O Garoto Feito de Sol e Terra

58 Capítulo 58 — As Ruínas do Que Fomos


Mais tarde naquele dia, Leo ainda se sentia atordoado. Sua cabeça latejava, e o peso da festa e dos acontecimentos daquela manhã ainda pressionava seus ombros. Ele não queria pensar, não queria reviver nada. Só queria apagar tudo.

Mas então, o celular vibrou.

Ele pegou o aparelho da mesinha ao lado da cama, sem muito ânimo, mas, assim que viu o nome de Eduardo brilhando na tela, um aperto surgiu no peito.


Eduardo: leo, eu juro que a gente não fez nada


Leo sentiu o estômago afundar.


Eduardo: vc tava mal. eu só te levei pra sua casa e fiquei pra garantir que vc tava bem

Eduardo: eu falei hoje, mas repito: eu nunca faria nada com vc desse jeito


Leo passou a mão no rosto, sentindo a respiração pesar.

Ele acreditava.

Parte dele já sabia que Eduardo não teria feito algo assim. Mas ainda estava envergonhado. Ainda sentia aquele peso desconfortável no peito, aquela mistura de raiva, vergonha e frustração.

Ele ficou olhando para a tela, lendo e relendo as mensagens.

Os dedos pairaram sobre o teclado. Mas no fim, ele não respondeu.

Apenas bloqueou a tela e largou o celular ao lado.

Não queria lidar com isso agora. Não queria lidar com Eduardo.

Mas, no fundo, sabia que isso não ia durar muito tempo.

Leo ficou o resto do dia perdido em seus próprios pensamentos. Ainda deitado na cama, encarava o teto, tentando encontrar alguma lógica no que tinha feito.

Ir para aquela festa, beber tanto, beijar uma garota só para provar algo para si mesmo…

E o que ele conseguiu? Se sentir ainda pior.

Quando beijou aquela menina, esperando que algo despertasse dentro dele, tudo que sentiu foi o vazio. Uma falta absurda de conexão, de vontade, de significado.

Não era como com Eduardo.

E essa constatação o fez se sentir um completo idiota.

Ele queria que fosse diferente. Queria que pudesse simplesmente sair por aí, beijar outras pessoas, se livrar desse sentimento que o consumia por dentro.

Mas a verdade era cruel e inevitável: nada ia fazer ele esquecer Eduardo.

E ele odiava isso.

Leo suspirou, virando de lado na cama, puxando o travesseiro contra o rosto.

Talvez Carla estivesse certa desde o começo.

Talvez ele estivesse condenado a cair nessa história de novo e de novo.


◄☼►


Os dias se passaram lentos, pesados. Leo tentou se distrair, tentou focar na escola, nos amigos, no que quer que fosse que o impedisse de pensar em Eduardo.

Mas era impossível.

O silêncio de Eduardo pesava como uma ausência concreta, um espaço vazio que Leo não conseguia preencher. As últimas mensagens ainda estavam ali, ignoradas, presas no tempo. Leo quis responder, mas nunca encontrou forças para isso.

Nos primeiros dias, tentou se convencer de que era o certo, que precisava seguir em frente. Mas, todas as manhãs, seu primeiro reflexo era pegar o celular, como se, por um instante, ainda esperasse ver o nome de Eduardo na tela.

E nunca havia nada.

Eduardo não mandou mais mensagens. Não apareceu. Não tentou de novo.

E Leo? Ele fingia que não se importava, que não sentia falta. Que estava bem.

Até que uma semana se passou, e ele percebeu que não estava. Que não aguentava mais.

Não queria ser aquele a ceder. Não queria ser o idiota que sempre voltava, mas estava se sufocando.

Pegou o celular, os dedos pairando hesitantes sobre a tela.

E então, digitou:


Leo: e aí


A mensagem foi enviada.

Agora, restava esperar.


◄☼►


Eduardo estava jogado na cama, encarando o teto, o celular largado ao lado dele. Há uma semana não via ou falava com Leo. E ele estava tentando, com todas as forças, seguir sua vida.

Mas estava uma merda.

Kayla percebia que ele estava distante. Os amigos também. Ele tentava agir normalmente, mas por dentro, a sensação de vazio crescia a cada dia.

