O Garoto Feito de Sol e Terra

86 Capítulo 86 — Olhares


Leo chegou ao escritório sentindo-se finalmente recuperado. Depois de alguns dias de febre e do incidente desconfortável com Diego, ele só queria voltar à rotina, enterrar tudo e fingir que nada tinha acontecido.

Assim que entrou na Gravità, nem teve tempo de sentar direito em sua mesa antes que Karina e Tati surgissem ao seu lado.

— Olha só quem voltou à vida! — Tati brincou, cruzando os braços. — Como você tá, Leo?

— Melhor. — Ele respondeu de maneira simples, colocando a mochila sobre a mesa.

— Mas que susto que você me deu! — Karina disse, dramática. — Você quase caiu duro no meio da reunião.

Leo revirou os olhos, pegando o laptop.

— Não exagera.

— Não é exagero. — Tati sorriu. — Mas ainda bem que te levaram pro hospital, né?

Leo ficou tenso por um breve segundo.

— É. — Ele disse apenas.

— Bom, pelo menos agora já tá pronto pra voltar ao trabalho. — Karina disse, batendo no ombro dele antes de se afastar para sua mesa.

Tati ainda ficou ali, observando-o.

— Sério, você tá bem mesmo?

Leo forçou um sorriso.

— Tô, Tati. Pode relaxar.

Ela assentiu, parecendo convencida, e voltou para a sua mesa também.

O dia seguiu normalmente. Reuniões, edições, alinhamentos de projetos. Leo estava tentando se concentrar no trabalho, focar nos prazos e esquecer todo o resto.

Depois do almoço, ele foi até a copa pegar um café. Karina e Tati já estavam ali, sentadas na pequena mesa de vidro, conversando baixinho.

— Ah, e você viu que o Castilho não apareceu esses dias? — Karina comentou, girando a xícara entre os dedos.

Leo, que estava colocando açúcar no café, fingiu que não ouviu.

Karina apoiou o queixo na mão, olhando para Leo de canto.

— Aliás, achei muito estranho ele ter se oferecido pra te levar. — Ela disse, como se jogasse a frase no ar sem muita pretensão. — Cliente nenhum se preocupa desse jeito.

Leo parou por um segundo, mas logo voltou a mexer o café.

— Ele só quis ajudar. — Respondeu, como se fosse óbvio.

Karina estreitou os olhos.

Tati deu um gole no suco e sorriu.

— Você tem um fã, Leo.

Karina riu baixinho e acrescentou, de forma casual, mas com um olhar sugestivo:

— Diego tem que ficar esperto, hein.

Leo travou por um segundo, os dedos apertando a alça da xícara. Mas ele não demonstrou nada. Apenas bufou, pegando sua xícara e se afastando da mesa.

— Vocês viajam demais.

Ele saiu da copa antes que continuassem com aquelas suposições ridículas.

Ele não queria falar sobre Eduardo.

Não queria nem pensar nele.


◄☼►


Eduardo passou os dias seguintes mergulhado no trabalho.

Não apareceu na Gravità.

Sabia que, se fosse, Leo ficaria ainda mais desconcertado, e, por mais que quisesse vê-lo, também precisava dar espaço. Forçar qualquer coisa só o afastaria ainda mais.

Então, enquanto esperava o momento certo, voltou sua atenção total para o trabalho acumulado que havia deixado de lado por conta da campanha. Eram relatórios, reuniões, decisões pendentes que precisavam ser resolvidas. Ele precisava se concentrar.

Mas sempre que tirava uma pausa do trabalho, os pensamentos voltavam para Leo.

Na tarde seguinte, já exausto de tanto trabalho, Eduardo chamou Fernando para uma reunião virtual rápida.

— E aí, você sumiu da Gravità? — Fernando perguntou.

Eduardo soltou um suspiro, passando a mão pelo rosto.

— Eu tô dando um tempo. Não posso ficar aparecendo lá todo dia, né?

Fernando ergueu uma sobrancelha, cético.

— E o que aconteceu naquele dia que você levou ele pra casa?

Eduardo soltou uma risada fraca, sem humor.

— Diego apareceu. Me olhou como se eu fosse um intruso. Perguntou o que eu tava fazendo lá.

— E você?

— Falei a verdade. Que só tinha levado o Leo porque ele tava mal.

Fernando cruzou os braços, esperando mais.

— E depois?

— Eu fui embora. Mas, sinceramente, Diego ficou incomodado. Tenho certeza que ele percebeu algo.

Fernando analisou Eduardo pela tela por alguns segundos e soltou um suspiro.

