O Garoto Feito de Sol e Terra

85 Capítulo 85 — Cuidado e Controle


De volta ao escritório da Gravità, tudo parecia seguir normalmente. Leo mergulhou na edição do material, mal levantando os olhos da tela. Diego também estava lá, supervisionando parte do trabalho e ocasionalmente dando seus palpites, sempre com aquele tom de quem se achava mais experiente.

Eduardo, por sua vez, voltou para o hotel, mas continuava aparecendo no escritório. Sempre com a justificativa de acompanhar a pós-produção da campanha.

Claro que era uma desculpa.

Ele sabia que podia delegar isso para alguém da empresa, mas não queria. Não quando significava perder qualquer possibilidade de estar no mesmo ambiente que Leo. Mesmo que Leo fingisse que ele não existia.


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Na copa da Gravità, o clima era descontraído. O café recém-passado enchia o ambiente com seu aroma forte, enquanto Tati e alguns colegas da equipe aproveitavam a pausa para conversar. O assunto, como não poderia deixar de ser, logo caiu sobre a campanha para a Castilho Agronegócios.

— Cara, nunca vi isso antes. — Tati comentou, mexendo o café com a colher. — Normalmente quem acompanha o trabalho são os funcionários da empresa, tipo o time de marketing deles. Mas o próprio sócio da Castilho vindo aqui toda hora? Meio suspeito, né?

— Também achei estranho. — Um dos designers riu. — No máximo, os clientes aparecem no início e no fim do projeto, mas o cara tá aqui quase todo dia.

— Talvez ele seja só perfeccionista? — Outra pessoa sugeriu, bebendo um gole de café.

— Sei não… — Tati estreitou os olhos, pensativa. — Mas ele tá bem interessado no nosso trabalho.

Leo soltou um riso nasalado.

— Acho que vocês estão exagerando. — Ele disse simplesmente.

— Ah, mas você não achou nem um pouco estranho? — Outro colega insistiu.

Leo deu de ombros.

— O cara tá pagando uma fortuna pelo projeto. Se ele quer acompanhar, que acompanhe.

Foi a única coisa que disse antes de deixar sua xícara na pia e sair da copa, sem demonstrar nada.

Mas por dentro… por dentro, Leo sentia a inquietação crescendo.


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Certo dia, Eduardo estava no escritório da Gravità acompanhando os ajustes finais da campanha. Ele já tinha feito várias visitas à agência nos últimos dias, sempre com o pretexto de revisar o andamento do projeto, mas qualquer um que prestasse atenção perceberia que seu foco sempre recaía em um único ponto: Leo.

Hoje não foi diferente.

De onde estava, Eduardo observava Leo sentado à mesa, os olhos fixos na tela do computador, a postura ligeiramente curvada. Algo estava errado.

Leo não costumava ser tão devagar, tão disperso. Ele sempre trabalhava com precisão, atento a cada detalhe, mas agora parecia exausto, os ombros caídos, os dedos se movendo no teclado com lentidão incomum. Eduardo estreitou os olhos.

A pele dele estava um pouco mais pálida do que o normal.

E então, notou quando Leo levou a mão discretamente até a testa e fechou os olhos por um breve segundo, como se estivesse tentando afastar uma tontura ou dor de cabeça.

Eduardo franziu o cenho.

Sem hesitar, atravessou a sala e se encostou na mesa ao lado de Leo.

— Oi, você tá bem? — Perguntou.

Leo piscou devagar, como se precisasse de um segundo a mais para processar a pergunta. Então, sem desviar o olhar da tela, respondeu, a voz arrastada:

— Tô.

Eduardo estreitou ainda mais os olhos.

A resposta veio atravessada, mas não foi nem de longe convincente.

Ele cruzou os braços e ficou parado ali, observando.

Leo continuou mexendo no projeto, tentando ignorar a presença dele, mas Eduardo notou quando os ombros de Leo subiram e desceram com um suspiro mais pesado do que o normal. Como se qualquer movimento fosse exigir mais esforço do que deveria.

