O Garoto Feito de Sol e Terra
83 Capítulo 83 — A Campanha
A van da Gravità Studios parou em frente ao hotel que a equipe tinha alugado para os próximos dias. Karina e Rafael foram os primeiros a descer, organizando rapidamente a distribuição dos quartos e instruindo a equipe a deixar as malas antes de seguirem para o campo onde fariam as gravações.
Leo saiu por último, ajustando a alça da mochila no ombro enquanto Diego caminhava ao seu lado, uma das mãos apoiadas em sua cintura de um jeito quase possessivo.
— Prontos? — Karina perguntou depois de se organizarem, olhando para o relógio. — Eduardo Castilho já deve estar nos esperando.
Ninguém percebeu quando Leo respirou fundo antes de simplesmente assentir.
A van seguiu viagem novamente por mais alguns minutos até que finalmente chegaram ao campo de agronegócio da família Castilho. A paisagem era vasta, com uma extensão verde interminável e grandes máquinas agrícolas espalhadas pelo espaço. No meio de tudo isso, Eduardo estava ali, já conversando com alguns funcionários enquanto finalizava os preparativos.
Quando os carros estacionaram, ele virou-se, os olhos imediatamente captando a figura de Leo descendo da van.
Mas ele não estava sozinho.
Eduardo sentiu o peito apertar como se tivesse sido atingido por um golpe seco.
Os braços do homem ao lado de Leo estavam relaxados sobre os ombros dele, em um toque que falava mais do que qualquer palavra. Um toque íntimo. Um toque de quem já fazia parte da vida de Leo.
Eduardo sabia exatamente quem era.
Diego.
O namorado.
O cara que estava com Leo há alguns anos, morando com ele, dividindo a vida que Eduardo poderia ter tido.
E deu para notar que ele era mais velho. Mais alto.
Eduardo não soube explicar por que aquilo o incomodava tanto. Não soube dizer se era pela forma como Diego parecia confortável demais ao tocar Leo, ou se era pelo simples fato de que aquele cara tinha tudo que Eduardo havia perdido.
O aperto no peito veio como uma facada.
Mas ele empurrou a dor para longe.
Ele precisava focar. Isso era profissional.
Diego se aproximou primeiro e estendeu a mão, um sorriso polido no rosto.
— Eduardo Castilho, certo?
Eduardo forçou um sorriso leve e apertou a mão dele, sentindo o aperto firme do outro.
— Sim. E você é...
— Diego Medeiros. — Ele disse com naturalidade. — Vou dar um suporte na parte de edição e finalização dos materiais. Trabalho junto com a equipe da Gravità de vez em quando.
Eduardo assentiu, mantendo a postura impecável, apesar do incômodo ardendo no fundo do peito.
Então seus olhos pousaram em Leo.
Leo não sorriu. Não demonstrou nenhuma expressão além de pura neutralidade.
— Bom dia. — Foi tudo o que Leo disse.
Eduardo sentiu um arrepio correr pela espinha. A voz de Leo parecia mais fria agora.
— Bom dia.
Os olhares se encontraram por um instante que pareceu mais longo do que deveria.
Eduardo prendeu a respiração por um segundo, mas logo retomou o controle, mantendo a postura firme. Ele não podia se deixar levar.
Então, ajeitou a postura e falou com profissionalismo calculado:
— Vamos começar? Temos bastante trabalho a fazer.
◄☼►
O trabalho começou com o direcionamento da equipe. Karina e Rafael distribuíram as funções, garantindo que tudo estivesse alinhado para a gravação da campanha.
O campo era vasto, cercado por plantações perfeitamente cuidadas, com o sol forte iluminando o cenário. Os drones estavam prontos para capturar imagens aéreas, e a equipe de fotografia e filmagem organizava seus equipamentos.
Eduardo manteve-se ao lado de Karina e Evandro no início, participando das reuniões rápidas sobre os enquadramentos e as mensagens-chave da campanha. Ele precisava estar envolvido, mas, ao mesmo tempo, evitava se perder demais nos pensamentos que insistiam em girar ao redor de Leo.
Leo, por outro lado, estava focado. Ele conferia o equipamento, testava os ângulos, ajustava as lentes da câmera e dava instruções para alguns assistentes que ajudavam na montagem do set.
Enquanto isso, Diego circulava pela equipe, analisando os detalhes técnicos e conversando com Rafael sobre a pós-produção. Ele se movia com segurança, trocando olhares rápidos com Leo de tempos em tempos.
Eduardo via tudo.
E fingia que não via.
Ele observava a forma como Leo trabalhava, a seriedade no olhar enquanto ajustava a câmera para capturar a melhor imagem. O modo como franzia a testa quando a luz não estava perfeita, o jeito que movia os dedos rapidamente nos ajustes, como se o equipamento fosse uma extensão dele mesmo.
O tempo passou, e em determinado momento, Eduardo percebeu que Leo estava sozinho.
Ele segurava a câmera, de pé próximo a uma cerca, analisando o cenário ao redor.
Eduardo soube que aquela era sua chance. Ele se aproximou devagar, sentindo o coração bater mais forte a cada passo.
Leo estava de costas para ele, concentrado na câmera, os olhos analisando o visor com precisão. Eduardo limpou a garganta antes de falar, tentando soar natural.
— Oi... Como você tá?
Leo endureceu de leve, os ombros tensionando por um instante. Mas não desviou os olhos da câmera.
— Trabalhando. — A resposta foi seca.
