O Garoto Feito de Sol e Terra
91 Capítulo 91 — O Confronto
Eduardo encostou no balcão da recepção da Gravità, os dedos batendo ritmadamente contra a superfície lisa enquanto aguardava Evandro. O motivo oficial de sua visita era resolver algumas últimas pendências de pagamento junto ao financeiro, mas, no fundo, ele tinha outro objetivo.
Ele queria ver Leo.
Desde o dia em que Leo praticamente cuspiu palavras cortantes ao vê-lo na frente do hostel, Eduardo não o encontrava mais e também não conseguia falar com ele. Mas agora, de volta à Gravità, esperava pelo menos sentir sua presença, ouvir sua voz de longe, qualquer sinal de que ele ainda estava ali.
Mas nada.
Evandro retornou com os documentos, acompanhando Eduardo até uma das salas para finalizar os ajustes necessários. Enquanto assinava alguns papéis, Eduardo manteve a expressão neutra e soltou, casualmente:
— Evandro, antes de ir embora, eu queria ver todos que participaram da campanha. Só pra agradecer pelo trabalho.
Evandro assentiu e fez um sinal para alguém na recepção. Logo, um a um, os rostos conhecidos apareceram.
Tati, Karina, Rafael… e Diego.
Eduardo cumprimentou todos com um sorriso profissional, trocando palavras rápidas de agradecimento, mantendo a postura cordial. Mas, conforme os minutos passaram, a ausência de Leo ficou ainda mais evidente.
Sem demonstrar sua inquietação, ele soltou a pergunta como se não fosse nada demais:
— E o Leonardo? Não vi ele por aqui hoje.
O silêncio durou um segundo a mais do que deveria.
Evandro cruzou os braços, como se já esperasse a pergunta. Sua resposta veio firme, sem rodeios.
— Por decisão da diretoria, o Leonardo não faz mais parte da equipe.
Eduardo manteve a expressão controlada, mas por dentro, algo desabou.
Ele não disse nada. Apenas assentiu levemente, como se a informação não o surpreendesse. Mas enquanto seu olhar percorria os rostos ao redor, ele encontrou Diego.
E Diego estava sorrindo.
Não um sorriso largo, óbvio, mas um sorrisinho discreto, satisfeito.
Eduardo entendeu na hora.
◄☼►
Eduardo esperou do lado de fora.
O sol já estava se pondo quando Diego finalmente saiu do prédio, de terno e óculos escuros, parecendo satisfeito consigo mesmo. Eduardo nem pensou. Assim que Diego desceu os últimos degraus, Eduardo avançou.
— O que você fez com ele?
Diego parou abruptamente, tirou os óculos com calma e o encarou, como se achasse graça na abordagem.
— Ora, ora. Se não é o Castilho, o amante. — Um sorriso cínico surgiu em seu rosto. — Você parece estar bem preocupado. O servicinho foi tão bom assim?
Eduardo não hesitou. O soco veio antes que Diego terminasse a frase.
O impacto foi forte o suficiente para Diego cambalear para trás, mas ele não era do tipo que aceitava ser atingido sem reagir. Ele se recompôs e avançou, revidando com força. Eduardo sentiu o golpe no maxilar, mas não recuou.
Os dois se atracaram ali, no meio da calçada. Punhos trocados, empurrões, xingamentos entre dentes cerrados. Era uma briga carregada de algo muito além da raiva momentânea. Era rancor, ego, orgulho ferido.
Eduardo conseguiu empurrá-lo contra um carro estacionado, prendendo Diego contra a lataria.
— O que você fez com ele? — Eduardo rosnou, o punho cerrado pronto para outro golpe.
Diego cuspiu no chão e sorriu com sangue nos dentes.
— Você quer saber onde seu queridinho foi parar?
Eduardo apertou ainda mais o colarinho da camisa de Diego.
— Fala logo, porra.
Diego riu.
— Bom… já que você insiste, Castilho… Eu diria que ele voltou pro meio do mato de onde veio.
