O Garoto Feito de Sol e Terra
50 Capítulo 50 — O Quebrado Entre Nós
O tempo passou devagar para Eduardo. Cada dia parecia uma eternidade, e a ausência de Leo era como um peso constante em seu peito.
Uma semana. Uma semana desde que ele descobriu tudo. Uma semana desde que Eduardo foi à fazenda e ouviu palavras que não sabia como responder. Uma semana desde que Leo desapareceu de sua vida.
Ele tentou se ocupar. Se forçou a seguir em frente.
Na escola, passava os dias com Kayla, cercado de amigos, rindo quando precisava rir, participando das conversas como se estivesse realmente ali. Mas não estava. Porque toda vez que pegava o celular, a primeira coisa que fazia era checar a conversa com Leo.
Ainda sem respostas. Ainda um silêncio absoluto.
No começo, até tentou mandar mensagens. Coisas simples, banais. Mas quando percebeu que estava falando sozinho, parou. Leo não queria falar com ele, e Eduardo não sabia lidar com isso. Não sabia como seguir com a própria vida quando uma parte essencial dela estava completamente ausente.
Mas ninguém via isso. Para todo mundo, ele estava bem. Kayla estava ao seu lado, animada, presente. Os amigos continuavam tratando o namoro como um grande evento. E Eduardo... Eduardo seguia o papel que ele mesmo escolheu. Mesmo que, por dentro, tudo parecesse errado.
◄☼►
Certo dia, Leo chegou em casa depois de passar um tempo com os amigos, sentindo-se um pouco mais leve do que nos últimos dias. O tempo longe da escola e de todos tinha sido sufocante, mas agora, as coisas estavam voltando ao normal.
Ou pelo menos era o que ele pensava.
Porque assim que entrou na sala, lá estava Eduardo, sentado no sofá, conversando com Rita como se nada tivesse acontecido.
O coração de Leo deu um salto no peito, mas ele não demonstrou.
Não disse nada.
Apenas passou direto, subindo as escadas para deixar sua mochila no quarto, tentando ao máximo fingir que não tinha visto, mas não teve tanta sorte.
A mãe franziu o cenho, surpresa com a atitude do filho.
— Ué, não vai cumprimentar a gente, filho? Seu amigo Eduardo tá aqui.
O tom dela foi casual, como se não estivesse notando o clima estranho.
Ele respirou fundo, fechou os olhos por um segundo e desceu as escadas novamente. O olhar que lançou para Eduardo foi afiado, como se perguntasse "o que você tá fazendo aqui?"
Eduardo segurou o olhar por um instante. E, naquele segundo de silêncio, os dois sentiram o peso da saudade.
Forte.
Densa.
Pesada o suficiente para deixar um nó no peito de ambos, mas nenhum dos dois disse isso em voz alta.
— Oi. — Leo finalmente murmurou, quase seco.
Sua mãe percebeu que algo estava errado.
Eduardo também percebeu o tom rude, mas não foi embora, porque não podia mais ignorar a ausência de Leo.
E, mais do que isso... ele precisava tentar consertar o que quebrou.
No momento do almoço, o silêncio pesava na mesa.
Rita olhava de um para o outro, estranhando o clima.
Eduardo e Leo nunca brigavam.
Pelo menos, não do tipo que fazia um almoço inteiro se desenrolar com trocas de olhares afiados e respostas curtas e secas.
Eduardo tentava comer, mas a presença de Leo ali, tão perto e ao mesmo tempo tão longe, fazia seu peito apertar.
Leo, por outro lado, mordia cada garfada com força, sem nunca deixar de lançar olhares rápidos para Eduardo, como se ele estivesse prestes a dizer algo que não deveria.
Depois que terminaram a refeição, o silêncio se instalou, denso, desconfortável. Até que Rita, incapaz de suportar por mais tempo, suspirou fundo.
— Bom, já que vocês dois estão aí, façam alguma coisa útil.
Os dois levantaram os olhos ao mesmo tempo, atentos.
— Preciso de umas ferramentas no celeiro, quero cuidar das plantas do jardim. — Ela olhou de um para o outro. — Vão lá buscar pra mim.
Leo bufou, mas levantou. Eduardo apenas assentiu e seguiu o outro até a porta.
O caminho até o celeiro foi silencioso. Leo ia na frente, passos firmes, sem olhar para trás. Eduardo acompanhava, tentando organizar as palavras na cabeça.
Ele sabia que precisava dizer algo, e precisava dizer agora.
Assim que entraram no celeiro, Leo o olhou e quebrou o silêncio.
