O Garoto Feito de Sol e Terra

63 Capítulo 63 — Eu Nunca Poderia Te Escolher


Três dias depois, mesmo depois de tudo, Leo não conseguiu se segurar.

Ele abriu o WhatsApp, rolou até a conversa com Eduardo e ficou encarando a tela.

Digitou, apagou. Suspirou.

Depois digitou de novo.


Leo: curiosidade: sabia que algumas estrelas q a gente vê já morreram?


Enviou antes que pudesse se arrepender. Bloqueou o celular e jogou ao lado do travesseiro, fechando os olhos.

Ficou ali, deitado na cama, olhando para o teto, sentindo um aperto estranho no peito. Ele nem sabia se Eduardo ia responder. Talvez fosse melhor se ele não respondesse. Mas, menos de cinco minutos depois, o celular vibrou.


Eduardo: e vc sabia q uma estrela de nêutrons gira pra caralho?


Leo soltou um riso mínimo, balançando a cabeça.

Ele não devia estar fazendo isso, mas já era tarde demais.

Eduardo percebeu a abertura na conversa e, como se quisesse se agarrar a ela com as duas mãos, começou a mandar memes.

O primeiro veio rápido: uma imagem do céu estrelado com um texto tosco em cima.


"Tentei fazer uma piada sobre estrelas, mas todas eram supernovas."


Leo olhou para a tela por um momento e soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça.

— Idiota… — murmurou, mas os dedos já estavam no teclado antes que ele pudesse se impedir.

Depois, um gif de um astronauta olhando para o espaço e soltando um suspiro dramático.


Eduardo: esse sou eu depois de perceber que não trouxe lanche pra viagem intergaláctica


Leo olhou para aquilo e revirou os olhos, mas uma parte dele queria rir. Ele mordeu o lábio para não ceder tão fácil.

Eduardo, impaciente com a falta de resposta, mandou outro meme, um daqueles ridículos, de um cachorro com olhar perdido no horizonte e a legenda: "Ela me deixou... e levou meu coração junto."


Eduardo: esse sou eu depois que vc saiu daqui aquele dia :(


Leo bufou, mordendo os lábios.


Leo: vc é um idiota

Eduardo: um idiota q vc gosta


Leo não respondeu de imediato. Ficou encarando o celular, sentindo algo quente e incômodo dentro do peito.

Ele não devia estar fazendo isso.

Não devia estar rindo das mensagens de Eduardo. Mas ali estava ele, sorrindo para a tela do celular como um completo idiota.


◄☼►


Dois dias se passaram.

Leo não sabia exatamente por que tinha ido. Apenas sentiu que precisava.

Talvez fosse o desejo de confrontar Eduardo, de ver sua reação ao perceber que Leo ainda estava ali, que ainda existia. Ou talvez fosse só um impulso idiota, fruto de uma saudade que ele se recusava a admitir.

Mas assim que chegou e bateu à porta da casa dos Castilho, percebeu que tinha cometido um erro.

Porque não foi Eduardo ou Helena quem abriu a porta.

Foi Kayla.

O sorriso dela foi imediato, genuíno, animado.

— Leo! — Ela exclamou, como se estivesse vendo um velho amigo.

O estômago de Leo afundou. Ele tentou disfarçar sua expressão, tentou não deixar transparecer o desconforto, mas sentiu o corpo inteiro travar.

— Oi, Kayla — Ele forçou um meio sorriso.

Ela abriu mais a porta, gesticulando para que ele entrasse.

— Nossa, faz tempo que não te vejo! Entra, o Edu tá aqui.

O Edu. O namorado dela.

Leo queria rir, pois era capaz de sentir o gosto amargo da ironia na língua.

Ele hesitou. Por um momento, considerou dar meia-volta, inventar uma desculpa e simplesmente ir embora, mas Kayla já tinha se afastado um pouco, deixando espaço para ele entrar.

E, antes que pudesse pensar demais, ele entrou.

O coração martelava no peito.

A casa era a mesma de sempre, mas parecia diferente. Ou talvez fosse Leo quem estivesse diferente ali dentro.

Kayla fechou a porta atrás dele, ainda sorrindo.

