O Garoto Feito de Sol e Terra

92 Capítulo 92 — O Poema


Cerca de duas semanas após sua chegada à fazenda, Eduardo estava sentado na varanda quando seu celular tocou. Era um dos sócios da empresa. Ele já esperava por essa ligação. Mais cedo ou mais tarde, cobrariam sua presença na sede. Durante esse tempo todo, ele havia deixado muitos assuntos em espera para ficar ali, mas agora as pendências exigiam sua atenção.

— Você precisa voltar pra tratar algumas pendências, Eduardo. Não dá pra adiar mais, você sabe disso. — A voz do sócio soava profissional, mas firme.

Eduardo suspirou, passando a mão pelos cabelos.

— Eu sei. Vou voltar.

Ao desligar a ligação, ficou pensativo por alguns instantes antes de procurar Leo, que estava no quintal mexendo na cerca.

Caminhou com passos lentos, se aproximando dele.

Ao se aproximar, falou:

— Preciso voltar pra sede da empresa. Eu deixei muita coisa parada.

Leo não olhou imediatamente para ele, continuando seu trabalho. Mas Eduardo notou o modo como seus ombros ficaram um pouco mais tensos, como se estivesse se segurando para não reagir demais.

— Você tem uma empresa pra administrar, não pode ficar aqui pra sempre. — Leo disse, sem emoção.

Eduardo cruzou os braços, analisando Leo por um momento. Ele sorriu de canto, captando o que estava por trás daquela resposta. Leo podia tentar fingir indiferença, mas seu silêncio revelava muito mais do que ele queria admitir.

Até que Eduardo quebrou o silêncio:

— Antes de eu ir embora, vamos almoçar ali no centro? Tem uma hamburgueria que abriu, parece ser boa.

Leo hesitou por um segundo, mas acabou concordando com um aceno discreto.


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Na hamburgueria, a tensão entre eles estava mais baixa do que o normal. Era quase uma trégua, um raro momento em que não estavam trocando farpas ou se provocando. A conversa fluiu naturalmente enquanto comiam.

Eduardo aproveitou a oportunidade para perguntar:

— E a Carla, o Bruno e o Davi? Ainda tem contato com eles?

Leo terminou de mastigar antes de responder:

— Carla e Davi estão casados agora. Moram longe daqui. A gente perdeu um pouco o contato por causa da correria da vida, mas de vez em quando trocamos mensagens.

Eduardo arqueou as sobrancelhas, surpreso.

— Casados? Caramba.

Leo riu baixinho.

— Eles sempre se deram bem, então acho que fazia sentido no final das contas.

— E o Bruno?

— Ah, o Bruno virou mochileiro. Tá sempre viajando por aí. A última vez que falei com ele, ele tava em algum lugar da Ásia, não lembro onde.

Eduardo soltou uma risada nostálgica.

— O Bruno sempre teve esse espírito livre.

Leo assentiu, e por um momento, os dois ficaram em silêncio, imersos em memórias do passado. A nostalgia pairava no ar, trazendo lembranças da infância e da adolescência que pareciam ter acontecido em outra vida.

Eduardo olhou para Leo e percebeu algo diferente ali. Pela primeira vez em muito tempo, Leo parecia confortável ao seu lado, sem a muralha defensiva que normalmente erguia entre eles.

Era um pequeno progresso, mas Eduardo sabia que, com Leo, cada passo adiante era uma vitória.


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Quando saíram da hamburgueria, o sol já estava baixo no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados e rosados. O vento fresco soprava suavemente pelas ruas tranquilas da cidade pequena, e, por um breve momento, Eduardo sentiu que aquele instante era quase… normal.

Ele e Leo caminhavam lado a lado, conversando sem tensão, sem as farpas de sempre. Era raro, mas agradável.

Até que uma voz animada quebrou o fluxo da conversa:

— Meu deus, são vocês?!

Ambos viraram o rosto na direção do som e viram uma mulher parada na calçada. Ela usava um vestido elegante, óculos escuros estilosos no topo da cabeça e um sorriso largo. Os cabelos castanhos estavam impecáveis, e o brilho nos olhos demonstrava surpresa genuína.

Eduardo precisou de um segundo para reconhecê-la.

— Kayla?

Ela riu, assentindo.

— Sim! Eu não acredito, quanto tempo!

