O Garoto Feito de Sol e Terra
62 Capítulo 62 — Dançando Com a Ilusão
Leo piscou algumas vezes, ainda meio grogue do sono, sentindo o calor ao redor do seu corpo antes mesmo de abrir os olhos completamente.
A lembrança da noite passada veio como uma onda quente e sufocante. O beijo, os toques, os sussurros, o prazer que queimava como fogo entre os dois.
E então, ele percebeu.
Eduardo estava atrás dele.
O braço forte o envolvia, a respiração tranquila batia contra a sua nuca, e seus corpos estavam encaixados de um jeito que fazia o peito de Leo apertar.
Ele estava sendo segurado, protegido, como se Eduardo nunca tivesse intenção de soltá-lo.
Por um instante, Leo fechou os olhos de novo.
Não queria sair dali.
Não queria pensar.
Só queria sentir.
Mas então, a realidade bateu. Ele não deveria estar ali.
O coração começou a bater mais rápido, a respiração ficou irregular.
Tentou se mexer devagar, mas Eduardo se apertou contra ele, instintivamente, como se seu corpo reconhecesse o de Leo até no sono.
— Hm… — Eduardo murmurou baixo, se ajustando, os lábios roçando de leve contra a pele do ombro de Leo.
Leo prendeu a respiração.
Porra.
Isso não era certo.
Mesmo que seu corpo inteiro gritasse para não sair dali, ele sabia que precisava.
Respirando fundo, ele tentou se afastar novamente, dessa vez com mais firmeza. O movimento fez Eduardo resmungar, ainda meio dormindo.
— Leo… — a voz saiu rouca, arrastada pelo sono.
Leo congelou por um segundo.
Sentiu os dedos de Eduardo deslizarem por sua cintura antes de, enfim, afrouxarem o abraço.
Aproveitando a oportunidade, Leo se afastou com cuidado, sentindo o frio imediato onde antes havia o calor do corpo de Eduardo. Ele se sentou na cama, passando a mão pelos cabelos bagunçados, tentando colocar a cabeça no lugar.
Merda.
O que ele estava fazendo?
Olhando para o lado, viu Eduardo ainda de olhos fechados, respirando devagar, a expressão relaxada.
Dormindo tão tranquilamente.
Como se nada daquilo fosse errado.
Como se nada entre eles estivesse quebrado.
E Leo odiou o fato de que, mesmo sabendo de tudo isso… ainda queria deitar de novo ao lado dele.
Ainda queria ser segurado.
Ainda queria ser de Eduardo.
Mas não podia.
Soltando um suspiro pesado, ele se levantou. Precisava ir embora antes que fizesse algo estúpido.
Leo pegou o celular da cômoda ao lado da cama, ainda tentando organizar os próprios pensamentos. Mas, assim que desbloqueou a tela, seu estômago afundou.
20 mensagens não lidas de Carla.
Ele hesitou por um segundo antes de abrir a conversa. Leu as mensagens e passou a mão pelo rosto, sentindo o peito apertar. Ele nem precisava lembrar da noite passada para saber que Carla estava certa.
Ela sempre estava. Mas, porra, ele não queria lidar com isso agora.
Rolou mais para baixo na conversa.
Carla: eu não acredito que vc sumiu MESMO com ele
Carla: é sério, leo. n dá
Leo bufou, inclinando a cabeça para trás.
Ele podia imaginar a expressão dela ao digitar aquilo, frustrada, irritada, exasperada.
E o pior? Ele não tinha nenhuma defesa. Porque tudo o que Carla dizia era verdade.
Ele pegou o celular, os dedos pairando sobre a tela. Pensou em responder. Pensou em inventar uma desculpa.
Mas o que ele podia dizer?
Que sabia que aquilo era um erro? Que sabia que estava se machucando de novo? Que, mesmo sabendo, não conseguiu parar?
Antes que pudesse tomar uma decisão, um movimento na cama atrás dele chamou sua atenção.
Eduardo se mexeu, murmurando algo incoerente, ainda meio preso no sono.
Leo olhou para ele por um segundo.
O cabelo bagunçado, a pele quente, a tranquilidade no rosto. A tranquilidade que só ele não tinha.
Soltando um suspiro, Leo bloqueou o celular e colocou de volta na cômoda.
Ele sabia que precisaria encarar Carla depois. Mas, por enquanto, só precisava sair dali.
Leo estava ainda ali quando o celular de Eduardo vibrou na cômoda ao lado. O som foi baixo, mas o suficiente para chamar sua atenção.