— A gente tava vendo um filme na sala. Senta lá com a gente!

Leo não precisou perguntar quem era "a gente". Sentiu o estômago revirar de novo.

Antes que pudesse responder, uma voz veio da sala. A voz de Eduardo.

— Kay, quem era?

E então, Eduardo apareceu no corredor, caminhando casualmente até que os olhos encontraram Leo. A casualidade desapareceu na hora.

Eduardo ficou estático. O choque estampado no rosto.

Leo prendeu a respiração.

Por um segundo, os dois só ficaram ali, se encarando.

Kayla, alheia ao peso daquele silêncio, riu de leve.

— Olha só quem veio visitar!

Eduardo não respondeu. Não conseguia. O que Leo estava fazendo ali?

Kayla, ainda sorrindo, parecia genuinamente feliz em ver Leo ali.

— Faz tempo que a gente não se vê! Como estão suas irmãs? Ainda aprontando pela fazenda?

Leo engoliu seco, sentindo o olhar de Eduardo queimando em cima dele. Forçou um sorriso, tentando soar natural.

— Ah… Estão bem. As duas continuam correndo pra lá e pra cá, inventando moda o tempo todo.

Kayla riu.

— Imagino! Elas eram umas fofas da última vez que vi. E sua mãe?

Leo assentiu, mantendo o tom leve.

— Ela tá bem.

Ele tentava se concentrar na conversa, tentava ignorar a presença de Eduardo, mas era impossível. Porque Eduardo não parava de olhar para ele, e Leo sentia cada olhar. Sabia o que Eduardo estava pensando. Sabia que ele queria entender o que diabos Leo estava fazendo ali. A verdade? Nem o próprio Leo sabia.

Kayla se afastou por um instante, indo até a sala pegar algo, e foi nesse momento que Leo e Eduardo ficaram sozinhos no corredor.

O silêncio era denso, sufocante.

Eduardo continuava parado, os braços cruzados, os olhos fixos nele. Leo desviou o olhar, incômodo.

— O que você tá fazendo aqui? — Eduardo perguntou baixo, sem rodeios.

Leo mordeu o lábio, sem saber o que responder.

Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Kayla voltou, segurando um pacote de biscoitos.

— Vamos, Leo! Senta com a gente.

Eduardo continuava parado no mesmo lugar.

Leo hesitou. Mas então, forçou outro sorriso e assentiu.

— Claro.

E, sem olhar de novo para Eduardo, seguiu Kayla até a sala.

Leo sentou no sofá ao lado de Kayla, sentindo o estofado afundar sob seu peso. Eduardo se sentou do outro lado. Estava quieto, de braços cruzados, com o olhar fixo em algum ponto à frente. A televisão estava ligada em algum programa qualquer, mas ninguém realmente prestava atenção.

Kayla pegou um biscoito do pacote e, de repente, disse com um tom animado:

— Ah! Lembrei de uma coisa! Leo, você gosta de tirar fotos, né?

Leo desviou o olhar para ela, um pouco surpreso pela mudança de assunto.

— Hã? Gosto sim… por quê?

Kayla sorriu, mastigando o biscoito antes de continuar:

— O Edu me contou! Ele falou que você tem um talento pra isso e até me mostrou algumas fotos suas. Sério, são muito boas. Você devia postar em algum lugar.

Leo sentiu um frio na barriga, o peito apertando de um jeito estranho. Ele não sabia exatamente o que o incomodava mais: o fato de Eduardo falar sobre ele com Kayla ou o fato de Eduardo mostrar suas fotos para ela.

Ele lançou um olhar rápido para Eduardo, que agora parecia tenso. Não estava mais tão relaxado no sofá, e seus dedos tamborilavam contra a perna de um jeito distraído. Em vez de encará-lo, Eduardo desviou o olhar, focando em um ponto qualquer da sala, como se, de repente, qualquer outra coisa fosse mais interessante do que a conversa.

Leo, no entanto, apenas respirou fundo e forçou um sorriso.

— Ah… valeu, mas eu tiro só por diversão mesmo.

Kayla balançou a cabeça, insistente.

