardo pegou um punhado de feno e, sem aviso, jogou na cabeça de Leo.

— Aí, pra combinar com o seu chapéu do Mickey. Mickey camponês.

Leo parou o que estava fazendo e se virou devagar, estreitando os olhos.

— Você tem cinco segundos pra correr.

Eduardo ergueu as mãos.

— Ah, pronto. Agora virou um touro bravo.

— Cinco…

Eduardo largou a pá.

— Leo, não...

— Quatro.

— Vamos conversar como pessoas civilizadas!

— Três.

Eduardo saiu correndo antes de ouvir o "dois".

Mas não foi rápido o bastante.

Leo pulou para cima dele, derrubando-o no chão de terra, e começou a esfregar feno nos cabelos de Eduardo como vingança.

— Seu desgraçado! — Eduardo gritava, tentando se livrar dele.

Leo gargalhava, segurando-o no chão.

— Ah, mas na minha cabeça pode, né?

Eles rolaram na poeira, empurrando um ao outro, até que, no meio da bagunça, ouviram vozes finas atrás deles.

— O que vocês tão fazendo?

Os dois pararam na hora, ainda embolados no chão. Mariana e Sofia estavam de pé na entrada do estábulo, os olhinhos curiosos analisando os dois cobertos de feno.

Eduardo pigarreou, empurrando Leo de leve para sair de cima dele.

— Ele que começou. — Eduardo falou, apontando para Leo.

— Esse filho da mãe me jogou feno primeiro.

As meninas não pareciam muito interessadas na briga.

— Você trouxe doce da cidade? — Mariana perguntou, mudando de assunto, olhando diretamente para Eduardo.

Eduardo abriu um sorriso inocente.

— Não.

Mariana e Sofia cruzaram os braços, idênticas no jeito emburrado.

— Mentiroso, trouxe sim.

Leo gargalhou.

— Eu sabia que vocês só gostavam dele por interesse.

Eduardo se levantou, sacudindo a poeira da roupa.

— E eu sabia que vocês só gostavam de mim pelo meu bom gosto.

As irmãs bufaram, saindo dali de braços dados, reclamando algo sobre como Eduardo "não prestava" por não ter trazido nada para elas.

Mentira. Elas adoravam Eduardo.

Mas Leo continuava rindo.

Eduardo deu um leve empurrão no ombro dele.

— Para de rir, desgraça.

— Nunca.


◄☼►


A manhã passou rápido.

E então, veio o momento que Eduardo não conseguiu conter.

Ele estava encostado no cercado de madeira, observando Leo falar com um dos cavalos, acariciando a crina do animal com aquela calma despreocupada que parecia tão natural nele. O sol batia contra os fios loiros, a poeira no ar deixava tudo com um brilho quente, e Eduardo sentiu o peito apertar.

Ele nem percebeu o que tinha falado até as palavras já estarem no ar.

— Você é tão bonito.

Foi quase um sussurro, quase um pensamento que escapou sem permissão.

Leo congelou.

Parou o movimento da mão no cavalo, virou a cabeça devagar, os olhos levemente arregalados, como se tivesse ouvido errado.

Eduardo sentiu o rosto queimar.

Droga.

Ele não queria dizer isso. Pelo menos, não assim, em voz alta.

Leo estreitou os olhos, analisando-o. E então, um sorriso puxou o canto de seus lábios.

— O que foi que você disse?

Eduardo desviou o olhar, chutando uma pedra qualquer no chão.

— Esquece.

— Não, não, agora eu quero ouvir. — Leo se encostou no cercado ao lado dele, um brilho divertido nos olhos. — Fala de novo.

Eduardo bufou.

— Para de ser chato.

— Ah, então eu sou chato, mas sou bonito também?

Eduardo fechou os olhos por um segundo.

— Eu vou embora.

— Não, calma. — Leo se aproximou mais e segurou o braço dele, ainda rindo. — Relaxa, riquinho. Se quiser me elogiar, eu aceito.

Eduardo revirou os olhos.

— Esquece isso.

Leo ficou olhando para ele por um tempo, como se estivesse considerando a provocação final. E então, bateu de leve no ombro de Eduardo antes de se afastar.

— Você também é bonitinho, mas não se acostuma.

Eduardo piscou.