Ele olhou instintivamente para a tela acesa e sentiu o estômago afundar.
Kayla.
Várias mensagens não lidas.
O peito de Leo apertou. Ele não sabia exatamente o que esperava, mas a visão do nome dela ali fez algo dentro dele se contorcer.
Ele desviou o olhar, sentindo uma onda de amargura subir por sua garganta.
É claro.
Era óbvio que ela mandaria mensagens. Eduardo ainda era namorado dela.
O mesmo Eduardo que passou a noite inteira com ele. O mesmo Eduardo que estava ali, dormindo ao seu lado, os dois enroscados nos lençóis da cama.
Leo engoliu seco e respirou fundo, tentando afastar o peso sufocante que começou a se espalhar pelo seu peito.
O que ele estava esperando?
Que Eduardo tivesse largado tudo por ele? Que Kayla tivesse simplesmente desaparecido da equação?
Ele sabia que não funcionava assim.
E, mesmo assim, doía.
Leo passou a língua pelos lábios, hesitante. Ele não deveria se importar. Não tinha o direito de se importar. Mas a verdade era que cada vibração do celular, cada nova mensagem de Kayla, parecia socos diretos contra seu peito.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Aquilo foi um erro.
Foi um erro desde o momento em que aceitou sair daquela festa com Eduardo. E agora, ele só queria sair dali.
◄☼►
Eduardo abriu os olhos devagar, piscando algumas vezes antes de se acostumar com a luz fraca da manhã que entrava pela janela.
Ele sentiu o vazio ao seu lado antes mesmo de ver.
Virou a cabeça no travesseiro e encontrou Leo, já vestido, sentado na beira da cama, o olhar perdido, segurando o próprio celular com os dedos entrelaçados em torno dele.
O silêncio no quarto era denso. Eduardo respirou fundo e, com a voz ainda rouca do sono, quebrou o silêncio:
— Bom dia.
Leo não se virou para encará-lo. Apenas respondeu baixo, sem emoção na voz:
— Bom dia.
E então, silêncio de novo.
Eduardo ficou observando Leo por alguns segundos. O jeito como seus ombros estavam tensos, como seus dedos tamborilavam discretamente no celular. Algo estava errado.
Mas, claro que estava errado.
Eles estavam errados. Desde o começo.
Eduardo passou uma mão pelos cabelos bagunçados e se sentou devagar, puxando o lençol para cobrir parte de seu corpo.
— Tá tudo bem? — perguntou, mesmo sabendo que a resposta provavelmente seria uma mentira.
Leo continuou em silêncio por um momento, e então, como se tivesse acabado de tomar uma decisão, pegou o celular de Eduardo na cômoda e o virou na direção dele.
— Eu acho melhor você responder sua namorada antes que ela suspeite de algo. Ela tentou te ligar hoje.
A frase foi dita de forma neutra, quase desinteressada, mas Eduardo soube na hora que não era tão simples assim.
Ele olhou para a tela do celular e viu as mensagens de Kayla ainda não lidas.
Seu peito apertou.
Leo, mesmo sem dizer diretamente, estava jogando aquilo na cara dele.
Eduardo pegou o celular da mão de Leo devagar, mas não olhou para as mensagens de imediato. Ele manteve os olhos fixos em Leo, tentando decifrar exatamente o que ele estava pensando.
Mas Leo não olhava para ele.
Só encarava um ponto qualquer no chão, o maxilar travado, os dedos apertando o próprio celular como se fosse a única coisa que o mantinha ali.
Eduardo sentiu um nó na garganta.
Ele queria dizer algo. Qualquer coisa.
Queria justificar, queria explicar, queria fazer Leo entender. Mas não existia explicação boa o suficiente.
Ele olhou para a tela do celular e deslizou o dedo para desbloqueá-lo.
Porque, no fim, era isso que Leo esperava dele.
Era isso que ele tinha que fazer.
E, por mais que doesse, Eduardo sabia que, mais uma vez, ele estava prestes a fazer a escolha errada.
Ele ainda segurava o celular, com as mensagens de Kayla brilhando na tela, mas ele não as lia.
Não conseguia. Porque sentia o olhar de Leo sobre ele.
E, quando finalmente ergueu os olhos, encontrou aquele olhar intenso, firme, como se Leo estivesse ponderando algo antes de falar.
Eduardo conhecia aquela expressão.
Ele sabia que vinha alguma pergunta difícil. Sabia que ia ser encurralado de novo. E merecia.
