O Garoto Feito de Sol e Terra
31 Capítulo 31 — Desejo
O tempo passou e, entre aulas, encontros com os amigos e tardes na fazenda, Eduardo e Leo continuaram se vendo. Continuaram se provocando, rindo, dividindo momentos como sempre.
Mas algo havia mudado. Agora, havia uma linha entre eles que já tinha sido cruzada e cruzar de novo parecia inevitável.
Numa tarde qualquer, depois da aula, Eduardo pedalou até a fazenda como fazia sempre. O caminho de terra já era tão familiar quanto a palma de sua mão.
Quando chegou, Leo estava no celeiro, como de costume, ajeitando algumas ferramentas e espalhando feno para os cavalos. Eduardo entrou sem bater, como sempre fazia, e o encontrou de costas, concentrado no que fazia.
— Vai ficar aí parado ou vai ajudar? — Leo olhou para ele e o provocou.
Eduardo sorriu, cruzando os braços e se encostando num dos pilares de madeira.
— Depende. Se o pagamento for bom, posso considerar.
Leo virou um pouco a cabeça, arqueando uma sobrancelha.
— O que você quer? Um aumento no seu salário imaginário?
— Algo assim. — Eduardo respondeu, com um olhar carregado de intenção.
E foi o suficiente.
Um arrepio percorreu a espinha de Leo, um calor familiar crescendo no peito. Ele não precisava de mais explicações; o jeito que Eduardo o olhava já dizia tudo. A provocação se dissipou no ar, dando lugar a um silêncio denso, cheio de significados que nenhum dos dois precisou colocar em palavras.
E então, de forma natural, Eduardo se aproximou.
Leo sentiu o coração acelerar antes mesmo de sentir as mãos do outro tocarem sua cintura. A madeira do celeiro rangia levemente sob os pés deles, os cavalos mexiam-se ao fundo, mas tudo ao redor pareceu sumir no instante em que Eduardo o puxou para um beijo urgente.
Dessa vez, não houve planejamento, não houve tempo para pensar. Apenas aconteceu.
Os corpos se encaixaram com pressa, movidos por aquela necessidade silenciosa que já conheciam. O calor subiu rápido, as mãos exploraram a pele, as respirações ficaram pesadas. Leo se viu contra a parede de madeira, as palmas das mãos pressionadas contra o peito de Eduardo antes de puxá-lo ainda mais para perto.
Eduardo correspondeu ao toque, suas mãos deslizando pela cintura de Leo, subindo sob sua camisa, sentindo a pele quente sob seus dedos. O beijo se aprofundou, faminto, como se cada movimento fosse um reflexo incontestável do desejo que os tomava.
Leo pressionou o corpo contra o dele, os dedos agarrando a camisa de Eduardo, puxando-o com força, como se tentasse fundi-los ali mesmo. Mas a parede era dura demais, as roupas ainda atrapalhavam, a urgência pedia mais. Foi Eduardo quem quebrou o contato primeiro, sua boca se afastando apenas o suficiente para que ele segurasse a mão de Leo e o puxasse junto.
Leo entendeu o convite silencioso. Suas pernas tropeçaram um pouco no caminho, um riso abafado escapou entre um beijo e outro antes de ambos caírem sobre o feno, o cheiro seco e terroso preenchendo seus sentidos.
Leo se virou de costas para Eduardo, deitando no feno enquanto sentia o corpo quente dele se encaixar atrás do seu. O fôlego ficou preso na garganta quando Eduardo deslizou as mãos por sua cintura, segurando-o com firmeza antes de distribuir beijos lentos pela nuca dele, provocando arrepios que percorreram sua pele.
O movimento começou aos poucos, contido, testando a sincronia que já tinham aprendido um com o outro. Eduardo se inclinou mais, os lábios nunca abandonando a pele de Leo, a respiração quente contra sua nuca. A cada investida, o feno sob eles se remexia, as palhas farfalhando junto ao som abafado de suas respirações pesadas.
Era algo puro e primitivo, um desejo cru e espontâneo, sem nada além deles e o momento que se construía ali. Não havia planejamento, apenas entrega. O lugar onde tudo começou, agora sendo testemunha do que eles haviam se tornado.
Foi rápido. Foi intenso. Foi inevitável.
E quando acabou, Leo soltou um riso rouco, ainda deitado sobre o feno.
— Isso não tava nos planos de hoje. — murmurou, a voz arrastada pelo cansaço e pelo prazer ainda recente.
Eduardo riu junto, passando as mãos pelos cabelos antes de se levantar. Eles se vestiram às pressas, do jeito atrapalhado e silencioso de quem ainda sentia o corpo vibrar — camisa do avesso por um segundo, dedos tremendo.
Assim que terminou de se ajeitar, Eduardo se inclinou, puxando Leo para um beijo curto, sentindo ainda o gosto dele misturado ao cheiro de madeira e terra.
Mas, antes que pudessem se perder em mais beijos e risadas, um som os fez congelar.
— Ah, não. Isso tá acontecendo de verdade?