Eduardo apertou os punhos ao lado do corpo. Aquilo só fez crescer dentro dele a necessidade de fazer alguma coisa


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A reunião estava em andamento, mas Eduardo não conseguia prestar atenção em nada além de Leo.

Ele já estava há mais de meia hora observando o jeito que ele mantinha a postura rígida demais, como se estivesse se segurando para não demonstrar qualquer fraqueza. Mas era evidente.

O rosto de Leo estava mais pálido, o olhar meio desfocado, e sempre que alguém falava algo direcionado a ele, demorava um segundo a mais para reagir.

Eduardo estava tenso.

Então aconteceu.

Leo tentou se levantar depois de um ajuste nos alinhamentos do projeto, mas o mundo pareceu girar ao seu redor.

Ele piscou algumas vezes, tentando se equilibrar, mas seus joelhos fraquejaram e seu corpo cedeu.

A sala pareceu desacelerar por um segundo.

Mas antes que ele caísse, Eduardo se adiantou, segurando-o pelos braços com firmeza.

— Leonardo! — O nome escapou dos lábios dele com urgência.

Leo agarrou a mesa para se estabilizar, respirando fundo, mas Eduardo sentiu a tremedeira leve no corpo dele.

— Eu tô bem. — Leo murmurou, a voz rouca.

Mas Eduardo não acreditou nem por um segundo.

O silêncio na sala foi breve. Rafael e Karina trocaram olhares preocupados, mas antes que qualquer um dissesse alguma coisa, Eduardo interveio:

— Posso levar ele para o hospital mais próximo.

A decisão foi firme, sem espaço para questionamentos.

Leo abriu a boca, pronto para protestar, mas Eduardo apenas estreitou os olhos e o segurou um pouco mais firme.

— Sem discussão.

— Eu estou bem. — Leo rebateu, com teimosia.

Eduardo soltou um riso sem humor.

— Sério? Você mal consegue ficar de pé.

Leo apertou os lábios, irritado, mas não teve forças para retrucar.

Eduardo manteve a expressão séria, segurando Leo com firmeza ao perceber que ele ainda não estava totalmente estável.

— Meu Deus... Alguém tem que levar ele. — Karina concordou, cruzando os braços. — E já que o Eduardo se ofereceu…

Leo fechou os olhos brevemente, exasperado.

— Eu já disse que tô bem. — Ele repetiu, tentando se soltar.

Eduardo não cedeu nem um centímetro.

— Para de bancar o teimoso.

Karina arqueou a sobrancelha e cruzou os braços, observando a troca. Ela olhou para Leo e comentou:

— Leo, você tá claramente mal, precisa ir e se recuperar.

Leo abriu a boca para protestar, mas a expressão séria de Karina e o olhar firme de Eduardo o fizeram engolir qualquer resistência.

— Tô bem. — Ele resmungou de novo, mas sua voz já não carregava tanta convicção.

Karina suspirou.

— Bom, pelo menos a gente sabe que ele estará em boas mãos.

Sem dar espaço para mais discussão, Eduardo firmou o braço ao redor da cintura de Leo e começou a levá-lo para fora da sala.

Karina e os outros apenas observaram, trocando olhares carregados de significado.


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Assim que atravessaram a porta, Eduardo murmurou:

— Vai facilitar as coisas ou quer que eu te carregue?

Leo cerrou os punhos, mas estava fraco demais para discutir.

— Cala a boca. — Leo rebateu, mas se segurou discretamente em Eduardo ao descer os degraus, deixando que ele o guiasse até o carro.

Eduardo vencera aquela batalha.

Sem dizer mais nada, ele pegou as chaves do carro e conduziu Leo até o local onde o veículo alugado estava estacionado.

No carro, Leo se recostou no banco, fechando os olhos por um momento. Ele estava claramente incomodado com a situação, e Eduardo sentiu um pequeno peso no peito ao vê-lo assim.

Eduardo ligou o carro e saiu da vaga, mantendo as mãos firmes no volante. Ele lançava olhares rápidos para Leo de vez em quando, percebendo cada pequeno sinal de desconforto, cada tremor, cada suspiro contido.

