O Garoto Feito de Sol e Terra

84 Capítulo 84 — Permanecer Impassível ou Tentar


O bar local era pequeno, mas acolhedor. A luz amarelada criava um clima aconchegante, e a música tocava em volume moderado ao fundo. A equipe estava espalhada pelas mesas, rindo, conversando, bebendo. O clima era de descontração após um dia cansativo, mas Eduardo não conseguia relaxar.

Seu olhar sempre voltava para Leo.

E para Diego.

Diego estava sempre colado a Leo. A mão dele pousada na cintura de Leo, os dedos pressionando a lateral do quadril como se estivesse marcando território. Era sutil, mas para Eduardo aquilo gritava.

Ele odiava ver aquilo.

Leo, por outro lado, ignorava completamente Eduardo. Não olhava, não falava, não demonstrava nada. Era como se Eduardo fosse apenas mais uma pessoa qualquer naquele bar.

E aquilo também doía.

Com o passar das horas, a bebida foi fluindo e Diego começou a se soltar mais. Falava alto, gesticulava exageradamente, ria de piadas que só ele achava engraçadas.

Até que ele começou a fazer comentários sobre Leo.

— Esse aqui? — Diego apontou para Leo com um sorriso torto, já um pouco alterado pela bebida. — Se preocupa com tanta coisa besta que ninguém liga.

Leo travou a mandíbula por um instante, mas não reagiu. Apenas pegou o copo e bebeu mais um gole, fingindo normalidade.

Diego riu sozinho e continuou:

— Ah, mas ele leva a sério, viu? Passa horas mexendo em cor, enquadramento, tudo nos mínimos detalhes… como se algum cliente realmente ligasse pra essas coisas. No final, ninguém se importa.

Algumas pessoas riram baixo, sem perceber a tensão no ar. Mas Eduardo percebeu.

Viu como os dedos de Leo se apertaram ao redor do copo.

Viu como ele desviou o olhar, como se estivesse tentando não demonstrar nada.

Viu a vergonha que ele mascarou com um sorriso fraco.

Diego percebeu o desconforto, mas em vez de parar, reforçou ainda mais o gesto de posse.

Virou-se para Leo e deu um selinho nele na frente de todos.

— Não fica assim, amor. Você é ótimo no que faz. — Disse num tom falsamente carinhoso, apertando a coxa de Leo com a mão.

Leo apenas forçou um sorriso e continuou bebendo, como se nada tivesse acontecido.

Eduardo, do outro lado da mesa, apertou os punhos com força, sentindo algo perigoso crescer dentro dele.

Ele queria falar. Queria abrir a boca e soltar uma provocação contra Diego, queria dizer algo que fizesse ele calar a boca.

Mas se conteve.

Porque Leo sequer olhava para ele.

E aquilo o matava um pouco mais a cada segundo.


◄☼►


Leo se levantou, pegando o maço de cigarros do bolso.

— Vou lá fora um pouco.

Ele pediu licença, e ninguém pareceu se importar muito. Diego, distraído em outra conversa, apenas acenou com a mão, enquanto os outros continuavam falando entre si.

Eduardo viu a oportunidade e não hesitou.

Esperou alguns segundos antes de se levantar também e, sem dizer nada, seguiu Leo para fora.

O ar da noite estava fresco, e Leo já estava encostado na parede lateral do bar, tragando calmamente seu cigarro.

Quando Eduardo parou ao seu lado, Leo nem olhou.

— Você me seguiu? — Perguntou sem emoção, soltando a fumaça no ar.

Eduardo passou a mão pelo rosto, ainda sentindo o calor do álcool no corpo.

— Eu vi as provocações do Diego.

Leo bufou.

— E daí?

— E daí que o cara é um merda.

Dessa vez, Leo riu baixo.

— Eu não lembro de ter pedido sua opinião sobre nada.

Eduardo fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ficaram em silêncio por um momento, até que Eduardo não se segurou mais.

— Leo, eu não tô mais aguentando.

Leo finalmente olhou para ele.

— Aguentando o quê?

— Isso. — Eduardo gesticulou — Você me odiando, fingindo que eu não existo, fingindo que... que tudo aquilo nunca aconteceu.

Leo tragou o cigarro de novo, mas seu silêncio foi pior do que qualquer resposta.

Eduardo sentiu um nó na garganta.

Ele já estava alterado pela bebida. E, antes que pudesse evitar, as lágrimas começaram a escorrer silenciosamente pelo seu rosto.

