O Garoto Feito de Sol e Terra
64 Capítulo 64 — Um Fim de Semana Só Nosso
O tempo foi passando, e de algum jeito, Leo e Eduardo encontraram uma maneira de continuar a se falar. Não que fosse fácil. Não que fosse certo. Mas depois da briga na fazenda, depois de tudo que foi dito e que doeu pra caralho, parecia que nenhum dos dois queria mais tocar no assunto. Então, ficaram ali, presos nessa teia invisível onde se falavam, se desejavam, se viam em segredo, mas sem nunca mencionar o óbvio: que aquilo era um inferno.
Leo não falava mais nada sobre isso para Carla, Davi ou Bruno. Evitava o assunto como se não existisse, porque sabia que, se dissesse em voz alta, teria que encarar a verdade. E a verdade era que ele e Eduardo estavam numa relação clandestina, cheia de culpa, cheia de medo, mas que nenhum dos dois conseguia largar.
Eduardo também fingia. Fingia que tudo estava sob controle, que sua vida seguia normalmente. Mas sabia que era mentira. Sabia que vivia para os poucos momentos que tinha com Leo.
E foi por isso que, algumas semanas antes do seu aniversário de dezessete anos, ele tomou uma decisão.
Ele queria um presente. Não algo material, não algo que sua família pudesse comprar. Mas algo só dele. Algo que não tivesse que dividir com ninguém.
Ele queria um fim de semana com Leo.
A ideia veio quase do nada, mas quando surgiu, não conseguiu tirá-la da cabeça. Poderia ser a praia de novo, mas… não. As lembranças estavam ali, e eram boas demais para serem revisitadas agora, ainda mais depois de tudo que aconteceu. Então, decidiu por outra coisa: um resort simples, numa cidadezinha de interior próxima. Nada chique, nada de ostentação, mas o suficiente para que pudessem ser só eles por dois dias.
Juntou o dinheiro da mesada, calculou os custos e fez a reserva.
Agora só faltava convencer Leo.
◄☼►
Era um dia qualquer, um fim de tarde na fazenda, e eles tinham acabado de se pegar no celeiro, num daqueles momentos onde o desejo falava mais alto do que o resto do mundo. Leo estava sentado no chão de terra batida, as costas apoiadas num fardo de feno, ainda recuperando o fôlego, enquanto Eduardo mexia distraidamente em um pedaço de palha, sentado ao lado dele.
O silêncio entre eles não era desconfortável. Na verdade, era o tipo de silêncio que só existia entre pessoas que já conheciam cada detalhe uma da outra.
Eduardo limpou a garganta, tentando não parecer nervoso.
— Você tem planos pra esse fim de semana?
Leo arqueou uma sobrancelha, sem muita pressa em responder.
— Não que eu saiba. Por quê?
Eduardo respirou fundo, tentando escolher bem as palavras.
— Quero sair daqui com você.
Leo franziu o cenho.
— Como assim?
— Ficar fora. Um fim de semana só nosso.
Leo se ajeitou, cruzando os braços, claramente desconfiado.
— Aonde?
— Um resort. Nada demais, nada caro. Só um lugar pra gente ficar de boa, sem precisar se esconder.
Leo ficou em silêncio por um instante, analisando Eduardo com aqueles olhos intensos que sempre pareciam ver além do que ele dizia.
— E a Kayla?
A pergunta foi um soco no estômago, mas Eduardo já esperava.
— Não vai ser um problema.
Leo soltou uma risada seca.
— Não vai ser um problema? Você vai sumir um fim de semana inteiro e não vai ser um problema?
Eduardo esfregou a nuca, já um pouco irritado.
— Eu dou um jeito, porra.
Leo desviou o olhar, mordendo o lábio inferior. Parecia lutar consigo mesmo, como se sua mente dissesse “não”, mas seu coração dissesse outra coisa.
Eduardo sabia que ele queria. Sabia que Leo estava morrendo de vontade de dizer sim, mas também sabia que a culpa e o medo estavam ali, como sempre.
— Olha, se você não quiser, tudo bem. — Eduardo tentou soar casual, mas sua voz saiu mais tensa do que gostaria. — Eu só achei que seria bom pra gente.
Leo fechou os olhos por um segundo, suspirando.
Eduardo esperou.
E então, finalmente, Leo abriu os olhos, encarou Eduardo e soltou, quase num sussurro:
— Tá bom.
Eduardo piscou, surpreso.
— O quê?
Leo bufou, como se já estivesse se arrependendo.
— Eu disse que tá bom, porra. — resmungou, mas um canto da boca se ergueu.
Eduardo revirou os olhos, mas sentiu o peito aquecer com a resposta.
Então, apenas segurou a mão de Leo, entrelaçando seus dedos aos dele, e ficou ali, sentindo a pele quente contra a sua.
Pelo menos por enquanto, isso bastava.
◄☼►
Inventar uma desculpa convincente para Kayla não foi fácil, mas Eduardo, com o tempo, se tornou bom nisso. Usou a carta da viagem em família, disse que seus pais queriam levá-lo para visitar parentes em outra cidade e que o sinal por lá era horrível, então talvez ficasse sem responder direito. Kayla aceitou sem questionar muito, e Eduardo sentiu um peso sair de seus ombros.
