O Garoto Feito de Sol e Terra

19 Capítulo 19 — Entre Risadas e um Aperto no Peito


A tarde na fazenda estava tranquila. O sol dourava os campos, e o vento soprava leve, trazendo o cheiro de terra e grama cortada.

Leo estava sentado no alpendre, jogando milho para as galinhas, quando viu duas bicicletas se aproximando pela estrada de terra.

Ele não precisou nem se levantar para saber quem eram.

Davi e Carla vieram juntos.

Isso já não era mais novidade para Leo. Ele já tinha percebido há um tempo que havia algo entre os dois.

Os olhares demorados. Os empurrões brincalhões que pareciam durar um segundo a mais do que o normal. A forma como Carla implicava com Davi de um jeito que ninguém mais podia implicar.

Leo gostava daquilo. Gostava de ver os amigos felizes. Talvez porque assim ele não precisava pensar tanto na própria confusão.

— E aí, casal. — Leo provocou, assim que eles desceram das bicicletas.

Davi bufou, mas Carla apenas riu com um ar de quem não se importava.

— Vai se ferrar, Leo.

— Se eu for, vou te levar junto.

Davi revirou os olhos, mas não negou nada. Ele pergunta:

— Podemos entrar ou vai ficar jogando milho aí igual um velho?

Leo se levantou e deu um tapinha no ombro de Davi.

— Entra, só não me faz papelão na frente da minha mãe, Romeu.

Os três riram e entraram na casa.

Já estavam na cozinha, comendo um pedaço de bolo que Rita tinha feito, quando Carla soltou um comentário que fez Leo congelar.

— A gente viu Eduardo na cidade outro dia com a Kayla.

Leo olhou para ela de canto.

— Ah é?

— Sim. — Davi entrou no assunto. — Eles estavam na sorveteria.

Leo sentiu o aperto no peito vir de imediato. Ele tentou ignorar.

— E?

— E daí que será que já rolou? — Carla riu.

— Os dois pareciam bem próximos. — Davi completou, pegando mais um pedaço de bolo.

Leo não respondeu e tentou rir junto. Porém, foi um riso sem querer rir. Um riso que veio automático, como se seu corpo tentasse fingir que aquilo não importava.

Mas importava.

E ele não sabia por quê. Ou talvez soubesse. Então não disse nada. Mas Carla notou algo no rosto dele.

Ela estreitou os olhos, pegando um garfo e apontando para ele.

— E você?

Leo franziu a testa.

— Eu o quê?

— Vai ficar pra trás?

Davi riu.

— É, Leo. Se até o Eduardo tá pegando alguém, você precisa se mexer.

— Eu tô bem onde tô.

— Ah, tá. — Carla revirou os olhos. — Eu posso te apresentar algumas amigas.

Leo riu desconfortável e pegou um copo de suco só para ocupar as mãos.

— Tô tranquilo.

Mas, pela primeira vez, ele percebeu que não estava tão tranquilo assim.

Davi e Carla ficaram mais um tempo conversando, rindo, e fazendo piadas sobre quem era mais lento para perceber as coisas — no caso, Davi, já que todo mundo sabia que Carla gostava dele antes mesmo que ela admitisse.

Depois do lanche, os dois pegaram as bicicletas e foram embora juntos, descendo a estrada de terra com o sol já baixo no horizonte.

Leo ficou parado na varanda, observando os amigos sumirem na curva do caminho. E então, se viu sozinho com seus pensamentos.

Carla disse aquilo como se fosse óbvio.

"Se até o Eduardo tá pegando alguém, você precisa se mexer."

Como se isso fosse um passo natural. Como se ele só estivesse esperando alguém certo para aparecer.

Mas Leo percebeu ali, naquele exato momento, que nunca sentiu vontade de “se mexer”. Ele nunca se interessou por garota nenhuma. Nunca sentiu nada de especial por ninguém e nunca se importou com isso.

Até agora.

Porque não sentia nada por nenhuma garota, mas sentia por Eduardo?

Ele abaixou a cabeça, apoiando os cotovelos nos joelhos.

Isso não fazia sentido.

Eduardo era seu melhor amigo.

Eduardo sempre esteve ali.

Então por que agora era diferente?

Leo passou a mão pelos cabelos, bagunçando ainda mais os fios loiros. Não sabia o que era pior: Não entender o que estava sentindo… ou entender e não querer aceitar.

Mas, de uma forma ou de outra, Eduardo era a única exceção. E isso, por si só, já dizia muito.

Leo passou a língua pelos lábios secos, olhando para o horizonte. A pergunta veio forte.

Isso fazia dele gay?

Talvez sim. Talvez não. Talvez não fosse tão simples assim.

Mas o que mais poderia ser? Ele não se interessava por garotas. Isso ele já sabia. Mas também nunca se interessou por nenhum garoto.

Só Eduardo.

Então, o que isso significava?

O vento balançava as árvores, os últimos raios do sol alaranjavam o céu, e Leo percebeu que, por mais que tentasse, essa resposta não viria fácil.

Porque talvez não houvesse resposta certa. Talvez ele tivesse que aceitar que sentia o que sentia.

E isso era assustador.


◄☼►


Os dias foram passando, e aos poucos Eduardo voltou a ir à fazenda. Na primeira vez que apareceu depois daquele dia na vendinha, Leo tentou fingir que não estava feliz demais.

Mas estava.

E sabia que Eduardo também percebeu.

Eles brincaram como antes, sem que nada parecesse estranho, sem que nada parecesse diferente.

