O Garoto Feito de Sol e Terra

68 Capítulo 68 — O Que Somos Quando Ninguém Está Olhando


Eduardo já tinha tentado puxar conversa algumas vezes durante a semana, mas Leo sempre respondia de forma curta, direta, sem se estender muito. Ele sabia que Leo ainda estava magoado, e com razão. As coisas entre eles estavam se tornando cada vez mais complicadas, e por mais que Eduardo tentasse fingir normalidade, a verdade era que não havia nada normal no que estavam vivendo.

Mas ele sentia falta. Sentia falta de estar com Leo sem precisar discutir, sem brigar, sem as conversas terminarem de forma amarga. Então, naquela tarde, ele decidiu tentar mais uma vez.

Pegou o celular e digitou:


Eduardo: bora fazer alguma coisa hj?


Leo visualizou rápido, mas não respondeu de imediato. Eduardo ficou encarando a tela, esperando. Depois de uns minutos, a resposta veio:


Leo: n tô afim


Eduardo suspirou. Já esperava essa reação.


Eduardo: pô, leo… a gente precisa sair um pouco, se distrair


Leo demorou um pouco mais para responder.


Leo: n sei


Eduardo sabia que precisava insistir um pouco mais.


Eduardo: a gente pode ir no cinema. lançou aquele filme de super-herói que vc gosta

Leo: nem gosto tanto assim


Eduardo riu, porque sabia que era mentira.


Eduardo: fala isso pra vez que vc quase brigou com um cara porque ele falou mal do filme do homem aranha

Leo: vai se foder


Eduardo soube que estava quase conseguindo.


Eduardo: vem, leo. sem pressão. só um filme e pipoca. vamos de bike


Leo ficou online, mas não respondeu.

Eduardo esperou, esperou… até que finalmente a mensagem chegou:


Leo:

Leo: mas se for chato, vou embora no meio


Eduardo sorriu.


Eduardo: prometo q vc vai gostar


Ele nem sabia se o filme seria tão bom assim, mas isso não importava. O que importava era que, por algumas horas, eles podiam fingir que tudo estava bem.


◄☼►


Eduardo esperava por Leo do lado de fora do shopping, com as mãos enfiadas nos bolsos, balançando o pé no chão sem perceber. Ele já tinha começado a se perguntar se Leo realmente viria quando o viu se aproximando.

Leo estava de moletom e calça jeans, os cabelos bagunçados pelo vento, o rosto carregando aquela expressão fechada que Eduardo conhecia bem demais.

— Você veio mesmo — Eduardo comentou, esboçando um sorriso hesitante.

Leo parou na frente dele, soltando um suspiro.

— Tô aqui, né? — murmurou, cruzando os braços. Depois, desviou o olhar por um segundo antes de soltar, num tom que beirava a provocação: — Agora me diz… o que você disse pra sua namorada dessa vez?

Eduardo piscou, sentindo o peito apertar. Ele abriu a boca para responder, mas hesitou.

Leo ergueu as sobrancelhas, esperando.

Eduardo suspirou, passando a língua pelos dentes antes de responder.

— Oi pra você também, Leo.

— Não enrola. O que você disse?

— Que ia sair com o pessoal.

Leo arqueou uma sobrancelha.

— E eu sou "o pessoal" agora?

— Puta que pariu… para de ser chato e vamos logo.

Ele segurou no braço de Leo e o puxou para dentro do shopping. Leo foi sem resistência, mas sua expressão ainda carregava um pouco de relutância.

Enquanto Eduardo comprava os ingressos, Leo olhava ao redor, sem muita empolgação.

— Homem formiga? Sério? — Leo perguntou, olhando para o painel digital.

— Você gosta, não gosta?

Leo deu de ombros.

— Tanto faz.

Eduardo sorriu. Ele já conhecia esse "tanto faz" de Leo. Sabia que ele estava tentando parecer indiferente, mas no fundo, gostava da ideia de estar ali.

Eles entraram na sala e se acomodaram nas cadeiras. O filme começou, e Eduardo percebeu que Leo, aos poucos, foi relaxando. Ele estava ali. E isso já era o suficiente.

Mas a verdade era que Eduardo não estava tão interessado no filme. De vez em quando, desviava o olhar para Leo, observando-o de soslaio. O brilho da tela refletia nos olhos dele, e ele pensou em como Leo ficava lindo concentrado.

E então, sem pensar muito, se inclinou e deu um beijo rápido na bochecha de Leo.

Leo se sobressaltou e o olhou de canto de olho.

— O que você tá fazendo? — murmurou, tentando parecer irritado, mas sem sucesso.

Eduardo apenas sorriu.

— Beijando você.

— Aqui?

— Tá escuro. Ninguém tá olhando.

Leo franziu o cenho e apertou os lábios, desviando o olhar para a tela, mas Eduardo conhecia bem aquele olhar. Ele não estava realmente bravo.

Minutos depois, Eduardo repetiu o gesto. Mas dessa vez, beijou o canto da boca de Leo, que não se afastou.

Leo suspirou, tentando focar no filme, mas a presença de Eduardo ao seu lado o desconcentrava completamente. Quando menos percebeu, Eduardo segurou seu queixo de leve e o puxou para um beijo mais demorado, escondido na escuridão da sala de cinema.

O gosto de Eduardo, misturado com o leve sal da pipoca, preencheu os sentidos de Leo. Ele cedeu, mesmo sabendo que não devia. Mesmo sabendo que, assim que saíssem dali, Eduardo voltaria para a namorada.