— Tá bom, o que você tá fazendo aqui?
A voz saiu dura, mas não fria. Havia algo ali... algo quebrado, mas ainda pulsante.
Eduardo respirou fundo.
— Eu senti muito a sua falta.
Leo parou.
O coração dele bateu forte. Mais forte do que gostaria. Mais forte do que deveria. Mas, ao invés de reagir, ele desviou o olhar, indo até uma das prateleiras.
— E onde tá a Kayla? — perguntou, sem emoção.
Eduardo apertou os lábios.
— Não importa.
Leo soltou um riso curto, sem humor.
— Como não importa?
Eduardo deu um passo mais perto.
— Eu quero te contar a verdade. Tudo.
Leo pegou uma das ferramentas, girando-a entre os dedos, fingindo que estava ocupado.
— E quem disse que eu quero saber?
Eduardo engoliu seco, mas ele não podia voltar atrás agora.
Então, mesmo sem permissão, ele falou.
Falou sobre a pressão.
Falou sobre a família.
Falou sobre a expectativa que todo mundo tinha nele.
Falou sobre o medo.
Falou sobre como nunca quis magoar Leo.
Falou tudo.
E Leo?
Leo só escutava, fingindo que as ferramentas em sua mão eram mais interessantes.
Mas Eduardo via. Via como ele apertava os dedos ao redor do material, como a respiração dele oscilava de vez em quando.
Leo ouvia tudo.
E, mesmo sem admitir... aquilo doía.
Leo continuava fingindo que estava ocupado. Os dedos deslizando pela madeira das ferramentas, o olhar fixo em qualquer coisa que não fosse Eduardo.
Mas ele ouvia tudo.
Cada palavra. Cada respiração pesada.
E então, Eduardo se sentou em um dos caixotes, soltando um suspiro longo, como se carregasse o peso do mundo nas costas.
— Foi muito difícil pra mim esses dias sem você.
A confissão saiu baixa, quase hesitante, mas verdadeira.
Leo prendeu a respiração. Por um segundo, quase respondeu. Quase disse que, para ele, também tinha sido um inferno. Que tinha sentido a falta de Eduardo em cada momento do dia, em cada mensagem que não havia respondido e às vezes sentia vontade de responder, em cada silêncio que antes era preenchido por provocações e risadas.
Mas ele não podia.
Não podia dar esse gostinho para Eduardo. Não depois de tudo.
Então, respirou fundo e engoliu as palavras que queriam escapar. E apenas murmurou:
— É, imagino.
Frio. Vazio.
Mas Eduardo viu a forma como ele apertou os lábios depois de dizer aquilo, como se estivesse segurando muito mais. E isso dizia muita coisa.
Eduardo passou as mãos no rosto, cansado, tentando encontrar as palavras certas.
— Eu não sinto nada por ela.
Leo parou. Os dedos afrouxaram levemente a pegada na ferramenta, mas ele não olhou para Eduardo.
— Não? — murmurou, a voz carregada de incredulidade.
Eduardo balançou a cabeça.
— Não. Nunca senti. Nunca quis isso.
Leo soltou um riso curto.
— Mas pediu ela em namoro mesmo assim.
Eduardo engoliu em seco.
— Porque era o certo, Leo.
Leo franziu a testa, finalmente se virando para encará-lo.
— O certo pra quem?
Eduardo soltou um suspiro frustrado.
— Pra todo mundo. Pros meus pais, pros meus amigos, pra cidade inteira. Era o que todo mundo esperava de mim. E eu...
Ele parou, respirou fundo.
— E eu fiz o que era esperado de mim.
Leo mordeu o lábio, apertando o maxilar. As palavras estavam ali, querendo explodir, mas ele as segurou. Porque nada que dissesse ia mudar o que já tinha sido feito.
O silêncio preencheu o celeiro. E, naquele instante, Leo percebeu que sabia disso o tempo todo. Sabia que Eduardo nunca o escolheria. Mas ouvir em voz alta ainda era como um soco no peito.
Foi então que Leo sentiu a respiração de Eduardo se aproximando antes mesmo do toque. Seus dedos estavam ocupados mexendo nas ferramentas, tentando se agarrar a qualquer distração para não encarar tudo aquilo de frente. Mas então, Eduardo segurou sua mão.
O toque foi firme, quente, familiar.
Um choque percorreu seu corpo inteiro.
Seu instinto foi afastá-lo na hora.
Virou-se bruscamente para Eduardo, o peito subindo e descendo rápido, pronto para falar alguma coisa, qualquer coisa.