Eduardo franziu o cenho.
— Que porra isso quer dizer?
Diego ajeitou a camisa com desdém, passando a língua pelo dente cortado pelo soco de Eduardo.
— Ele não tem mais emprego. O dinheiro deve ter acabado. — Ele deu de ombros. — Deve ter voltado pra casa da mãe dele.
O peito de Eduardo subiu e desceu rapidamente.
São Tomás. A fazenda. Ele soltou Diego de imediato, recuando um passo.
Diego percebeu a mudança na expressão de Eduardo e não perdeu a chance de provocar.
— O que foi, Castilho? Vai atrás dele, é?
Eduardo parou, os punhos cerrados, o peito subindo e descendo rapidamente. Por um segundo, ele considerou avançar novamente, acabar com aquele sorriso de merda estampado no rosto de Diego.
Mas não valia a pena.
Sem dizer mais nada, Eduardo se afastou, deixando Diego para trás. Ele precisava confirmar essa informação.
◄☼►
Eduardo encarou o número na tela do celular por um longo momento antes de finalmente apertar para discar. Era o contato que Rita havia lhe passado da última vez que esteve na fazenda, dizendo para ligar caso precisasse de algo. Na época, ele não imaginou que um dia usaria aquele número. Mas agora, depois do que Diego disse, depois de juntar as peças do que poderia ter acontecido, ele precisava saber. Precisava ouvir por si mesmo.
O telefone tocou três vezes antes de alguém atender.
— Alô?
A voz do outro lado soou cansada, desgastada. Mariana.
Eduardo segurou firme o celular, endireitando a postura na cadeira do hotel.
— Mariana, sou eu. Eduardo.
— Ah, tá.
O tom dela era contido, quase indiferente, mas não hostil.
Eduardo respirou fundo.
— O Leo tá aí?
— Tá.
Um silêncio breve se instalou entre eles.
— E como estão as coisas? Tá tudo bem? — Eduardo perguntou.
Mariana demorou um pouco para responder. Eduardo quase pôde ouvir a hesitação dela através da linha.
— Não… não tá tudo bem.
Ele sentiu o peito apertar.
— O que aconteceu?
— Nossa mãe… — A voz dela vacilou um pouco. — Ela precisou de uma cirurgia de emergência.
Eduardo congelou.
— Cirurgia?
— Apendicite. Ela passou mal de repente, teve complicações… Foi por um triz.
A informação caiu como um peso esmagador sobre ele. Eduardo gostava de Rita. Ela sempre foi gentil com ele, mesmo quando ele sentia que não merecia.
— E ela tá bem agora?
— Tá se recuperando, mas ainda muito debilitada. Foi tudo muito rápido, e a gente não tinha dinheiro. O hospital público tava lotado, não podiam operar de imediato… O Leo não pensou duas vezes e pediu um empréstimo.
— Um empréstimo?
Mariana fez uma pausa, como se tentasse manter a voz firme, mas Eduardo percebeu quando ela vacilou.
— Sim... se não fosse por isso… — Ela respirou fundo, mas a emoção já transbordava. — Não sei o que seria de nós.
A voz dela embargou no final, carregada de exaustão e alívio misturados ao medo do que ainda estava por vir.
Eduardo fechou os olhos, sentindo a frustração crescer dentro dele. Mariana continuou.
— E agora… a gente teve que mandar embora o rapaz que ajudava na fazenda. Então o Leo tá trabalhando dobrado. Tenta cuidar da mãe, da fazenda, de tudo… eu e Sofia ajudamos como podemos, mas não tá fácil. Gustavo está na estrada.
Eduardo ficou em silêncio, o coração despedaçado.
Ele podia imaginar Leo se matando de trabalhar, orgulhoso demais pra pedir ajuda, carregando o mundo nas costas.
Eduardo sentiu o peso do silêncio do outro lado da linha antes de Mariana soltar um suspiro cansado.