Leo franziu o cenho por um instante, demorando um pouco mais para associar o rosto ao nome. Mas então a lembrança veio. Kayla Albuquerque. A antiga namorada de Eduardo.

Eduardo a analisou de cima a baixo, impressionado.

— Você tá… diferente.

Kayla ergueu uma sobrancelha, divertida.

— Espero que pra melhor. — Ela brincou antes de abrir um sorriso orgulhoso. — Pois é, muita coisa mudou. Eu sou modelo agora.

Leo permaneceu em silêncio, apenas observando a cena. Eduardo, por outro lado, sorriu, ainda surpreso.

— Modelo? Que incrível. Tá morando aqui ainda?

— Deus, não. — Ela riu. — Só vim visitar meus pais. Fico mais uns dias e depois viajo de novo.

— Pra onde?

— Europa. Tenho um trabalho grande lá.

Leo apenas observou, cruzando os braços.

— Chique. — Eduardo disse.

— Pois é. — Kayla piscou, rindo. Então, seus olhos brilharam de uma forma diferente ao encarar os dois. — Mas olha só vocês… ainda juntos depois de tanto tempo!

O ar pareceu mudar. Leo congelou. Eduardo também.

Eduardo abriu a boca para corrigir o mal-entendido, mas Kayla continuou antes que ele tivesse a chance:

— Isso é lindo! Sério, eu fico feliz de ver que vocês ainda se amam.

Leo sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar imediatamente, incomodado. Eduardo pigarreou, tentando manter a compostura, mas o desconforto era evidente.

Kayla, no entanto, parecia satisfeita com sua conclusão.

— Bom, eu preciso ir, mas adorei encontrar vocês.

Ela deu um breve aceno antes de seguir seu caminho, deixando Eduardo e Leo parados ali, em um silêncio absoluto.

Segundos se passaram.

Até que Eduardo soltou um riso baixo, balançando a cabeça.

— Isso foi inesperado.

Leo bufou, passando a mão pelos cabelos, resmungando:

— Essa cidade é pequena demais.

Eduardo soltou outro riso baixo, desviando o olhar para o céu já escurecendo.

— Pois é. Pequena demais.

Leo ainda parecia um pouco desconcertado, mas quando Eduardo apenas deu de ombros e começou a andar de novo, sem pressioná-lo, ele relaxou.

Os dois seguiram lado a lado, sem precisar dizer mais nada. E, depois de alguns segundos, Leo também riu, balançando a cabeça.

Afinal, aquela cena tinha sido absurda demais para não achar graça.


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A estadia na fazenda tinha durado mais do que ele planejava, mas ele não se arrependia. Pelo contrário. Ele sabia que estava deixando algo importante para trás.

Rita se despediu com um abraço apertado e um olhar carregado de significado. Mariana e Sofia também deram tchau, sorrindo para ele.

Eduardo lançou um último olhar para a casa antes de seguir até o carro, onde Leo já estava parado ao lado da porta do motorista. Ele ajeitou a última mala no porta-malas do carro, respirando fundo. Os outros tinham ficado na varanda, deixando os dois sozinhos ali.

A despedida ficou mais difícil.

Sem ninguém por perto, sem distrações, restavam apenas eles dois e tudo o que não foi dito.

Leo, parado com os braços cruzados, fingia uma indiferença que não convencia ninguém.

— Então é isso. — Eduardo disse, forçando um sorriso.

Leo assentiu de leve, sem dizer nada.

O silêncio entre eles pesava.

Eduardo passou a mão pelos cabelos, hesitante. Ele queria dizer algo, mas nenhuma palavra parecia suficiente. E antes que pudesse se conter, a vontade foi maior.

Ele se inclinou para frente e o beijou.

Foi rápido, quase instintivo. Mas intenso.

E Leo correspondeu.

O beijo não foi longo, mas foi verdadeiro. Eduardo sentiu Leo relaxar por um segundo, os lábios macios se movendo contra os seus antes que ambos se afastassem, ofegantes.

Leo piscou algumas vezes, como se tentasse processar o que tinha acabado de acontecer.

Eduardo sorriu de leve e tirou um envelope do bolso da jaqueta.

— Aqui. — Ele entregou para Leo.

Leo franziu o cenho, pegando o papel com desconfiança.

— O que é isso?

Eduardo apenas sorriu.

— Você vai ver.