— Mas é sério! Você tem um olhar muito bom. Aquelas fotos do mar que o Edu me mostrou, nossa, são incríveis! Eu adoraria tirar umas fotos assim.

Leo sentiu o estômago revirar.

Porque ele sabia exatamente quais fotos Eduardo havia mostrado.

As fotos da viagem.

E agora? Agora Kayla via aquilo como um simples álbum de boas memórias de amigos.

Ele umedeceu os lábios, tentando engolir a sensação sufocante dentro de si.

— É… essa viagem foi legal.

Ele não olhou para Eduardo ao dizer isso.

Kayla sorriu, completamente alheia ao peso que aquelas palavras carregavam para os dois.

— Deve ter sido! O Edu me disse que foi incrível.

Leo apertou os dedos contra o joelho.

Eduardo disse isso? A respiração de Leo ficou presa na garganta.

Eduardo não disse nada. Apenas olhou para ele com aquela expressão indecifrável, como se esperasse que Leo entendesse algo que ele não podia dizer ali.

O peito de Leo apertava, o ar parecia mais denso.

Kayla pegou o celular do lado e continuou, sem perceber o peso daquele silêncio.

— Eu queria tanto fazer uma viagem assim… só a gente, sabe? Pegar a estrada, sem me preocupar com nada…

Ela olhou para Eduardo e segurou a mão dele de leve.

— Quem sabe nas férias, né, amor?

Eduardo piscou algumas vezes, saindo do transe que parecia estar.

— Hã… é. Quem sabe.

O coração de Leo martelava forte, porque era demais. Porque agora ele sentia tudo dentro dele explodindo.

Ele passou a língua pelos lábios, sentindo o gosto amargo da decepção.

Então, soltou uma risada baixa, seca.

— Parece uma ótima ideia.

Eduardo finalmente desviou o olhar para ele naquele instante.

Os olhos de Leo carregavam algo difícil de decifrar. Desafio. Tristeza. Ironia. Eduardo não gostou daquilo.

Mas Kayla, completamente alheia, apenas sorriu, animada.

— Né? Eu queria tanto ir pra uma praia bonita assim! O Edu disse que foi uma das melhores viagens da vida dele.

Leo apertou os lábios, sentindo o gosto amargo subir pela garganta. Então, olhou diretamente para Eduardo e soltou:

— É mesmo, Edu?

Eduardo segurou a respiração. Porque ele sabia o que Leo estava fazendo. Porque ele sabia o que Leo queria que ele dissesse.

E, porra, ele não conseguia responder.

Porque sim.

Foi a melhor viagem da vida dele.

Kayla sorriu animada, ainda segurando a mão de Eduardo, completamente alheia à tensão invisível no ar.

— Ah! Eu tava pensando… Eu queria tanto visitar sua fazenda de novo, Leo! A última vez que fui lá foi tão legal! Suas irmãs são umas fofas, e sua mãe é um amor. A gente podia marcar um dia, o que acha?

Leo sentiu o corpo travar.

A última vez…

A última vez que Kayla esteve lá, ele nem sabia que Eduardo e ela pudessem ter alguma coisa de fato. Agora, tudo parecia diferente.

Ele forçou um sorriso, mesmo sentindo o estômago revirar.

— Ah… claro. Quando quiser.

Eduardo, ao lado dela, ficou em silêncio. E Leo percebeu. Percebeu o olhar de Eduardo sobre ele, um olhar que Kayla não notou.

Ele não queria que Kayla fosse até lá. Leo sabia disso. Mas Kayla, sem perceber a troca de olhares entre os dois, continuou:

— Sério? Ai, que ótimo! Você avisa quando tiver um dia tranquilo?

Leo assentiu lentamente.

— Sim… eu aviso.

E então, finalmente olhou para Eduardo.

Os olhos de Eduardo estavam fixos nele, intensos, carregados de tudo que ele não podia dizer.

E Leo entendeu. E odiou entender.

Eduardo sempre estaria preso ali. Entre os dois. Entre o que queria e o que devia querer. E Leo estava cansado disso.

Kayla continuava falando animada sobre a fazenda, distraída com alguma lembrança que tinha de lá. Eduardo, ao lado dela, mantinha um sorriso automático, mas a mente estava em Leo.