— Se você sentir no coração que pode ajudar… qualquer ajuda é bem-vinda. Nem que seja com orações.
A simplicidade daquelas palavras atingiu Eduardo de um jeito que ele não esperava. Ele engoliu em seco, fechando os olhos por um instante antes de responder, firme:
— Eu vou ajudar.
Mariana não disse mais nada. Apenas murmurou um "obrigada" baixo antes de desligar.
Então era isso.
Leo tinha fugido da confusão, de Diego, dele, de tudo. Mas tinha caído em outro inferno. E, dessa vez, sozinho.
Ele bloqueou a tela do celular, com o coração pesando como chumbo.
◄☼►
Dois dias depois da ligação, Eduardo saiu do carro e fechou a porta com um clique suave, o olhar fixo na casa à sua frente.
O ar estava impregnado pelo cheiro de terra úmida e mato, enquanto a brisa balançava suavemente os pés de milho e farfalhava nas árvores antigas ao redor da fazenda. Era um lugar bonito, tranquilo, mas ele não estava ali para apreciar a paisagem.
Ele veio atrás de Leo. Mas também veio por Rita. E por aquela família que, de alguma forma, ainda despertava nele uma simpatia genuína.
Respirou fundo e caminhou até a varanda, os passos firmes ecoando na madeira do piso. Bateu na porta, sentindo a ansiedade pesar no peito.
Demorou alguns segundos até ouvir os passos do outro lado.
Então, a porta se abriu.
E Eduardo se deparou com ele.
Leo.
O coração de Eduardo deu um salto estranho dentro do peito.
Leo estava diferente.
O rosto mais magro, olheiras profundas, os cabelos loiros bagunçados e um ar de exaustão que ele nunca tinha visto antes.
Leo piscou, surpreso, o choque estampado no rosto. Então, a expressão mudou.
O olhar dele se transformou em puro desgosto.
— O que diabos você tá fazendo aqui?
Eduardo manteve a calma.
— Vim ver como vocês estão.
Leo riu, mas foi um riso vazio, cheio de incredulidade.
— Foda-se, Eduardo. Você não tem nada a ver com isso.
Eduardo trincou o maxilar.
— Eu só quero ajudar. Fiquei sabendo o que aconteceu com a sua mãe.
Leo apertou os olhos, como se as palavras de Eduardo fossem um incômodo que ele não queria enfrentar. Seu maxilar travou, e ele cruzou os braços contra o peito, o corpo inteiro tenso.
— E por que isso te interessa? — Sua voz saiu seca, carregada de cansaço.
Eduardo manteve o olhar firme.
— Porque eu me importo com vocês.
Leo soltou uma risada breve, sem humor.
— Você não tem que se importar. Isso não tem nada a ver com você. — Ele balançou a cabeça, impaciente
Eduardo respirou fundo, se segurando.
— Mariana me contou sobre o empréstimo. Sobre você estar segurando tudo sozinho. Você não precisa passar por isso.
Leo balançou a cabeça, impaciente.
— Eu já tô passando. E tô resolvendo.
— A que custo? — Eduardo retrucou. — Você se matando de trabalhar, se endividando, sem pedir ajuda pra ninguém?
Leo desviou o olhar, a mandíbula cerrada.
— Eu não quero sua ajuda, Castilho.
Aquelas palavras incomodaram Eduardo mais do que deveriam.
— Mas eu quero te ajudar.
— Ah, beleza, então você veio aqui bancar o salvador agora? — Leo zombou, a amargura transbordando de cada sílaba.
Eduardo trincou o maxilar, mantendo o olhar firme.
— Não é isso. Eu me importo. De verdade. Eu posso pagar essa dívida pra você.
Leo travou.
Seus dedos apertaram a porta com força, como se precisasse se agarrar a alguma coisa para conter o que estava sentindo.
— Você acha que dinheiro resolve tudo, né?
— Nessa situação, resolve.
Leo olhou para ele com puro desprezo.
— Eu não quero nada seu.