A voz veio da entrada do celeiro. Eduardo e Leo viraram a cabeça na hora, ainda meio desgrenhados, as roupas meio desarrumadas. E ali, de pé, com os olhos arregalados, estava Carla.
Ela abriu um sorrisinho de pura surpresa.
— Meu Deus. Vocês tão se pegando no celeiro? — perguntou, segurando o riso.
Leo sentiu todo o sangue fugir do rosto e depois voltar em dobro. Eduardo travou, sem conseguir formular uma resposta rápida o suficiente.
Carla encarou os dois, que ainda tentavam se recompor, e então deu um passo para trás.
— Relaxa. Eu não vou contar pra ninguém… Mas eu juro que nunca mais vou conseguir olhar pra esse celeiro do mesmo jeito. — ela riu, cobrindo a boca com a mão.
Leo soltou um suspiro longo, passando a mão no rosto.
— Ah, pelo amor de Deus, Carla…
Eduardo, que ainda estava meio sem reação, riu, sem saber bem se ria da situação ou do próprio nervosismo.
— Sério, meninos, da próxima vez, fechem a porta.
E com isso, ela saiu, ainda rindo.
Leo olhou para Eduardo e balançou a cabeça.
— Eu nunca mais vou conseguir entrar nesse celeiro sem lembrar disso.
Eduardo sorriu, puxando Leo pela cintura mais uma vez.
— Ah, mas eu vou garantir que você tenha lembranças ainda melhores daqui.
Leo revirou os olhos, mas não conseguiu segurar o sorriso.
◄☼►
Os dois ainda estavam ofegantes, os corpos um pouco sujos de feno, e o calor do momento ainda parecia grudado em suas peles.
Mas a realidade bateu logo. Eles precisavam sair dali.
Eduardo passou as mãos pelos cabelos, tentando ajeitá-los da melhor forma possível, enquanto Leo fazia o mesmo, sacudindo um pouco a camisa para tirar os restos de feno presos no tecido. O silêncio era carregado de algo que nenhum dos dois sabia nomear direito, não arrependimento, mas uma mistura estranha de vergonha e adrenalina.
Quando finalmente se sentiram apresentáveis o suficiente, caminharam até a casa principal da fazenda.
Ao chegarem à varanda, viram Carla sentada no sofá de madeira, um sorriso de canto brincando nos lábios enquanto esperava Rita terminar algo na cozinha.
Leo franziu a testa na hora.
Carla levantou o olhar assim que os viu, e então… soltou uma risadinha.
Não foi escandalosa, nem zombeteira. Mas foi o suficiente para fazer Eduardo sentir a nuca formigar.
Leo lançou a ela um olhar firme, como quem diz “não começa”, e Carla apenas ergueu as sobrancelhas de maneira inocente, contendo outro riso.
Eduardo desviou o olhar, tentando manter a compostura enquanto passavam por ela. Seu coração batia acelerado.
Rita surgiu na varanda, enxugando as mãos no avental, lançando um sorriso cordial para Carla ao vê-la ali.
— Oi, dona Rita! Trouxe aquilo que minha avó pediu pra te entregar. — Carla disse, estendendo um pequeno embrulho.
Rita pegou o pacote e assentiu.
— Ah, sim. Ela comentou comigo. Obrigada, Carla. Manda um abraço pra Dona Aurora. Faz tempo que não a vejo.
Carla sorriu.
— Pode deixar, vou mandar.
Eduardo tentou manter a respiração normal, fingindo que não sentia a presença de Carla ali como uma bomba-relógio.
Já Leo, impaciente, arriscou uma olhada discreta para Carla, apenas para ver se ela ainda estava segurando aquele sorriso enigmático.
E, claro, ela estava.
Quando seus olhares se cruzaram, Carla arqueou uma sobrancelha e mordeu o lábio, segurando o riso.
Leo estreitou os olhos para ela em um aviso silencioso de “para com isso.”
Mas Carla apenas ergueu os ombros como quem dizia “não tô fazendo nada”.
Quando ela finalmente se despediu, Eduardo também já estava se preparando para ir embora.
Os dois saíram juntos para a estrada, e foi só quando estavam longe o suficiente da casa que Carla quebrou o silêncio:
— Eu não imaginava isso, viu?
Eduardo sentiu o coração saltar no peito.
— Isso o quê? — tentou soar casual, mas sua voz saiu um pouco mais alta do que o normal.
Carla riu baixinho.
— Vocês dois. Mas… — Ela olhou para ele de lado, com um sorriso quase cúmplice. — Achei fofinho.
Eduardo sentiu a bochecha corar.
— Cala a boca.
Carla gargalhou.
— Relaxa, Castilho. Seu segredo tá seguro comigo.
Eduardo suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele sabia que Carla não era do tipo que espalharia aquilo, mas ainda assim… ser descoberto de alguma forma era algo que ele nunca tinha cogitado.
— Eu nem sei do que você tá falando. — tentou desconversar, enfiando as mãos nos bolsos.
— Claro que não. — Carla piscou para ele, debochada.
Eduardo bufou, fingindo irritação, mas no fundo… sentiu um certo alívio.
Se Carla achava “fofinho”, talvez não fosse o fim do mundo alguém saber.
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