O Garoto Feito de Sol e Terra

9 Capítulo 9 — Má Influência


O sol estava forte sobre a fazenda dos Souza. O verão tornava tudo mais seco, e o cheiro de terra misturado ao capim recém-cortado pairava no ar. Leo passava a enxada pelo chão do terreiro, revirando a terra endurecida.

O suor escorria por sua testa, mas ele quase não percebia. Seus pensamentos estavam longe dali.

Eduardo iria embora.

Ele sabia que isso aconteceria. Sempre soube. Mas agora que era oficial, o peso da realidade se instalava de um jeito diferente.

Desde que Eduardo deu a notícia na escola, Leo tentava não pensar muito nisso. Tentava agir como se não fosse nada, como se estivesse tranquilo. Mas a verdade era que ele não estava.

Porque, por mais que não quisesse admitir, essa mudança o incomodava mais do que deveria.

Ele empurrou a enxada com mais força contra o chão e soltou um longo suspiro.

Foi então que ouviu a voz da mãe, Rita, vindo da varanda.

— Leo, já chega com isso por agora. Entra pra beber água, menino.

Leo largou a enxada e caminhou até a casa. Pegou o copo de alumínio que sua mãe entregou e virou quase tudo de uma vez.

Rita cruzou os braços e o observou com atenção.

— O que tá pegando, hein?

Leo colocou o copo no balcão e evitou o olhar dela.

— Nada.

— Nada, né? — ela estreitou os olhos. — Desde ontem tá com essa cara de peixe morto.

Leo bufou e passou a mão no rosto.

— É que... O Eduardo conseguiu a vaga na escola particular.

Rita assentiu devagar.

— Ah… então é isso.

Leo se encostou na mesa.

— Eu sabia que isso ia acontecer. Mas sei lá. Agora parece diferente.

Rita pegou um pano de prato e começou a dobrá-lo com calma.

— E o que tem de tão diferente?

Leo franziu a testa.

— Ele vai sair da escola, mãe. Não vai ser a mesma coisa.

— Mas ele vai continuar na cidade, não vai?

— Sim, mas…

Rita suspirou, largando o pano.

— Mas nada, menino. Eduardo sempre tá por perto. Não é porque vai estudar em outro lugar que vai sumir do mapa.

Leo cruzou os braços, olhando para o chão.

— Sei lá… parece que ele tá indo pra um mundo que não tem espaço pra mim.

Rita olhou para o filho com um sorriso de canto.

— E quem te disse isso? Eduardo? Ou essa coisa aí na sua cabeça que te faz sempre esperar o pior?

Leo mordeu o lábio, sem saber como responder. Rita se aproximou e colocou a mão no ombro dele.

— Olha, filho… eu sei que você e Eduardo são como unha e carne. Mas amizade não some porque alguém muda de escola. Você tá fazendo um drama à toa.

Leo bufou.

— Não é drama…

— É sim. — Ela apertou de leve seu ombro. — Você só não quer admitir.

Leo ficou em silêncio. Rita sorriu, dando um tapinha no braço dele e voltando para a cozinha.

Leo ficou ali por um tempo, olhando para o chão de madeira.

Talvez sua mãe estivesse certa. Talvez ele estivesse exagerando.

Mas, ainda assim, ele não conseguia se livrar daquela sensação estranha no peito. Porque, no fundo, ele sabia que algo realmente mudaria.


◄☼►


Leo não planejou ir até a casa de Eduardo.

Ele simplesmente pegou a bicicleta depois do almoço e pedalou até lá, como sempre fazia quando queria passar o tempo. Queria conversar, jogar videogame, talvez até provocar Eduardo sobre alguma coisa aleatória.

Queria apenas… estar lá.

Mas assim que chegou na porta da casa dos Castilho e bateu, soube que aquela não era uma casa onde ele podia entrar tão livremente quanto Eduardo entrava na fazenda.

Quem atendeu foi Helena Castilho.

Ela ergueu as sobrancelhas, visivelmente surpresa ao ver Leo ali.

— Oh. Leo.

— Oi, dona Helena. O Eduardo tá aí?

Helena hesitou por um segundo, avaliando-o de cima a baixo. Os pés descalços sobre o chinelo de borracha, as roupas levemente sujas de poeira da estrada.

