O Garoto Feito de Sol e Terra
72 Capítulo 72 — O Vazio Que Não Some
O quarto de Eduardo estava escuro, as cortinas fechadas há dias. O cheiro de quarto fechado começava a incomodar, misturado com o cheiro de perfume e desodorante que ele borrifava sobre si sempre que precisava sair do quarto para evitar questionamentos. A tela do celular piscava vez ou outra, mas ele não tinha coragem de olhar.
As mensagens estavam lá. De Leo. De Tiago. De outros colegas.
Ele não tinha ido à escola nos últimos dias. Simplesmente não conseguia. A ideia de entrar naquele lugar e sentir os olhares, ouvir os cochichos, encarar Tiago, Kayla ou Samanta, era demais. Era como se todo o peso do mundo estivesse sobre ele.
Mas ele sabia que não poderia se esconder para sempre.
No quarto dia seguido de ausência, um toque forte na porta o fez despertar do transe.
— Eduardo! — A voz de sua mãe, Helena, soou do outro lado, carregada de impaciência. — Abre essa porta agora.
Eduardo apertou os olhos, sabendo que não poderia evitar aquilo por mais tempo. Levantou-se, os músculos rígidos pela falta de movimento, e destrancou a porta.
Helena entrou sem esperar convite. Os olhos varreram o quarto escuro com uma expressão de desaprovação.
— O que está acontecendo com você? — Ela cruzou os braços, estreitando os olhos. — Três dias sem ir pra escola? Você tá doente? Tá escondendo alguma coisa?
Eduardo abaixou os olhos, passando a mão pelo cabelo bagunçado.
— Eu só não quis ir, mãe.
— Não quis? — Ela repetiu, incrédula. — E desde quando você pode simplesmente não querer ir para a escola? Tá achando que a vida é essa moleza?
Ele suspirou, sentindo a impaciência dela crescer.
— E outra coisa… — Helena continuou, agora analisando o filho com olhos mais atentos. — Por que a Kayla não apareceu aqui esses dias? Vocês brigaram?
Eduardo sentiu um aperto no peito. Ele já devia ter esperado essa pergunta.
— A gente terminou. — disse, baixo, tentando soar indiferente.
Helena piscou algumas vezes, surpresa.
— Terminaram? Do nada?
— É, mãe. Terminamos. — Eduardo murmurou, desviando o olhar.
— E por quê?
— Porque sim.
Ela franziu o cenho, claramente insatisfeita com a resposta.
— Porque sim não é resposta, Eduardo. Você parecia gostar tanto dela…
Eduardo apertou os lábios, sentindo a paciência esgotar.
— A gente só terminou. — Disse firme, cortando qualquer possibilidade de continuar a conversa.
Helena suspirou fundo, como se ponderasse se insistia ou não. No fim, apenas balançou a cabeça, murmurando algo sobre "adolescentes dramáticos", antes de sair do quarto e bater a porta.
Eduardo soltou o ar lentamente, sentindo os ombros relaxarem um pouco, mas o alívio durou pouco.
O celular vibrava sobre a escrivaninha.
Ele sabia quem era.
A última ligação com Leo ainda ecoava em sua mente. A maneira como sua voz saiu amarga, como despejou toda a raiva nele, como desligou antes que Leo pudesse dizer qualquer coisa.
Ele não teve coragem de abrir as mensagens depois disso.
Agora, mais um alerta na tela.
Leo: eduardo, por favor, só me fala se vc tá bem
Eduardo respirou fundo.
Ele não queria responder. Não queria nem ler. Porque se lesse, teria que sentir. E sentir era a última coisa que queria agora.
Ele apertou o botão de desligar a tela e jogou o celular na cama.
Então decidiu fazer algo.
Algo impulsivo. Algo que calasse aquela porra de voz na sua cabeça.
Ele não sabia ao certo onde ia, só sabia que não podia passar aquela noite ali, sozinho no quarto novamente.