Eduardo passou uma mão pelos cabelos, frustrado.
— Por que você tem que ser tão teimoso?
— Porque essa é a minha vida, Castilho. Não a sua.
O silêncio pesou entre eles.
Leo respirava pesado, a raiva misturada com algo que Eduardo reconhecia bem: cansaço.
Cansaço de lutar sozinho.
Mas ainda assim, ele se recusava a ceder. Eduardo apertou os olhos e suspirou.
— Eu não vou embora.
Leo bufou, exasperado.
— Não enche meu saco, Eduardo.
— Se você não quer minha ajuda, foda-se. — Eduardo deu de ombros. — Mas eu vou ficar.
— Você é ridículo.
— E você é teimoso pra caralho. Deixa eu entrar pra pelo menos ver ela.
Leo revirou os olhos e esfregou a mão no rosto, visivelmente exausto demais para continuar discutindo.
Ele deu um passo para trás e deixou a porta aberta.
— Faça o que quiser. Mas não me enche.
Eduardo sorriu de canto. Primeira vitória.
Ele entrou na casa sem hesitar, sentindo o cheiro familiar de café misturado ao leve aroma de madeira do local.
— Eduardo! — Mariana apareceu da sala, o rosto iluminado por um sorriso genuíno.
Diferente de Leo, ela parecia sinceramente feliz em vê-lo. Se aproximou e lhe deu um abraço rápido.
— Fico tão feliz que tenha vindo.
— Eu disse que ajudaria vocês — Eduardo respondeu, lançando um olhar rápido para Leo, que ainda estava parado na porta com a expressão fechada.
Ignorando o olhar fulminante de Leo, Eduardo seguiu em frente, caminhando direto para o corredor. Leo resmungou atrás dele, o seguindo.
Eduardo continuou andando até a porta do quarto de Rita e bateu suavemente antes de entrar.
A mulher estava deitada, visivelmente abatida, mas seus olhos se iluminaram quando o viu.
— Eduardo? — Ela piscou algumas vezes, surpresa.
Ele sorriu e se aproximou da cama, segurando a mão dela com cuidado.
— Dona Rita, como a senhora está?
— Melhorando, meu filho… um dia de cada vez. Mas não vou mentir, essa recuperação tá sendo difícil. — Sua voz era fraca, mas seu tom ainda era gentil, carregado de carinho.
Leo entrou no quarto logo atrás, cruzando os braços e bufando baixinho, impaciente.
Eduardo apertou levemente sua mão, sério.
— Não se preocupe com nada, dona Rita. Eu vou ficar aqui e ajudar vocês em tudo o que precisarem.
Leo, que até então estava apenas observando da porta, os braços cruzados, finalmente se moveu, soltando um suspiro pesado antes de falar.
— Você só pode estar brincando.
Eduardo lançou um olhar rápido para ele, mas permaneceu ao lado de Rita.
— Não estou.
Leo bufou, balançando a cabeça.
— Você não vai ficar. Tá só de passagem, Eduardo. Não tem tempo pra isso. Tem que voltar pros seus negócios, pra sua vida.
Eduardo soltou um riso curto, balançando a cabeça.
— Engraçado você achar que sabe das minhas prioridades.
Rita observava os dois em silêncio, o olhar suave, mas atento.
Leo parecia pronto para rebater, mas Eduardo apenas voltou sua atenção para ela e apertou sua mão novamente.
— Não precisa se preocupar com nada, dona Rita. Eu tô aqui pra ajudar.
Ela apertou levemente os dedos de Eduardo, emocionada.
— Você é um bom menino, Eduardo.
Leo bufou mais uma vez, mas não disse nada. Apenas permaneceu onde estava, os braços cruzados, o olhar fechado.
Eduardo sabia que aquilo estava matando Leo por dentro. Apesar disso, ficou, mas claro que não sem protestos por parte de Leo.
Quando estavam sozinhos na sala, Leo disparou:
— Você vai dormir aonde, Castilho? No celeiro? — Zombou, com os braços cruzados, encostado na parede.