— Cara, você se meteu numa encrenca daquelas.

Eduardo riu baixo.

— Me diz uma novidade.

Fernando passou a mão no queixo, pensativo.

— Mas você ainda vai atrás dele, né?

Eduardo não hesitou.

— Claro.

Fernando apenas sorriu de canto, sabendo que Eduardo já estava decidido.


◄☼►


Certo dia, Eduardo estava terminando um relatório quando seu celular vibrou.


Evandro: Castilho, pode passar na Gravità hoje? Precisamos que avalie alguns materiais pré-prontos antes da finalização.


Ótimo. Era o momento perfeito para aparecer por lá sem parecer que estava forçando algo.


Eduardo: Claro. Passo aí no fim da tarde.


E foi o que fez.

Ao chegar, foi direto para a sala de reuniões onde Evandro e a equipe de criação estavam. O ambiente estava movimentado: monitores acesos, protótipos de vídeos rodando nas telas, Karina revisando roteiros com Rafael.

E então, ele o viu.

Leo estava no fundo da sala, debruçado sobre o computador, os fones no pescoço e a expressão focada.

E, ao lado dele, Diego.

Eduardo manteve a compostura e cumprimentou todos com um breve aceno.

— Boa tarde.

— Castilho! — Evandro sorriu, levantando-se para apertar sua mão. — Ótimo que veio. Senta aí, temos algumas coisas pra revisar com você.

Eduardo sentou-se e logo mergulhou nos materiais. Vídeos, campanhas, propostas visuais. Ele se forçou a se concentrar no que realmente importava, mantendo o olhar na tela.

Mas, às vezes, sentia.

Sentia o olhar de Leo sobre ele. Não o encarava diretamente, mas sabia que ele estava ali.

Eduardo não era o único que percebia isso.

Diego, sentado ao lado de Leo, também notou. O dramaturgo não dizia nada, mas a rigidez na postura e os olhares cortantes que lançava para Eduardo e Leo entregavam tudo. Eduardo fingia não notar.

Fingia que o ambiente não estava carregado, que a tensão não estava ali, que nada além do trabalho importava.

Mas ele sabia.

Sabia que Diego estava desconfiado. Sabia que Leo, por mais que tentasse evitar, ainda o olhava.

E aquilo só fazia Eduardo ter mais certeza de que ainda havia algo ali.

Evandro então terminou de revisar um dos materiais no projetor e bateu as mãos na mesa com um sorriso satisfeito.

— Muito bem, gente, acho que temos um ótimo material até agora. Vamos finalizar os últimos ajustes amanhã e seguimos para a última fase.

A equipe assentiu, alguns já começando a guardar seus equipamentos e desligar as telas.

— E falando nisso… — Evandro se virou para Eduardo. — Castilho, a gente vai fazer um happy hour hoje à noite, coisa simples, só pra relaxar um pouco. Você devia ir.

Eduardo ergueu a sobrancelha, fingindo indiferença.

— Happy hour?

— Sim, claro! — Karina entrou na conversa, animada. — Você tem sido um dos clientes mais envolvidos que já tivemos, então tá convidado.

Eduardo fingiu pensar por um instante, mas no fundo, já sabia a resposta.

Ele não perderia uma oportunidade de estar ali, de observar, de sentir o ambiente. E, principalmente, de ver Leo em um contexto diferente.

— Por que não? — Ele disse, dando um meio sorriso. — Eu vou.

Leo, que estava terminando de guardar alguns cabos, parou por um segundo. Lançou um olhar rápido e quase instintivo para Eduardo, só por um instante, mas foi o suficiente. Depois voltou ao que estava fazendo, como se nada tivesse acontecido.

Diego, por outro lado, notou a interação e cerrou um pouco o maxilar, mas não disse nada. Apenas passou a mão nas costas de Leo em um gesto possessivo e continuou ouvindo a conversa.

Eduardo percebeu.

E gostou do incômodo de Diego.


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O bar estava cheio, iluminado por luzes amareladas que davam ao ambiente um ar aconchegante, apesar do barulho das conversas e da música baixa ao fundo. O grupo da Gravità estava reunido em uma mesa grande, espalhados entre cadeiras e banquetas, rindo e bebendo descontraidamente.

Eduardo estava no canto, ouvindo uma conversa entre Evandro e Karina sobre campanhas passadas, mas sua atenção não estava ali.

Estava em Leo.

Mais uma vez, Diego estava grudado nele. Braço ao redor da cintura, mão repousando possessivamente em sua coxa, o polegar acariciando um ponto fixo ali, como se quisesse lembrar a todos que Leo era dele.