E então, quando Kayla se virou para pegar o espelho na bolsa, Eduardo fez algo que não deveria fazer.

Pegou na mão de Leo.

Foi rápido. Rápido o suficiente para Kayla não notar, mas intenso o bastante para Leo sentir o toque queimar em sua pele.

Leo ficou imóvel.

O que Eduardo estava fazendo?

Ele olhou para Eduardo, um olhar confuso, acusador. Mas Eduardo não disse nada, apenas manteve o toque por um segundo a mais do que deveria, antes de soltar.

E então, a culpa veio como uma enxurrada. Eduardo sabia que estava errado. Sabia que não deveria fazer isso.

Mas fez.

Porque não conseguia evitar. Não conseguia estar ali com Kayla e fingir que estava tudo bem. Não conseguia olhar para Leo e agir como se ele fosse só mais um amigo.

Porque não era.

E nunca seria.

Kayla voltou sua atenção para eles, sem perceber nada.

— Ai, agora me deu mais vontade ainda de ir! A gente marca então, Leo?

Leo não respondeu de imediato.

Seus olhos ainda estavam em Eduardo, tentando entender o que diabos aquele toque significava.

Leo respirou fundo, tentando ignorar a sensação do toque recente de Eduardo em sua mão. Tentando ignorar tudo.

— Na verdade, só passei aqui porque queria pegar aquele livro emprestado — disse, tentando soar casual.

Kayla olhou para ele com curiosidade.

— Livro?

Eduardo entendeu na hora.

Leo precisava sair dali. Precisava de uma desculpa.

Então, sem questionar, Eduardo se levantou, subiu as escadas e foi até a estante do seu quarto. Pegou o primeiro livro que viu, nem olhou o título direito.

Voltou e entregou para Leo.

— Tá aqui.

O olhar de ambos se encontrou por um breve instante. Leo viu o entendimento nos olhos de Eduardo.

— Valeu — Leo disse, pegando o livro e fingindo folhear.

Kayla sorriu.

— Ah, então você gosta de ler também? Que legal.

Leo não respondeu. Ele apenas fechou o livro em suas mãos, segurando-o firme como se fosse um escudo.

— Bom, eu vou indo — disse, se levantando.

Eduardo quis pedir para ele ficar, mas não podia. Então, apenas assentiu, engolindo seco.

— Tchau, Leo! — Kayla se despediu animada.

Leo forçou um sorriso.

Não olhou mais para Eduardo. E então, saiu.

Mas Eduardo ficou ali, vendo ele ir embora, com uma vontade absurda de ir atrás. Ficou parado, observando a porta por onde Leo saiu, sentindo um peso esmagador no peito.

Kayla ao seu lado falava algo sobre um seriado que estava assistindo, mas ele mal conseguia registrar as palavras.

O gosto amargo da culpa queimava dentro dele.

Não era só sobre Leo. Era sobre Kayla também.

Ele sabia que ela não merecia isso.

Ela sempre foi boa com ele. Sempre esteve presente, sempre se preocupou. Ela o tratava com carinho, fazia planos para os dois, falava sobre o futuro como se Eduardo estivesse nele.

E, porra... ele estava ferrando tudo.

Traindo-a repetidamente. Mentindo, fingindo.

Kayla não sabia que, enquanto segurava a mão dela, Eduardo desejava outra pessoa. Que, enquanto sorria para ela, seu coração estava em outro lugar.

Ela merecia alguém que a escolhesse de verdade. E não alguém como ele.

Eduardo passou a mão pelos cabelos, sentindo o peito apertar.

— Tá tudo bem? — Kayla perguntou, notando sua expressão distante.

Eduardo forçou um sorriso.

— Tô, só... pensando em umas coisas da escola.

Ela assentiu, sem desconfiar de nada, e Eduardo quis se odiar ainda mais por isso.


◄☼►


Depois disso, Eduardo e Leo continuaram se falando por mensagens por dias, como se nada tivesse acontecido. Como se não estivessem repetindo o mesmo ciclo vicioso.