Toda noite pegava o celular e rolava a conversa com Leo. Não mandava nada, mas queria. Sentia a ausência dele como uma ferida aberta.

Então, quando o celular vibrou ao lado dele naquela tarde, Eduardo nem esperava nada. Pegou o aparelho de qualquer jeito, sem pressa.

Mas, ao ver o nome de Leo, o peito dele apertou.

"e aí."

Foi só isso. Só duas palavras.

Mas, porra, foi como um soco no estômago. Eduardo ficou parado, encarando a tela por vários segundos. O coração batendo rápido demais, o corpo inteiro tenso.

Leo quebrou o silêncio.

Eduardo fechou os olhos e soltou o ar lentamente.

Ele queria responder na hora, queria dizer tanta coisa, queria perguntar como Leo estava, se estava comendo direito, se sentia a mesma merda de vazio que ele sentia.

Mas forçou-se a respirar fundo e conter a avalanche dentro de si.

Digitou:


Eduardo: e aí, leo


Apagou.

Escreveu de novo.


Eduardo: oi


Apagou de novo.

Passou a mão no rosto, frustrado consigo mesmo.

Por fim, digitou algo que realmente queria dizer.


Eduardo: achei que não ia mais querer falar comigo.


E enviou.

E então, ficou esperando. Como se aquela resposta fosse decidir tudo.

Ficou olhando a tela depois de receber a resposta de Leo.


Leo: só queria saber se vc ainda tá com minha camisa, aquela q deixei aí na sua casa aquele dia


Eduardo riu fraco, balançando a cabeça. Claro. Claro que Leo não mandou mensagem só por isso. Ele conhecia Leo bem demais para não perceber que era só um pretexto.

Eduardo podia até imaginar ele digitando a mensagem, hesitando antes de enviar, tentando encontrar uma desculpa aceitável para falar com ele.

Mas tudo bem. Se esse era o jogo que Leo queria jogar, Eduardo jogaria.


Eduardo: sei lá, deve estar por aqui

Eduardo: pq, quer de volta?


Deixou o celular ao lado e esperou.

O coração batia rápido. Era ridículo, mas ele se sentia um pouco mais vivo só pelo fato de Leo estar falando com ele de novo. Mesmo que fosse dessa forma torta. Mesmo que fosse só sobre uma maldita camisa.

O celular vibrou.


Leo: se vc ainda tiver com ela, sim


Eduardo suspirou, mordendo o canto do lábio.


Eduardo: tá bom. vou procurar


Mas, na verdade, ele sabia exatamente onde estava. A camisa estava dobrada no fundo da gaveta.

Leo havia deixado a camisa lá em uma noite qualquer, sem grande significado aparente. Estava cansado demais para voltar para casa e havia dormido na casa de Eduardo. Depois do banho, quase sem pensar, Eduardo lhe jogou uma peça qualquer do próprio guarda-roupa, algo simples e confortável, tanto quanto o que existia entre eles naquele tempo.

No dia seguinte, Leo saiu apressado, pegando suas coisas, indo embora vestido com a roupa de Eduardo, mas esquecendo sua própria camisa dobrada sobre a cadeira.

Na época, Eduardo não deu muita importância, até disse que Leo poderia ficar com sua roupa. Ele tinha colocado a camisa de Leo no fundo da gaveta, achando que Leo voltaria para buscá-la logo, mas ele nunca a buscou. E, por algum motivo que Eduardo não queria analisar muito, ele também nunca se livrou dela.

Eduardo olhou para a tela do celular por alguns segundos antes de digitar a mensagem.


Eduardo: podemos nos encontrar pra eu te entregar ela?


A pergunta era simples, mas o significado ia além. Era um pretexto. Ele sabia. Leo sabia.


◄☼►


Do outro lado, Leo ficou encarando a tela, o polegar pairando sobre o teclado sem saber o que responder.

Ele queria?

O coração dele batia rápido. Parte dele dizia que era uma péssima ideia. Outra parte queria ver Eduardo. Queria ouvir a voz dele, olhar em seus olhos, sentir aquele frio na barriga que só Eduardo conseguia causar.

Mas e depois? O que viria depois?

Eduardo viu os três pontinhos na conversa, indicando que Leo estava digitando algo. Mas sumiram logo depois.