— Ele está lá em cima. Mas antes de entrar… — ela apontou para os pés dele com um sorriso tenso — poderia tirar o chinelo, por favor? Acabei de mandar limpar a sala.

Leo olhou para os próprios pés e depois para Helena. Não era a primeira vez que via um olhar assim.

Mas, em vez de contestar, apenas assentiu.

— Claro.

Ele tirou os chinelos e os deixou ao lado da porta.

Helena deu um passo para o lado, abrindo espaço para que ele entrasse.

A casa era grande e organizada. O piso brilhava, os móveis eram impecáveis, e o cheiro de algum perfume caro pairava no ar.

Leo sempre achava aquele lugar um pouco… frio.

Não que não fosse bonito, mas diferente da fazenda, onde tudo parecia vivo e movimentado, ali tudo era limpo e meticulosamente no lugar.

Helena cruzou os braços e o observou por um instante antes de falar:

— Está com fome? Quer alguma coisa para comer?

A oferta foi dita de maneira quase automática, como se fizesse parte de um protocolo de hospitalidade que ela se sentia obrigada a seguir.

— Não, estou bem, obrigado. — Leo respondeu educadamente.

Helena apenas assentiu, mas, por um momento, pareceu observá-lo com mais atenção.

Havia algo em Leo que a fazia sentir um misto de simpatia e preocupação.

Por um lado, ele era educado, não falava de forma rude, nem parecia desrespeitoso. Mas, por outro, não era exatamente o tipo de amigo que ela queria para Eduardo.

Leo crescia sem tantas regras, sem uma visão concreta sobre o que era um “bom futuro”. Ele andava descalço. Comia qualquer coisa sem frescura. Não se importava com formalidades.

E, no fundo, Helena temia que Eduardo se apegasse demais a esse estilo de vida. Para ela, Leo era, de certa forma, uma má influência. Não porque fosse um garoto ruim, mas porque representava tudo o que ela tentava afastar do caminho do filho. Alguém que não via a necessidade de seguir um plano estruturado para a vida. Alguém que, se não tivesse sorte, poderia passar o resto dos anos apenas trabalhando duro na fazenda, esperando as coisas acontecerem.

E ela não queria isso para Eduardo.

Respirando fundo, ela chamou o filho.

— Eduardo! O Leo está aqui!

Poucos segundos depois, passos apressados soaram no andar de cima, e Eduardo desceu as escadas rapidamente.

— Leo? O que você tá fazendo aqui?

Leo deu de ombros.

— Nada. Só vim passar o tempo.

Eduardo sorriu.

— Vem, vamos lá pro meu quarto.

Leo assentiu e os dois subiram as escadas. O quarto de Eduardo era espaçoso e bem organizado, com prateleiras cheias de livros e uma mesa de estudos impecável. Mas o que mais chamava a atenção de Leo era o videogame ligado à TV.

— Tá jogando o quê? — ele perguntou, jogando-se na cama de Eduardo sem cerimônia.

— Nada. Podemos jogar qualquer coisa juntos.

Eduardo pegou dois controles e jogou um para Leo, que o pegou no ar. Eles passaram um tempo jogando, xingando um ao outro pelas derrotas, rindo das jogadas ridículas e esquecendo momentaneamente qualquer diferença entre seus mundos.

Mas depois de algumas partidas, Leo olhou para a janela, onde o sol brilhava alto no céu.

— Tá quente hoje. Vamos dar uma volta?

Eduardo concordou sem pensar duas vezes. Ficarem presos no quarto não parecia a melhor ideia quando lá fora havia toda uma cidade esperando por eles.

Descendo rapidamente as escadas, passaram pela sala onde Helena ainda estava.

— Vamos sair um pouco. — Eduardo avisou.

Helena ergueu os olhos do livro que estava lendo, hesitou por um momento, mas apenas assentiu.

— Não voltem tarde.

E então eles saíram, deixando para trás o ambiente meticulosamente organizado da casa dos Castilho e entrando no calor vibrante das ruas de São Tomás.

Eduardo e Leo caminharam lado a lado, o sol forte batendo no chão de paralelepípedos. O ar quente fazia ondulações na estrada, e algumas pessoas se abrigavam sob as sombras das árvores para fugir do calor.