Mas, naquele momento, ele apenas deixou acontecer.


◄☼►


Os dois saíram da sala de cinema sem trocar muitas palavras. Caminhavam lado a lado pelo shopping, misturados à multidão que circulava entre lojas e praças de alimentação.

Eduardo estava inquieto. Leo, por outro lado, parecia distante, como se sua mente estivesse em outro lugar.

A verdade era que nenhum dos dois saberia dizer muito bem o que aconteceu no filme. Eles até tentaram prestar atenção no começo, mas bastou aquele beijo para que tudo desmoronasse.

O resto do tempo foi gasto entre mais beijos roubados no escuro, mãos deslizando discretamente sob a poltrona, respirações entrecortadas sempre que alguém passava perto demais. Não deviam estar fazendo aquilo. Não ali. Não assim.

Mas, como sempre, não souberam parar.

— Vem comigo — Eduardo disse de repente, segurando o braço de Leo.

Leo parou no meio do corredor, franzindo a testa.

— Pra onde?

— Só vem.

Leo hesitou por um segundo, mas acabou seguindo-o. O caminho foi silencioso. Passaram pelas portas automáticas do shopping e desceram uma pequena rampa em direção ao estacionamento subterrâneo.

O local estava quase vazio. Apenas alguns carros estacionados e algumas lâmpadas piscando no teto. O ambiente abafado fazia um contraste forte com o ar-condicionado gelado do shopping.

Eduardo andou até um canto mais reservado, perto de uma parede de concreto, e parou. Leo o encarou com desconfiança.

— O que foi? — perguntou, cruzando os braços.

Eduardo não respondeu. Apenas o puxou pela gola da blusa e o beijou.

Leo soltou um som surpreso contra os lábios dele, mas não o afastou. Pelo contrário. Depois de um segundo de hesitação, correspondeu ao beijo com a mesma intensidade, como se estivesse guardando aquele desejo há muito tempo.

Eduardo sabia que não deveria estar fazendo aquilo. Ele sabia que, se alguém visse, se alguém descobrisse, estaria ferrado. Mas, porra... ele não conseguia evitar.

Os lábios de Leo eram macios, urgentes. O beijo começou lento, mas logo se tornou mais intenso. Eduardo o pressionou contra a parede, segurando seu rosto com ambas as mãos. Sentia o cheiro dele, o calor do corpo dele, o jeito como Leo apertava sua camisa entre os dedos.

Era viciante.

Leo se deixou levar por alguns segundos, se entregando completamente ao toque, ao desejo que queimava entre os dois. Mas, de repente, a realidade bateu.

Ele virou o rosto, afastando-se um pouco.

— A gente não devia estar fazendo isso — murmurou, ofegante.

Eduardo encostou a testa na dele, os olhos fechados.

— Eu sei... — sua voz saiu baixa, quase um sussurro. — Mas eu não consigo parar.

Leo fechou os olhos com força, tentando ignorar o aperto no peito.

O silêncio caiu entre eles, pesado. Eduardo afastou-se um pouco, analisando o rosto de Leo, que ainda estava encostado contra a parede, respirando fundo.

Eduardo passou a língua pelos lábios, ainda sentindo o gosto de Leo.

— Você quer que eu pare? — perguntou, sua voz carregada de algo indefinido.

Leo apertou os olhos e, por um segundo, Eduardo achou que ele fosse dizer sim.

Mas ele não disse nada.

E, naquele silêncio, Eduardo soube a resposta.


◄☼►


O estacionamento subterrâneo continuava silencioso, apenas o zumbido das lâmpadas piscando preenchia o ambiente abafado. Eduardo beijou Leo de novo, agora com ainda mais fome, segurando firme sua cintura. Leo correspondeu, sua respiração acelerada, os dedos se prendendo à camisa de Eduardo.

A química entre os dois era inegável. O mundo poderia acabar ali mesmo, e Eduardo não se importaria, desde que pudesse continuar sentindo Leo daquela forma.

Mas, em um dos carros estacionados, Samanta estava sentada no banco do passageiro, esperando o pai voltar com um pacote de comida para que pudessem voltar para casa. Ela estava distraída com o celular, passando os stories do Instagram, quando um movimento pelo canto do olho chamou sua atenção.

Ela olhou pela janela, curiosa.

Do outro lado do estacionamento, meio escondidos na sombra de uma coluna de concreto, dois caras se beijavam. No começo, ela nem se importou. Mas então, ela focou melhor no rosto de um deles.

Seu estômago revirou.

Eduardo.

Samanta piscou algumas vezes, atordoada. Aquilo não fazia sentido. Eduardo era o namorado de Kayla, sua melhor amiga. Ele estava beijando... um garoto?

Seu coração disparou.

Ela olhou ao redor, como se precisasse de uma confirmação de que não estava alucinando. Mas não, era real. Eduardo estava ali, com aquele garoto que ela não reconhecia, completamente entregue ao beijo.

Samanta sentiu um nó apertar em sua garganta. Sua melhor amiga era completamente apaixonada por Eduardo. Ela confiava nele, acreditava no namoro deles. E ali estava ele, traindo-a descaradamente.

Seu choque logo se transformou em indignação.

Sem pensar duas vezes, pegou o celular com mãos trêmulas e ativou a câmera. Começou a gravar.

A lente focou nos dois, a luz fraca do estacionamento iluminando os rostos de Eduardo e do outro garoto. Eles estavam tão imersos um no outro que nem perceberam a presença dela ali.

Samanta mordeu o lábio, o coração martelando.

Ela precisava contar isso para Kayla.