Eduardo deu de ombros.
— Se for o único lugar disponível, sim.
Leo bufou, impaciente.
— Você é insuportável.
◄☼►
O dia seguinte começou com um clima de guerra fria na fazenda.
Eduardo realmente não foi embora e Leo odiava isso.
Ele passou a ignorar Eduardo completamente. Quando falava, era com insultos, olhares cortantes e um humor de cão raivoso.
Mas Eduardo não se abalava, pelo contrário.
Ele ajudava em tudo. Desde buscar lenha, carregar sacos de ração, lavar pratos, limpar o chão da cozinha, até ajudar Rita a se locomover depois da cirurgia.
No começo, Leo tentava afastá-lo.
— Seu lugar não é aqui, Castilho. Volta pro seu escritório chique e me deixa em paz.
Eduardo apenas dava um sorrisinho irritante.
— Mas eu tô pegando o jeito rápido, hein? Olha essa lenha perfeitamente cortada.
— Pelo amor de Deus. — Leo bufava, revirando os olhos.
Quando Eduardo ajudava Sofia com os estudos para o vestibular, Leo ficava emburrado.
Quando Mariana conversava com Eduardo na varanda, rindo, Leo fechava a cara.
E quando sua mãe também ficava conversando e rindo com Eduardo, Leo queria morrer.
Porque Eduardo não estava apenas invadindo a casa dele. Estava invadindo a vida dele de novo.
◄☼►
O final da tarde trazia um vento frio, embalando a varanda da fazenda com uma brisa leve. Rita estava sentada na cadeira de balanço, com um cobertor fino sobre as pernas, segurando uma xícara de chá fumegante.
Eduardo se aproximou em silêncio, cansado depois de mais um dia tentando ajudar na fazenda e tentando não perder a paciência com Leo.
Ele se sentou ao lado dela, cruzando os braços e fitando o horizonte. O céu se tingia de laranja e rosa, e, mais ao longe, Leo ainda trabalhava no campo, como se sua vida dependesse daquilo.
Eduardo suspirou, passando a mão pelos cabelos, sem saber bem o que dizer.
— Você gosta mesmo do meu filho, não é? — A voz suave de Rita quebrou o silêncio.
Eduardo virou o rosto para encará-la, surpreso pela pergunta direta. Ele hesitou por um momento, mas não negou.
— Sim.
Ela apenas assentiu, um pequeno sorriso no canto dos lábios, como quem confirma algo que já sabia há muito tempo.
— Eu imaginei. — murmurou. — Dá pra ver nos seus olhos quando olha pra ele.
Eduardo desviou o olhar, constrangido, mas ela continuou:
— Eu conheço o meu filho. Não ache que ele engana alguém com essa pose dele. — Ela soltou um riso leve, o som misturado ao farfalhar das árvores. — Ele é teimoso, não gosta de mostrar o que sente. Mas desde que você chegou, ele tá… diferente.
Eduardo a olhou, intrigado.
— Diferente como?
Rita pensou por um momento antes de responder. Seus olhos se voltaram para o campo, onde o sol se escondia atrás das colinas, tingindo tudo de dourado.
— Ele anda mais leve — disse ela, com a voz calma, mas cheia de significado. — Ainda tenta disfarçar, age como se você fosse só um incômodo. Mas eu já notei o jeito que ele te olha quando acha que ninguém tá olhando.
Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo cada palavra. Um calor subiu ao peito, um misto de felicidade e receio. Ele olhou para o campo, e lá estava Leo, ainda no trabalho, o corpo ligeiramente curvado sobre a terra, o sol refletindo nos fios loiros. O coração de Eduardo disparou sem que ele pudesse controlar. Ele sentiu uma vontade quase irresistível de atravessar o campo, chegar perto dele, de se perder nos detalhes de cada gesto, cada movimento que revelava o quanto Leo era vivo, autêntico, impossível de ignorar.