— Você comeu alguma coisa hoje? — Eduardo perguntou, tentando manter a voz calma, mas firme.

— Comi… — Leo respondeu, sem entusiasmo, quase como se a palavra tivesse sido arrancada dele.

— Tipo algo saudável? — Eduardo insistiu, a preocupação clara na voz. — Frutas, legumes, algo que te dê energia de verdade?

Leo resmungou, fechando os olhos com força.

— Por que você tá fazendo tanto drama? Eu comi, tá bom?

— Não é drama, Leo. Eu só quero ter certeza de que você tá se cuidando — Eduardo retrucou, firme, sem agressividade. — E água? Você bebeu hoje?

Leo suspirou de forma audível, quase como se quisesse empurrar Eduardo para fora do carro com o olhar.

— Porra, quantas perguntas você ainda vai me fazer?

— Quantas perguntas forem necessárias — respondeu Eduardo, firme, mas com a voz calma, sem perder o controle. — Você quase desmaiou hoje, Leo, pelo amor de deus.

Leo virou o rosto para a janela, respirando fundo, a mandíbula tensa.

— Eu não preciso que você cuide de mim — resmungou, a voz carregada de irritação e cansaço.

— Mas eu me importo com você — disse Eduardo, baixando a voz, sem pressão, apenas deixando a afirmação no ar.

Leo permaneceu em silêncio, o rosto virado para a janela, os olhos fechados. O ar entre os dois parecia pesado, carregado de tensão e coisas não ditas.

O carro seguia adiante, e tudo o que se ouvia era o ronco do motor e o sutil zumbido do trânsito. Eduardo lançou olhares rápidos para Leo, cada movimento mínimo sendo registrado: o leve tremor nas mãos, a respiração irregular, o ombro caído.

Leo não respondeu. Não havia palavras, apenas aquele silêncio pesado que dizia tanto quanto qualquer frase. Ele parecia lutar contra si mesmo, contra a vulnerabilidade que Eduardo tinha despertado com aquela simples frase.


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O carro seguiu pelas ruas, com Eduardo atento a cada movimento de Leo. A tensão no corpo dele era clara, o ombro caído, a respiração irregular, os dedos ainda trêmulos sobre o banco. Cada freada, cada curva fazia Eduardo olhar de relance para ele, reforçando a urgência silenciosa que sentia.

Quando avistou a fachada do hospital, Eduardo respirou fundo. Estacionou com cuidado em frente à entrada de emergência, desligando o carro e se virando levemente para Leo.

— Chegamos. Vamos?

Leo ficou alguns segundos em silêncio, apenas apoiado no encosto do banco, antes de murmurar:

— Tá…

Eduardo abriu a porta e o ajudou a sair, apoiando-o pelos ombros. Leo caminhava devagar, cada passo parecendo pesar, e Eduardo notava o rosto pálido e o corpo tenso. Chegando à recepção, ele falou com firmeza:

— Ele passou mal e precisa de atendimento agora. O nome dele é Leonardo Souza.

Leo lançou um olhar breve, desconfortável, mas não disse nada. Cruzou os braços de forma automática, tentando manter o controle, enquanto Eduardo o guiava até a triagem, assim que a enfermeira o chamou.

Na sala de avaliação, Eduardo ajudou Leo a se acomodar na cadeira. Ele respirou fundo, relaxando um pouco, ainda sem admitir totalmente que precisava de ajuda.

A enfermeira começou a avaliação, observando atentamente o estado de Leo enquanto conferia os sinais vitais.

— Está sentindo tontura ou fraqueza? — perguntou, a voz profissional, mas calma.

Leo ergueu os olhos para ela, mas com tanta apatia que mal conseguiu responder:

— Um pouco… — murmurou, a voz baixa e arrastada.

— Certo. Vamos medir sua pressão e temperatura primeiro. — Ela anotou algumas informações, e Leo apenas inclinou levemente a cabeça, sem demonstrar muito interesse.