E então, riu.

Porque esse era Leo.

Porque, no fundo, eles sabiam.

Sabiam que o que sentiam era real.

Só não precisavam dizer isso em voz alta.


◄☼►


O dia seguiu normalmente, ou pelo menos, foi o que os dois tentaram fingir. Mas quando o sol começou a se pôr, Eduardo percebeu que já era hora de ir.

— Vou nessa. — disse, pegando a bicicleta encostada no cercado.

Leo, que estava sentado na varanda, apenas assentiu, observando-o.

E então Eduardo partiu, pedalando pela estrada de terra, desaparecendo aos poucos no horizonte dourado.

Leo ficou ali, sozinho na varanda, com os braços apoiados nos joelhos. O vento soprou leve, fazendo os últimos raios de sol cintilarem na poeira do terreiro.

Só então, permitiu-se pensar.

O sexo tinha sido... algo além.

Não só porque foi sua primeira vez, mas porque foi com Eduardo.

Leo nunca tinha feito antes, nunca tinha passado por aquilo. Sabia o que era, claro, já tinha ouvido conversas, já tinha imaginado como seria, mas sentir na pele foi algo completamente diferente.

Foi intenso.

Foi estranho, no começo.

Foi bom.

E foi com Eduardo.

Isso mudava tudo.

Leo passou a língua pelos lábios, sentindo ainda os resquícios da sensação na pele. O calor daquilo tudo, a forma como seu corpo tinha reagido a cada toque, como Eduardo o segurou firme, guiando-o.

Tinha gostado.

Muito mais do que achava que gostaria.

Era estranho perceber isso, porque, até então, o prazer nunca tinha sido algo que ele realmente parava para pensar. Mas ali, naquela noite, ele sentiu na pele o que significava.

Suspirou, passando a mão pelo rosto, como se pudesse apagar os pensamentos, mas era inútil. Eles estavam lá, vívidos, cada detalhe voltando à sua mente sem esforço.

O peso do corpo de Eduardo sobre o seu.

O jeito que ele murmurava contra sua pele.

O toque firme, os dedos apertando sua cintura, os movimentos lentos no começo e depois…

Leo engoliu seco, balançando a cabeça como se tentasse se livrar da memória.

Ele nunca tinha experimentado nada tão intenso, e isso o assustava um pouco, mas também o fazia querer mais.


◄☼►


Enquanto isso, Eduardo estava em casa, jogado na cama, encarando o teto.

O quarto estava em silêncio.

Mas a mente dele? Um caos absoluto.

O toque quente da pele de Leo ainda parecia estar em seus dedos.

Ele se lembrava do jeito que sua mão se encaixava na cintura dele, dos arrepios que sentiu ao beijar seu pescoço, do modo como Leo gemeu baixinho quando os corpos finalmente se fundiram.

Suspirou, passando as mãos pelo rosto.

Tinha sido surreal.

Não só pelo sexo em si, mas pela intimidade.

O jeito como Leo o segurou. Como o puxou para mais perto. Como se, naquele momento, não houvesse mais barreiras entre eles.

Isso o deixava inquieto.

Porque agora, Eduardo sabia.

Sabia que queria mais.

Sabia que, por mais que tentassem agir como se nada tivesse acontecido, tudo já tinha mudado.

Fechou os olhos, sentindo o próprio corpo reagir à lembrança.

Era tão errado querer de novo tão rápido?

Antes que pudesse se perder demais naquilo, pegou o celular para mandar alguma mensagem para Leo. Pensou por um instante no que dizer.

"Gostou de ontem?"?

Não. Ridículo.

"Está pensando nisso também?"?

Pior ainda.

Ele precisava quebrar aquele clima. Precisava voltar a ser eles dois.

Então, em vez de qualquer coisa séria, mandou um meme estúpido.

Uma imagem aleatória de um cavalo de desenho animado deitado no chão, com a legenda:

"Eu depois de um longo dia de trabalho na fazenda"

A resposta veio em menos de um minuto.


Leo: parabéns, castilho, vc resumiu minha vida em uma imagem


Eduardo riu, já digitando de volta.


Eduardo: sou um gênio incompreendido

Leo: vc é um imbecil


Eduardo riu mais ainda.

Era assim que eles funcionavam.