O Garoto Feito de Sol e Terra

52 Capítulo 52 — No Fim, Sempre Acaba Igual


Leo passou o resto do dia em um estado de torpor. Depois da conversa com Carla, ele apenas vagou pela cidade, andando sem direção, tentando colocar seus pensamentos no lugar, mas era inútil.

Porque toda vez que fechava os olhos, Eduardo estava lá. O calor da pele dele contra a sua, os beijos, os toques, o jeito como sussurrava seu nome. O modo como o segurava, como se não quisesse soltá-lo nunca.

Mas a realidade era outra. E ela sempre voltava para lembrá-lo.

Quando finalmente chegou em casa, a noite já havia se instalado. Sua mãe já dormia, e ele subiu direto para o quarto. Deitou-se na cama, sem trocar de roupa, encarando o teto escuro.

O cansaço estava ali. Mas o sono, esse se recusava a vir.

Então, seu celular vibrou.

Leo já sabia quem era antes mesmo de olhar.


Eduardo: foi tão bom te ver hj, leo...

Eduardo: eu n sabia o quanto sentia sua falta até te ver de novo


O peito de Leo apertou. Ele virou o celular com a tela para baixo e fechou os olhos com força.

Não queria ler. Não queria responder.

Mas o celular vibrou de novo.


Eduardo: eu queria q as coisas fossem mais simples...


Leo sentiu um nó na garganta. Porque ele também queria.

Queria que não doesse tanto. Queria que Eduardo não tivesse feito tudo o que fez.

Mas o desejo ainda estava ali, queimando sob sua pele.

Ele mordeu o lábio, sentindo o peso esmagador da culpa no peito. Sabia que Eduardo estava tentando alcançá-lo, mas não queria ser puxado de volta. Porque, se abrisse essa porta, ele sabia que não teria forças para fechá-la de novo.

Mas Eduardo continuou.


Eduardo: eu n consigo ficar sem falar contigo e não sentir falta

Eduardo: sei q vc ta lendo isso


Leo passou as mãos pelo rosto, sentindo os olhos arderem. Ele queria responder. Queria ir até Eduardo. Queria, mais do que qualquer coisa, sentir aqueles braços ao seu redor outra vez.

Mas sabia que não podia.

O celular vibrou mais uma vez.


Eduardo: se arrependeu do que a gente fez?


Leo congelou.

Sentiu o estômago afundar, como se tivesse levado um soco. Sua respiração ficou presa. Ele apertou o celular entre os dedos, o coração martelando.

Eduardo achava que ele se arrependia do que tinham feito.

Mas não era isso.

Ele não se arrependia do beijo, do toque, da forma como Eduardo o fazia se sentir vivo e desejado.

Se arrependia de ter se deixado levar de novo.

Se arrependia de não saber como parar.

Sentindo o peito sufocar, Leo bloqueou a tela do celular e o jogou longe.

Não ia responder. Não podia. Porque se fizesse isso, ele sabia que voltaria correndo para Eduardo.

Se virou de lado, afundando o rosto no travesseiro, tentando ignorar o buraco no peito.

Eduardo podia mandar quantas mensagens quisesse.

Mas, dessa vez, Leo não ia responder, mesmo que doesse. Mesmo que o silêncio fosse uma tortura.


◄☼►


Leo acordou na manhã seguinte com a luz fraca do sol entrando pelas frestas da janela. Seu corpo estava pesado, como se o sono tivesse sido mais um estado de exaustão do que um descanso de verdade.

Mas o que o despertou de vez foi o celular vibrando ao lado do travesseiro.

Ainda sonolento, ele esticou a mão e pegou o aparelho.


Eduardo: oi leo...


Leo soltou um suspiro irritado, esfregando os olhos.

Mais uma mensagem chegou antes mesmo que ele tivesse tempo de pensar.


Eduardo: vc tá me ignorando pq?

Eduardo: ontem foi bom, n foi?


Leo travou a mandíbula.

Bom. É claro que tinha sido bom.

Mas Eduardo falava como se aquilo fosse apenas mais um momento entre eles, como se nada ao redor importasse. Como se ele não estivesse com Kayla. Como se não tivesse ferrado com a cabeça de Leo por tempo suficiente.

O sangue de Leo ferveu.

Pegou o celular e finalmente digitou.


Leo: nossa, que insistência, castilho, n cansa n?

Leo: vai ficar me mandando mensagens até quando?