Então, antes mesmo que Leo pudesse dizer qualquer coisa, Eduardo suspirou e assentiu, já se preparando para o golpe:
— Tá. Fala.
Leo umedeceu os lábios, desviando o olhar por um instante, como se estivesse organizando as palavras na cabeça.
E então, sem rodeios, perguntou:
— Você... não se sente mal pela Kayla?
Eduardo piscou devagar, o estômago afundando. Não era a pergunta que esperava.
Esperava algo sobre ele e Leo. Sobre a noite passada. Sobre as escolhas que fazia e refazia todas as vezes que voltava para ele.
Mas não.
Leo estava falando dela.
De Kayla.
Eduardo engoliu em seco.
— Como assim?
Leo cruzou os braços, olhando diretamente para ele agora.
— Eu perguntei se você não se sente mal por ela. Por estar traindo ela.
A palavra traição bateu forte.
Eduardo sentiu o rosto esquentar, como se a verdade tivesse sido jogada nua e crua na sua cara de uma forma que ele não conseguia desviar.
Porque era isso.
Era isso que ele estava fazendo. Ele estava traindo Kayla.
E pior, estava traindo não porque a desprezava, ou porque queria machucá-la, mas porque não conseguia ficar longe de Leo.
Eduardo desviou o olhar, respirando fundo.
— Leo…
— Responde. — Leo insistiu, firme, sem ceder espaço para desculpas.
Eduardo passou uma mão pelos cabelos, sentindo o peito apertado.
Se ele se sentia mal? Claro que sim.
Mas não o suficiente para parar. E esse pensamento foi como uma facada. Ele esfregou o rosto, exausto, e murmurou:
— Eu… eu não sei.
— Não sabe? — Leo soltou uma risada curta.
Eduardo olhou para ele, sentindo uma raiva inexplicável crescer dentro de si.
— O que você quer que eu diga, hein? Que me sinto um lixo? Que sei que sou um merda por fazer isso com ela? Que não queria machucar ninguém?
— Talvez.
Eduardo bufou, pressionando os dedos contra as têmporas.
— E o que isso muda, Leo? O que muda se eu disser isso?
Leo permaneceu em silêncio por um instante. Então, quando finalmente falou, sua voz saiu baixa, impregnada de um tom que Eduardo não conseguiu decifrar:
— Talvez nada.
Eduardo sentiu algo dentro de si rachar.
Porque Leo não estava perguntando para confrontá-lo.
Estava perguntando porque queria ver se ele ao menos tinha consciência do que estava fazendo.
E Eduardo sabia que tinha.
Sabia que estava ferrando com tudo, mas não sabia como parar.
O toque do celular preencheu o quarto em um som incômodo.
Eduardo olhou para a tela e viu o nome de Kayla brilhando ali, acompanhado da foto sorridente dela.
Ele sentiu o estômago revirar.
Ainda estava processando a conversa com Leo, o peso da pergunta ainda pairando sobre ele. E agora Kayla estava ali, esperando por uma resposta.
Leo também viu o nome na tela.
E diferente do que Eduardo esperava, não desviou o olhar.
Apenas cruzou os braços e, com um tom calmo, mas carregado de algo afiado, disse:
— Atende.
Eduardo não se mexeu de imediato.
— Leo…
— Atende, Eduardo. — Leo insistiu, os olhos cravados nos dele.
Eduardo engoliu em seco.
O celular ainda tocava.
Seus dedos apertaram o aparelho com força, como se quisesse esmagá-lo na palma da mão.
Não queria atender.
Porque não queria ter que fingir, não naquele momento, não com Leo ali, olhando para ele daquele jeito.
Mas Leo não desviava os olhos.
Não piscava. Não lhe dava escolha.
Então, sem mais hesitar, Eduardo atendeu.
— Oi. — Sua voz saiu firme, mas internamente ele sentia um nó na garganta.
Leo ficou ali, observando.
E Eduardo odiou isso. Odiou o peso da verdade esmagando cada palavra que dizia.
Kayla, do outro lado da linha, tinha uma voz animada:
— Bom dia, amor! Tá sumido… tá tudo bem?
Eduardo prendeu a respiração.
Se sentiu um lixo. Sentiu como se Leo estivesse perfurando seu peito apenas com aquele olhar.
Leo não desviava.
Ele queria ver. Queria ouvir.
Eduardo fechou os olhos por um segundo, apertando a ponta do nariz.
— Sim… — respondeu, sentindo o gosto amargo na boca. — Só… acordei agora há pouco.