Eduardo permaneceu ao lado dele. Cada gesto de Leo, cada respiração irregular, fazia Eduardo apertar os lábios, silencioso, atento.

— Está um pouco desidratado e fraco. — A enfermeira disse, olhando para ele. — Vamos colocá-lo em soro para reidratação e monitorar. Precisa ficar em repouso até que melhore.

— Tá bem — Leo murmurou, sem demonstrar entusiasmo, apenas aceitando a situação.

A enfermeira guiou os dois até uma sala menor, mais silenciosa, iluminada por uma luz suave que dava àquele espaço uma sensação menos hospitalar e mais acolhedora. Havia uma cadeira com encosto de braço para o soro, e um assento ao lado.

Ela começou a preparar o soro, conferindo tubos e válvulas com atenção, enquanto Leo se acomodava na cadeira, apoiando o braço e inclinando-se levemente no encosto. Eduardo sentou-se ao lado, mantendo os olhos nele.

— Só vai doer um pouco, tá? — disse a enfermeira, profissional e serena. — Preciso que fique parado alguns minutos.

— Tá… — murmurou Leo, sem entusiasmo, desviando o olhar para a parede à frente.

A enfermeira aplicou cuidadosamente o soro no braço de Leo, conferindo a posição da agulha e o fluxo do líquido.

— Está tudo certo — disse, conferindo mais uma vez os sinais vitais antes de se afastar. — Vou sair um momento, chamem se precisarem.

Ela logo saiu. Eduardo permaneceu sentado ao lado dele, observando o soro fluir lentamente. Os dois ficaram em silêncio. Leo, ainda quieto, parecia aceitar a companhia, e Eduardo apenas ficou ali, firme e silencioso, garantindo que ele não estivesse sozinho.


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Eduardo esperou até que o soro terminasse de fluir, observando Leo com atenção. Quando a enfermeira retornou para fazer a checagem final, confirmou que ele estava mais estável e que poderia ir para casa.

Leo se levantou devagar, respirando fundo, e disse com a voz ainda fraca:

— Acho que posso pedir um Uber… consigo ir sozinho.

Eduardo balançou a cabeça, firme, sem hesitar:

— Não. Eu levo você. — A voz dele era firme, carregada de cuidado. — Ainda está visivelmente mal, Leo. Não vou deixar você sair sozinho assim.

Leo bufou, claramente irritado, desviando o olhar:

— Sério que você ainda vai ficar nessa? Eu consigo ir sozinho, Eduardo.

Eduardo franziu levemente o cenho, mantendo a voz firme, mas sem agressividade:

— Não, Leo. Eu te levo.

Leo apertou os lábios, respirando fundo. Suspirou, rendendo-se sem dizer mais nada, e caminhou lentamente até o carro, com Eduardo ao lado, acompanhando cada passo.


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— Onde você mora? — Eduardo perguntou enquanto dirigia.

Leo manteve os olhos fechados, respirando devagar.

— Olha, pode me deixar no centro. Eu pego um Uber.

Eduardo soltou um suspiro exasperado.

— Leo… eu já disse que te levo até sua casa. Aliás, você já está dentro de um carro.

— Não precisa me levar até lá. Eu me viro.

— Você não tá em condições de se virar no momento.

Leo finalmente abriu os olhos e virou o rosto para ele.

O olhar ainda era resistente, teimoso, mas… havia algo mais ali. Cansaço. E talvez, só talvez, uma fagulha de rendição.

— … Tá bom.

— Endereço. Agora.

Leo passou a língua pelos lábios secos, respirou fundo e, enfim, murmurou o endereço.

Eduardo memorizou rapidamente e acelerou um pouco mais, sabendo que Leo nunca aceitaria essa ajuda se estivesse 100% bem.

E, no fundo, Eduardo não se importava em ser inconveniente dessa vez.

Ele não o deixaria sozinho. Não de novo.


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Antes de seguir direto até o endereço final, Eduardo parou em frente a uma farmácia.

Saiu do carro rapidamente e entrou. Comprou tudo o que achou necessário: remédios para febre, analgésicos, isotônicos, chá e até algumas barras de cereais, caso Leo não tivesse nada decente em casa para comer.