Mas era diferente, eles só estavam fingindo que não.


◄☼►


O tempo passou, e logo chegou o dia do aniversário de treze anos de Leo.

Rita preparou uma comemoração simples, só com a família e algumas pessoas próximas.

E Eduardo, claro, estava lá.

Ele tinha guardado dinheiro da mesada para comprar um presente especial. Um celular. Quando Leo recebeu o pacote, arregalou os olhos.

— Tá de brincadeira, né?

Eduardo sorriu, sem graça.

— Agora a gente pode se falar sempre.

Leo ficou sem palavras.

— Isso deve ter custado uma fortuna!

— Eu juntei o dinheiro da mesada.

Leo passou os dedos sobre a caixa do celular, sem saber como agradecer. Porque isso significava mais do que apenas um presente caro. Isso significava que Eduardo queria que ele estivesse sempre por perto, mesmo quando não estivesse fisicamente ali.

Eduardo passou um tempo ensinando Leo a mexer no celular, mostrando como funcionava.

E quando a noite chegou, Eduardo se preparou para ir embora, mas Rita não deixou.

— Eduardo, essa hora da noite não dá mais.

— Ah, mas eu posso ir rapidinho de bike.

— Nada disso. — Rita balançou a cabeça. — Vou ligar pra sua mãe e avisar que você vai dormir aqui hoje.

Ela pegou o número de Helena, ligou e explicou a situação. Depois de alguma conversa, Helena concordou.

Eduardo iria passar a noite ali.

Leo tentou não parecer empolgado demais com isso.


◄☼►


Leo pegou um colchão e arrastou para o lado da cama, ajeitando os lençóis de qualquer jeito. O quarto estava mergulhado em meia-luz, iluminado apenas pelo brilho esbranquiçado que entrava pela janela e pelo reflexo tênue da tela do celular.

Deitados ali, cada um no seu espaço improvisado, riram de piadas idiotas, falaram sobre coisas sem importância. O tipo de conversa que não precisava levar a lugar nenhum, apenas preencher o silêncio confortável que existia entre eles.

Eduardo continuava mostrando algumas funções do celular, deslizando os dedos pela tela com facilidade. Leo segurava o aparelho com mais cautela, os olhos fixos, tentando entender o que Eduardo explicava.

— E esse botão aqui? — Leo perguntou, franzindo o cenho.

Eduardo se inclinou para mais perto, apontando a tela. O braço roçou de leve no dele, mas nenhum dos dois se afastou.

Era só um celular. Só um momento qualquer entre amigos.

Mas, de alguma forma, o ar parecia um pouco mais denso, como se algo invisível pairasse ali entre os dois. O quarto, antes cheio de risadas e conversas soltas, agora parecia suspenso em um silêncio carregado de algo novo, algo inquietante.

E então, as mãos se encostaram.

Foi um toque pequeno, quase insignificante. O dorso dos dedos de um roçando contra o outro, sem intenção, sem aviso.

Mas foi como um choque.

Os dois sentiram.

O tempo pareceu desacelerar, como se o universo inteiro prendesse a respiração junto com eles.

Leo engoliu em seco.

Eduardo piscou, tentando entender por que aquele toque simples o deixava tão tenso, por que o calor da pele de Leo contra a sua parecia incendiar algo dentro dele.

Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.

Leo cedeu primeiro.

Não hesitou.

Não pensou, apenas se aproximou.

E beijou Eduardo.

Dessa vez, sem desculpas, sem a influência do álcool, sem nada para disfarçar ou justificar.

Foi intenso, carregado de vontade, de tudo que Leo estava segurando há dias, semanas, talvez até meses sem perceber.

Eduardo sentiu o toque, sentiu a pressão suave daqueles lábios contra os seus, sentiu o calor e o arrepio subindo pela nuca. Mas, por um instante, sua mente não acompanhou seu corpo.

Seu coração disparou, não só pelo beijo, mas pela onda de pensamentos que explodiu de uma vez.

Isso estava realmente acontecendo.

Leo o estava beijando.

E ele queria isso. Mas o que significava querer isso?

Por uma fração de segundo, Eduardo congelou. Não porque não queria, mas porque seu cérebro estava correndo para tentar entender o que acontecia.

E então, em meio à confusão, algo dentro dele se soltou.

Porque, no fundo, não precisava de resposta nenhuma agora.

Ele apenas precisava sentir.

E Eduardo correspondeu. Sem dúvida, sem receio.

Os lábios se encaixaram como se já soubessem exatamente onde deveriam estar. Como se aquele momento estivesse esperando por eles todo esse tempo.

O coração de Eduardo disparava, e o de Leo também. Eles podiam sentir o peito do outro subir e descer rápido demais, como se o ar entre eles não fosse suficiente.

Quando finalmente se separaram, ainda estavam ofegantes, encarando-se no escuro como se o mundo tivesse acabado de mudar.

Leo prendeu a respiração, tentando encontrar palavras para o que sentia, mas tudo que conseguiu dizer foi:

— Não some de novo, tá?

A voz não saiu firme como ele queria. Saiu baixa, quase uma súplica.

Eduardo sentiu algo apertar dentro do peito.

Porque ele não queria sumir novamente.

Então, sem hesitar, assentiu.

— Eu não vou.

Leo levou a mão até a nuca de Eduardo, roçando os dedos ali por um instante, como se quisesse se certificar de que ele não iria embora dessa vez.

Eduardo fechou os olhos e aproveitou aquele momento.

Afinal, tinha passado dois meses tentando esquecer o último beijo que, no fundo, só queria reviver.