Mas certo dia, quando Eduardo apareceu na fazenda, no final da tarde, algo mudou.

Eles se cumprimentaram de um jeito meio torto, tentando agir naturalmente diante da família de Leo. Mariana e Sofia ficaram animadas com a presença de Eduardo, e Rita, embora notasse algo estranho entre os dois, não disse nada.

Subiram para o quarto sem muita conversa.

Assim que a porta se fechou, Eduardo o puxou para um beijo urgente. As mãos seguravam firme na cintura de Leo, puxando-o contra si. O desejo pulsava no ar, queimando mais forte do que qualquer culpa ou hesitação.

Era sempre assim.

Eles se afastavam, tentavam ignorar... e no fim, sempre acabavam um no outro.

As mãos de Eduardo deslizavam pelo corpo de Leo, os beijos ficando cada vez mais intensos. O calor, a saudade, tudo se misturava.

Até que, no meio do amasso, Leo parou.

Eduardo sentiu a mudança na respiração dele, sentiu o corpo antes entregue agora se afastando.

Abriu os olhos, confuso.

— O que foi? — perguntou, ainda ofegante.

Leo mordeu o lábio, uma expressão estranha no rosto. Era desejo, era raiva, era algo que Eduardo não conseguia decifrar.

E então, Leo riu. Mas não foi um riso divertido.

— Tava pensando aqui... — ele começou, com a voz carregada de ironia. — Sua namorada sabe onde você tá agora?

Eduardo travou.

— Leo...

— Não, sério — Leo continuou, se afastando de vez, os braços cruzados. — O que será que ela tá fazendo agora, enquanto o namorado dela tá aqui, no meu quarto, querendo foder comigo de novo?

Eduardo passou a língua pelos lábios, sentindo o peito apertar.

— Para com isso.

— Para com isso? — Leo riu de novo, descrente. — Nós sempre ficamos juntos e depois você volta pra ela como se nada tivesse acontecido.

Eduardo sentiu o estômago afundar.

— Você sabe que não é assim.

— Ah, não? — Leo arqueou as sobrancelhas, um brilho de raiva nos olhos. — Então me explica, por favor, porque eu devo estar entendendo errado.

Eduardo passou as mãos pelos cabelos, frustrado.

— Eu não... — Ele respirou fundo, tentando se controlar. — Eu não quero brigar com você hoje, por favor.

— Não quer brigar comigo? — Leo repetiu, a voz ficando mais alta. O peito dele estava inflado de sentimentos que ele não conseguia conter. — E eu? Você já pensou no que eu quero, Eduardo? Ou só no seu próprio prazer?

Eduardo sentiu o rosto esquentar.

— Você fala como se não quisesse também.

Leo riu seco.

— Não coloca essa culpa em mim.

— Não é culpa! — Eduardo rebateu, exasperado. — Eu tô dizendo que eu...

Ele parou, sem saber como terminar a frase.

Leo cruzou os braços, o maxilar trincado.

— Que você o quê?

Eduardo abriu e fechou a boca algumas vezes, mas nenhuma palavra saía.

Ele queria dizer a verdade.

Queria dizer que quando estava com Kayla, não sentia nada comparado ao que sentia com ele. Que pensar em Leo com outra pessoa o fazia querer quebrar coisas.Que ele sabia que estava sendo um covarde, que sabia que estava ferrando tudo, mas que não conseguia parar. Que ele odiava ver a mágoa nos olhos de Leo.

Mas não disse nada.

E isso foi o suficiente para Leo rir de novo, balançando a cabeça.

— É isso que eu pensei. Não consegue falar nada, né?

Leo se afastou e abriu a porta do quarto.

— Pode ir embora.

Eduardo sentiu algo quebrar dentro de si ao ouvir aquelas palavras.

Mas ele não se moveu. Não queria ir embora, mas também não sabia o que fazer para ficar.

A tensão no quarto ficou insuportável.

Eduardo respirava fundo, o peito subindo e descendo com força. Ele via Leo ali, de pé, de braços cruzados, olhando para ele como se estivesse esperando. Como se estivesse testando seus limites.

E Eduardo quebrou. Deu dois passos à frente e bateu a porta com força, fechando-a.