E Leo… Leo não parecia confortável.

Eduardo percebeu na forma como ele mexia no copo, sem beber. Na maneira como seu ombro tensionava cada vez que Diego se inclinava e sussurrava algo em seu ouvido.

Uma vez, Diego sorriu depois de falar alguma coisa, e Leo desviou o olhar, forçando uma risada fraca, como se não tivesse gostado do que ouviu.

Eduardo franziu o cenho.

Não conseguia ouvir o que Diego dizia, mas conseguia ver.

O desconforto de Leo era visível.

E isso o incomodava mais do que deveria.


◄☼►


Leo mantinha os olhos fixos no copo de cerveja à sua frente, girando-o devagar entre os dedos, como se aquele movimento pudesse distraí-lo da tensão que crescia ao seu lado.

Diego estava perto demais.

O braço dele continuava ao redor de sua cintura, e a mão, antes repousando em sua coxa, apertou de leve sua perna, um toque quase casual para quem observava de fora, mas que Leo conhecia bem.

— Ele não para de olhar pra você. — Diego sussurrou contra seu ouvido, a voz baixa, mas carregada de algo perigoso.

Leo respirou fundo, fingindo que não ouviu. Fingindo que aquilo não o afetava.

Mas Diego não parou.

Ele inclinou-se mais perto, os lábios roçando a pele de Leo de leve antes de murmurar:

— O Castilho. Você percebeu, né?

Leo fechou os olhos por um segundo, antes de tomar um gole da cerveja, tentando ignorar o aperto agora mais forte na sua coxa.

— Diego, para com isso. — Murmurou, tentando manter a voz firme.

— Para com isso? — Diego soltou uma risada baixa e sarcástica. — Me diz que eu tô viajando, então. Me diz que ele não tá te comendo com os olhos.

Leo engoliu em seco.

Ele não queria falar sobre Eduardo. Não queria alimentar aquela insegurança ridícula de Diego.

— Isso não tem nada a ver. — Ele respondeu, a voz baixa, mas carregada de irritação.

— Ah, não? — Diego deu outro gole em sua bebida antes de inclinar-se mais uma vez, a boca próxima demais do ouvido de Leo. — Então por que ele tá aqui? Você acha mesmo que um cliente como ele apareceria para um happy hour qualquer?

Leo sentiu um calafrio subir pela espinha.

— Ele veio porque Evandro convidou.

— Sei… — Diego deslizou a mão um pouco mais pela perna de Leo, mantendo um toque possessivo. — Ou veio porque quer alguma coisa.

Leo cerrou os punhos sobre a mesa, a mandíbula travada.

Ele não queria ouvir aquilo.

Ele não queria lidar com aquilo. Mas Diego não ia parar tão cedo.

Foi então que Evandro tomou um gole de sua bebida e olhou para Diego, puxando assunto sobre um dos novos projetos que estavam surgindo na Gravità.

— Então, Diego, fiquei sabendo que você tá envolvido naquele comercial da Montrel. Cara, isso é grande, hein?

Diego, que até então estava focado em manter Leo sob controle, desanuviou um pouco, virando-se para Evandro com um sorriso satisfeito.

— Ah, sim. Tô na parte da direção criativa. — Ele relaxou no assento, como se a simples menção ao projeto massageasse seu ego.

Enquanto Diego se distraía na conversa, Leo aproveitou para respirar um pouco. Mexeu no próprio copo, desviando o olhar para qualquer ponto aleatório do bar.

Foi um erro.

Seus olhos, mesmo que involuntariamente, encontraram Eduardo do outro lado da mesa.

E Eduardo já estava olhando para ele.

Por um instante, nenhum dos dois desviou o olhar.

Leo sentiu o peito apertar, mas antes que pudesse reagir, Diego voltou sua atenção para ele.

— E você, amor? — A voz dele veio mais alta, chamando a atenção dos outros. — Como anda a produção do nosso grande artista visual?

Leo franziu o cenho, já sentindo que vinha algo.

— Bem.

Diego riu, pousando o cotovelo na mesa.

— Bem? Você tem que se vender melhor do que isso, Leo. — A voz dele estava levemente arrastada pelo álcool. — Ou então vão achar que você ainda é um estagiário.

A mesa ficou em silêncio por um momento.

Leo trincou o maxilar.

Eduardo, do outro lado, apertou o copo nas mãos.

Evandro soltou uma risada baixa, tentando quebrar a tensão.

— Ah, para, Diego. O Leo é um dos melhores que temos aqui.

Diego soltou um riso curto, balançando o copo na mão antes de continuar, o tom levemente arrastado pelo álcool.