Leo viu.

Viu o jeito que Eduardo tentava disfarçar, o jeito que ele inclinou a cabeça para cima, tentando engolir o choro.

Mas era inútil.

Por algum motivo, aquilo fez Leo se calar. Ele ficou apenas olhando, sem saber como reagir. Por anos, ele sonhou com Eduardo arrependido. Por anos, desejou que ele sofresse como ele sofreu.

E agora, Eduardo estava ali, exatamente do jeito que ele imaginou.

Leo desviou o olhar.

Eduardo respirou fundo, tentando conter o choro, mas era impossível. As palavras saíram antes que ele pudesse segurá-las.

— Eu nunca te esqueci, Leo. — Sua voz saiu embargada, carregada de arrependimento. — Nunca. Nem por um segundo.

Leo não reagiu, apenas continuou tragando o cigarro, os olhos fixos em algum ponto indefinido da rua.

— Eu fui um covarde. — Eduardo continuou, apertando os punhos ao lado do corpo. — Eu tive medo, te falei coisas horríveis, fugi... eu fiz tudo errado, mas… porra, Leo, você acha que foi fácil pra mim? Você acha que eu só segui em frente e pronto? Eu tentei. Eu tentei, cara, mas não consegui.

Leo ainda não olhava para ele, mas Eduardo sabia que ele estava ouvindo.

— Eu passei anos fingindo que não me importava, que o que eu fiz foi a coisa certa. — Eduardo soltou uma risada amarga, passando as mãos pelo rosto. — Mas toda vez que eu fechava os olhos, era você que eu via. Toda vez que eu tentava me convencer de que estava bem, era uma mentira.

Leo continuou quieto, seu rosto impassível, mas Eduardo percebeu o jeito que ele apertou os lábios por um segundo. Um detalhe mínimo, quase imperceptível.

Eduardo passou as mãos pelo rosto, tentando organizar os pensamentos, tentando encontrar um jeito de expressar tudo o que estava preso dentro dele há anos.

— Pra ser sincero com você, eu tentei te esquecer, Leo. — Ele confessou, a voz vacilante. — Tentei de todas as formas possíveis. Saí com outras pessoas, me joguei no trabalho, me convenci de que era o melhor pra mim, o melhor pra você também.

Leo continuava ali, ouvindo.

— Mas toda vez que eu achava que estava seguindo em frente… era o seu rosto que eu via. Era você que eu procurava. Nos sorrisos, nos olhares, no jeito que alguém falava ou ria… Eu tentei encontrar você em todo mundo, e nunca encontrei.

Leo finalmente virou o rosto, os olhos cravando nos de Eduardo com intensidade. Mas ele não disse nada.

Eduardo respirou fundo, o peito apertando como se estivesse sendo esmagado por anos de arrependimento.

— Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente. — Sua voz era um sussurro agora, carregado de dor. — Eu nunca teria te tratado daquele jeito. Não teria te deixado para trás, não teria fugido como um covarde.

Leo apertou os lábios e desviou o olhar, tragando o cigarro de novo, como se precisasse de um instante para absorver aquilo.

— Eu sinto muito. — Eduardo murmurou, sentindo a garganta fechar. — Por tudo. Por cada palavra cruel, por cada vez que eu te machuquei, por cada noite que você deve ter passado se perguntando o que fez de errado quando o problema sempre foi eu.

Leo tragou mais uma vez e soltou a fumaça devagar, sem pressa. Então, sem olhar diretamente para Eduardo, perguntou:

— Como você me encontrou?

Eduardo piscou, pego de surpresa com a pergunta. Respirou fundo, decidindo que não fazia sentido mentir.

— Eu fui até a fazenda. — Ele confessou, a voz ainda embargada. — Falei com o Gustavo, com a Mariana… tomei café com a sua mãe.

Leo finalmente olhou para ele. Dessa vez, seus olhos carregavam um brilho diferente, uma mistura de surpresa e algo que Eduardo não soube identificar.

— Você foi até a fazenda? — Leo repetiu, como se estivesse tentando encaixar as palavras na própria mente.

Eduardo assentiu devagar.

— Sim. — Ele parou, engolindo seco.

O silêncio entre eles se tornou pesado. O tipo de silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.

Eduardo abaixou a cabeça, respirando com dificuldade, sentindo as lágrimas voltarem sem que pudesse controlar. Não chorava de soluçar, mas os olhos se enchiam até que as lágrimas caíam sozinhas. Ele enxugou o rosto apressadamente, tentando se recompor, mas era inútil.