Rita continuou, quebrando a reverência do momento com a firmeza que sempre carregava.
— É por isso que eu preciso ser honesta com você, Eduardo — disse, virando-se para encará-lo com os olhos escuros cheios de seriedade. — Eu gosto de você, sempre gostei, mas… se algum dia você magoar o meu filho de novo… eu não sei se conseguiria te perdoar.
Eduardo engoliu em seco, os olhos fixos nos dela, sentindo o peso de cada palavra.
— Ele sofreu muito quando você foi embora, Eduardo — continuou Rita, a voz firme, com uma pontada de dor. — Eu vi o quanto aquilo o machucou… e nunca mais quero ver esse olhar de desamparo no meu filho.
Ela respirou fundo, encarando-o com intensidade, como se cada palavra precisasse atravessar até a alma dele.
— Então, se você for ficar na vida do Leo… precisa cuidar dele de verdade. Ele merece ser amado e respeitado. — disse ela, com a voz firme, mas carregada de emoção.
Eduardo respirou fundo, sentindo uma onda de responsabilidade e determinação tomar conta dele. Olhou nos olhos dela, firme, sincero.
— Nunca mais vou machucá-lo — disse, a voz baixa, mas cheia de convicção. — Sei que errei no passado. Fui imaturo, egoísta… fiz tudo errado. Mas aprendi. Agora sei o que realmente importa.
Rita o observou por alguns segundos, estudando cada gesto, cada expressão. Ela viu a verdade refletida no olhar dele, a convicção que ia muito além das palavras.
— Eu acredito em você, Eduardo — disse ela finalmente, a voz suave agora, mas carregada de confiança.
Eduardo assentiu, sentindo um alívio profundo misturado a um peso novo, mas justo.
Ele olhou para o campo mais uma vez. Leo ainda estava lá, absorvido no que fazia, alheio à conversa que acabara de acontecer. Eduardo respirou fundo, sentindo o coração acelerar, não mais pelo receio do passado, mas pelo que viria a seguir.
E, naquele momento, Eduardo soube que aquela promessa não era apenas para Rita.
Era para Leo.
E para si mesmo.
◄☼►
Seis dias se passaram desde que Eduardo chegou à fazenda. Nesse tempo, ele trabalhou ao lado de Leo, pegando no pesado e ajudando no que fosse preciso, mesmo sendo insultado. Além das tarefas com os animais e cuidados na fazenda, até tentou consertar uma cerca com Mariana. Aos poucos, sem sequer perceber, foi se tornando parte daquela rotina.
Eduardo percebia os olhares rápidos e desconfiados de Leo, como se esperasse que a qualquer momento ele fosse desistir e ir embora. Mas Eduardo não desistiu. E talvez fosse por isso que, naquela noite, quando encontrou Leo sozinho na varanda, ele finalmente sentiu que não precisava se justificar por estar ali.
A noite estava fresca, e o céu de São Tomás parecia infinito, cravejado de estrelas que brilhavam mais do que qualquer coisa na cidade. O ar tinha aquele cheiro familiar de terra molhada e grama cortada, e o silêncio da fazenda só era interrompido pelo som distante dos grilos e pelo estalar ocasional do cigarro entre os dedos de Leo, que estava sentado no degrau da varanda.
Eduardo se aproximou devagar, as mãos nos bolsos, observando a silhueta de Leo contra o céu escuro.
— Desde quando você fuma? — Sua voz soou casual, mas carregava uma ponta de curiosidade.
Leo não respondeu de imediato. Apenas tragou o cigarro, soltando a fumaça lentamente enquanto continuava olhando para o horizonte.
O silêncio se alongou.
Eduardo esperou por um momento, mas quando percebeu que Leo talvez simplesmente o ignorasse, suspirou baixo e se sentou ao lado dele no degrau da varanda, sem dizer mais nada.
Mais alguns segundos se passaram antes de Leo finalmente quebrar o silêncio, a voz seca, sem emoção:
— Desde a faculdade.