Eduardo mordeu o lábio, buscando coragem para continuar.
— Eu… — Ele hesitou. Sabia que qualquer palavra errada poderia fazer Leo se afastar ainda mais. — Eu senti sua falta, Leo.
Isso fez Leo parar.
Ele abaixou a câmera lentamente, respirando fundo antes de se virar para encará-lo. Os olhos de Leo estavam sombrios, carregados de ressentimento.
— Você sentiu minha falta? — A voz veio carregada de ironia, como se ele tivesse ouvido a maior piada do mundo.
Eduardo abriu a boca para responder, mas Leo deu um passo à frente, sua expressão endurecendo.
— Por que você voltou, Eduardo? — O tom dele estava afiado, cortante. — Depois de tantos anos, depois de tudo… você voltou pra quê?
Eduardo piscou, sentindo o peso da pergunta.
— Leo, eu…
— Você não teve o suficiente? — Leo interrompeu, os olhos queimando de mágoa. — Não bastou me tratar igual lixo? Agora quer voltar só pra ver o que ainda resta?
Eduardo sentiu um aperto insuportável no peito.
— Não, não é isso…
— Então o que é? — Leo cruzou os braços, esperando.
Eduardo respirou fundo, sentindo o peso esmagador da verdade que carregava no peito.
— Eu voltei porque quero consertar tudo. — Sua voz saiu firme, mas havia um desespero velado ali. — Quero te pedir perdão, Leo. Por tudo. Por cada merda que eu fiz, por cada coisa que eu te disse.
Leo fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se segurando para não explodir. Então, soltou um riso curto e amargo, balançando a cabeça.
— Perdão? — Ele repetiu, a incredulidade escorrendo de sua voz. — Você acha que pode simplesmente aparecer depois de anos e dizer que quer consertar tudo?
— Eu sei que não é simples. — Eduardo deu um passo mais perto, mas Leo ergueu uma mão para impedir qualquer aproximação.
— Não, não é. — Leo disse, os olhos escurecendo. — E não tem mais nada pra consertar, Eduardo.
Eduardo sentiu a respiração falhar, mas antes que pudesse insistir, algo chamou a atenção de ambos.
Karina os avistava de longe.
Ela franziu o cenho ao notar a tensão na postura de Leo, seu olhar incisivo sobre Eduardo. Algo na forma como os dois estavam ali, de frente um para o outro, parecia errado.
Ela se aproximou rapidamente.
— Tudo certo por aqui? — Karina perguntou, analisando os dois.
Leo piscou, recuperando a compostura no mesmo instante. Eduardo fez o mesmo, ajustando a postura, tentando afastar a tempestade de emoções que se formava entre eles.
— Só estávamos alinhando uns detalhes sobre a captação das imagens. — Leo respondeu, seu tom impassível.
Eduardo assentiu, tentando acompanhar a mentira.
— Sim. Estamos resolvendo algumas coisas.
Karina olhou de um para o outro, sem parecer muito convencida. Mas decidiu não insistir.
— Ótimo. Vamos adiantar então. O cronograma tá apertado.
Leo pegou a câmera novamente, desviando o olhar de Eduardo como se nada tivesse acontecido.
◄☼►
Enquanto a gravação continuava ao longo do dia, Eduardo tentava manter o foco no trabalho. Ele acompanhava as equipes, conversava com Karina e Evandro sobre detalhes da campanha, avaliava os registros feitos pelos fotógrafos e cinegrafistas.
Mas, às vezes, sem perceber, seus olhos escapavam em direção a Leo.
Ele o observava ajustando os equipamentos, conversando com os assistentes, analisando as imagens recém-gravadas. Leo estava completamente imerso no trabalho, como se Eduardo não estivesse ali. Como se sua presença não significasse absolutamente nada.
E isso doía.
Em um momento, sentindo o peito sufocar, ele se afastou discretamente e pegou o celular, digitando rapidamente uma mensagem para Fernando.
Eduardo: Cara, eu não sei se consigo
A resposta veio rápido.
Fernando: Consegue o quê?
Eduardo suspirou, afastando-se um pouco do local de gravação. Seus olhos ainda encontravam Leo de tempos em tempos, mas ele precisava de um segundo para respirar. Para pensar.
Eduardo: Suportar isso até o fim da campanha. Estar perto dele como se nada nunca tivesse acontecido. Como se eu não me importasse
Fernando demorou alguns segundos antes de responder.
Fernando: Mas você se importa
Eduardo: Óbvio que sim. Mas ele me odeia. E eu tô aqui, enfiado no meio do trabalho dele, como se a gente nunca tivesse tido nada. Como se a gente nunca tivesse existido. Ele nem me olha direito, Fernando. E quando olha, parece que quer me matar
Fernando: Pelo menos ele sente alguma coisa, né? O problema seria se ele olhasse pra você e não sentisse nada
Eduardo passou a mão pelo rosto, exausto.
Eduardo: Eu não sei se isso me consola ou piora tudo
Fernando respondeu quase imediatamente.
Fernando: Você não tem que fingir que não sente nada. Mas se tá aí, Eduardo, se foi até aí, então aguenta até o fim
Eduardo digitou, apagou, digitou de novo.
Eduardo: E se ele nunca me perdoar?
Dessa vez, Fernando demorou mais.
Fernando: Aí pelo menos você sabe que tentou. E tentou de verdade
Eduardo ficou encarando a tela do celular, sentindo um nó no peito.
Será que tentar realmente seria suficiente?
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