Ao voltar para o carro, encontrou Leo praticamente desabando no banco do passageiro, os olhos pesados de sono e o corpo cedendo ao cansaço.

Eduardo lançou um olhar discreto para ele antes de voltar a dirigir.

O rosto de Leo estava pálido, a respiração mais lenta do que o normal.

O carro parou em um semáforo vermelho, e Eduardo aproveitou para dar uma olhada rápida nas sacolas que comprou na farmácia para ver se estava tudo ali.

Ele soltou um suspiro discreto, balançando a cabeça.

Quando o sinal abriu, ele voltou a dirigir e, poucos minutos depois, parou em frente ao prédio que Leo indicou.

— Chegamos. — Eduardo anunciou, mas Leo nem abriu os olhos de imediato.

Depois de um momento, ele se mexeu lentamente, respirando fundo antes de destravar o cinto.

— Valeu. — Ele murmurou, abrindo a porta do carro e saindo.

Eduardo também saiu, pegando as sacolas e fechando a porta atrás de si. Se aproximou de Leo, que ainda parecia titubear.

— Espera, eu vou com você até o seu apartamento. — Ele disse, firme, mas sem pressa, o olhar atento a cada gesto de Leo.

Leo respirou fundo, desviando o olhar, com a voz rouca e irritada:

— Eduardo, eu já disse que me viro.

— E eu já disse que você não tá em condições de se virar sozinho.

O olhar exausto que Leo lançou para ele quase o fez rir. Quase.

Mas Eduardo não cedeu.

— Vamos logo, me mostra onde é seu apartamento. — Eduardo disse, caminhando em direção à entrada do prédio.

Leo bufou, resmungando algo inaudível, mas não teve forças para discutir.

Eles entraram no elevador em silêncio.

O espaço fechado tornou o ar quase sufocante. Eduardo sentia a presença de Leo ali ao lado, tão perto e, ao mesmo tempo, tão inacessível.

Ele queria dizer algo. Perguntar se Leo estava mesmo bem. Se ele se sentia sozinho aqui. Se ainda pensava nele.

Mas nenhuma palavra saiu.

Leo manteve o olhar fixo no visor dos andares, os braços cruzados, sem se permitir olhar para Eduardo nem por um segundo.

O elevador chegou ao andar de Leo, e ele saiu primeiro, destravando a porta do apartamento e deixando-a aberta para Eduardo entrar.

Assim que Eduardo pisou no local, olhou ao redor rapidamente. O apartamento era organizado, mas tinha uma sensação de vazio, como se ali faltasse alguma coisa.

— Onde é o quarto? — Eduardo perguntou.

— Lá. — Leo indicou com a cabeça e se virou, indo até o cômodo sem cerimônia.

Eduardo o seguiu imediatamente, deixando as sacolas sobre a cômoda e ajudando Leo a se sentar na beira da cama.

Leo tentou tirar os próprios sapatos, mas a fraqueza era evidente. Eduardo se abaixou e fez isso por ele, sem esperar permissão.

Leo não reclamou.

Só fechou os olhos, derrotado, e deixou que Eduardo o deitasse na cama.

— Vou preparar os remédios, um chá, qualquer coisa pra você melhorar logo. — Eduardo murmurou, afastando os fios bagunçados da testa quente de Leo.

Leo resmungou, ainda meio grogue de sono e febre.

— Você é muito irritante.

Eduardo sorriu de lado, passando os dedos pelos próprios cabelos.

— É, eu sei.

E então saiu do quarto, determinado a cuidar de Leo mesmo contra a vontade dele.

Eduardo pegou os remédios e um copo de água e se aproximou da cama.

Leo estava deitado, os olhos fechados, mas Eduardo sabia que ele ainda estava acordado.

— Toma isso. — Sua voz saiu mais suave do que esperava.

Leo abriu os olhos com dificuldade, parecendo incomodado, mas pegou o copo e o comprimido sem reclamar. Ele engoliu de uma vez, fazendo uma careta leve ao sentir o gosto amargo na boca.