Então mandou mensagem para Vinicius, um conhecido que já havia terminado o ensino médio na escola particular, um cara que sempre sabia onde estavam rolando as festas da cidade.
Eduardo: e aí cara
Eduardo: onde tem rolê hoje?
A resposta veio rápida.
Vinicius: E aí mano
Vinicius: Casa do Douglas. Open bar. Gente nova. Cola aí.
Era exatamente o que ele precisava.
◄☼►
O lugar estava lotado. Música alta, fumaça de cigarro no ar, risadas espalhadas pelos cantos. Eduardo pegou o primeiro copo de bebida que encontrou e virou sem pensar. O álcool desceu queimando, mas ele não se importou. Pegou outro. E outro.
Ele queria apagar qualquer resquício de pensamento.
Queria esquecer.
Esquecer Leo. Esquecer Kayla. Esquecer Tiago. Esquecer Samanta. Esquecer o peso sufocante que carregava no peito.
Uma garota se aproximou. Morena, olhos brilhantes, sorriso fácil. Ele não hesitou. Passou o braço pela cintura dela, puxando-a para perto. O cheiro do perfume dela se misturava ao álcool, à fumaça, ao gosto amargo da culpa que ele tentava ignorar.
Ele a beijou.
Forte. Com pressa. Como se quisesse provar algo para si mesmo.
Ela riu contra os lábios dele, puxando-o ainda mais para perto. Mas Eduardo já se desligava. O beijo era mecânico. O toque dela não provocava nada além de um incômodo.
Ele abriu os olhos no meio do beijo. Não era suficiente. Não era o bastante.
Se afastou dela sem dizer nada e pegou mais bebida.
Outro gole. Outro beijo. Outra garota. Dessa vez, loira, olhos claros, risada fácil. Ele segurou seu rosto com firmeza, aprofundou o beijo, tentou se convencer de que estava gostando daquilo.
Mas a sensação era a mesma.
Vazia.
E então outra. E outra. Cada nova boca, cada novo corpo encostando no seu, e nada preenchia o que faltava.
Ele queria se perder, mas tudo o que conseguia era se afundar ainda mais.
O álcool já pesava no estômago, misturado ao gosto amargo de arrependimento. As mãos estavam trêmulas, não de desejo, mas de frustração.
Eduardo se afastou do grupo, sentindo a cabeça girar. O barulho da festa, que antes parecia uma distração, agora era insuportável. Tudo ecoava em sua mente, vozes distorcidas, risadas vazias.
Saiu tropeçando até a rua, o ar frio da noite batendo contra seu rosto quente. Encostou-se a um muro, fechando os olhos por um instante.
O celular vibrou no bolso.
Ele o pegou, ainda zonzo, e olhou a tela.
Leo: edu… para de fugir
O coração de Eduardo pulou no peito.
Era como se Leo soubesse exatamente o que ele estava fazendo.
A bebida não ajudava. As garotas não ajudavam. Nada ajudava. Porque, no fundo, ele sabia. Ele estava fugindo.
Mas não importava o quanto corresse, o vazio sempre o alcançava.
Eduardo sentiu o peito apertar ao reler a mensagem de Leo. O peso da noite, das escolhas impulsivas, da bebida queimando em seu estômago, tudo o atingiu de uma vez.
Ele respirou fundo, tentando acalmar o nó sufocante na garganta. Tentando fingir que não sentia nada. Mas a verdade era que sentia.
E sentia muito.
Sem pensar, desligou o celular e enfiou-o no bolso. Ele só queria desaparecer.
Se afastou da festa, os passos pesados contra o asfalto, a mente girando entre culpa e desespero.
A rua estava vazia. O vento frio chicoteava sua pele quente, mas ele mal sentia.
Tudo dentro dele estava errado.
Ele pegou um táxi e foi para casa. Durante o trajeto, encostou a cabeça na janela, os olhos ardendo. Não conseguia apagar da mente as bocas que beijou, as risadas, o jeito que tentou se perder em algo que não tinha significado nenhum.