Leo chutou uma pedrinha no caminho, despreocupado.

— Sua mãe ficou com aquela cara de quem queria perguntar “você não tem casa?”

Eduardo riu.

— Ela só não esperava te ver lá.

— É, deu pra perceber. Achei que ela ia me fazer passar por um detector de sujeira antes de entrar.

Eduardo balançou a cabeça, mas sabia que Leo não estava errado.

Quando chegaram à vendinha do Seu Zé, o sininho da porta tilintou assim que entraram. O cheiro de óleo quente e pastel recém-frito invadiu o ar, misturado ao aroma familiar de bala de hortelã e café passado na hora.

Seu Zé, um senhor de cabelo ralo e óculos enormes, estava atrás do balcão, anotando alguma coisa em um caderno surrado. Assim que viu os garotos, abriu um sorriso.

— Ora, ora! Olha quem veio gastar dinheiro aqui hoje!

— A gente só gasta porque sua comida é boa, Seu Zé. — Leo respondeu, se apoiando no balcão. Ele pegou uma moeda do bolso e jogou na mesa.

— Dois pastéis de carne e dois copos de caldo de cana.

Seu Zé pegou a moeda e olhou para eles.

— E quem disse que vai ter fiado se não pagarem o resto?

Leo revirou os olhos e pegou mais algumas moedas do bolso.

— Aí, pronto. Agora libera a comida.

O senhor riu e caminhou até a chapa para preparar o pedido.

Os dois garotos sentaram em um dos bancos altos do balcão e ficaram observando o movimento da vendinha. Algumas pessoas entravam para comprar pão ou pegar fiado no caderninho do Seu Zé. O ventilador no teto girava devagar, mas não ajudava muito contra o calor.

Leo olhou para Eduardo enquanto batucava os dedos no balcão.

— Sabe, sua mãe me trata direitinho. Mas eu acho que, no fundo, ela não gosta muito de mim.

Eduardo bufou.

— Ela não tem problema com você. Ela só tem… preocupações.

— Preocupações. — Leo repetiu, rindo de leve. — Tipo eu ser uma má influência?

Eduardo não respondeu.

Leo sorriu e se inclinou no balcão.

— Se for isso, relaxa. Eu só sou uma péssima influência no futebol e quando aposto corrida. De resto, sou um cidadão exemplar.

Eduardo riu, mas sentiu um peso no peito. Leo não parecia magoado, mas o fato de ele ter percebido o incomodou.

Seu Zé colocou os pastéis e os copos de caldo de cana na frente deles.

— Aí está. Cuidado pra não queimarem a boca.

Leo pegou o pastel e soprou antes de dar uma mordida exagerada.

Eduardo fez o mesmo e fechou os olhos por um instante.

O sabor quente e crocante do pastel, o caldo de cana gelado escorrendo pela garganta, o barulho da vendinha movimentada ao redor… tudo ali parecia tão comum, tão normal.

A vendinha do Seu Zé sempre tinha aquele cheiro reconfortante de comida frita e conversa fiada, um lugar que fazia parte da sua rotina, da sua vida.

Ele olhou para Leo, que devorava o pastel com a empolgação de sempre, os cotovelos apoiados no balcão e os pés balançando despreocupadamente.

Foi nesse instante que Eduardo percebeu algo.

Não importava para onde fosse.

Não importava o que sua mãe ou seu pai achassem.

Ele não ia abrir mão disso.

Não ia abrir mão daquela amizade. Do jeito descomplicado de Leo, das tardes na fazenda, das conversas sobre besteiras, das corridas, dos dias como esse, onde nada precisava ser explicado, apenas vivido. Se ir para a escola particular significava perder isso, então ele ia lutar para que não perdesse.

Porque, no fim do dia, amigos de verdade não se deixam para trás.

Eduardo sorriu para si mesmo, tomou mais um gole do caldo de cana e mordeu o pastel de novo.

— Que foi? — Leo perguntou, com a boca meio cheia.

Eduardo deu de ombros.

— Nada. Só pensando em como você parece um ogro comendo.

Leo revirou os olhos.

— E você parece um riquinho tentando parecer gente normal.

Eduardo riu.

E, naquele momento, soube que faria de tudo para manter aquilo.