Leo observou por um instante.

Apertou o maxilar.

Apagou o cigarro no cinzeiro improvisado e jogou a bituca fora, sem pressa. Eduardo continuava parado ali, os olhos vermelhos, as lágrimas ainda marcando seu rosto.

Leo suspirou, passando a língua pelos lábios antes de finalmente falar, a voz baixa, mas firme:

— Eu acho que... o que passou, passou, Eduardo.

Ele fez uma pausa. Uma hesitação quase imperceptível.

Foi um instante minúsculo, mas Eduardo percebeu. O jeito que Leo segurou o maço de cigarros um pouco mais forte. O leve franzir de testa. O resquício de algo naqueles olhos cor de mel, um vestígio de dúvida, de lembrança, de saudade sufocada.

Por um segundo, parecia que Leo queria acreditar que talvez, só talvez, houvesse algo a ser consertado.

Mas então, como se tomasse consciência do próprio pensamento, ele se fechou novamente. Piscou rápido, como se afastasse qualquer resquício de emoção, e sua expressão endureceu outra vez.

— Nada do que você disser vai mudar o que aconteceu. — Concluiu, agora com mais firmeza.

E sem esperar resposta, virou as costas e entrou novamente no bar.

Eduardo ficou ali, sozinho no frio da noite, sentindo que por mais que tentasse, por mais que dissesse qualquer coisa, talvez nunca fosse capaz de consertar aquilo.

Ou pior.

Talvez Leo não quisesse que ele consertasse.

Eduardo ficou ali por mais alguns minutos, tentando recuperar o fôlego. Passou as mãos pelo rosto, limpando as lágrimas apressadamente, forçando-se a respirar fundo. Não adiantava nada se deixar levar pela emoção agora. Ele precisava se recompor.

Precisava fingir que nada tinha acontecido.

Quando finalmente se sentiu pronto, voltou para dentro do bar.

O ambiente parecia mais barulhento agora, ou talvez fosse apenas sua cabeça zunindo. As vozes misturavam-se à música alta, as risadas ecoando pelo espaço. Ele procurou seu lugar discretamente, tentando não chamar atenção.

Mas então, seu olhar encontrou Leo.

E o peito apertou com força.

Leo estava nos braços de Diego.

O dramaturgo o segurava com a posse que sempre demonstrava. Um dos braços firmemente em volta da cintura de Leo, os dedos descansando na barra da camisa dele de um jeito quase casual, mas não era. Diego inclinou-se para dizer algo no ouvido de Leo, e este sorriu, um sorriso pequeno, mas real. Então, Diego riu e pressionou um beijo no canto da boca de Leo, como se quisesse deixar claro, para qualquer um que estivesse olhando, que Leo era dele.

E Eduardo estava olhando.

Ele sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

Era patético o quanto aquilo doía. O quanto aquilo o afetava. Mas não podia fazer nada. Não tinha esse direito.

Então, engoliu seco, desviou o olhar e voltou para sua mesa, pegando seu copo e virando um gole longo da bebida.

Se Diego queria marcar território, ele conseguiu.


◄☼►


Os dias de gravação passaram de forma intensa e cansativa. O sol castigava o campo, o cronograma apertado exigia esforço de todos, e a convivência forçada entre Eduardo e Leo tornava tudo ainda mais complicado.

Leo o evitava a qualquer custo. Se Eduardo estava em um lado da fazenda, Leo se ocupava no outro. Se precisavam se comunicar, era sempre pelo intermédio de Karina, Evandro ou Rafael. E Eduardo respeitou isso. Não forçou nada.

Mas foi difícil.

Quatro dias de gravação, quatro dias vendo Leo de longe, quatro dias de silêncio cortante.

Mesmo assim, Eduardo continuava acompanhando tudo de perto. No fundo, sabia que era só mais uma desculpa para ficar perto de Leo, para observá-lo quando ele achava que ninguém estava olhando. Para vê-lo em ação, focado, dedicado. Leo era bom no que fazia. Excelente. O brilho nos olhos dele ao capturar a imagem perfeita, o jeito que movia a câmera com precisão, tudo fazia Eduardo se lembrar de quem Leo sempre foi, e de tudo que ele perdeu.

Mas agora o trabalho no campo tinha acabado.

Era hora de voltar à rotina.