Leo respirou fundo.


Leo: onde?


◄☼►


Eles marcaram de se encontrar no pequeno shopping local. Um lugar seguro, público, onde nada de errado poderia acontecer. Nada que pudesse fazê-los repetir os erros do passado.

Eduardo chegou primeiro, segurando a camisa dobrada na mão. Quando viu Leo se aproximar, tentou parecer despreocupado, mas seu peito apertava. Fazia mais de uma semana desde a última vez que se falaram. Desde aquele dia.

Leo parou à sua frente, os olhos fugindo dos dele.

— Aqui tá sua camisa. — Eduardo falou, estendendo o tecido sem cerimônias.

Leo pegou a peça, segurando-a sem muito interesse.

Silêncio.

O barulho do shopping preenchia o espaço entre os dois, pessoas rindo, passos apressados, vozes se misturando, mas, entre eles, era como se o tempo estivesse suspenso.

Leo olhou para os lados, desconfortável. Tentou ignorar o jeito como Eduardo o observava, como se esperasse algo que ele não sabia o que era.

Depois de um tempo, suspirou e murmurou:

— Tô com fome.

A frase foi dita no tom mais casual possível, mas Eduardo captou de imediato.

Só ele falando isso já era o suficiente.

Eduardo conhecia Leo bem demais. Sabia que aquilo não era apenas um comentário aleatório. Sabia que era uma rendição silenciosa, uma forma de dizer que não queria ir embora ainda.

Ele sentiu um pequeno sorriso puxar o canto dos lábios antes de responder:

— Bora comer, então.

E, sem precisar de mais palavras, começaram a andar juntos pelo shopping, como se nada tivesse acontecido. Como se aquele encontro não fosse um erro esperando para acontecer.

Eles foram até a praça de alimentação, caminhando lado a lado, sem pressa. Leo não olhava muito para Eduardo, e Eduardo fingia que não percebia.

Ao chegarem em um restaurante de fast food e realizarem os pedidos, Leo pegou a carteira para pagar, mas Eduardo foi mais rápido.

— Deixa que eu pago.

Leo franziu a testa.

— Não precisa, Castilho.

— Eu quero. — Eduardo disse simplesmente, já passando o cartão antes que Leo pudesse protestar.

Leo bufou, revirando os olhos, mas não insistiu.

Pegaram as bandejas e se sentaram em uma mesa perto do vidro, de onde dava para ver parte da cidade do lado de fora.

No início, comeram em silêncio. O único som entre eles era o barulho das pessoas conversando ao redor e o tilintar dos talheres.

Eduardo olhava para Leo de vez em quando, tentando captar alguma coisa, qualquer coisa naquele rosto tão fechado.

Depois de um tempo, resolveu quebrar o gelo.

— Você ainda tá treinando aquele cavalo teimoso lá na fazenda? — perguntou, pegando mais uma batata frita.

Leo piscou, surpreso pela pergunta repentina.

— O Apolo? Sim. Ele tá melhorando.

— Acredita que eu sonhei que ele me derrubava outro dia? — Eduardo riu, balançando a cabeça. — Acordei sentindo dor nas costas de verdade.

Leo arqueou a sobrancelha, e, antes que pudesse impedir, um sorrisinho apareceu no canto dos lábios.

— Foi castigo. Você nunca soube montar direito.

— Que mentira! — Eduardo fingiu indignação. — Eu sou um ótimo cavaleiro.

— Tá bom, Castilho. — Leo revirou os olhos, mas o tom carregava uma leveza que não estava ali antes.

Eduardo sorriu.

A conversa foi fluindo mais fácil depois disso, o clima ficou menos tenso. Eles falavam sobre besteiras, coisas do dia a dia, como se fossem apenas dois amigos matando o tempo juntos.

Mas, no fundo, Eduardo sabia.

Sabia que aquilo não era só um encontro casual.

E sabia que, assim como ele, Leo estava se segurando para não cruzar a linha que os jogava sempre no mesmo lugar.

Por fim, também sabia que aquele encontro não era sobre uma camisa.

Leo nem gostava daquela peça, nunca se importou com ela antes. Mas, de repente, depois de uma semana sem contato, decidiu mandar mensagem para perguntar sobre ela?