— Acordou tarde, hein? — Kayla riu do outro lado. — O que vai fazer hoje?
Eduardo abriu a boca para responder, mas não conseguiu. Porque não fazia sentido mentir quando Leo estava ali.
O silêncio se arrastou por um segundo a mais do que deveria.
E Kayla percebeu.
— Edu?
Eduardo olhou para Leo.
Ainda ali. Ainda esperando.
E então, depois de um suspiro pesado, ele se forçou a responder.
— Não pensei em nada, só tô enrolando na cama ainda.
Leo soltou uma risada seca. Eduardo sentiu o peito apertar.
— Entendi… — Kayla respondeu, ainda animada. — Bom, mais tarde pensei em a gente se ver, pode ser?
Leo cruzou os braços.
Eduardo passou a língua pelos lábios, hesitando.
Não queria ver Kayla. Não queria nada além de Leo, mas o que ele podia fazer?
— Pode sim. — respondeu, sem emoção.
E foi naquele momento que Leo desviou o olhar, como se finalmente tivesse visto tudo o que precisava. Eduardo sentiu um desespero silencioso crescer dentro de si, mas agora era tarde. Kayla respondeu:
— Então tá! Falo com você depois. Te amo. Beijo!
Silêncio.
Eduardo hesitou.
E então, sem olhar para Leo, respondeu:
— Beijo.
Desligou.
O silêncio era sufocante.
Leo não disse nada. Apenas apertou o seu celular com força entre os dedos, os olhos fixos em um ponto qualquer, sem realmente ver.
Eduardo prendeu a respiração, esperando alguma reação. Uma explosão, um comentário ácido, qualquer coisa.
Mas Leo apenas soltou o ar, se levantando devagar.
— Tenho muito trabalho na fazenda. Preciso ir.
A voz saiu neutra, sem emoção. Mas Eduardo sabia. Sabia que aquilo era pior do que qualquer grito.
Eduardo sentiu um aperto no peito, um impulso desesperado de segurá-lo ali, de impedir que ele saísse daquela casa.
— Leo… não vai.
— Tenho que ir. — disse, sem olhá-lo.
Deu um passo em direção à porta, hesitou por um instante e, antes de sair, murmurou:
— E também… não posso atrapalhar seu encontro com a Kayla.
A frase veio baixa, sem ironia, sem agressividade. Apenas uma constatação. E então, ele saiu sem olhar para trás.
Eduardo sentiu o peito desmoronar.
Não hesitou. Se levantou e se vestiu rapidamente com qualquer peça que encontrou no chão e, assim que Leo saiu do quarto, foi atrás dele.
— Leo, espera.
Leo já estava na porta da casa, a postura rígida.
— Não posso ficar, Eduardo. Tenho muito trabalho na fazenda.
A voz saiu firme, mas Eduardo reconhecia aquele tom. Ele sabia. Sabia que Leo estava fugindo, sabia que estava engolindo tudo o que realmente queria dizer.
Eduardo parou ao lado dele, sentindo o peito apertar.
— Não precisa ir agora. Só... fica mais um pouco.
Leo fechou os olhos por um instante, como se estivesse reunindo paciência. Então, virou-se para Eduardo.
— Pra quê? — perguntou, finalmente olhando nos olhos dele.
Eduardo abriu a boca para responder, mas nada saiu. Porque ele não tinha uma resposta boa o suficiente.
Ele queria pedir para Leo ficar porque não queria vê-lo ir embora, porque só de pensar nisso sentia um buraco se abrir dentro dele. Mas não podia dizer isso.
Então, tudo que fez foi desviar o olhar e suspirar pesado.
Leo observou a expressão dele por um segundo a mais do que deveria. Eduardo não disse mais nada.
Leo deu um passo para trás, se afastando.
— Até mais, Castilho.
Eduardo não conseguiu reagir. Apenas observou enquanto Leo se afastava, a cada passo colocando uma distância maior entre eles.
◄☼►
Leo já estava em casa há algumas horas quando seu celular vibrou. Ele estava deitado na cama, encarando o teto, o peito pesado com tudo que tinha acontecido.
Pegou o aparelho sem muita pressa e viu o nome Eduardo Castilho brilhando na tela.
Eduardo: a noite passada foi especial pra mim
Eduardo: n queria que vc fosse embora daquele jeito
Eduardo: eu sinto muito
Leo encarou aquelas palavras por alguns segundos, sentindo o estômago revirar.
O que Eduardo esperava que ele dissesse? Que também tinha sido especial? Que foi uma das melhores noites da vida dele?