— Você não entende porra nenhuma, Leo! — a voz saiu carregada de frustração, o olhar queimando.

Leo não recuou. Ficou ali, braços cruzados, sustentando o olhar de Eduardo.

— Então me explica. — Sua voz era firme, mas Eduardo sentia a raiva contida ali.

E ele explodiu.

— Você não entende! — Ele soltou, a voz carregada de frustração. — Ou melhor, parece que não quer entender. Porra!

Leo ficou imóvel, mas o olhar não vacilou.

— O que é que eu não entendo, Eduardo? Me explica.

— Tudo! — Eduardo passou as mãos pelos cabelos, sentindo a raiva fervendo no peito. — Você acha que isso aqui é o quê, hein? Uma merda de romance adolescente? Você acha que a gente pode simplesmente… — Ele gesticulou com as mãos, os olhos brilhando de angústia. — Se assumir? Ficar juntos? Namorar?

Leo abriu a boca para responder, mas Eduardo não deu espaço.

Ele precisava falar.

— Você tem noção do que é dois homens saindo por aí de mãos dadas? Dois homens namorando? O que acha que as pessoas pensam disso?

Leo sentiu o coração disparar, mas permaneceu calado.

Eduardo deu um riso seco, cheio de amargura.

— Você quer o quê, hein, Leo? Que a gente namore e viva um “felizes para sempre”? Acorda! Essa não é a vida real!

A dor nas palavras dele era quase palpável.

— Pessoas como eu e você não são livres para fazerem o que quiserem! Você precisa entender! — Eduardo continuou, a voz falhando. — Meu pai me mataria se soubesse!

Ele despejou tudo aquilo sem filtro algum, sem parar para pensar, sem medir o impacto que as palavras teriam. E acertou em cheio.

Leo sentiu como se tivesse levado um soco no peito. Ele queria gritar de volta. Queria dizer que Eduardo era um covarde, que ele estava errado, mas não conseguiu. Porque, pela primeira vez, ele viu o medo nos olhos de Eduardo.

Não era só sobre ele estar preso entre duas vidas.

Eduardo estava apavorado.

Leo nunca o tinha visto assim. E, por um momento, ele não soube o que dizer.

Eduardo sentia o peito subir e descer com força, as mãos tremendo de raiva e desespero. Mas era mais do que isso. Era medo.

— Você não faz ideia das consequências que teríamos, Leo! — Ele apontou para Leo, a voz carregada de frustração. — Você acha que a gente pode simplesmente assumir isso? Que eu posso jogar minha vida fora só porque você quer?

Leo ficou quieto, mas Eduardo viu o maxilar dele travando, como se segurasse tudo o que queria dizer.

— Você quer que eu jogue tudo fora? — Eduardo continuou, rindo sem humor. — Que eu vire motivo de fofoca, piada, que todo mundo me olhe torto? Que eu escute da minha família que sou uma aberração?

Ele passou as mãos no rosto, os olhos ardendo.

— Meu pai não me olharia da mesma forma nunca mais. Minha mãe… — Ele respirou fundo, a garganta apertada. — Minha mãe morreria de desgosto.

Leo apertou os punhos, mas continuou sem falar nada. Eduardo queria que ele falasse. Que gritasse, que dissesse que ele estava errado. Mas Leo só ficou ali, parado, o olhar carregado de algo que Eduardo não queria decifrar.

Então, Eduardo deu um passo à frente, sua voz saindo num tom mais baixo, mais amargo:

— Você não entende, Leo. Não é você que tem tudo a perder.

O silêncio caiu entre os dois como um peso esmagador.

Leo piscou devagar, os olhos brilhando com alguma coisa que Eduardo não sabia se era mágoa ou raiva.

Então, finalmente, ele respondeu:

— E você acha que eu não perco nada?

Leo deu um passo para trás, cruzando os braços contra o peito, como se precisasse de algo que o protegesse das palavras de Eduardo. O olhar dele era puro fogo, mas não era só raiva.

— Você acha que só você tem algo a perder? — A voz dele saiu firme, mas baixa. Ele balançou a cabeça. — Você acha que a minha vida é um paraíso, que eu posso simplesmente viver isso sem medo, sem me preocupar com ninguém?