Era só um jeito de ter um motivo para falar com ele sem precisar admitir que sentia falta.

Por isso, quando Leo disse que estava com fome, Eduardo entendeu na hora. Ele não precisava dizer com todas as letras. Só de estar ali, só de ter vindo, já era o suficiente para Eduardo perceber.

Então ele aproveitou.

Aproveitou aquele momento raro de trégua, onde não estavam brigando, se machucando, se testando.

Conversaram sobre bobagens, como se tudo estivesse bem.

Mas não estava.

Porque estar com Leo era como pisar em areia movediça. Um segundo de distração e já estava se afundando outra vez.

Logo o assunto cessou e ficaram em silêncio. O silêncio entre eles era pesado, mas não desconfortável.

Eduardo olhava para Leo de tempos em tempos, observando cada detalhe do rosto dele. Ele parecia diferente. Não era só o cansaço, ou o jeito contido, era algo mais profundo. Algo que Eduardo não conseguia colocar em palavras.

Então, em um esforço para não deixar o silêncio se arrastar ainda mais, Eduardo tentou puxar assunto.

— E a fazenda? Como estão as coisas por lá? Sua mãe, suas irmãs...?

Leo desviou o olhar por um instante, cutucando a borda do copo com os dedos.

— Tá tudo bem. — respondeu, sem muito entusiasmo.

Eduardo esperou um pouco, mas Leo não continuou. Antes, quando falava da fazenda, dos cavalos, das plantações, das histórias da mãe, das traquinagens das irmãs, Leo se animava, falava sem parar, com aquele brilho nos olhos.

Agora, parecia que estava apenas... respondendo por educação.

— A Sofia e a Mari ainda andam infernizando sua vida? — Eduardo tentou, com um meio sorriso.

Leo respirou fundo e assentiu.

— Como sempre.

O silêncio voltou.

Eduardo apertou os lábios, incomodado com o jeito apático de Leo.

Ele queria provocá-lo, queria arrancar um sorriso, uma piada, um resmungo sarcástico, mas tudo que conseguiu foi essa versão hesitante de Leo, que falava pouco, que não demonstrava muita coisa.

E, porra, Eduardo odiava isso.

Odiava ver Leo assim.

Mas não sabia o que fazer para mudar isso.

Além disso, ele sabia que era sua culpa.

Leo não era assim. Não era essa pessoa contida, hesitante, cheia de dúvidas no olhar. Eduardo o conhecia muito bem para não perceber o peso que carregava agora.

E esse peso tinha nome.

Ele.

Então, quando perguntou sobre as irmãs de Leo, esperando que ele se animasse nem que fosse um pouco, tudo que recebeu de volta foi uma resposta desinteressada e um silêncio que pareceu se arrastar por uma eternidade.

Eduardo soltou um suspiro discreto, desviando o olhar para o copo à sua frente, sentindo o estômago revirar.

Foi quando ouviu a voz de Leo, baixa, incerta:

— Eu... posso te perguntar uma coisa?

Eduardo levantou o olhar na hora.

Leo ainda evitava encará-lo, os dedos inquietos sobre a mesa, como se estivesse reunindo coragem para continuar.

— Claro. — respondeu Eduardo, franzindo levemente a testa.

Leo respirou fundo. Quando finalmente ergueu o olhar para Eduardo, seus olhos estavam cheios de algo difícil de decifrar.

— Promete que não vai mentir pra mim?

Eduardo sentiu o peito apertar.

Olhando para Leo ali, com aquela expressão meio vulnerável, meio determinada, ele soube que qualquer resposta errada faria tudo desmoronar de vez.

Então, engoliu seco e assentiu.

— Prometo.

Leo hesitou mais um pouco antes de finalmente perguntar:

— Naquela viagem... — Leo começou, mas hesitou, passando a língua pelos lábios antes de continuar. — Quando a gente foi pra praia... você já... já tava ficando com a Kayla naquela época?

O silêncio que se seguiu foi quase sufocante.

Eduardo ficou imóvel, a pergunta pairando no ar como algo que ele sabia que um dia viria.

Ele respirou fundo, sentindo o coração bater mais rápido do que queria admitir. Não queria entrar naquele assunto, não queria reabrir uma ferida que nunca tinha fechado direito, mas também não queria mentir para Leo.

