O Garoto Feito de Sol e Terra

8 Capítulo 8 — Nada Está Igual


Os dias seguintes na escola foram estranhos para Eduardo.

Antes, tudo parecia simples. Ele chegava, via Leo, Carla, Bruno e Davi, e tudo acontecia naturalmente: brincadeiras, conversas e risadas no recreio. Mas agora, mesmo depois do sorvete com Leo, algo parecia diferente.

Leo não o evitava, mas também não era o mesmo.

Ainda se falavam, ainda estavam no mesmo grupo, mas Eduardo percebia as diferenças sutis. O jeito que Leo às vezes ficava quieto demais. O olhar que desviava rápido quando o assunto da mudança de escola surgia.

Bruno e Davi também não deixavam o assunto morrer.

— Então, Eduardo, já, já tá estudando com os riquinhos né? — brincou Bruno, enquanto chutava uma pedra no caminho para a sala.

— E o uniforme deles é daqueles que você tem que usar gravata? — Davi riu.

Eduardo forçou um sorriso.

— Nem sei se vou mesmo…

— Ah, vai sim. Sua mãe quer, né? E mãe rica sempre consegue o que quer.

Davi disse aquilo sem maldade, mas Eduardo sentiu um gosto amargo na boca.

Ele olhou para Carla, esperando que ela o defendesse, mas ela apenas balançou a cabeça.

— Eles tão brincando, mas você sabe que tem um fundo de verdade nisso, né?

Eduardo suspirou.

— Vocês acham que eu quero isso?

— Não sei. Mas você também não tá fazendo nada pra mudar. — Carla disse, de forma objetiva.

Eduardo não respondeu.

Porque, no fundo, sabia que Carla estava certa.


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Naquela noite, depois do jantar, Eduardo decidiu fazer algo que nunca fazia: questionar seu pai.

Ele encontrou Frederico Castilho no escritório de casa, sentado atrás de uma mesa de madeira maciça, lendo alguns documentos.

Eduardo respirou fundo e entrou.

— Pai, posso falar com você?

Frederico ergueu os olhos e tirou os óculos, olhando para o filho.

— Claro. O que foi?

Eduardo se aproximou e ficou de pé ao lado da mesa.

— Eu queria falar sobre a escola.

Frederico ajeitou os papéis e cruzou os braços.

— Ah, sim. Sua mãe está resolvendo isso. Logo, logo tudo estará certo.

Eduardo sentiu o coração acelerar.

— Mas e se… e se eu não quiser ir?

O rosto de Frederico não demonstrou surpresa.

— Como assim?

— E se eu quiser continuar na escola onde estou? Eu gosto de lá. Gosto dos meus amigos.

Frederico permaneceu em silêncio por um momento, depois riu baixo.

— Eduardo, essa conversa não faz sentido.

— Faz sim. Eu gosto da minha vida do jeito que tá. Por que mudar?

O sorriso do pai sumiu.

— Porque você não tem idade para saber o que é melhor para você.

Eduardo sentiu o rosto esquentar.

— Mas é a minha vida!

Frederico apoiou as mãos sobre a mesa, inclinando-se levemente para frente.

— E é justamente por isso que eu e sua mãe estamos tomando essa decisão. Você acha que sua vida vai ser sobre correr por aí com esses garotos, se sujar por aí e brincar de amigos para sempre?

— E se eu quiser? — Eduardo desafiou.

Frederico ergueu uma sobrancelha.

— Você acha que vai ter futuro ali? Que vai construir algo estudando naquela escola?

Eduardo sentiu um nó no estômago.

— Por que tem que ser sempre sobre o futuro? E o agora?

O pai suspirou, como se estivesse ficando sem paciência.

— Porque o agora não importa. Você não vai ficar nessa escola para sempre, Eduardo. Você vai crescer, vai precisar de oportunidades melhores. Não vamos permitir que você jogue fora o que podemos te oferecer.

Eduardo fechou os punhos.

— E se eu for infeliz?

Frederico cruzou os braços.

— Então um dia você vai entender que ser feliz nem sempre é o mais importante.

O peso daquelas palavras caiu sobre Eduardo como um soco no peito. Ele sentiu que não adiantava mais insistir.

Sem dizer mais nada, virou as costas e saiu do escritório, fechando a porta atrás de si. Pela primeira vez na vida, sentiu uma vontade absurda de simplesmente… desaparecer.


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Os dias se passaram, e Eduardo ainda sentia o peso da conversa com o pai. Ele sabia que não adiantaria insistir. Sua vida estava mudando, quer quisesse ou não.

Mas, surpreendentemente, algo aconteceu que fez essa mudança parecer menos dolorosa.

Leo voltou a agir como antes.

Não houve uma conversa séria, nenhum pedido de desculpas ou esclarecimento profundo. Apenas… aconteceu.

No dia seguinte à discussão com o pai, Eduardo chegou na escola e viu Leo já sentado no degrau da entrada, mastigando um pedaço de pão que provavelmente pegara na cozinha antes de sair de casa.