Eduardo apertou os punhos.

— Não é a mesma coisa.

— Não é?! — Leo soltou um riso incrédulo. — Você acha que eu nunca senti medo? Que eu nunca pensei no que a minha família diria? No que as pessoas da cidade falariam pelas minhas costas?

Eduardo desviou o olhar, engolindo em seco.

— Mas você pelo menos tem a fazenda, Leo. Sua família é diferente. Você pode se enfiar aqui e fingir que o mundo não existe se quiser. Eu não posso.

Leo bufou, passando as mãos pelos cabelos, irritado.

— E você pode fingir que isso aqui — ele apontou entre os dois — não existe? Pode ignorar tudo o que sente?

Eduardo trincou os dentes.

— Eu não tô ignorando.

— Tá, sim! — Leo interrompeu, os olhos queimando. — Você tá se escondendo atrás da sua namorada, atrás da sua família, atrás de qualquer desculpa que puder encontrar!

O peito de Eduardo subia e descia com força.

— O mundo não é como você quer! — O tom dele era quase desesperado. — Eu não posso sair de mãos dadas com você, eu não posso te levar na casa dos meus pais como meu namorado, eu não posso mandar tudo à merda e estragar minha vida porque você quer que seja assim!

— Ah, eu quero que você estrague sua vida? — Leo rebateu, a risada incrédula escapando de seus lábios.

— Você não entende, porra! — Eduardo passou as mãos pelos cabelos, andando pelo quarto, inquieto. — Você nunca vai entender.

Leo riu de novo, dessa vez com amargura.

— Ah, então me explica, Eduardo. Me explica por que eu nunca vou entender.

Eduardo parou, encarando-o.

— Porque você não cresceu com um pai como o meu. — A voz dele saiu mais baixa agora, mas ainda carregada de peso. — Você não cresceu ouvindo que homens de verdade não fazem isso. Você não cresceu sabendo que, se um dia fizesse algo assim, ia ser tratado como um lixo.

Leo mordeu a parte interna da bochecha, desviando o olhar.

Eduardo continuou, a voz carregada de algo pesado, algo que ele nunca tinha colocado em palavras antes:

— Você não sabe o que é crescer numa casa onde ser gay é piada. Onde isso é motivo de vergonha.

Leo levantou o olhar para ele, mas Eduardo já tinha começado, e agora as palavras saíam como uma avalanche.

— Desde que eu me entendo por gente, escuto meu pai fazer piada. Escuto meus tios rindo quando falam de ‘viado fresco’ que apanha na rua e dizendo que ‘bem feito’. Escuto minha mãe dizendo que se tivesse um filho assim, preferia nem ter tido.

Leo sentiu algo apertar no peito, mas Eduardo não parou.

— Eu cresci ouvindo que ser homem de verdade era pegar mulher, era ser forte, era não demonstrar fraqueza. Você acha que eu podia simplesmente… acordar um dia e falar ‘mãe, pai, eu tô namorando com o Leo’?!

A risada que ele soltou foi amarga, doída.

— Se isso vazasse, se alguém da minha família soubesse, Leo… Eu não sei o que aconteceria comigo. Eu não sei se teria casa pra voltar. Falando sério. A minha relação com meus pais não é tão boa, imagina com essa ainda…

Leo ficou em silêncio, processando cada palavra.

Eduardo passou as mãos pelos cabelos, exausto.

Leo piscou rapidamente, tentando conter as lágrimas que se acumulavam. Seu peito parecia apertado, como se cada palavra de Eduardo fosse um peso esmagador sobre ele.

Eduardo o observou, e pela primeira vez desde que começara a falar, sentiu um nó na garganta. Ele se sentia muito mal por despejar tudo daquela forma, mas era a verdade. A verdade feia, suja, dolorida.

— Eu não queria te machucar. — Sua voz saiu mais baixa agora, menos agressiva. — Mas é assim que as coisas são, Leo. Eu não posso... nunca poderia te chamar de namorado.

Leo fechou os olhos por um segundo, sentindo sua própria respiração falhar.