— A gente se beijou uma vez antes — disse enfim, a voz baixa, sem rodeios. — Mas foi só isso.

Leo não reagiu de imediato. Apenas piscou devagar, absorvendo aquelas palavras, como se estivesse tentando encaixá-las dentro de tudo que já vinha carregando há tanto tempo. Permaneceu em silêncio por mais alguns segundos, como se ainda processasse cada palavra. Eduardo podia ver os músculos do maxilar dele travados, os dedos inquietos sobre a mesa, o olhar preso a um ponto indefinido.

E então, com a voz mais baixa, quase hesitante, ele perguntou:

— Em algum momento… você gostou dela? Sentiu alguma coisa? Qualquer coisa?

Eduardo sentiu um nó se formar na garganta.

Ele viu a forma como Leo apertou os lábios logo depois de dizer aquilo, como se estivesse arrependido por ter perguntado, mas ao mesmo tempo incapaz de ignorar a própria curiosidade. E sabia exatamente o que aquilo significava.

— Não. — A resposta veio simples, direta.

Leo ergueu o olhar na mesma hora, parecendo pego de surpresa.

— Não? — repetiu, a voz carregada de algo indefinível.

Eduardo negou com um movimento leve da cabeça.

— Eu tentei, talvez — admitiu, soltando o ar devagar. — Mas não.

Leo desviou o olhar de novo, apertando a borda do copo entre os dedos, sentindo o peito afundar.

Eduardo franziu a testa, inclinando-se um pouco para frente.

— Leo…

Leo soltou um suspiro, parecendo cansado de si mesmo.

— Eu beijei aquela garota na festa, Eduardo. — Ele disse de repente, como se precisasse jogar aquilo no ar. — E não senti nada.

Eduardo congelou.

Leo passou as mãos no rosto, exausto.

— Eu tava bêbado, queria… sei lá. Foi muito patético.

Eduardo abriu a boca para responder, qualquer coisa, mas as palavras ficaram presas na garganta. Ele queria dizer que entendia, que sabia exatamente como era tentar esquecer alguém e falhar miseravelmente. Queria dizer que não achava patético.

O olhar de Leo estava diferente agora. Já não havia hesitação, apenas algo mais profundo e cortante, algo que Eduardo não queria ver ali.

Mágoa.

Leo desviou o olhar, mas foi tarde demais. Eduardo já tinha visto.

Já tinha visto o jeito que ele apertava os punhos sobre a mesa, a forma como seus ombros pareciam mais tensos, como se estivesse segurando tudo dentro de si para não transbordar.

Eduardo não sabia o que dizer.

O silêncio entre eles se estendeu, pesado, sufocante.

Eduardo queria dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas nenhuma palavra parecia certa.

Ele se sentia mal. Porque agora, olhando para Leo, vendo a expressão vazia, os olhos que antes brilhavam com tanta intensidade agora sem aquele brilho de sempre, Eduardo sabia que tinha ferrado com tudo.

E então, sua mente fez o que fazia sempre que ele tentava fugir da culpa.

Levou-o de volta ao único momento em que tudo parecia certo.


◄☼►


O sol estava se pondo quando eles entraram no mar.

O céu tingido em tons de laranja, rosa e dourado refletia na superfície da água, criando uma paisagem tão surreal que Eduardo quase se sentiu em um sonho.

Mas o que realmente tirava seu fôlego não era o cenário ao redor.

Era Leo.

Leo, com o cabelo molhado caindo sobre a testa, os olhos brilhando de empolgação, um sorriso tão aberto, tão sincero, que Eduardo quis congelar aquele momento para sempre.

— Porra, olha isso — Leo murmurou, girando no meio da água, os braços abertos, como se quisesse abraçar o oceano inteiro. — É perfeito.

Eduardo não respondeu.

Só observou.

O jeito como as gotas escorriam pela pele banhada pelo sol. Como o peito subia e descia com a respiração acelerada. Como os olhos pareciam ainda mais dourados sob aquela luz.

Lindo.

Lindo de doer.

— Castilho, você não vai dizer nada? — Leo riu, jogando um pouco de água nele.

