O Garoto Feito de Sol e Terra
57 Capítulo 57 — Manhã de Verdades
Leo acordou com uma dor de cabeça latejante, como se alguém estivesse martelando dentro de seu crânio. O quarto girou um pouco quando ele abriu os olhos, a luz do sol filtrando-se pelas cortinas e atingindo seu rosto de um jeito cruel.
Ele soltou um gemido baixo, pressionando as têmporas com os dedos, tentando afastar a dor e o gosto amargo na boca.
O que tinha acontecido na noite anterior?
Piscou algumas vezes, tentando organizar os pensamentos. Mas tudo era um borrão. Apenas flashes confusos.
A festa.
Bruno dizendo algo idiota.
A bebida queimando na garganta.
O beijo com aquela garota.
Aquela lembrança fez seu estômago revirar. Ele tinha beijado uma garota?
E então, outra memória.
O ar frio da noite.
O rosto de Eduardo.
Leo fechou os olhos com força.
Não.
Ele tentou puxar mais imagens, mas sua mente parecia travada, como se se recusasse a juntar os pedaços. Ele se lembrava de Eduardo o segurando. Se lembrava de sua voz, mas não das palavras exatas.
Lentamente, virou a cabeça para o lado e viu o colchão no chão.
Eduardo estava lá.
Dormindo, de lado, com a respiração pesada, os traços relaxados, os cabelos bagunçados sobre a testa.
Leo sentiu o peito apertar.
Ele estava ali. Mas por quê?
Seu coração acelerou. A boca estava seca.
O que diabos tinha acontecido?
Leo fechou os olhos de novo, tentando afastar o desespero crescente dentro dele.
Ele saiu naquela noite para esquecer Eduardo. Para provar para si mesmo que podia seguir em frente. Que podia ter outras experiências, que podia apagar da pele e da mente tudo o que sentia por ele.
E, no entanto…
Ali estava ele. De novo.
Dentro do seu quarto com a mesma pessoa que vinha tentando apagar da sua vida.
Havia enlouquecido?
Ele passou as mãos pelo rosto, sentindo o gosto amargo do arrependimento misturado ao álcool da noite anterior. Ele não queria isso. Não queria ter voltado para Eduardo. Não queria ter sido, mais uma vez, a pessoa que cedia.
Mas, pelo jeito, era isso que ele fazia de melhor.
Se mexeu na cama, tentando se sentar devagar para não fazer barulho, e olhou de novo para Eduardo, dormindo no colchão no chão.
Seu peito se apertou.
Mesmo inconsciente, Eduardo parecia tão… confortável ali. Como se aquele quarto fosse tão dele quanto era de Leo. Como se aquele espaço pertencesse aos dois.
Mas não pertencia.
Porque Eduardo tinha outra vida.
Tinha outra pessoa.
E Leo… Leo precisava dar um jeito de sair desse ciclo antes que se destruísse por completo.
◄☼►
Eduardo acordou devagar, piscando algumas vezes enquanto tentava se situar. O colchão no chão estava meio desconfortável, e o sol já entrava pelas frestas da janela do quarto.
Quando se sentou, percebeu que Leo não estava na cama.
O colchão de Eduardo ainda estava bagunçado, os lençóis da cama de Leo revirados, mas o dono dela havia sumido. O peito de Eduardo apertou na mesma hora.
Ele se espreguiçou, esfregando os olhos, o estômago revirando com um mal-estar estranho. Ele ficou parado ali por um tempo, encarando a porta fechada, ouvindo os barulhos distantes da casa.
Rita devia estar acordada.
Eduardo soltou um suspiro, tentando colocar os pensamentos em ordem.
Mas, antes que pudesse decidir o que fazer, a porta se abriu de uma vez. Leo entrou.
O coração de Eduardo acelerou ao vê-lo.
O rosto de Leo estava cansado, os olhos vermelhos, provavelmente ainda sentindo os efeitos da ressaca. Ele parou no meio do quarto, os ombros tensos, o maxilar travado.
— O que você tá fazendo aqui? — A voz dele saiu firme, mas carregada de algo quebrado.
Eduardo respondeu:
— Você tava muito mal ontem. Te trouxe pra casa.
Leo riu sem humor, balançando a cabeça.
— E desde quando você cuida de mim, hein, Castilho?
Eduardo abriu a boca para responder, mas Leo o interrompeu.
— Eu não lembro de nada.
Eduardo ficou em silêncio e Leo continuou:
— Eu não lembro da porra da noite passada.
Os olhos de Leo estavam brilhando, e Eduardo percebeu, com um aperto no peito, que ele estava prestes a chorar.
Leo riu de novo, sem graça, sem acreditar.