— Se fôssemos homem e mulher… — Leo comentou, a voz embargada. — Nunca teria esse problema.

Eduardo abriu a boca, mas nada saiu de imediato. A resposta já estava ali, presa na garganta, mas ele sabia que dizê-la em voz alta faria tudo doer ainda mais.

Leo esperou, o olhar fixo nele, buscando algo, qualquer coisa.

— Não teria. — Eduardo finalmente respondeu, baixinho.

Leo sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.

Porque ele já sabia. Ele sabia que Eduardo nunca teria essas dúvidas se estivesse com uma garota. Sabia que se fosse Kayla, tudo seria simples. Eles andariam de mãos dadas, postariam fotos juntos, apresentariam os pais um ao outro. Nada disso seria uma questão.

Mas com ele...

Com ele, nada era fácil.

Eduardo quis dizer algo. Quis explicar, se justificar mais, mas o olhar de Leo o paralisou. Era dor. Uma dor que ele não queria ver ali, mas que ele mesmo tinha causado.


◄☼►


Eduardo saiu da fazenda sentindo o peito esmagado. O silêncio entre ele e Leo agora era diferente de todas as outras vezes. Não era um silêncio cheio de tensão e desejo reprimido. Era um silêncio frio, vazio. Um silêncio de fim.

O caminho de volta para casa nunca pareceu tão longo. As palavras de Leo ecoavam na sua cabeça, a dor na voz dele, o jeito como seus olhos brilhavam de raiva e mágoa.

"Se fôssemos homem e mulher, nunca teria esse problema.”

Eduardo fechou os olhos com força enquanto pedalava, tentando expulsar aquele momento da mente. Mas era impossível.

Ele não queria que fosse assim. Nunca quis. Mas como mudar algo que sempre esteve fora do seu controle? Como apagar anos de medo, de condicionamento, de verdades impostas que foram marteladas na sua cabeça desde pequeno?

E agora, talvez tivesse perdido Leo de vez.

Quando chegou em casa, sua mãe estava na cozinha, mas ele mal respondeu quando ela perguntou se queria jantar. Subiu direto para o quarto, trancando a porta atrás de si.

Se jogou na cama, encarando o teto, sentindo uma exaustão que não era física.

O celular vibrou.

Por um segundo, seu coração acelerou. Mas quando pegou o aparelho, viu que era Kayla.


Kayla: saudades, meu amor. sinto q vc tá tão distante ultimamente. tá tudo bem?


Eduardo soltou um suspiro longo, cansado.

Ele não respondeu. Apenas bloqueou a tela e largou o celular ao lado.

A verdade? Ele não sabia mais se algum dia tudo ficaria bem.

Eduardo estava deitado na cama quando o celular vibrou novamente. Ele hesitou antes de pegar o aparelho, já esperando outra mensagem de Kayla ou talvez de Bruno enchendo o saco. Mas quando viu o nome na tela, sua respiração falhou por um segundo.


Leo: eu entendo tudo, eduardo

Leo: e sinto muito por ter te pressionado

Leo: me perdoa


Eduardo sentiu um nó na garganta.

Leo estava pedindo perdão.

Leo, que era a única pessoa no mundo que tinha o direito de estar puto, magoado, de nunca mais querer olhar na cara dele, estava se desculpando.

Eduardo passou a mão pelo rosto, fechando os olhos com força.

Ele não merecia isso.

Não merecia a paciência de Leo. Não merecia o carinho que ele ainda tentava manter, mesmo depois de tudo.

Porque, no fundo, Leo não tinha culpa de nada.

Era Eduardo quem tinha ferrado tudo.

Era ele quem não conseguia escolher. Era ele quem tinha medo demais para assumir o que sentia.

A tela do celular continuava acesa, as palavras de Leo brilhando ali, como um lembrete de tudo que ele estava perdendo.

Eduardo queria responder, queria dizer que não havia nada para perdoar. Mas também sabia que, se respondesse agora, só ia arrastar Leo de volta para esse inferno com ele.

Então, bloqueou o celular e o largou no colchão. Ficou ali, encarando o teto, sentindo o peito pesar.