Eduardo piscou, voltando ao presente.

— É... bonito — respondeu, a voz soando mais rouca do que deveria.

— Bonito? — Leo zombou, nadando mais perto. — Só isso?

Eduardo engoliu seco.

— Você tá bem? — Leo perguntou, ainda sorrindo, mas havia um traço de preocupação ali.

Eduardo deveria dizer a verdade.

Dizer que queria agarrar Leo ali mesmo, naquele mar infinito, esquecer do mundo inteiro e apenas existir ao lado dele.

Mas, como sempre, Eduardo segurou as palavras dentro de si.

— Tô — mentiu, forçando um sorriso.

Leo estreitou os olhos, desconfiado, mas não insistiu.

— Então vem logo, porra. — Ele pegou a mão de Eduardo, puxando-o para mais longe da areia.

E Eduardo foi.

Foi porque, naquele momento, nada mais importava.

Porque estar com Leo, naquele mar imenso, naquele pôr do sol perfeito, era tudo que ele queria.

Era tudo que ele precisava.


◄☼►


De volta à praça do shopping, Eduardo sentia o gosto amargo da realidade.

Leo ainda estava ali, sentado à sua frente, mas não era o mesmo Leo daquela lembrança.

E tudo por culpa dele.

Eduardo abaixou o olhar para a mesa, sentindo um nó sufocar sua garganta.

Ele queria voltar. Voltar para aquela viagem, para aquela sensação de que nada poderia separá-los.

Mas já era tarde demais.

O silêncio voltou a pairar entre eles. Um silêncio que parecia se estender por horas, mesmo que fossem apenas segundos.

Leo olhava para Eduardo com um semblante fechado, tenso, mas havia algo mais por trás disso. Algo vulnerável. Algo que ele mesmo tentava esconder.

Eduardo desviou o olhar para a mesa, passando a língua pelos lábios, inquieto. Ele sabia que aquela conversa estava indo para um lugar perigoso.

E, ainda assim, Leo não recuou.

A voz saiu baixa, hesitante, mas firme o suficiente para não ser ignorada.

— Você... realmente não sente nada quando beija ela? — perguntou.

Eduardo sentiu o estômago afundar.

Leo continuou encarando-o, esperando. Sabia que não devia perguntar. Sabia que a resposta poderia machucá-lo ainda mais, mas precisava saber. Por que ele lembrava do beijo que deu na garota que conheceu na festa.

Lembrava de como não sentiu absolutamente nada.

Lembrava de como, no instante seguinte, sentiu o peso esmagador da culpa.

E queria saber se Eduardo sentia o mesmo. Ou não.

Eduardo abriu a boca, mas nada saiu. Ele não queria continuar aquela conversa. Não queria falar sobre Kayla. Não queria falar sobre beijos que não significavam nada.

Porque, se dissesse em voz alta, precisaria encarar o fato de que estava preso em uma mentira.

— Leo... — murmurou, desviando o olhar.

Mas Leo não aceitou. Se inclinou levemente para frente, olhando diretamente nos olhos dele.

— Responde. — pediu, e dessa vez sua voz não saiu hesitante.

Eduardo desviou o olhar, engolindo em seco.

Ele hesitou por alguns segundos, mas, quando abriu a boca, as palavras saíram baixas, quase um sussurro.

— Nada.

Leo continuou olhando para ele, a expressão ilegível.

Eduardo sentiu o peito apertar, os dedos coçando contra a mesa. Então, acrescentou:

— Nada que se compare a você.

Leo piscou devagar, mas não reagiu de imediato.

Seu rosto não mudou, seu corpo não se moveu. Ele simplesmente ficou ali, encarando Eduardo, absorvendo as palavras.

E Eduardo sentiu vontade de desaparecer.

Porque ele viu.

Viu quando algo brilhou nos olhos de Leo, por um segundo. E viu quando esse brilho se apagou logo depois, como se não devesse estar ali.

Leo desviou o olhar.

Voltou a encarar a mesa, os dedos brincando distraidamente com a borda do copo.

Não disse nada.

E esse silêncio foi como um soco no peito de Eduardo. Porque ele sabia que Leo estava processando a resposta. E sabia que nada mudaria o que já tinha sido quebrado entre eles.