— E eu acordei aqui. Com você.
Eduardo sentiu o peso das palavras dele antes mesmo que elas fossem ditas.
— Leo…
Leo abriu a boca, mas hesitou por um momento, engolindo em seco. A respiração dele estava pesada, os olhos brilhando não só pelo álcool ainda residindo no corpo, mas por algo mais profundo, algo que o fazia tremer levemente.
Ele desviou o olhar por um segundo, como se precisasse de coragem para perguntar o que vinha a seguir.
E então, finalmente disse:
— Você… — Ele parou, apertando os punhos ao lado do corpo, a voz falhando antes de continuar. — A gente... fez aquilo?
Eduardo sentiu o corpo inteiro congelar.
Os olhos de Leo estavam cravados nos dele, e o que Eduardo viu ali fez seu peito doer.
— Você fez alguma coisa enquanto eu tava… assim?
Foi como um soco no estômago. Eduardo se levantou e deu um passo à frente, sentindo um desespero crescer dentro dele.
— Porra, Leo, é claro que não!
— Como eu vou saber?
Leo estava tremendo. A voz vacilou no final da frase, e Eduardo quis se socar por permitir que ele chegasse a essa conclusão.
— Leo… — Deu um passo à frente, os olhos fixos nele, a urgência queimando na garganta. — Você tá me ouvindo? Eu nunca—nunca—faria isso com você.
Leo desviou o olhar, respirando fundo, passando as mãos no rosto.
Eduardo sentia como se precisasse convencer Leo da verdade, como se precisasse fazer ele enxergar que nunca teria feito nada com ele daquela forma.
— Você tava muito mal, eu te trouxe pra casa e fiquei aqui pra garantir que você ia ficar bem. Só isso. Eu juro.
Leo fechou os olhos por um segundo, antes de soltar um suspiro longo.
O silêncio ficou pesado no quarto.
Eduardo queria dizer mais alguma coisa, mas não sabia o quê. Não sabia como fazer Leo acreditar nele.
Até que Leo, finalmente, olhou para ele.
— Eu não lembro de nada. — Repetiu, quase para si mesmo.
Eduardo sentiu o peito afundar.
O nó na garganta cresceu, e ele teve que respirar fundo para manter a calma.
Mas, no fundo, tudo que ele queria era segurar Leo pelos ombros e dizer que, não importava o que fosse, nunca machucaria ele desse jeito.
Eduardo fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o controle do próprio peito apertado.
— Eu sei. — A voz dele saiu mais baixa agora, carregada de algo que ele não sabia explicar. — Mas eu nunca faria isso, Leo. Nunca.
Leo não respondeu de imediato. Apenas ficou ali, parado, parecendo perdido dentro da própria mente.
E Eduardo, porra… Eduardo odiava ver ele assim.
— Você pode estar puto comigo, pode me odiar por tudo que eu já fiz, mas isso? — Eduardo apontou para si mesmo. — Isso eu nunca faria!
Leo finalmente olhou para ele. Seu rosto ainda estava fechado, mas havia algo ali, algo que mostrava que ele estava ouvindo.
Eduardo respirou fundo, o peito queimando.
— Eu nunca encostaria em você desse jeito sem que você quisesse.
Leo não disse nada por alguns segundos, como se estivesse processando tudo.
Eduardo sentia que seu coração ia explodir. Ele nunca se sentiu tão desesperado para que Leo acreditasse nele.
Finalmente, Leo soltou um suspiro, passando a mão no rosto.
— Eu… — Ele começou, mas não terminou.
Eduardo engoliu seco, sentindo um pequeno alívio por ver que Leo já não parecia tão tenso quanto antes.
Mas ainda doía.
Doía saber que Leo duvidou dele.
Doía saber que, no fundo, tudo isso era culpa sua.
Leo desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Ele não conseguia mais nem olhar para Eduardo. Uma mistura de vergonha e frustração queimava dentro dele.
Vergonha por ter ficado naquele estado na noite passada.
Vergonha por, de alguma forma, ter voltado exatamente para os braços de quem estava tentando esquecer.
Vergonha porque, no fundo, parte dele sabia que teria feito qualquer coisa para sentir Eduardo de novo ontem à noite, se não estivesse tão bêbado.
Passou a mão no rosto, tentando afastar aquela sensação sufocante. Então, com a voz um pouco rouca, perguntou, sem olhar diretamente para ele:
— Como você sabia que eu estava lá?
Eduardo respirou fundo antes de responder.
— Bruno me mandou uma foto.
Leo franziu o cenho.
— O quê?
— Ele estava bêbado. Mandou uma foto sua… beijando aquela garota. — Eduardo apertou a mandíbula ao dizer aquilo, desviando o olhar por um segundo. — Depois, quando eu perguntei onde vocês estavam, ele me disse.
