O Garoto Feito de Sol e Terra

18 Capítulo 18 — Dispersão


Nos dias que se passaram, Eduardo se esforçou para focar na escola.

Mergulhou nas matérias, respondeu perguntas, tentou se interessar pelas explicações dos professores. Riu das piadas de Tiago e Hugo, fingiu empolgação com o novo jogo que Giovane trouxe para o intervalo, mas nada segurava sua atenção por muito tempo.

Era como se sua mente estivesse sempre à beira de um desvio, pronta para voltar àquela tarde na fazenda.

O pôr do sol tingindo o céu.

O cheiro de terra e mato ao seu redor.

O calor morno da bebida espalhando-se pelo corpo.

E Leo.

Ele tentava afastar o pensamento, ignorar as imagens que surgiam sem aviso. Mas era inútil.

Porque, por mais que tentasse, a lembrança sempre voltava.


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Naquele dia, no intervalo, Tiago puxou um papo que Eduardo já deveria ter previsto.

— Então, Castilho… já tá mais do que na hora de você perder o BV, né? — Tiago disse, dando um tapa leve no ombro de Eduardo.

Giovane riu.

— Verdade. Todo mundo já tá no caminho, só falta você.

Eduardo forçou um sorriso.

Por dentro, riu de verdade, porque já tinha perdido. E ninguém ali fazia ideia, ainda bem.

— E aí? Alguma candidata? — Hugo perguntou, animado.

Tiago olhou de relance para Kayla, que estava sentada com as amigas no outro canto do pátio.

— E se for com a Kayla?

Eduardo não respondeu de imediato.

Kayla era bonita. Simpática. Popular. Qualquer cara gostaria de ficar com ela. Mas Eduardo só conseguia pensar em como seria forçado. Em como não seria como o beijo que ele já teve. A única diferença é que esse, ele deveria querer.

Tiago estalou os dedos na frente do rosto de Eduardo.

— Ei, terra para Castilho. Tá ouvindo a gente?

Eduardo piscou, voltando à realidade.

— Tô, tô.

Tiago arqueou uma sobrancelha.

— Tem certeza? Porque parece que você tá em outro mundo.

E ele estava.

Eduardo passou a mão na nuca, buscando uma desculpa qualquer.

— Só tô com a cabeça cheia.

Tiago riu.

— Cabeça cheia de quê? Você nem pensa tanto assim.

Eduardo forçou uma risada, jogando alguma piada de volta, fingindo que estava tudo normal.

Mas, no fundo, sabia exatamente o que estava ocupando sua mente.

O peso da confusão.

A inquietação de não entender o que sentia.


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Enquanto Eduardo tentava afastar os pensamentos na escola, Leo se afogava neles na fazenda.

Ele não via Eduardo desde aquele dia, e isso não era normal.

Eduardo costumava aparecer na fazenda o tempo todo. Mas agora… nada. Nenhuma visita inesperada, nenhuma bicicleta surgindo na estrada de terra, nenhum sinal de Eduardo.

E Leo sabia o porquê.

Ele fingiu que não se importava. Seguiu com os dias como sempre fazia. Ajudou Gustavo, levou milho para as galinhas, subiu em árvore para buscar goiaba.

Mas tudo parecia mais monótono, mais vazio.

Porque, antes, Eduardo estava lá para rir com ele quando caísse da árvore. Agora, não estava. E Leo não sabia o que fazer com isso.

O pior de tudo era que ele não podia nem ligar para Eduardo.

Não tinha celular. Não podia simplesmente mandar uma mensagem perguntando "e aí, qual foi?" e resolver tudo.

Teria que ligar do telefone da fazenda, e essa ideia o deixava inquieto.

Porque, se ligasse, alguém poderia atender antes de Eduardo. E ele não queria ouvir a voz de Helena ou Frederico do outro lado da linha, questionando o motivo da ligação.

Mas, mais do que isso, havia outra razão.

No fundo, ele tinha medo da resposta.

Medo de Eduardo dizer algo que ele não estava pronto para ouvir.

Então, esperou.

Esperou Eduardo aparecer.

Esperou alguma desculpa, algum pretexto, algum sinal de que as coisas ainda eram as mesmas.

Mas os dias passaram e Eduardo não veio.

Leo fingiu que não se importava, mas sabia que estava fingindo para si mesmo. E isso era ainda pior.


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Leo não aguentou mais esperar.