— Claro, claro. — Ele ergueu as mãos num gesto exagerado, como se estivesse se defendendo. — Só tô dizendo que ele podia ser mais… confiante, né?

Fez uma pausa dramática, antes de completar com um tom ácido:

— Ou pelo menos pra parecer que sabe o que tá fazendo.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

Leo sentiu a respiração falhar por um segundo, os dedos apertando o copo com força. Ele não olhou para Diego, nem para ninguém. Apenas forçou um sorriso breve e tomou um gole longo da bebida, tentando empurrar o incômodo para longe.

Mas Eduardo viu.

Viu o modo como os ombros de Leo ficaram tensos. Viu a forma como seus olhos evitaram contato.

E sentiu o sangue ferver.


◄☼►


O happy hour foi se esvaziando aos poucos. Algumas pessoas já tinham ido embora, e o bar estava mais silencioso do que antes. Leo mexia no celular, desconfortável, esperando Diego dar sinais de que já podiam ir embora. Ele não queria mais estar ali. Estava cansado, saturado.

Mas Diego, por outro lado, ainda estava atento.

Ele percebeu. Percebeu o olhar de Eduardo pousando em Leo mais uma vez.

Diego pousou o copo na mesa com um baque surdo, estreitando os olhos, a mandíbula tensa.

— Quer saber? — Ele murmurou, levantando-se abruptamente.

Leo franziu o cenho, observando enquanto Diego atravessava o bar.

Foi direto até Eduardo.

— Eu posso saber qual é a porra do seu problema?

Eduardo ergueu os olhos devagar, como se já esperasse por aquilo.

— Do que você tá falando? — Sua voz era calma, mas o olhar carregava uma tensão evidente.

— Não se faz de idiota. — Diego rosnou. — Eu vejo o jeito que você olha pra ele.

Leo se levantou rapidamente, se aproximando dos dois.

— Diego, para com isso. — Sua voz soou tensa. — Vamos embora.

Mas Diego ignorou completamente.

Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço de Eduardo com um olhar carregado de desafio.

— Sabe, cara, você pode ser um dos clientes mais importantes da Gravità, mas isso não te dá passe livre pra ficar secando o MEU namorado sempre que aparece.

Eduardo apertou os punhos ao lado do corpo.

Diego sorriu de canto, cruzando os braços, a expressão carregada de escárnio.

— Você realmente acha que pode tudo, né? — Ele disse, a voz baixa, mas cheia de veneno. — Só porque tem dinheiro, só porque é um cliente importante, acha que pode vir aqui e fazer o que quiser?

Eduardo não respondeu, apenas sustentou o olhar, o maxilar travado.

Diego deu um passo à frente, invadindo o espaço de Eduardo, e soltou uma risada curta.

— Daqui a pouco vai querer convencer o Leo a transar com você, né? Afinal, gente como você tá acostumada a conseguir o que quer, não importa como.

O sangue de Eduardo ferveu.

Antes que pudesse raciocinar, antes que qualquer resposta viesse à sua mente, seu punho se fechou e acertou Diego com força no rosto.

O impacto foi seco, o bar ficou em silêncio por um segundo antes de Diego cambalear para trás, levando a mão à boca com os olhos arregalados.

— SEU FILHO DA PUTA! — Diego rosnou, avançando para cima de Eduardo.

Leo, em pânico, entrou no meio dos dois, tentando afastá-los, mas já era tarde demais.

E então, a briga começou.

Leo arregalou os olhos, o coração disparando em desespero.

— PARA, PORRA! — Ele tentou intervir, mas Diego já tinha avançado de volta.

Eduardo empurrou Diego com força, mas o outro revidou, tentando acertá-lo no estômago. Eles se engalfinharam ali mesmo, entre as mesas, enquanto algumas pessoas ainda no bar olhavam assustadas.

Leo se meteu no meio, puxando Diego para trás com toda força.

— CHEGA!

Diego respirava pesadamente, o rosto vermelho de raiva. Eduardo também estava ofegante, mas seu olhar não se desviou.

Os três ficaram ali, parados, encarando um ao outro.

Até que Leo se virou para Eduardo, os olhos brilhando de fúria.

— Vai embora.

Foi um sussurro firme.

Eduardo ficou parado por um segundo, os punhos ainda cerrados.

Então, sem dizer nada, pegou sua jaqueta e saiu do bar, sentindo o sangue pulsar em suas têmporas.

Leo fechou os olhos, tentando controlar a tempestade dentro de si.

Ele queria gritar. Queria sumir dali.