Eduardo arqueou uma sobrancelha, analisando Leo por um instante antes de dizer:
— Eu nunca imaginei você fumando.
Leo soltou um riso curto.
Houve um silêncio breve, quebrado apenas pelo vento leve que balançava as folhas das árvores.
Eduardo desviou o olhar para as estrelas e depois voltou para Leo.
— E por que começou?
Leo girou o cigarro entre os dedos por um momento, como se considerasse não responder. Mas então, soltou um suspiro.
— Estresse. — Ele tragou mais uma vez, o olhar ainda perdido no céu. — A faculdade foi um inferno. A pressão, as cobranças, tudo. O cigarro era a única coisa que me fazia sentir que tinha algum controle.
Eduardo o observou por um instante, absorvendo aquelas palavras.
— E ainda faz?
Leo hesitou, mas então deu de ombros.
— Às vezes.
Eduardo passou a língua pelos dentes, pensativo, antes de pegar o cigarro da mão de Leo sem aviso e tragá-lo uma vez.
Leo o olhou de lado, surpreso.
— Sério?
Eduardo não respondeu, apenas tragou. Mas, no segundo seguinte, ele começou a tossir violentamente, dobrando um pouco o corpo para frente enquanto tentava recuperar o fôlego.
Leo arregalou os olhos antes de soltar uma risada genuína, a primeira desde que Eduardo chegou na fazenda.
— Caralho, Eduardo, que patético.
Eduardo continuou tossindo, tentando disfarçar a vergonha, enquanto Leo ria mais ainda, segurando a barriga.
— Como você fuma essa merda?! — Eduardo finalmente conseguiu falar, a voz rouca da tosse, olhando para Leo como se ele tivesse acabado de cometer um crime.
Leo pegou o cigarro de volta e tragou sem esforço, soltando a fumaça sem nem piscar.
— Você se acostuma. — Disse, ainda sorrindo.
Eduardo olhou para ele por um segundo e, sem conseguir evitar, começou a rir também.
Era um riso sincero, leve, diferente de todas as conversas pesadas e tensas que tinham tido até ali.
Por um momento, parecia que nada mais existia. Não havia passado, não havia dor, não havia culpa. Apenas os dois ali, rindo no meio da noite, como se fossem os mesmos garotos de anos atrás.
E pela primeira vez desde que chegou, Eduardo sentiu que talvez, só talvez, ainda tivesse um espaço para ele ali.
◄☼►
Os dias se passaram, e Eduardo continuava ali, firme, ajudando em tudo o que podia. Ele fazia compras, ajudava na casa, no cuidado com Rita e até tentava se enturmar mais com Mariana e Sofia. Rita gostava dele, e, para o desespero de Leo, sempre puxava conversa com Eduardo, elogiando o quanto ele era prestativo.
Leo tentava não se importar. Tentava manter a frieza. Mas, no fundo, algo começava a ceder.
Até que, um dia, enquanto saía para buscar alguns remédios que havia encomendado para sua mãe, Leo descobriu. O farmacêutico lhe entregou os remédios e, ao ver os valores, Leo franziu o cenho.
— Não precisa pagar nada. Já está tudo quitado. — O atendente disse casualmente.
Leo travou.
— Como assim, quitado? Eu nem passei aqui hoje.
— Seu amigo pagou tudo. — O farmacêutico respondeu, distraído.
Leo sentiu o estômago afundar.
Ele saiu da farmácia sem dizer mais nada e foi direto para casa, o peito queimando de indignação. Mas, quando chegou lá, sua irmã Mariana lhe deu outro golpe.
— Ah, esqueci de te avisar! A dívida do empréstimo foi paga!
— O QUÊ?! — Leo quase gritou.
Mariana piscou, confusa.
— Ué, isso não é bom?
Leo sentiu o sangue ferver. Ele virou na hora e marchou até onde Eduardo estava, empilhando algumas caixas que tinha comprado para organizar os remédios de Rita.