Eduardo sentiu um nó na garganta.

Por um instante, quis pegar na mão de Leo.

Quis dizer que nunca quis machucá-lo.

Quis dizer que não sabia o que fazer consigo mesmo. Mas ele já tinha estragado tudo tantas vezes que nem sabia se ainda tinha o direito de tentar consertar alguma coisa.

Então, apenas ficou ali, olhando para Leo, sem saber o que fazer.


◄☼►


O silêncio entre eles parecia pesado quando terminaram de comer. Leo empurrou a bandeja para o lado e, sem levantar os olhos, disse com a voz baixa:

— Vamos.

Eduardo apenas assentiu, sentindo o peso daquela única palavra.

Ele se levantou junto com Leo, acompanhando-o até a saída. O barulho do shopping ao redor era distante, abafado pela tempestade dentro de sua cabeça.

Enquanto caminhavam lado a lado pelo corredor, Eduardo, num ato quase involuntário, deixou que seus dedos roçassem na mão de Leo.

E, por um instante imperceptível, segurou. Só um segundo. Só o tempo de sentir a pele quente de Leo contra a sua.

Mas então, Leo, como se tivesse sido queimado, afastou sua mão imediatamente. Não disse nada, apenas continuou andando.

Eduardo viu a forma como a mandíbula dele ficou tensa, como se tentasse não demonstrar que aquilo o afetou.

Eduardo se amaldiçoou mentalmente.

Quando chegaram à saída do shopping, o vento frio do lado de fora os envolveu, contrastando com o calor sufocante que Eduardo sentia dentro do peito.

E então, antes que Leo pudesse ir embora, Eduardo soltou, de repente, sem conseguir segurar:

— Eu senti muito sua falta essa semana.

Leo parou por um breve instante, mas não olhou para ele. Apenas suspirou baixinho e respondeu:

— Obrigado por me devolver a camisa.

E começou a se afastar.

Eduardo ficou parado, sentindo o coração afundar no peito. Ele queria falar mais. Queria dizer que sentiu a falta de Leo de um jeito que doía, que parecia insuportável.

Queria dizer que cada segundo sem ele foi um vazio sufocante, que ele olhava para o celular esperando uma mensagem, que as noites pareciam mais longas porque o sono não vinha sem a lembrança de Leo em sua cama, na praia, em sua vida.

Mas tudo que conseguiu fazer foi observá-lo ir embora.

Cada passo de Leo era como uma ferida aberta que se alargava ainda mais.

Eduardo sentiu os olhos arderem, uma vontade absurda de chorar queimando dentro dele. Porque ele estragou tudo.

Ele estragou algo que era puro, bonito, que era dele.

E agora, tudo que restava era essa distância dolorosa entre eles.

Eduardo passou a mão pelo rosto, sentindo o peito pesado, o coração esmagado.

Ele permaneceu ali, imóvel, enquanto via Leo se afastar.

Cada passo que ele dava parecia levar consigo um pedaço do que Eduardo já foi um dia. Um pedaço da leveza que um dia existiu entre eles, da conexão fácil, das risadas compartilhadas, dos olhares que não precisavam de palavras.

Ele queria correr atrás dele.

Queria segurar sua mão de novo, sem soltar.

Queria pedir desculpas de todas as formas possíveis, mas não sabia se alguma desculpa era o bastante.

Então, apenas ficou ali, observando.

Os ombros de Leo estavam tensos, as mãos enfiadas nos bolsos, e ele sequer olhou para trás.

Eduardo sentiu um aperto sufocante no peito.

A respiração ficou rasa, como se o ar estivesse pesando dentro dele.

E, mesmo quando Leo virou a esquina e desapareceu de vista, Eduardo ainda ficou parado no mesmo lugar, olhando o vazio deixado por ele.

Seu peito gritava.

A vontade absurda de chorar ainda queimava atrás dos olhos, mas ele se recusava a deixar as lágrimas caírem ali, no meio da rua.

Ele passou a língua pelos lábios secos, enfiou as mãos nos bolsos da calça e abaixou a cabeça, sentindo o estômago revirar com tudo que não conseguiu dizer.

Como foi burro.

Como foi covarde.

E como ainda amava Leo com cada parte do seu ser.