Eduardo hesitou, esperando alguma reação diferente, mas Leo apenas olhou para ele e balançou a cabeça.

— Você dorme demais. Achei que não vinha hoje.

Eduardo piscou, surpreso com a naturalidade.

— Ué…

— Tá esperando o quê? Vamos logo antes que a Carla encha o saco porque a gente tá atrasado.

E foi assim.

Leo simplesmente voltou a ser Leo.

Ao longo dos dias seguintes, Eduardo percebeu que seu amigo parecia ter desistido de se afastar. Claro, ainda havia momentos em que o clima ficava estranho, mas eles voltaram a fazer tudo juntos como antes.

Se Leo ainda sentia algo sobre a mudança de Eduardo, ele não falava. Talvez tivesse entendido que se distanciar era pior para ele também.

Afinal, Eduardo ainda era seu melhor amigo.

Leo não tocava no assunto da escola particular, não cobrava respostas e não mostrava ressentimento.

Apenas… estava ali.

Na hora do recreio, Leo voltava a sentar do lado dele como sempre fazia.

— Você viu que a dona Cecília trocou a merenda hoje? Tem bolo de cenoura. Mas eu tô achando que aquele chocolate dela tá vencido. Estava meio estranho.

Eduardo riu.

— E você comeu mesmo assim, né?

— Óbvio. Mas se eu morrer envenenado, fala pra minha mãe que eu vivi intensamente.


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Leo voltou a puxá-lo para as corridas no pátio depois da aula, apostando quem chegava primeiro no portão da escola.

— Se você ganhar, te pago um pastel na vendinha do Seu Zé.

— E se eu perder?

— Você paga pra mim, oras.

— Mas isso não é justo! Eu sempre perco!

— Ué, a vida não é justa, Eduardo. Agora corre!

E, como sempre, Eduardo acabava pagando o pastel.

E assim as coisas pareciam terem voltado ao normal.

Havia momentos em que Eduardo percebia Leo mais calado do que o normal, os pensamentos perdidos em outro lugar. Mas Leo nunca perguntava nada. E Eduardo nunca forçava.

Era como se Leo tivesse chegado à conclusão de que era melhor aproveitar o tempo que tinham do que perder mais tempo se afastando.

E Eduardo era grato por isso.


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As semanas passaram rápido.

O fim do ano letivo se aproximava, e com ele, a resposta que Eduardo não queria receber.

Naquela tarde, quando chegou em casa, sua mãe o chamou até a sala.

Ela estava sorrindo, e Eduardo soube na hora.

— Eduardo, temos boas notícias.

O coração dele bateu mais rápido.

— Sua vaga foi confirmada. Você começará o sexto ano na escola particular no próximo semestre.

Foi dito de forma tão simples. Como se não fosse uma mudança enorme.

Eduardo sentiu o estômago revirar.

Ele não respondeu. Apenas assentiu e subiu para o quarto, sem querer ouvir mais nada.

Na manhã seguinte, Eduardo chegou à escola sentindo um peso no peito. O calor do verão deixava o ar abafado, e o caminho até o pátio pareceu mais longo do que o normal.

Ele sabia que precisava contar. Não queria que seus amigos descobrissem de outra forma.

Assim que encontrou o grupo no canto de sempre, sentiu o coração acelerar. Leo estava sentado no degrau da entrada, mexendo em um cadarço desamarrado. Bruno e Davi brincavam de equilibrar uma garrafa de água vazia na borda do banco, e Carla observava a cena com um olhar de tédio.

Eduardo respirou fundo.

— Gente…

Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para ele.

— Eu consegui a vaga.

O silêncio foi imediato.

O som do pátio, das crianças correndo e dos professores conversando ao longe, pareceu se afastar.

Davi foi o primeiro a reagir.

— Então… então é isso? Você vai embora?

Eduardo hesitou.

— Vou mudar de escola… mas isso não significa que eu tô indo embora de verdade.

Bruno suspirou e jogou a garrafa no chão.

— Significa sim, Eduardo. Você vai parar de estudar aqui, vai fazer outros amigos, vai viver outra vida. E a gente vai continuar aqui.

Carla cruzou os braços.

— A gente sabia que isso ia acontecer. Mas ainda assim… é uma droga.

Eduardo não disse nada e olhou para Leo.

Seu melhor amigo não disse nada de imediato.

Apenas ficou ali, com a expressão fechada, balançando levemente a perna, como se estivesse tentando organizar os próprios pensamentos.

Então, ele soltou um longo suspiro e balançou a cabeça.

— Então vamos ter que fazer uma despedida, né?

Eduardo piscou, surpreso.

— O quê?

— Você acha que vai sair daqui sem uma última bagunça? Sem um último dia nosso?

Bruno sorriu.

— Eu topo. Mas tem que ser algo grande.

— Muito grande. — Carla acrescentou.

Davi bateu palmas, animado.

— E tem que ter comida!

Eduardo sentiu um alívio enorme no peito.

Eles estavam chateados. Claro que estavam. Mas, pelo menos, ainda estavam ali.

E, por mais que tudo estivesse mudando, pelo menos essa despedida seria memorável.