Eduardo o observou por um instante, e seu olhar vagou pelo quarto de Leo.

A cama era de casal, lençóis escuros e bem arrumados, poucos objetos pessoais à vista. Era um quarto simples, mas confortável.

Por um segundo, Eduardo se pegou imaginando Leo ali, com Diego ao seu lado.

A imagem veio sem aviso: Diego deitado naquela cama, a mão deslizando pela pele de Leo, os dois dividindo aquele espaço, aqueles lençóis, aquela intimidade.

O peito de Eduardo apertou, e ele sentiu um incômodo amargo subir pela garganta.

Ele desviou o olhar imediatamente, forçando-se a empurrar aquele pensamento para longe.

Não era hora para isso.

Leo se recostou nos travesseiros, exausto, e Eduardo simplesmente ficou ali, parado ao lado da cama, sem saber se deveria dizer algo ou apenas deixá-lo descansar.

Após certo tempo, Eduardo, que agora estava sentado na poltrona ao lado da cama, mexendo distraidamente no celular, ergueu os olhos ao ouvir a voz de Leo.

— Por que você ainda tá aqui? — Leo murmurou, a voz rouca do sono e da febre que começava a ceder. — Eu já tô bem.

Eduardo soltou um suspiro, largando o celular no colo.

— Porque eu quis ficar.

Leo franziu o cenho, como se aquela resposta não fizesse sentido.

— Não precisa mais. Eu já melhorei.

Eduardo inclinou o corpo para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Se eu quisesse ir embora, eu já tinha ido.

Leo ficou em silêncio por alguns segundos, apenas observando Eduardo, como se tentasse decifrar alguma coisa.

— Você não precisa fazer isso. — Ele murmurou, desviando o olhar.

Eduardo apenas balançou a cabeça.

— Talvez não. Mas eu quero.

Leo apertou os lábios, claramente desconfortável com aquela resposta. Ele não estava acostumado com Eduardo ali, insistindo, se preocupando.

E talvez, no fundo, ele não soubesse lidar com isso.

Eduardo se levantou, sentindo o peso do momento, e caminhou até a cozinha. Pegou um copo de água e se dirigiu até a sala, mas nem bebeu, apenas segurou o vidro frio entre os dedos, tentando organizar os pensamentos.

Foi então que ouviu o som da porta se abrindo.

Virou-se instintivamente e viu Diego entrando no apartamento. O dramaturgo fechou a porta atrás de si, tirando a jaqueta com um movimento rápido antes de jogá-la despreocupadamente no encosto do sofá.

Só então ele ergueu os olhos e percebeu Eduardo ali, parado no meio da sala. A confusão no rosto dele foi instantânea.

— Castilho? — Diego arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. — O que você tá fazendo aqui? Tem algo urgente sobre os vídeos e as fotos?

Eduardo manteve a postura relaxada, mas sua voz saiu firme.

— Não. Eu só ajudei o Leonardo a chegar em casa. Ele passou mal no escritório e eu o levei ao hospital.

Diego semicerrou os olhos brevemente.

Eduardo não se moveu. Ele não queria estar ali quando Leo e Diego conversassem, mas, ao mesmo tempo, algo o impediu de sair imediatamente.

Diego tinha passado o dia fora, ocupado com um trabalho freelance para uma outra produtora, um projeto temporário que o tirava um pouco da rotina na Gravità. Desde que começou esse freela, ele andava mais atarefado, dividindo o tempo entre os compromissos fixos e esse novo projeto.

Agora, de volta ao apartamento, ao se deparar com Eduardo Castilho na sala, mais do que surpresa, sentiu um desconforto imediato.

Ele caminhou até o quarto e encontrou Leo deitado, ainda visivelmente abatido.

Da sala, Eduardo conseguiu ouvir a voz de Diego.

— Leo? — O tom dele carregava preocupação genuína, mas também um leve incômodo. — Por que você não me ligou? Eu teria ido na hora até lá.

Silêncio.

Então, a voz de Leo, baixa, quase hesitante:

— Eu… não consegui.