— Você pagou meu empréstimo? — Leo disparou sem rodeios.
Eduardo ergueu o olhar e suspirou, como se já soubesse que esse momento chegaria.
— Sim.
Leo fechou os olhos, respirando fundo para conter a frustração.
— Por quê?
Eduardo deu de ombros.
— Porque você precisava.
Leo passou a mão no cabelo, irritado.
— Eu não te pedi nada, Castilho.
— E eu também não pedi pra te ver afundado em dívidas tentando cuidar da sua mãe sozinho. — Eduardo rebateu, sem se abalar.
Leo abriu a boca, mas nada saiu. Porque, no fundo, ele sabia que Eduardo tinha razão.
Ele apertou os olhos, tentando conter a irritação, e balançou a cabeça antes de soltar, derrotado:
— Você não sabe a hora de parar, né?
Eduardo sorriu de canto.
— Não.
Leo desviou o olhar, mas acabou aceitando. Não brigou mais. Apenas aceitou. Porque, por mais que odiasse admitir, Eduardo estava ali quando ele mais precisava.
◄☼►
Poucos dias depois, Leo recebeu um e-mail inesperado.
Uma proposta de trabalho. Um freela remoto, simples, envolvendo edição de fotografia e vídeo. O pagamento era excelente para o tipo de serviço e, embora fosse temporário, seria o suficiente para ajudá-lo a respirar financeiramente.
Os olhos de Leo brilharam ao ler os detalhes. Ele quase não acreditava que aquela oportunidade tinha surgido assim, do nada.
Eduardo, que estava por perto, notou sua animação e se aproximou.
— Boas notícias?
Leo assentiu, um sorriso genuíno se formando, o primeiro em muito tempo.
— Sim. Me chamaram para um projeto de edição. Bom pagamento, trabalho tranquilo… Isso vai me ajudar muito.
Eduardo sorriu, satisfeito.
— Isso é ótimo, Leo. Você merece.
Leo estava tão empolgado que nem se perguntou de onde essa oportunidade tinha surgido. Mal sabia ele que Eduardo havia feito algumas ligações discretas e indicado seu nome para o projeto.
Porque Eduardo sabia que, se Leo descobrisse, jamais aceitaria.
Então, mais uma vez, ele ficou quieto. Porque o importante era ver Leo feliz.
◄☼►
Eduardo observava de longe enquanto Leo, empolgado, se aprofundava nos detalhes do projeto, organizando tudo para começar. Sentado diante do notebook, os dedos ágeis no teclado, ele tinha os olhos brilhando e um sorriso discreto no rosto, um sorriso que Eduardo não via há muito tempo.
Era fascinante.
Depois de tanto tempo abatido, preso em preocupações e incertezas, Leo finalmente parecia conectado de novo com algo que gostava. Havia uma fagulha ali, algo que Eduardo temia que tivesse se apagado.
Sem querer interromper aquele momento, ele se encostou no batente da porta da sala, cruzando os braços, apenas observando em silêncio.
— Você vai ficar me encarando aí por quanto tempo? — Leo perguntou, sem desviar os olhos da tela.
Eduardo riu baixo, sem se intimidar.
— Até você perceber que fica muito melhor assim.
Leo arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Assim como?
Eduardo deu de ombros.
— Feliz.
Leo bufou, mas, por mais que tentasse disfarçar, o sorriso continuou ali.
Eduardo se aproximou devagar, apoiando as mãos na mesa e inclinando-se um pouco.
— É bom te ver desse jeito. — Disse, sem rodeios.
Leo finalmente ergueu o olhar para ele, hesitante. Por um momento, Eduardo esperou uma resposta ácida, um sarcasmo afiado, qualquer coisa que o afastasse. Mas, em vez disso, Leo apenas assentiu, quase imperceptivelmente.
— É bom me sentir assim de novo. — Ele admitiu, a voz baixa.
Eduardo sentiu algo quente se espalhar pelo peito.
Era um progresso. Pequeno, mas real.
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