Leo sentiu um gosto amargo subir pela garganta.
A lembrança veio em flashes confusos. A música alta. O gosto de álcool na boca. A garota que ele até esqueceu o nome. A tentativa desesperada de provar para si mesmo que podia sentir algo por alguém que não fosse Eduardo.
Mas nada tinha funcionado.
Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Então você foi até lá por isso.
Eduardo o olhou, com o rosto tenso.
— Eu fui até lá porque me importo com você, porra.
Leo soltou um riso fraco, balançando a cabeça.
— Se importa ou quer controlar o que eu faço?
Eduardo sentiu o estômago revirar com aquelas palavras. A acusação de Leo o atingiu como um golpe no peito.
— Não é sobre controle, Leo. — Sua voz saiu mais baixa agora, mais contida. Ele passou a mão pelos cabelos, exasperado. — Eu só… quando eu vi a foto sabia que você estava se sentindo sozinho e vulnerável. Eu quis ir lá.
Leo soltou um suspiro pesado, finalmente encarando Eduardo. Ainda havia algo duro em seu olhar, mas a tensão em seus ombros parecia ter diminuído um pouco.
— Eu não preciso que você cuide de mim, Castilho. — Ele disse, cruzando os braços, como se estivesse se protegendo.
Eduardo apertou a mandíbula, lutando contra a vontade de segurar Leo pelos ombros e fazê-lo entender.
— Você pode não precisar, mas isso não significa que eu vou parar de me importar. — Eduardo respondeu, mantendo o olhar firme. — Eu sei por que você foi lá, Leo. Você queria esquecer tudo isso.
Leo desviou o olhar, os punhos ainda cerrados ao lado do corpo. A vergonha ainda queimava sob sua pele. Vergonha de suas próprias escolhas, vergonha de saber que Eduardo estava certo.
— Você acha que tudo gira em torno de você, não é?
— Não. — Eduardo disse sem hesitação. — Mas sei quando alguém tá tentando fugir de alguma coisa. E sei que você não queria aquela garota.
Leo sentiu a garganta secar. Ele queria negar, queria dizer qualquer coisa que jogasse Eduardo para longe dessa conversa, mas não conseguiu.
O olhar de Eduardo cravado nele tornava impossível mentir.
— Fala, Leo. — Eduardo insistiu, a voz mais baixa agora, quase um pedido. — Me diz que eu tô errado. Você queria esquecer, não é?
Leo apertou os punhos com mais força, sentindo as unhas cravarem na própria pele. Sua respiração estava pesada, descompassada.
— Eu… — Ele começou, mas a voz falhou.
Eduardo deu mais um passo à frente, reduzindo ainda mais a distância entre eles. Leo fechou os olhos por um momento, como se estivesse reunindo coragem para admitir o óbvio. Quando abriu, Eduardo ainda estava ali, esperando.
E então, num sussurro quase imperceptível, ele admitiu:
— Sim.
A palavra saiu fraca, quebrada. Mas estava ali.
Eduardo sentiu o peito apertar ao ouvir aquilo, mas, ao mesmo tempo, um estranho alívio. Como se finalmente estivessem reconhecendo o que sempre tentaram esconder.
Leo, por outro lado, parecia ter perdido todo o ar dos pulmões. Ele desviou o olhar, como se quisesse se esconder, mas Eduardo não deixou.
— Leo… — Ele chamou, a voz carregada de algo que Leo não queria enfrentar.
Eduardo sempre soube ler através de Leo. Sempre soube enxergar o que havia por trás das palavras não ditas, dos olhares desviados, dos gestos hesitantes. E, naquele momento, Leo sentiu que, se continuasse ali, encarando Eduardo por mais um segundo, toda aquela barreira que ele vinha tentando erguer ia ruir.
Eduardo ficou ali parado por um momento, observando Leo evitar seu olhar, os ombros tensos, a expressão fechada.
Ele queria dizer mais alguma coisa, mas sabia que qualquer palavra agora só pioraria tudo. Sabia que, por mais que doesse, era hora de ir embora.
Soltou um suspiro pesado e passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar antes de finalmente murmurar:
— Eu vou indo, tá?
Leo não respondeu.
Eduardo esperou alguns segundos, como se ainda tivesse esperança de que Leo dissesse algo, mas tudo que recebeu foi silêncio.
Então, sem mais nada a dizer, virou-se e saiu.
A porta se fechou atrás dele, e Leo ficou ali, parado, sentindo um peso esmagador no peito. Ele deveria se sentir aliviado, mas, por algum motivo, só se sentia ainda mais vazio.
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