Sem dizer mais nada, ele deu um último olhar para Leo e entrou no carro. O motor roncou, a poeira subiu no ar e, antes que Leo pudesse piscar, Eduardo estava indo embora.

Leo ficou parado ali por alguns segundos, segurando o envelope com força.


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No dia seguinte, depois do almoço, Leo saiu da casa e caminhou sem rumo pela fazenda até parar perto do cercado dos cavalos. O vento morno balançava a grama alta, e o silêncio do campo o envolvia, trazendo uma estranha sensação de vazio.

Ele se sentou no tronco caído de uma árvore e, pela primeira vez desde que recebera o papel de Eduardo, decidiu abri-lo.

Havia dois papéis dobrados.

No primeiro, uma carta.

Leo hesitou antes de começar a ler, mas conforme seus olhos percorriam as palavras, o mundo ao seu redor pareceu se desfazer.

Cada frase era um soco no peito, trazendo lembranças que ele tentou enterrar. O passado voltou com força, e cada linha de Eduardo parecia arrancar algo dentro dele, como se revelassem verdades que Leo sempre soube, mas nunca quis admitir.


“Leo,

Eu não sei se você vai ler isso ou só vai amassar o papel e jogar fora, mas eu precisava escrever. Preciso que você saiba.

Tô aqui sentado na varanda da fazenda enquanto escrevo.

A mesma vista de sempre. Os campos abertos, o cheiro da terra molhada, o som dos pássaros misturado com o vento.

Tanta coisa já mudou, mas ao mesmo tempo, parece que tudo continuou igual. Como se esse lugar ainda guardasse ecos da gente, de tudo que vivemos.

A verdade é que eu te amei, Leo.

Amei com medo, amei da pior forma possível, mas amei.

Ainda amo.

E, de algum jeito que eu nem sei explicar, eu sei que sempre vou amar.

Por mais que eu tenha tentado esconder, enterrar, fingir que segui em frente… a verdade é que você nunca saiu de mim.

Você sempre esteve aqui.

Nos campos da fazenda.

Na varanda, rindo de alguma besteira qualquer…

Você se lembra das tardes em que passávamos deitados no gramado, inventando histórias sobre as nuvens?

Eu lembro.

Lembro de cada uma.

Lembro do seu sorriso quando falava de fotografia, do jeito que seus olhos brilhavam quando algum assunto te empolgava.

Lembro de como você franzia a testa quando estava concentrado.

Lembro de cada toque, de cada silêncio, de cada palavra que eu devia ter dito e não tive coragem.

Mas eu errei, Leo.

Errei feio.

Eu tive medo.

Medo de mim, medo do que eu sentia, medo do que o mundo faria com isso.

E por medo, eu te machuquei.

Fiz e falei coisas que me envergonham até hoje.

Fugi quando devia ter ficado.

Escolhi o caminho mais fácil e acabei machucando a única pessoa que eu nunca quis machucar.

Quando te vi de novo, tantos anos depois, percebi que o tempo não tinha levado nada.

Meu coração ainda era seu. Sempre foi.

Tudo o que fiz desde então, cada passo, cada tentativa, cada desculpa, foi por você.

Fui até São Paulo por sua causa.

Contratei a Gravità por sua causa.

Planejei aquele happy hour por sua causa.

Tudo.

Porque eu precisava te ver. Precisava saber que você ainda existia fora das minhas lembranças.

Precisava ter certeza de que o que a gente viveu não foi uma invenção da minha cabeça.

Mas talvez tenha sido tarde demais.

Talvez eu já tenha perdido o direito de ir atrás de você.

E, se não perdi, talvez eu simplesmente não mereça.

Eu não sei se um dia você vai conseguir me perdoar.

Não sei se vai conseguir olhar pra mim e ver algo além dos erros que cometi.

Mas se algum dia conseguir, se um dia sentir que ainda existe um pedacinho de nós dentro de você, pode me chamar a qualquer momento.

Onde quer que eu esteja, eu juro que vou até você.

E se não… tudo bem.

De verdade.

Eu só quero que você seja feliz.

Mesmo que essa felicidade não tenha nada a ver comigo.

Mas acima de tudo, eu preciso que você saiba disso:

Você foi, é, e sempre vai ser o grande amor da minha vida.


— Eduardo.


P.S.: No envelope tem um poema. Escrevi ainda na época da escola, quando nem entendia direito o que sentia.

Nunca tive coragem de te mostrar.

Mas agora eu sei.