A resposta veio em segundos.


Eduardo: até vc falar comigo


Leo riu seco, descrente.


Leo: vc já falou comigo ontem. ta querendo oq agr?

Eduardo: porra leo, para de agir assim


Leo cerrou os olhos para a tela.


Leo: mas vc quer q eu fale oq? quer q eu finja q nada aconteceu? q vc n escondeu nada de mim?

Leo: sobre ontem, ontem foi só um momento qualquer, n significou nada

Eduardo: vc sabe que n foi

Leo: sei?

Leo: pq logo logo vc esquece de tudo e volta pra sua vidinha perfeita com sua namorada perfeita

Eduardo: porra leo... vc acha q eu queria q fosse assim?

Eduardo: eu n consigo te tirar da cabeça desde q vc saiu daqui, caralho


Leo ficou encarando a tela, o coração batendo forte no peito.

Os dedos apertaram o celular. Ele viu os três pontinhos indicando que Eduardo ainda estava digitando.


Eduardo: olha, sei q fui um merda com vc. sei q te escondi coisas. sei q vc tem todos os motivos do mundo pra me odiar

Eduardo: mas PARA de falar que ontem n significou nada


Leo sentiu o estômago revirar.

A raiva e o nervosismo se misturavam dentro dele, criando uma tempestade. Então continua digitando, com raiva.


Leo: significou oq, castilho?

Leo: transamos e depois vc vai fingir q nada disso aconteceu

Eduardo: porra leo, n é assim

Leo: sei

Eduardo: tbm n tem como vc agir como se n fosse nada sendo q vc quem veio até aqui ontem


O sangue de Leo ferveu.


Leo: vai se foder

Eduardo: pelo amor de deus, leo


Leo sentiu o rosto esquentar, o peito apertado. As mãos tremiam enquanto digitava.


Leo: e daí, castilho?

Leo: quer q eu diga oq? q foi bom? q eu queria? q eu fiquei pensando nisso depois? no que isso muda?


Ele parou por um segundo. Sentiu a própria respiração descompassada.


Leo: parabéns, está dito. conseguiu o que queria

Leo: eu sou um imbecil


Eduardo demorou a responder dessa vez.


Eduardo: não, porra

Eduardo: vc acha que eu queria isso? q eu quisesse te ver saindo daquele jeito?


Leo engoliu seco.


Leo: n importa, eduardo. no fim, sempre vai dar na mesma coisa.


Eduardo ficou digitando, parando, começando de novo, mas nenhuma resposta veio imediatamente.

Leo bloqueou a tela do celular e jogou o aparelho para o lado, passando as mãos no rosto.


◄☼►


Eduardo encarava a tela do celular, a respiração pesada, os olhos fixos na última mensagem de Leo. O peito estava apertado, como se o próprio ar se recusasse a entrar. Ele leu e releu as palavras, sentindo o impacto de cada uma delas como um soco direto no estômago.

No fim, sempre vai dar na mesma coisa.

Aquilo doía. Doía mais do que ele queria admitir.

Eduardo jogou o celular na cama e passou as mãos no rosto, tentando afastar a frustração que crescia dentro dele. O dia estava apenas começando, mas já parecia um peso insuportável. A casa estava silenciosa, o barulho distante do rádio ligado na cozinha indicava que sua mãe já estava de pé. Mas ele não queria descer. Não queria encarar ninguém.

Porque, no fundo, sabia que não conseguiria fingir que estava tudo bem.

Ele se jogou na cama, encarando o teto, mas não conseguia ficar parado. O corpo inteiro pulsava em inquietação. Pegou o celular de novo, abrindo a conversa com Leo, e pensou em responder. Escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Mas o que ele podia dizer? O que ainda restava para ser dito?

A verdade é que Eduardo não sabia o que fazer com aquilo.

Não sabia o que fazer com Leo.

Não sabia o que fazer consigo mesmo.

O desejo por Leo sempre esteve ali, consumindo cada canto dele, mas agora havia também algo que ele não conseguia controlar. Algo que o fazia querer mais. Algo que fazia o peito doer toda vez que Leo o afastava.

Mas, no fundo, Eduardo entendia.

Ele entendia a raiva de Leo, entendia a frustração, entendia o porquê dele se sentir um idiota por ter cedido. Mas Eduardo também sabia que o que aconteceu entre eles não foi só desejo. Não foi apenas um impulso.

Foi mais.

Sempre foi mais.