E queria, acima de tudo, entender por que diabos seu peito estava apertado daquele jeito.

Leo pegou o celular com dedos trêmulos, abriu o aplicativo de corrida e chamou um Uber.

Ele não trocou uma palavra com Diego enquanto esperavam o carro. A adrenalina ainda corria em seu corpo, seu coração batia forte. Não pelo medo da briga, não pela confusão, mas pelo que tudo aquilo significava.

O carro chegou rápido. Eles entraram em silêncio, Diego sentou-se ao lado dele no banco traseiro, os braços cruzados, os olhos fixos na janela.

O silêncio no trajeto era sufocante.

Diego batia o pé impaciente contra o assoalho do carro, o maxilar travado. Leo sabia que ele estava segurando a raiva, sabia que assim que chegassem no apartamento a explosão viria.

E veio.

Assim que a porta do apartamento se fechou, Diego girou nos calcanhares, apontando o dedo no peito de Leo.

— O que foi aquilo?

Leo tirou a jaqueta, tentando se manter calmo, mas sua paciência já estava no limite.

— O que foi o quê?

— Você sabe muito bem! — Diego riu, incrédulo, passando as mãos pelo rosto. — Além dos olhares daquele maldito, eu também vejo os seus olhares, Leo. Você acha que eu sou idiota?

Leo sentiu o estômago afundar.

— Olhares? Do que você tá falando?

Diego soltou uma risada amarga.

— Não se faça de desentendido. Você tava olhando pra ele o tempo todo. E o que foi aquela merda no bar? Ele me bate, eu revido, e você se mete no meio pra separar? — Diego riu com escárnio. — Por quê, hein? Porque ficou com medo que ele apanhasse?

Leo apertou os punhos.

— Você começou essa merda, Diego! — Leo rebateu, a voz firme, os olhos ardendo de frustração. — Você foi atrás dele, você provocou! Você queria essa briga!

Diego riu com deboche, cruzando os braços.

— Ah, claro, a culpa é minha agora?

Leo passou a mão pelos cabelos, respirando fundo para não perder a paciência.

— Eu quis separar porque isso foi ridículo! Eu não queria ver você brigando por besteira, não queria ver ninguém saindo machucado!

— Ah, é? Confessa, Leo! — Diego elevou a voz. — Diz que você gosta dessa merda! Diz que você gosta dele te olhando, te querendo!

Leo sentiu o peito apertar.

— Claro que não!

Diego avançou um passo, os olhos faiscando.

— Não mente pra mim! — Ele apontou o dedo para Leo, a voz carregada de irritação. — Você pode até não ter feito nada, mas não me fode, Leo. Eu te conheço. Você não é bom em disfarçar as coisas.

Leo sentiu o coração disparar.

— Você tá viajando, Diego! — Ele exclamou, tentando manter o controle. — Eu tô com você! Você tá me ouvindo? Eu tô com você!

— E tá mesmo? — Diego retrucou, sem hesitar. — Porque a sua cabeça parece estar em outro lugar toda vez que aquele cara aparece.

Leo engoliu seco, desviando o olhar e respondeu:

— Eu já disse que não tem nada!

Diego soltou uma risada curta e passou a língua pelos dentes, negando com a cabeça. Ele cruzou os braços, a expressão carregada de algo entre irritação e desprezo.

— Pois é bom mesmo que não tenha nada. — Ele disse, a voz mais baixa, mas carregada de firmeza. — Porque se tiver… se em algum momento você sequer pensar em fazer merda, Leo, você vai se arrepender. Anote minhas palavras.

Leo sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Tá me ameaçando agora, é? — Ele perguntou, tentando manter a voz estável.

Diego soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Não precisa ser uma ameaça se você simplesmente não fizer merda, né?

Leo cerrou o maxilar.

— Você sabe muito bem que eu sou um cara influente, que eu tenho meus contatos… E eu não sou um cara que leva traição numa boa.

Leo sentiu um nó no estômago.

— Diego, pelo amor de deus…

— Só tô te avisando. — Diego interrompeu, se aproximando um pouco mais. — Fica esperto, Leo. O Castilho pode ser cheio da grana, mas você ainda tem mais a perder.

Leo respirou fundo, tentando manter a calma.

Diego se aproximou e deu um beijo rápido no rosto dele e saiu da sala indo em direção ao quarto, como se nada tivesse acontecido.

Leo ficou parado ali, sentindo um peso insuportável se instalar no peito.

Ele sabia que Diego não falava da boca pra fora.

E, pela primeira vez, se deu conta de que estava mais preso do que imaginava.