Era amor.

Na forma mais pura que já senti.”


Quando terminou de ler, as mãos tremiam.

Respirou fundo, engolindo o nó na garganta, e pegou o segundo papel. Era um poema.


"O Garoto Feito de Sol e Terra".


O título por si só já fez sua visão embaçar.

Leo reconheceu a letra imediatamente.

O poema era antigo. Muito antigo. Eduardo o escrevera há anos, em um tempo em que eles ainda eram apenas dois garotos.

Ele começou a ler, e cada palavra carregava uma dor doce, um amor que nunca morreu.

O sol já estava se pondo quando Leo terminou de ler. O papel tremia levemente em suas mãos, os olhos ardiam, a garganta parecia fechada. Ele tentou segurar, tentou respirar fundo, tentou não deixar que aquilo o atingisse com tanta força.

Mas foi impossível.

A primeira lágrima escorreu sem permissão. E, assim que sentiu a pele úmida, Leo soube que não conseguiria segurar.

Ele levou a mão ao rosto, apertou os olhos com força, como se quisesse conter o que transbordava, mas não havia mais contenção possível. O peito apertou, doeu, como se algo estivesse se quebrando por dentro, como se cada palavra daquela carta tivesse rachado uma parede que ele passou anos tentando manter de pé.

E então ele chorou.

Chorou pelo amor que ficou preso no tempo.

Pelas memórias que insistiam em voltar.

E por, no fundo, ainda ter sentimentos por alguém que ele tentou tanto esquecer.

Leo passou a língua pelos lábios ressecados, sentindo um gosto amargo de nostalgia e de uma saudade que nunca tinha ido embora.

Ele olhou para o papel de novo, para as palavras que Eduardo tinha escrito, para a confissão nua e crua de um amor que nunca desapareceu.

E ali, naquele momento, sob aquele pôr do sol dourando os campos da fazenda onde tudo começou, Leo finalmente admitiu para si mesmo.

Ele ainda o amava.

Mesmo quando tentou odiá-lo. Mesmo quando quis seguir em frente. Mesmo quando aceitou um relacionamento que nunca chegou nem perto do que Eduardo o fazia sentir.

Sempre amou. Sempre iria amar.

E não havia mais como fugir dessa verdade.


◄☼►


Na manhã do seu aniversário, Leo encontrou uma caixa grande na varanda da fazenda. Ela havia sido deixada por um entregador local. Ele franziu a testa ao ver o remetente.

Com um suspiro pesado, levou a caixa para dentro e a colocou sobre a mesa. Passou os dedos pela fita adesiva, hesitando. Seu coração bateu mais forte, porque sabia que Eduardo nunca fazia nada sem um motivo.

Quando finalmente abriu, encontrou uma câmera de última geração, lentes profissionais, acessórios completos, equipamentos que ele jamais teria condições de comprar tão cedo.

Seu estômago revirou.

No topo da caixa, havia um envelope. Uma carta escrita à mão.

Leo engoliu seco e abriu o papel dobrado, reconhecendo a caligrafia de Eduardo.


"Leo,

Não sei se você vai aceitar esse presente ou se vai mandá-lo de volta, mas vou arriscar.

Você sempre teve um olhar diferente sobre o mundo. Sempre soube capturar momentos que ninguém mais via, transformar o comum em algo extraordinário. Quando vi o vídeo e as fotos da campanha, tive certeza de que você ainda tem esse dom.

Então, se você aceitar esse presente, não veja isso como um favor meu. Veja como o que ele realmente é: um incentivo.

Sei que você não precisa de ninguém para conseguir o que quer, mas às vezes, ter o equipamento certo pode fazer toda a diferença.

Espero que você use isso para construir algo grande. Algo seu. Algo que faça sentido para você.

Feliz aniversário.


— Eduardo."


Leo leu a carta três vezes.

Ele sentia um nó no peito, como se Eduardo estivesse ali, ao seu lado, dizendo aquelas palavras diretamente para ele.

Segurou a câmera em mãos, sentindo o peso real daquele presente.

A verdade era que, pela primeira vez em muito tempo, Leo sentiu vontade de fotografar de novo.

Ele olhou pela janela, onde o sol já começava a se pôr sobre os campos de São Tomás. Pegou a câmera, ligou-a, ajustou as configurações sem nem perceber.

E, sem pensar, clicou a primeira foto.

A primeira de muitas.