Não era do seu feitio ficar remoendo as coisas. Se Eduardo não ia até ele, então ele iria até Eduardo. Montou na bicicleta e pedalou com força pela estrada de terra, sem pensar demais no que diria.

Porque, no fundo, sabia que não precisava dizer nada. As coisas só precisavam voltar ao normal.

Quando chegou à casa dos Castilho, bateu à porta e não demorou para que ela se abrisse. Helena apareceu, elegante como sempre, mas claramente surpresa ao vê-lo ali. Leo reparou no olhar avaliativo dela, mas não se intimidou.

— Oi, dona Helena. O Eduardo tá aí?

Ela hesitou por um segundo, mas então assentiu.

— Está, sim. Pode entrar.

Leo não esperava que ela fosse deixá-lo entrar tão fácil, mas não questionou.

Passou pela porta, tentando ignorar a sensação de que aquele lugar não combinava com ele. A sala estava impecável, arrumada como sempre. Muito diferente da bagunça calorosa da fazenda.

Ele então subiu as escadas sem cerimônia e abriu a porta do quarto de Eduardo sem bater. Eduardo estava sentado na cama, de cabeça baixa, mexendo no celular. Quando levantou os olhos e viu Leo ali, congelou.

— Leo?

Leo sorriu de lado, jogando o corpo no batente da porta como se nada tivesse acontecido.

— E aí, você sumiu.

Eduardo ainda parecia surpreso.

— O que você tá fazendo aqui?

Leo deu de ombros, casualmente.

— Te tirando dessa prisão.

Eduardo abriu a boca para dizer algo, mas Leo não deu espaço para nenhum assunto desconfortável surgir.

— Vamos comer pastel na vendinha do seu Zé.

Eduardo piscou, ainda confuso.

— O quê?

— Pastel, riquinho. Aquela coisa frita e deliciosa que você adora.

Eduardo continuava olhando para ele como se não acreditasse que Leo simplesmente apareceu ali, do nada, como se nada tivesse acontecido.

Mas Leo não estava disposto a falar sobre o beijo. Ele sabia que Eduardo não estava pronto para isso e talvez ele mesmo não estivesse. Então, o melhor a fazer era fingir que nunca aconteceu.

Eduardo percebeu isso, e, de certa forma, sentiu alívio. Porque ele também não sabia como falar sobre aquilo.

Eduardo se levantou, pegou a carteira na mesa e sorriu de leve.

— Tá bom. Mas eu que pago.

Leo riu.

— Óbvio. Você é o burguês aqui.

Eduardo empurrou ele de leve, rindo também.

E então desceram as escadas juntos, como se nada tivesse mudado, mas os dois sabiam que alguma coisa já não era mais a mesma.


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A vendinha do seu Zé estava como sempre: simples, acolhedora, com aquele cheiro inconfundível de óleo quente e massa frita.

Leo e Eduardo se sentaram à mesa de madeira gasta perto da entrada, onde podiam sentir a brisa morna da tarde.

O dono do lugar, seu Zé, reconheceu os dois de imediato e, sem nem precisar perguntar, já começava a fritar os pastéis preferidos deles. Logo ficaram prontos e seu Zé os entregou para os garotos.

Leo se recostou na cadeira e observou Eduardo.

Os cabelos escuros, bem alinhados, como sempre ficavam.

Os olhos, profundos e intensos, escuros como a noite sem lua.

Leo se pegou encarando. Não porque queria, mas porque era impossível não notar.

Eduardo sempre esteve por perto, sempre foi seu melhor amigo, mas depois do que aconteceu, Leo sentia que tudo nele parecia mais nítido. Ou talvez ele que estivesse enxergando de um jeito diferente agora.

Eduardo percebeu o olhar.

— O que foi?

Leo piscou rapidamente, tirando os pensamentos da cabeça. Não podia ficar olhando assim. Então, buscou uma saída rápida.

— Nada. Só tava vendo essa coisa enorme na sua cara.

Eduardo franziu a testa e passou a mão no rosto.

— O quê?

Leo segurou o riso e pegou um guardanapo, empurrando para ele.

— Isso aqui, riquinho. Parece que você enfiou a cara na gordura.

Eduardo bufou e pegou o guardanapo, esfregando no canto da boca.

— Se tivesse me avisado antes…

Leo deu de ombros, tentando parecer casual, mas, por dentro, sentiu o coração bater um pouco mais forte do que deveria.

Por que ele estava reparando tanto?