Diego soltou um suspiro longo, como se estivesse tentando controlar alguma irritação.

Eduardo sentiu que aquele era o momento de sair.

Ele pegou as chaves do carro e caminhou até a porta.

— Eu já vou. — Disse, alto o suficiente para Leo ouvir do quarto.

Ninguém o impediu.

Quando Eduardo fechou a porta atrás de si, sentiu um peso no peito.


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Diego permaneceu no quarto, os braços cruzados sobre o peito. Respirou fundo, observando Leo por alguns segundos.

— Você não me ligou. — A voz dele não era brava, mas carregava um peso difícil de ignorar.

Leo suspirou, passando a mão pelo rosto. Repetiu:

— Eu não consegui.

Diego se aproximou, puxando uma cadeira e sentando ao lado da cama.

— Sabe… — Ele começou, girando o anel no próprio dedo, um hábito que tinha quando tentava controlar as emoções. — Eu sempre notei.

Leo franziu o cenho, olhando para ele.

— Notou o quê?

— Os olhares. — Diego disse simplesmente. — Do Castilho pra você. O jeito que ele aparece na Gravità mais do que qualquer outro cliente já apareceu. O jeito que ele te observa.

Leo ficou em silêncio, sentindo o estômago revirar.

Diego soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Eu não queria acreditar, sabe? — Ele continuou. — Não queria acreditar. Tentei não pensar nisso. Mas agora? Agora ele veio na nossa casa, Leo.

Leo engoliu seco, sentando-se um pouco na cama, o corpo ainda mole da febre.

— Diego, eu…

— Você deu abertura? — Diego interrompeu, sua expressão agora mais fechada.

O coração de Leo disparou.

— O quê? Claro que não!

— Então por que ele veio aqui?

— Eu não sei! Ele… ele me levou no hospital porque eu passei mal no trabalho e depois me trouxe pra casa, só isso. Eu juro.

Diego ficou olhando para ele por um momento longo demais.

— Não teve nada?

— Diego…

— Leo. — Diego se inclinou um pouco para frente, os olhos fixos nos dele. — Me diz que você não deu nenhuma abertura. Nenhum sinal.

Leo sentiu o pânico se espalhar pelo corpo.

— Claro que não! Eu… eu nem queria que ele viesse! Ele só insistiu, só… só quis ajudar.

Diego manteve o olhar fixo em Leo, os olhos analisando cada detalhe, como se procurasse alguma mentira escondida ali.

— Você acha isso normal, Leo? — A voz dele era baixa, mas carregada de peso. — Um cliente qualquer, um cara que mal tem contato com você, insistir pra te trazer pra casa? Pra cuidar de você?

Leo desviou o olhar, o estômago revirando.

— Eu já falei, ele só quis ajudar.

— Ajudar? — Diego riu seco. — Engraçado… porque eu nunca vi nenhum outro cliente se preocupando tanto assim com você. Nunca vi nenhum deles olhando pra você do jeito que ele olha.

Leo apertou a borda do cobertor entre os dedos.

— Você tá exagerando.

Diego inclinou-se para frente, o olhar sério.

— Tô? Então me diz, Leo. Por que ele veio até aqui? Por que ele insistiu tanto?

Leo engoliu seco, a garganta fechando.

— Por que eu estava mal.

Diego respirou fundo, passando uma mão pelo rosto antes de encará-lo novamente.

— Olha, eu confio em você, mas isso não pode acontecer nunca mais.

Leo piscou algumas vezes, sentindo um aperto incômodo no peito.

— Diego…

— Me promete. — Diego interrompeu, a voz mais firme. — Me promete que não vai deixar esse cara chegar perto de novo e nem pisar na nossa casa.

Leo ficou em silêncio por um instante. Ele sabia que Eduardo não tinha feito nada de errado. Sabia que Diego não fazia ideia do que havia entre eles e de todo o passado. Porém também sabia que se tentasse explicar qualquer coisa agora, só pioraria tudo.

Então, respirou fundo.

E respondeu baixinho:

— Eu prometo.