O Garoto Feito de Sol e Terra

59 Capítulo 59 — Quando Tudo Queima Por Dentro


Eduardo chegou em casa jogando as chaves no balcão da cozinha, atravessando a casa em passos pesados, como se o peso do dia inteiro estivesse afundando seus ombros. Ele não parou para conversar com ninguém. Nem com a mãe, nem com o pai.

Subiu direto para o quarto e, antes que pudesse pensar demais, entrou no banheiro e ligou o chuveiro.

A água quente desceu sobre seu corpo, relaxando os músculos tensos, mas não aliviando o aperto sufocante no peito.

Porra.

Ele apoiou as duas mãos contra a parede fria, abaixando a cabeça enquanto sentia a garganta se fechar.

O rosto de Leo não saía de sua mente.

O jeito que ele olhou para ele no shopping, tão distante, tão machucado.

O jeito que ele ficou em silêncio após sua resposta.

O jeito que ele simplesmente foi embora, sem dar chance para Eduardo tentar consertar nada.

E ele sabia que não podia reclamar, pois Leo estava na razão.

Eduardo estragou tudo.

Estragou o que eles tinham.

O peito de Eduardo começou a tremer, e antes que pudesse conter, sentiu os olhos arderem.

E então, finalmente, deixou as lágrimas caírem.

Não era só tristeza. Era culpa. Era arrependimento.

Era o desespero de saber que, não importava o quanto ele tentasse voltar atrás, algumas coisas simplesmente não podiam ser consertadas.

Ele socou a parede azulejada do banheiro com força, soltando um grunhido de frustração.

Por que tinha feito isso?

Por que tinha escolhido Kayla?

Por que tinha mentido para si mesmo esse tempo todo?

A água quente escorria por seu rosto, misturando-se às lágrimas silenciosas.

Depois de longos minutos, Eduardo finalmente desligou o chuveiro, pegou a toalha e saiu do banheiro. A respiração ainda estava instável quando se jogou na cama, os cabelos pingando contra o travesseiro.

Pegou o celular.

A tela acendeu com algumas notificações.

Mensagens de Kayla.


Kayla: oi, meu amor <3

Kayla: vc tá tão sumido...

Kayla: tava pensando em vc. queria tanto te ver


Eduardo encarou a tela, sentindo um vazio absurdo.

Não queria responder. Não queria falar com ela. Não queria fingir mais nada.

Suspirando pesado, ignorou as mensagens e, sem pensar muito, abriu outra conversa.

A conversa que realmente importava.

Leo.

A última conversa de Leo ainda brilhava na tela.

Eduardo sentiu o peito apertar.

Sabia que Leo tinha procurado um motivo qualquer para falar com ele, e agora, Eduardo também queria um motivo para falar com Leo.

Mas já não sabia se ainda podia.


◄☼►


Na manhã seguinte, Eduardo acordou com a cabeça pesada, como se tivesse passado a noite inteira tentando fugir dos próprios pensamentos, e falhando miseravelmente.

Ele ficou deitado por longos minutos, olhando para o teto, relembrando cada detalhe do dia anterior.

O shopping.

O silêncio sufocante entre eles.

O jeito como Leo o encurralou com aquelas perguntas.

Ele virou de lado na cama, passando as mãos pelo rosto, soltando um suspiro frustrado.

“Quando a gente foi pra praia... você já... já tava ficando com a Kayla naquela época?”

Eduardo apertou os olhos.

Naquele momento, ele não quis mentir. Não podia. A resposta escapou antes que pudesse encontrar um jeito de suavizar a verdade.

E então, ele viu.

Viu o jeito que o rosto de Leo se fechou.

Viu a expressão dele mudar, como se uma peça importante tivesse finalmente se encaixado, trazendo uma dor inevitável junto. E depois veio a pergunta que Eduardo queria ter evitado a qualquer custo.

“Você... realmente não sente nada quando beija ela?”

Eduardo se lembrou de como hesitou.

De como quis mentir, quis evitar aquela conversa, quis fingir que o assunto podia simplesmente ser enterrado ali. Mas Leo não deixou.

Eduardo virou na cama de novo, encarando a parede, o estômago afundando com aquela lembrança.

Leo não demonstrou raiva, só ficou em silêncio. Se Leo tivesse gritado, brigado, chamado ele de canalha ou qualquer coisa assim, Eduardo saberia lidar melhor, mas ele não fez nada disso.

Eduardo sabia que Leo nunca foi de engolir as coisas. Se algo o incomodava, ele acabava deixando transparecer. Ficava emburrado, falava na cara, explodia quando não conseguia mais segurar. Mas, dessa vez, foi diferente.

Dessa vez, Leo não gritou, não xingou, não jogou verdades afiadas na cara dele.

Só fez perguntas.

Perguntas que doíam.

E agora Eduardo estava ali, revivendo cada segundo dessa conversa, sentindo o peso esmagador de todas as suas escolhas.

Ele fechou os olhos com força, a culpa queimando dentro dele.

O que ele tinha feito?

Como ele tinha ferrado tanto com algo que significava tudo para ele?

Leo era seu melhor amigo.

Leo era quem conhecia todas as suas partes, boas e ruins.

Leo era quem ele queria mais do que qualquer coisa.

Mas Leo também era a pessoa que ele estava machucando repetidamente. E Eduardo não sabia mais como consertar isso.


◄☼►


Eduardo encarou a tela do celular, os olhos fixos na notificação de Kayla.


Kayla: tá tudo bem? vc tá estranho esses dias.

Kayla: sumiu de novo. aconteceu alguma coisa?


Ele suspirou, passando uma mão pelos cabelos ainda úmidos.

Kayla já tinha mandado mensagens na noite anterior, mas ele não teve vontade de responder. Agora, lendo aquilo, sentiu que não podia continuar ignorando. Por mais que estivesse com a cabeça em outro lugar, em outra pessoa, Kayla ainda era sua namorada e ele devia pelo menos uma resposta.

Eduardo passou os dedos sobre o teclado, hesitante. Ele poderia simplesmente dizer que estava cansado, ocupado, inventar qualquer desculpa. Mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, Kayla perceberia que algo estava errado.

Respirou fundo e finalmente digitou.


Eduardo: foi mal, kay. só tô meio cheio de coisa na cabeça


Ele não mentiu, mas também não disse a verdade. A resposta veio quase de imediato.


Kayla: o que aconteceu? vc quer conversar?


Eduardo fechou os olhos por um instante.

Conversar?

Ele queria. Mas não com ela.

Não sobre isso.

Porque, por mais que tentasse, Kayla nunca entenderia. Nunca poderia entender o nó que estava na sua garganta, a bagunça que estava dentro dele.

Porque essa bagunça tinha nome.

Eduardo apertou os lábios, tentando afastar o aperto no peito.


Eduardo: tá tudo bem, sério. só cansado


Kayla demorou mais dessa vez para responder.


Kayla: se precisar de mim, eu tô aqui, tá?


Eduardo sentiu o peso daquela mensagem. Kayla realmente gostava dele. Ela se preocupava, estava ali, disponível.

Mas o problema era ele.

Porque ele não conseguia ser verdadeiro com ela.

Porque o que ele queria de verdade, ele não podia ter.

E, naquele momento, tudo que Eduardo conseguia sentir era culpa. Uma culpa sufocante, esmagadora.

E nenhuma mensagem conseguiria mudar isso.