Ele se sentia muito mal.
Assim que entrou em casa, subiu direto para o quarto, sem se preocupar em ser silencioso. A porta se fechou atrás dele com um baque surdo. O cheiro de bebida ainda estava impregnado em suas roupas.
Eduardo caiu na cama, o peito apertado, e antes mesmo de conseguir se controlar, as lágrimas começaram a cair.
Ele odiava aquilo. Odiava ser assim.
Odiava o jeito que tudo parecia fugir do seu controle.
O jeito que, não importava o quanto tentasse fugir, sempre acabava voltando para o mesmo lugar.
Para o mesmo nome.
Leo.
O choro foi ficando mais forte, os soluços quebrando o silêncio do quarto. Ele enterrou o rosto nas mãos, tentando sufocar os sons, mas era inútil.
A culpa o esmagava.
Ele pegou o celular. As mãos tremiam enquanto desbloqueava a tela. Procurou o nome de Leo e, antes que pudesse hesitar, apertou para ligar.
Chamou. Chamou. Chamou.
E então, do outro lado da linha:
— Edu? — A voz de Leo veio sonolenta, confusa.
Eduardo não conseguiu responder de imediato. Fechou os olhos, tentando engolir o choro, mas falhou.
— Desculpa, Leo… — Ele murmurou, a voz embargada.
Do outro lado da linha, Leo ficou em silêncio por um momento.
— Edu, o que aconteceu? — Leo perguntou, agora mais desperto.
Eduardo passou a mão pelo rosto, tentando limpar as lágrimas, mas elas só continuavam escorrendo.
— Eu fui um merda com você, Leo. — Sua voz saiu falha, carregada de culpa. — Eu te ignorei, te tratei mal… eu descontei tudo em você e você não merecia.
Leo suspirou do outro lado da linha.
— Edu…
— Não, me deixa falar. — Eduardo interrompeu, sentindo a garganta apertar. — Eu só… eu tava com tanta raiva, cara. Eu tava puto com tudo, com o que aconteceu na escola, com o que falaram, com a merda toda que virou minha vida. E, em vez de lidar com isso direito, eu… eu fui covarde. Eu joguei tudo em cima de você.
Leo ficou em silêncio por um instante, apenas ouvindo.
— Eu só queria que você me odiasse também. — Eduardo continuou, a voz embargada. — Porque todo mundo já me odeia. Porque eu não consigo lidar com tudo isso e eu não sei o que fazer.
— Eu nunca te odiei, Eduardo. — A resposta veio firme, e Eduardo sentiu o peito apertar ainda mais.
Ele engoliu em seco, sentindo um nó apertado na garganta.
— Eu… eu não sei por que você ainda tá aqui. — Sua voz saiu fraca, hesitante. — Eu fiz tudo errado, Leo. Eu fui um idiota, um…
— Eduardo. — Leo interrompeu, sua voz suave, mas firme.
Eduardo fechou os olhos, sentindo o peito subir e descer em um ritmo descompassado.
— Me desculpa. — Ele repetiu, num sussurro quase inaudível.
Do outro lado da linha, Leo soltou um suspiro longo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Você bebeu?
Eduardo hesitou por um instante antes de responder:
— Sim.
Leo ficou em silêncio por um momento, e Eduardo imaginou o jeito que ele provavelmente fechava os olhos e passava a mão no rosto, exausto.
— Vai dormir, Edu. — Leo disse.
Eduardo ficou quieto por um instante, apenas ouvindo a respiração de Leo do outro lado da linha. Havia algo reconfortante naquilo, algo que fazia ele se sentir um pouco menos perdido.
— Boa noite, Leo.
Leo hesitou por um segundo antes de responder, a voz mais baixa, quase um sussurro.
— Boa noite.
A ligação caiu, e Eduardo ficou ali, segurando o celular, encarando a tela sem saber exatamente o que sentir.
Mas, pela primeira vez naquela noite, o vazio não parecia tão grande.
Fale com o autor