O Garoto Feito de Sol e Terra

60 Capítulo 60 — O Preço de Fingir Que Não Dói


Quando chegou em casa depois daquele dia no shopping, Leo se jogou na cama, sentindo o peito apertar de um jeito que ele não conseguia explicar. As lágrimas vieram sem aviso, quentes e sufocadas, escapando antes que ele pudesse contê-las. Ele tentou segurar, tentou respirar fundo, mas nada adiantava.

A viagem.

Aquela viagem maldita.

Ele fechou os olhos e, instantaneamente, foi transportado para aqueles dias.

O som das ondas quebrando na areia. O cheiro de maresia misturado ao protetor solar. O sol batendo no rosto de Eduardo quando eles entraram no mar pela primeira vez, as risadas misturadas com o barulho da água.

Ele se lembrou de como Eduardo segurou sua mão debaixo d'água, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como eles correram juntos pela areia molhada, como Eduardo o pegou nos braços e o jogou no mar, só para depois puxá-lo de volta e abraçá-lo com força.

Tudo aquilo parecia tão genuíno.

Tão puro.

Leo se lembrou de como eles voltaram para o quarto da pousada, ainda com os cabelos úmidos, deitados lado a lado na cama de solteiro estreita. De como Eduardo passou os dedos entre os fios do cabelo dele e sussurrou algo sobre como ele ficava bonito assim, com o rosto relaxado, despreocupado.

Ele acreditou em cada palavra.

Mas agora sabia a verdade.

Eduardo já estava com Kayla.

Já tinha beijado ela.

E, o tempo todo, estava vivendo aquele momento com ele já tendo feito isso.

Leo sentiu o estômago revirar.

A dor no peito era tão absurda que ele teve que cobrir o rosto com as mãos, tentando conter o soluço que ameaçava escapar.

Ele se sentia um idiota.

Como pôde ter sido tão feliz, tão entregue, sem saber o que estava acontecendo por trás?

Leo se virou na cama, encarando o teto, a respiração entrecortada. Antes, ele daria qualquer coisa para voltar no tempo e reviver aqueles dias. Mas agora sabia que tudo aquilo não passava de uma ilusão, porque Eduardo nunca foi só dele.

E isso... Isso era o que mais doía.


◄☼►


Leo estava no celeiro, jogando fardos de feno para o canto, as mãos sujas de poeira e suor escorrendo pela nuca. Era um dia abafado, mas ele preferia estar ali, se ocupando com alguma coisa, qualquer coisa, do que deixar a mente vagar para onde não devia.

O barulho das galinhas ciscando lá fora e o cheiro de terra úmida o envolviam, criando um ambiente familiar, quase confortável. Mas nada dentro dele estava confortável.

Foi quando ouviu passos se aproximando.

Ele ergueu o olhar e viu sua mãe parada na entrada do celeiro, o avental sujo de farinha e a expressão séria, mas gentil.

Leo sentiu um aperto no estômago.

Ele conhecia aquele olhar.

— Meu filho — ela chamou, cruzando os braços e se encostando na porta de madeira. — Faz tempo que não vejo o Eduardo por aqui.

Leo sentiu o coração dar um salto no peito, mas forçou a expressão mais neutra que conseguiu.

— Ah… é. Ele deve estar ocupado.

Rita não era boba. Ela franziu o cenho, observando o filho com atenção.

— E você também não fala mais dele — continuou. — Antes, era Eduardo pra cá, Eduardo pra lá… Agora, parece que ele nem existe.

Leo apertou os lábios.

Claro que ele existia.

Na sua mente. No seu peito. Em cada maldito canto onde ele não queria que estivesse.

Ele voltou a mexer nos fardos de feno, querendo encerrar o assunto.

— A gente só tá seguindo caminhos diferentes, mãe. Acontece.

Ela ficou em silêncio por um momento, como se pesasse aquelas palavras. Então, respirou fundo e deu mais um passo para dentro do celeiro.

— Leo, me olha.

Ele hesitou, mas por fim ergueu os olhos.

— O que aconteceu entre vocês?

O coração de Leo martelou.

— Nada.

Rita estreitou os olhos.

— Não minta pra mim.

Leo desviou o olhar, sentindo os dedos coçarem, inquietos.

Ela suspirou e se aproximou mais um pouco.

— Eu vejo como você tá diferente, filho — disse suavemente. — Parece que tá sempre com a cabeça longe, que carrega um peso que não devia carregar.

Leo engoliu seco. Ela sempre soube ler ele bem demais.

Mas o que ele podia dizer?

Que Eduardo destruiu seu coração? Que tudo que eles viveram pareceu uma mentira depois que ele soube da verdade? Que, apesar de tudo, ele ainda o queria?

Ele não podia.

Então, apenas apertou os punhos e balançou a cabeça.

— Eu tô bem, mãe. Só tô… cansado.

Rita o olhou por mais alguns segundos, antes de suspirar e estender a mão, passando-a suavemente pelos cabelos do filho.

— Você pode me dizer qualquer coisa, Leo — sua voz veio calma, carregada de amor. — Não precisa carregar nada sozinho.

Leo sentiu o peito apertar de novo.

Ele queria acreditar nisso, mas, algumas dores, ele simplesmente não sabia como compartilhar.

Então, forçou um sorriso fraco e assentiu.

— Eu sei, mãe.

Mas ela percebeu.

Ela sabia que ele não estava bem e que Eduardo, de alguma forma, era o motivo.


◄☼►


Leo continuou no celeiro, focando no trabalho como se sua vida dependesse disso. Ele ajeitou os fardos de feno, limpou o chão, organizou as ferramentas e até tratou dos cavalos, passando um tempo maior do que o normal com eles.

Cada movimento era calculado, cada tarefa executada com precisão, como se manter as mãos ocupadas fosse a única coisa que o impedia de pensar.

Ele passou a mão na pelagem de Júpiter, o cavalo mais velho da fazenda, sentindo o calor do animal sob seus dedos.

— Pelo menos você não me decepciona, né? — murmurou, afagando o pescoço do cavalo.

Júpiter relinchou baixinho, como se respondesse. Leo soltou um riso nasalado, mas logo seu olhar ficou distante.

Os últimos dias tinham sido um verdadeiro turbilhão. E, agora, depois da conversa com sua mãe, tudo parecia ainda mais pesado.

Ele odiava que Eduardo ainda fosse uma presença tão forte dentro dele. Odiava que mesmo tentando seguir em frente, ainda estivesse ali, remoendo o passado.

Respirou fundo e bateu de leve no pescoço de Júpiter.

— Vou pegar um pouco de água pra você.

Saiu do estábulo e foi até o tanque de água, enchendo um balde. Os braços doíam do esforço do dia, mas ele gostava daquela dor.

Era melhor sentir o cansaço físico do que o peso insuportável da saudade. E, porra, como ele odiava sentir saudade.

Voltou com o balde e despejou a água para o cavalo, que bebeu de imediato. Depois, passou mais um tempo ali, apenas observando os animais, deixando a mente vagar para qualquer lugar que não fosse Eduardo.

E, pelo menos por aquele momento, ele conseguiu.