Porque foi.
Mas também foi a noite que mais doeu. Foi a noite que o lembrou de que ele nunca teria Eduardo por inteiro.
Os dedos de Leo pairaram sobre o teclado, hesitantes. A vontade de responder estava ali, queimando, mas junto com ela, vinha a lembrança do celular de Eduardo vibrando com as mensagens de Kayla.
A lembrança da realidade.
Leo bloqueou a tela do celular e o jogou ao lado.
Não podia fazer isso de novo. Não dessa vez.
Leo suspirou, pegou o celular de novo e abriu a conversa com Carla, que tinha várias mensagens não respondidas. Até que ele finalmente respondeu.
Leo: oi carla
Leo: sim... eu fui embora com o eduardo
Ele sabia que ela ia responder na hora. E ela respondeu.
Carla: VC SÓ PODE ESTAR DE SACANAGEM COM A MINHA CARA, LEO
Carla: me diz que isso é zoeira, por favor
Carla: depois de TUDO?!
Carla: vc tem algum respeito por si mesmo???
Carla: leo, sério, eu não tô acreditando nisso
Carla: o que mais ele precisa fazer pra vc cair na real?
Carla: diz pra mim. pq eu já não sei mais como te ajudar
Leo encarava a tela, os dedos apertando o celular. Aquelas palavras eram exatamente o que ele esperava, mas ainda assim, doíam.
Ela estava certa.
Mas ele não queria admitir isso agora.
Leo: n precisa me dar sermão, carla
Carla: ah, me desculpa se eu não consigo ficar calada vendo vc se afundar nele de novo
Carla: eu tô cansada de te ver sofrer, porra
Leo respirou fundo, fechando os olhos por um momento.
Leo: eu só queria… não pensar
Carla: e conseguiu?
Ele ficou um tempo olhando aquela mensagem. E então, com um nó na garganta, respondeu:
Leo: não
Não conseguiu. E duvidava que algum dia fosse conseguir.
◄☼►
No final da tarde, Leo ainda estava na fazenda, tentando se ocupar com qualquer coisa que o distraísse da bagunça em sua mente. Mas nada adiantava. Cada movimento, cada tarefa que fazia mecanicamente só servia para lembrar da noite passada, das palavras de Eduardo, das mensagens de Carla.
E então, ouviu a voz dela chamando seu nome.
Ele parou no meio do que estava fazendo e se virou. Carla estava ali, de braços cruzados, o olhar carregado de frustração e preocupação. Ela tinha vindo. E não parecia nada feliz.
— Você realmente não aprende, né, Leo? — disse, aproximando-se dele. Sua voz não estava agressiva, mas carregava um peso que fez o estômago dele afundar.
Leo suspirou, passando a mão pelo rosto. Ele sabia que essa conversa ia acontecer, só não esperava que fosse tão rápido.
— Carla, por favor, eu não tô com cabeça pra brigar agora — murmurou, tentando evitar o confronto.
— Ótimo, porque eu também não vim aqui pra brigar — ela rebateu, olhando diretamente nos olhos dele. — Eu vim aqui porque eu me importo. Porque eu vi você se afundar nele de novo e de novo. E agora? Agora você tá aí, fingindo que tá tudo bem?
Leo desviou o olhar, o maxilar travado.
— Eu não tô fingindo nada — murmurou.
— Tá sim! — Carla deu um passo à frente, a frustração crescendo. — Você quer que eu acredite que foi embora com ele e acordou hoje se sentindo bem? Que tudo foi lindo e maravilhoso? Porque eu não acredito, Leo.
Leo apertou os lábios, sentindo um nó na garganta. O pior de tudo era que Carla estava certa. De novo.
Carla soltou um suspiro pesado, balançando a cabeça.
— Leo, você sumiu. A gente foi junto para aquela festa, e de repente você desapareceu. A gente ficou preocupado pra caralho, achando que tinha acontecido alguma coisa!
Ela o analisou por um momento e então suspirou, mais cansada do que irritada.
— Me diz a verdade — sua voz baixou um pouco. — Você tá feliz com o que fez?
Ele não respondeu.
Carla cruzou os braços, esperando.
— Não é uma pergunta difícil, Leo. Ou você tá, ou não tá.
Leo sentiu a garganta se apertar. Ele queria mentir. Queria dizer que estava bem, que a noite passada foi só um erro e que ele ia seguir em frente. Mas não conseguia.
Porque a resposta era óbvia.