Aquilo não fazia sentido.

Ele não queria que fizesse. Então, fingiu que não.

E continuaram comendo, como se nada tivesse acontecido.

Como se os olhos de Eduardo não fossem a coisa mais hipnotizante que ele já tinha visto.

Eduardo tinha esfregado o guardanapo no canto da boca, mas sabia que aquilo era só uma desculpa. O jeito que Leo tinha olhado para ele antes da piada… não era só sobre um rosto sujo de gordura.

Eduardo sabia disso.

Sabia exatamente o que Leo estava evitando. Porque ele também estava tentando evitar, então, deixou passar.

— Então, como tá a escola? — Eduardo perguntou, pegando mais um pedaço do pastel.

Leo deu um gole no refrigerante antes de responder.

— Chata como sempre. Sem você, ficou mais fácil ser o mais inteligente da turma.

Eduardo riu.

— Duvido. Você nunca foi o mais inteligente de nada.

Leo fez uma expressão ofendida.

— Cê tá falando com o cara que já fez a melhor cola de prova desse colégio, riquinho. Respeita.

Eduardo revirou os olhos, rindo.

— Ah, nossa, que grande conquista.

Leo riu também, mas logo desviou o olhar, rodando a latinha de refrigerante entre os dedos.

— Mas falando sério… meio estranho lá sem você. Carla, Bruno e Davi continuam enchendo o saco, mas não é a mesma coisa.

Eduardo sentiu um aperto no peito. Por mais que estivesse se adaptando na escola nova, era estranho saber que tinha deixado aquele pedaço da sua vida para trás.

— E você? — Leo perguntou.

Eduardo respirou fundo.

— A escola é boa, mas é… diferente.

— Diferente como?

Eduardo deu de ombros.

— Tem umas pessoas legais, mas a maioria só fala de besteira.

Leo arqueou uma sobrancelha.

— Besteira tipo o quê?

Eduardo suspirou.

— Tipo o Tiago e os caras só falarem sobre perder o BV como se fosse um troféu.

Assim que as palavras saíram, ele se deu conta. E Leo também.

O silêncio entre os dois se alongou por um segundo a mais do que deveria, porque não era só uma conversa qualquer.

Porque os dois já tinham perdido o BV. Um com o outro.

Os olhares se encontraram por um instante, carregando um peso invisível. Algo que nenhum dos dois sabia exatamente como lidar.

Então, como se nada tivesse acontecido, Leo desviou o olhar e mudou de assunto. Eduardo fingiu que não percebeu.

— E a Kayla? Você e ela tão mais próximos, né?

Eduardo deu um gole no refrigerante antes de responder.

— Ela é legal. Bem diferente do resto.

— Diferente como?

— Não sei… não liga pra essa coisa de ser riquinha metida. Ela odeia essa gente tanto quanto você.

Leo assentiu devagar.

Eduardo ainda olhava para ele, e Leo sentia aquele olhar. Mas nenhum dos dois queria entrar naquele assunto desconfortável.

Então, continuaram falando de escola.

De qualquer coisa que não os fizesse lembrar daquele pôr do sol.

De qualquer coisa que não os fizesse lembrar daquele beijo.


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O sol já começava a se pôr quando terminaram de comer.

Eduardo pagou a conta, como sempre, e os dois saíram da vendinha. O ar fresco da tarde batia contra os rostos deles enquanto caminhavam até onde tinham deixado as bicicletas.

Ficaram parados ali por alguns segundos, sem saber exatamente como encerrar aquele encontro.

Leo olhou para o chão, chutando uma pedrinha qualquer.

Eduardo sentia que ele queria dizer algo, mas parecia lutar contra as palavras.

E então, Leo simplesmente soltou:

— Não some de novo, tá?

Eduardo levantou os olhos para ele. Leo ainda olhava para baixo, mas a forma como disse aquilo… tinha algo diferente.

— Eu... senti sua falta.

Foi baixo, meio envergonhado, como se tivesse saído sem querer.

Eduardo engoliu seco.

Ele não sabia o que responder. Porque também sentiu falta de Leo, mas ao mesmo tempo, os dois sabiam que ele não tinha sumido sem motivo.

Ainda assim, assentiu.

— Tá bom.

Leo não disse mais nada.

Apenas subiu na bicicleta, virou na estrada de terra e foi embora sem olhar para trás.

Eduardo ficou parado ali, vendo a figura de Leo sumir ao longe.