Mas a verdade era que o único lugar para onde ele queria ir era para aquele resort, com Leo.
Eles pegaram um ônibus logo cedo, enquanto a cidade ainda despertava. Eduardo sentou ao lado de Leo e, no começo, ficaram em silêncio, apenas ouvindo música nos fones de ouvido. Mas conforme o tempo passou, Eduardo começou a provocá-lo, cutucando sua perna de leve, mexendo no cabelo dele, até que Leo bufou e tirou um dos fones.
— O que foi?
Eduardo sorriu de canto.
— Nada. Só tô pensando que é engraçado como você tá todo sério aí fingindo que não tá ansioso.
Leo revirou os olhos, mas Eduardo percebeu o canto da boca dele se movendo em um quase sorriso.
— Eu não tô ansioso.
— Não?
Eduardo se aproximou, sussurrando só para ele:
— Porque eu tô morrendo de vontade de te beijar agora.
Leo revirou os olhos, olhando ao redor rapidamente para ter certeza de que ninguém tinha ouvido. Então, sussurrou de volta:
— Cala a boca.
Eduardo riu baixinho, satisfeito consigo mesmo.
◄☼►
Chegando ao resort, o lugar era ainda melhor do que Eduardo imaginava. Não era um resort luxuoso, mas era confortável, com uma piscina enorme, quadras esportivas e uma vista incrível para um lago cercado por árvores. O clima estava perfeito, quente, mas com um vento agradável.
E Leo estava lindo.
Não que isso fosse novidade, mas ali, sob o sol, com os cabelos bagunçados e a pele levemente corada pelo calor, ele parecia ainda mais impossível de ignorar.
Depois de deixarem as malas no quarto, foram explorar o lugar.
Eduardo provocava Leo o tempo todo, cutucando sua cintura quando ele menos esperava, jogando água nele na piscina e até roubando sua toalha quando saíram da água.
— Castilho, me devolve essa porra! — Leo exclamou, rindo enquanto tentava arrancar a toalha das mãos de Eduardo.
— Não. Quero ver você me pegar primeiro.
Leo cruzou os braços, estreitando os olhos.
— Se eu te pegar, você vai se arrepender.
Eduardo arqueou a sobrancelha, desafiador.
— É mesmo? Quero ver.
Leo avançou e, antes que Eduardo pudesse reagir, o puxou de volta para a piscina. Eduardo caiu com um grande splash, emergindo segundos depois com os cabelos grudados na testa e uma expressão surpresa.
Leo gargalhou.
— Acho que você aprendeu sua lição.
Eduardo passou a mão no rosto, rindo também, e então nadou até a borda, apoiando os braços ali.
— Tá rindo agora, mas espera só até a gente subir pro quarto.
Leo corou um pouco, desviando o olhar.
— Idiota.
◄☼►
Mesmo rodeados por outras pessoas, eles encontravam maneiras de ficar próximos. Quando ninguém estava por perto, Eduardo puxava Leo para um canto, segurava seu rosto e o beijava.
Na beira do lago, enquanto observavam a água cintilando sob o sol, Eduardo se inclinou e sussurrou contra a pele de Leo:
— Você é bonito demais, sabia?
Leo rolou os olhos, mas Eduardo sentiu o arrepio leve que percorreu seu corpo.
— Você fala isso pra todos os caras que traz escondidos pra resorts?
Eduardo riu, deslizando a mão pelas costas de Leo.
— Só pra você.
Leo o beijou de surpresa dessa vez. Foi rápido, mas intenso, e Eduardo sentiu seu corpo inteiro responder ao toque.
— Vamos pro quarto — Leo disse, a voz mais baixa, mais carregada.
◄☼►
Assim que a porta do quarto se fechou atrás deles, Eduardo não perdeu tempo.
Ele pressionou Leo contra a parede e o beijou com fome, com necessidade. Leo retribuiu na mesma intensidade, os dedos deslizando pela nuca de Eduardo, puxando seus cabelos de leve.
Os dois se moviam pelo quarto enquanto se beijavam, tropeçando levemente até caírem na cama, rindo contra a boca um do outro.
Eduardo puxou a camisa de Leo, jogando-a longe, e se debruçou sobre ele, explorando cada pedaço de pele com beijos demorados.
— Você me deixa louco — murmurou contra o pescoço de Leo.
Leo fechou os olhos, ofegante, os dedos cravando-se na pele de Eduardo.
A roupa foi desaparecendo, as carícias ficando cada vez mais urgentes, mais desesperadas. Quando finalmente se encaixaram, Eduardo se perdeu completamente em Leo.
Foi intenso.
Foi desesperado.
Foi como se estivessem tentando se fundir um no outro, como se aquele fosse o único lugar onde realmente pertenciam.
E naquela noite, sem culpa, sem medo, sem ninguém para fingir, Eduardo se permitiu amar Leo do jeito que sempre quis.
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