— Eu não sei — murmurou, desviando o olhar.
Carla soltou um suspiro profundo e balançou a cabeça.
— Eu sabia — ela disse, sua voz agora mais baixa, mais magoada do que irritada. — Leo, você merece mais do que isso. Muito mais.
Leo fechou os olhos por um instante. Ele sabia disso. Mas saber não tornava nada mais fácil.
— O que você quer que eu faça? — perguntou, sentindo o desespero crescer em sua voz. — Me diz, Carla, porque eu já tentei seguir em frente, tentei me distrair, tentei odiar ele… mas nada funciona. Nada.
Carla o observou por um momento e depois deu um passo à frente, segurando seus ombros com firmeza.
— Então talvez a questão não seja odiar ele — disse, olhando diretamente para ele. — Talvez a questão seja você se amar mais.
As palavras atingiram Leo como um soco.
Ele engoliu seco, sentindo o peito apertar. Queria responder, queria dizer algo, mas nada vinha.
Carla suspirou de novo e suavizou a expressão.
— Só pensa nisso, tá? — disse. — E se precisar… me chama.
Leo apenas assentiu, sentindo um peso esmagador no peito.
E pela primeira vez em muito tempo, ele realmente parou para pensar no que Carla tinha dito.
◄☼►
Na tarde seguinte, Davi passou na casa de Carla para estudarem juntos, mas percebeu de cara que ela estava inquieta. Depois de um tempo em silêncio, enquanto mexia no celular, ela soltou um suspiro pesado e jogou o aparelho na mesa.
— Eu não aguento mais essa história — murmurou, cruzando os braços.
Davi ergueu os olhos do caderno e arqueou uma sobrancelha.
— Tá falando do Leo e do Castilho?
Carla bufou, confirmando com a cabeça.
— Eu fui até a fazenda ontem, Davi. O Leo tá completamente na merda de novo. E sabe o pior? Ele nem tenta esconder. Ele sabe que tá fazendo merda, mas continua.
Davi suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Eu imaginei que ele não estivesse bem… mas, sinceramente, já nem sei mais o que falar pra ele.
— Eu também não! — Carla exclamou, exasperada. — Mas sabe quem acha tudo isso normal? O imbecil do Bruno.
Davi franziu a testa.
— O que o Bruno fez agora?
Carla pegou o celular de novo e abriu o WhatsApp.
— Eu briguei com ele ontem. Mandei mensagem perguntando por que diabos ele deixou o Eduardo ir embora com o Leo, e ele me respondeu isso aqui, olha.
Ela empurrou o celular na direção de Davi, que leu a conversa:
Carla: bruno, eu realmente quero saber… pq vc deixou o eduardo sair com o leo? vc disse que viu eles saindo
Bruno: ué, pq o leo quis
Carla: e vc n acha isso um problema??? depois de tudo???
Bruno: carla, pelo amor de deus, eu não sou babá do leo
Carla: não, mas vc podia não facilitar as coisas pro castilho, né??
Bruno: n é culpa minha se eles ainda querem se pegar
Carla: vc tá lendo o que tá escrevendo? vc acha isso normal???
Bruno: eu acho que se o leo quer transar com o cara, ele vai, com ou sem minha permissão.
Davi soltou um riso incrédulo, devolvendo o celular para Carla.
— Esse cara é inacreditável.
— Pois é! — Carla resmungou, apertando os lábios. — Eu tô começando a perder a paciência com ele. Eu entendo que ele ainda seja amigo do Eduardo também, mas, porra… um mínimo de noção, né?
Davi coçou a nuca, pensativo.
— Eu acho que, pra ele, tudo isso é só um drama besta. Ele não vê o que a gente vê.
— Exatamente — Carla concordou. — Mas não é um drama besta. O Leo tá machucado, tá se afundando cada vez mais, e o Bruno simplesmente finge que tanto faz.
Davi suspirou, apoiando os braços na mesa.
— A gente vai fazer o quê?
Carla ficou em silêncio por um momento, encarando o celular. Depois de um tempo, murmurou:
— Não sei. Mas alguma coisa a gente precisa fazer antes que o Leo se afunde de vez.
Davi pegou o celular e abriu a conversa com Leo. Ele hesitou por um momento antes de digitar, sabendo que precisava dizer algo, mas sem saber exatamente o quê. No fim, foi direto:
Davi: leo, a gente pode conversar?
Davi: de boa, sem briga
O status de Leo ficou online por alguns segundos, mas nenhuma resposta veio de imediato. Davi suspirou, encarando a tela, esperando. Depois de um tempo, Leo finalmente respondeu:
Leo: sobre oq?
Davi trocou um olhar rápido com Carla antes de continuar:
Davi: sobre vc. sobre tudo isso
Davi: eu tô preocupado, cara. a carla também
A resposta de Leo veio mais rápido dessa vez:
Leo: eu tô bem
Davi: sério?
Davi: pq não parece
Silêncio. O status de Leo indicava que ele estava digitando, mas nada chegava. Até que, finalmente, apareceu:
Leo: eu sei o que tô fazendo
Davi sentiu um aperto no peito. Ele sabia que essa era a resposta que Leo sempre dava quando queria afastar as pessoas, mas dessa vez ele não ia aceitar tão fácil.
Davi: eu n tenho certeza se sabe
Davi: mas eu não tô aqui pra te julgar, só pra te ouvir
Davi: se quiser conversar, eu tô aqui
Dessa vez, Leo demorou mais. Quando a resposta veio, foi curta:
Leo: valeu, davi
Davi suspirou. Ele sabia que Leo não ia desabafar ali pelo WhatsApp, mas, pelo menos, sabia que a mensagem tinha sido recebida. Ele bloqueou a tela e olhou para Carla.
— Ele respondeu? — ela perguntou.
— Disse que tá bem — Davi disse, revirando os olhos. — Mas pelo menos me agradeceu. Acho que sabe que a gente se importa.
Carla cruzou os braços, pensativa.
— O problema não é ele saber que a gente se importa, Davi. O problema é ele se importar com ele mesmo.
Davi concordou com um aceno leve de cabeça. Ele pegou o celular e abriu a conversa com Bruno, já irritado antes mesmo de começar a digitar. Ele não gostava de brigar, mas depois de ouvir Carla soltando mil reclamações sobre a situação, ele sabia que precisava falar alguma coisa.
Davi: mano, sério, q merda foi aquela na festa?
Davi: vc sabia q o leo e o eduardo tinham saído juntos e nem falou nada?
Bruno demorou um pouco para responder, mas quando respondeu, foi no mesmo tom despreocupado de sempre.
Bruno: ué, gente, e o que eu tenho a ver com isso?
Bruno: os dois são grandinhos, fazem o que querem
Davi apertou os lábios, já sentindo a paciência se esgotar.
Davi: tá falando sério?
Davi: vc sabe q essa história toda tá deixando o leo mal pra caralho
Davi: e mesmo assim deixou rolar?
Bruno ficou um tempo sem responder. Davi viu o status dele online e soube que ele estava lendo, mas a resposta demorou a vir.
Bruno: cara, olha…
Bruno: eu gosto do leo, gosto do edu
Bruno: n vou me meter no drama deles, sacou?
Bruno: como eu falei pra carla, se o leo quer transar com o edu, problema dele. se vai se machucar depois, ele q decida se vale a pena
Davi passou a mão no rosto, exasperado.
Davi: mano, não é só sobre isso
Davi: vc viu o jeito que o leo tava antes do edu chegar? ele tava normal, tava bem
Davi: aí o edu aparece e pronto, lá vai ele de novo nessa merda de ciclo
Davi: isso não te incomoda nem um pouco?
Bruno digitou por um tempo antes de responder.
Bruno: eu entendo o que vc tá dizendo, de verdade
Bruno: mas eu não sou babá do leo, nem do edu
Bruno: eu sou amigo dos dois. se eles querem se resolver fodendo, problema deles, mano
Davi sentiu a raiva crescer.
Davi: sério? vc vai resumir tudo a isso?
Bruno enviou um emoji de ombros levantados.
Bruno: cara, eu não sou terapeuta. não vou ficar no meio dessa treta
Davi bufou, já cansado daquela conversa.
Davi: só não reclama quando tudo der merda
Bruno respondeu depois de um tempo.
Bruno: ah, isso com certeza vai dar merda
Bruno: mas não sou eu quem vai impedir
Davi bloqueou o celular, frustrado. Ele olhou para Carla, que já imaginava pelo olhar dele que a conversa não tinha levado a nada.
— O que ele disse? — ela perguntou, cruzando os braços.
— Basicamente que ele não liga e que não vai se meter — Davi respondeu, jogando o celular na mesa. — Disse que os dois que se resolvam.
Carla bufou, revirando os olhos.
— O Bruno é um imbecil.
Davi suspirou.
— E o pior é que, no fundo, ele sabe que isso vai acabar mal. Mas não quer nem tentar impedir.
Carla apertou os lábios, pensativa, antes de soltar um suspiro pesado.
— Então a gente vai ter que dar um jeito para ajudar o Leo...
Davi concordou, porque, no fim, era a única coisa que podiam fazer.
◄☼►
Já do outro lado da cidade, Bruno pegou o celular e abriu a conversa com Eduardo. Ele sabia que Eduardo estava online, tinha visto ele ativo alguns minutos antes. Mas ele hesitou por um momento antes de digitar.
No fundo, Bruno não queria se meter, mas depois da bronca de Davi e Carla, sentiu que precisava pelo menos falar alguma coisa.
Bruno: mano, só pra avisar, tão caindo matando em cima de mim por causa de vc e do leo
Bruno: carla e davi tão putos
Eduardo demorou um pouco, mas respondeu.
Eduardo: pq?
Bruno revirou os olhos.
Bruno: sério q vc pergunta?
Bruno: pq vcs sumiram juntos da festa, porra
Bruno: e pq tá na cara que isso vai dar merda de novo
Eduardo ficou online, mas demorou pra digitar. Bruno esperou, impaciente.
Eduardo: cara, eu sei que parece ruim, mas não é assim tão simples
Eduardo: eu n consigo ficar longe do leo
Bruno bufou.
Bruno: tá, mas e a kayla?
Bruno: pq como vc “não consegue ficar longe do leo”, se tá namorando outra pessoa?
Eduardo demorou mais ainda pra responder. Bruno sabia que tinha tocado na ferida.
Eduardo: eu sei q tô errado
Eduardo: mas eu n sei o q fazer
Bruno passou a mão no rosto. Essa era exatamente a resposta que ele esperava, e exatamente a resposta que provava o que Davi e Carla estavam dizendo.
Bruno: então para de meter o leo nisso enquanto vc “não sabe o q fazer”. porra, eu sou amigo dos dois e tá um saco isso
Bruno: ele não merece essa bagunça toda, e vc sabe disso
Eduardo visualizou, mas não respondeu de imediato. Bruno encarou a tela, esperando alguma resposta que não vinha.
Até que, finalmente, Eduardo digitou:
Eduardo: eu vou dar um jeito
Bruno estreitou os olhos.
Bruno: espero q sim
Bruno: mas faz logo. pq se vc ferrar com ele de novo, eu não vou conseguir segurar o davi e a carla não
Eduardo visualizou. Não respondeu.
Bruno bloqueou a tela e soltou um suspiro.
Ele sabia que Eduardo estava ferrado. Mas, mais do que isso, sabia que Leo estava ainda mais.
Bruno suspirou antes de abrir a conversa com Leo. Ele realmente não queria se meter, mas já estavam jogando ele no meio dessa confusão de qualquer jeito.
Bruno: mano, só pra avisar, eu não quero me meter nessa treta
Bruno: mas tão metendo meu nome no meio
Bruno: carla e davi tão putos pq vc saiu com o castilho, e tão descontando em mim tbm
Leo demorou a responder. Bruno viu que ele tinha visualizado a mensagem, mas não estava digitando.
Bruno: olha, caguei pra quem vc transa ou deixa de transar
Bruno: só tô falando pq não tô afim de ficar levando bronca por sua causa
Leo digitou algo e apagou. Depois, finalmente respondeu.
Leo: eu sei
Leo: não precisa se meter nisso
Bruno hesitou, e depois digitou:
Bruno: só me fala uma coisa
Bruno: vc tá bem?
Leo visualizou quase na hora, mas demorou mais um pouco para responder.
Leo: não sei
Bruno soltou um suspiro, passando a mão pelo rosto.
Bruno: é isso q eu tô falando
Bruno: cês tão nessa loucura aí há tempos e no final sempre sobra pra vc
Leo: eu sei
Bruno: então faz alguma coisa a respeito
Leo não respondeu de imediato. Bruno já estava pronto para deixar pra lá quando viu as reticências aparecerem na tela.
Leo: eu tô tentando
Bruno passou a mão pelo rosto, exausto, sentindo o peso daquela conversa se arrastar sobre ele. No fundo, sabia que não havia nada que pudesse dizer para mudar a cabeça de Leo, não enquanto ele mesmo estivesse preso nessa confusão. Então, simplesmente desistiu de esperar mais respostas, pegou o celular e o jogou de lado, esperando que, de alguma forma, tudo aquilo se resolvesse antes que sobrasse ainda mais para ele.
Fale com o autor