Mas não teve tempo, porque Eduardo o beijou. Ali, sem hesitar. Sem dar tempo para ele reagir.
O coração de Leo disparou. O primeiro segundo foi de puro choque. O segundo, de negação. O terceiro, de desespero.
Mas então…
Seu corpo cedeu.
Antes que sua mente pudesse impedi-lo, seus lábios se moveram contra os de Eduardo. Instintivamente.
Porque sentia falta daquilo. Porque mesmo depois de tudo, ainda era Eduardo.
E Eduardo o puxou pela cintura, colando seus corpos, aprofundando o beijo com uma urgência quase desesperada.
E foi aí que caiu a ficha. O que diabos ele estava fazendo?
Leo abriu os olhos de repente e empurrou Eduardo com toda a força. Forte demais.
Eduardo, desprevenido, perdeu o equilíbrio e caiu para trás, batendo a cabeça contra um caixote de madeira.
O som do impacto ecoou pelo celeiro.
Leo congelou.
O ódio instantâneo que sentiu foi substituído por puro desespero. Eduardo gemeu baixo, levando a mão até a parte de trás da cabeça.
Leo sentiu o coração parar.
— Caralho, Edu…
Antes que Eduardo pudesse dizer qualquer coisa, Leo já estava correndo para fora do celeiro.
Precisava de gelo.
◄☼►
Leo voltou apressado, o coração ainda batendo forte contra as costelas.
Segurava um pano com gelo improvisado e, sem dizer nada, ajoelhou-se ao lado de Eduardo. Os olhos dele estavam carregados de culpa.
Eduardo continuava sentado no chão, a mão pressionada contra a cabeça onde havia batido. Quando Leo tocou nele com o gelo, ele estremeceu levemente, mas não reclamou.
O silêncio foi pesado por um instante.
Leo mordeu o lábio, passando o gelo com cuidado, a respiração curta.
— Desculpa. — Ele finalmente murmurou, baixinho.
Eduardo permaneceu sério, imóvel. Por um segundo, Leo quase achou que ele não fosse responder.
Mas então, Eduardo soltou um longo suspiro e fechou os olhos.
— Eu não devia ter te beijado.
Leo parou. Eduardo continuou, a voz firme, mas carregada de um peso difícil de ignorar.
— Eu sei que passei dos limites, me desculpa.
Leo sentiu o peito apertar.
Não era que ele discordasse, porque ele sabia que era verdade. Mas ouvir Eduardo dizer aquilo, com aquela expressão séria, com aquele tom de voz quase derrotado… Doeu, mais do que ele queria admitir.
Leo desviou o olhar, continuando a pressionar o gelo contra a cabeça dele.
— É. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — Não devia.
Mas então, por que parte dele queria que Eduardo tivesse continuado?
Eduardo não olhou mais para Leo.
Aquele toque frio do gelo em sua cabeça era nada comparado ao gelo que parecia ter se instalado dentro dele. Sem dizer mais nada, se levantou, ajeitando a roupa amassada, e deu um passo para trás.
— Eu não vou mais te perturbar, Leo. Me desculpa, de novo. — Sua voz saiu baixa, mas firme.
Leo prendeu a respiração.
Eduardo engoliu em seco antes de continuar.
— Eu entendo sua raiva, de verdade.
O silêncio entre os dois era sufocante. Eduardo então começou a se afastar.
Leo não respondeu. Não o impediu de ir.
Então, Eduardo foi. Saiu do celeiro sem olhar para trás.
E Leo ficou ali, parado, com o pano de gelo ainda na mão, sem saber se sentia alívio ou algo muito, muito pior.
◄☼►
Naquela noite, Leo estava deitado na cama, girando o celular nas mãos, incapaz de dormir.
As palavras de Eduardo não saíam da sua cabeça.
"Não vou mais te perturbar, Leo."
Isso não deveria estar incomodando tanto, mas incomodava. Porque Eduardo sempre foi insistente, sempre tentava. E agora, pela primeira vez, parecia que ele realmente tinha desistido.
Leo não sabia por que isso doía tanto. Ele suspirou e desbloqueou o celular, abrindo o WhatsApp. Eduardo não tinha mandado mais nada.
E pela primeira vez em dias, foi Leo quem começou a escrever.
Leo: oi
Leo: tá melhor?
Leo: ainda tá doendo a cabeça?
Leo: foi mal por aquilo
Leo: n queria te machucar
Leo: se precisar de alguma coisa me fala
Eduardo, que tinha passado dias sem uma única resposta, viu várias mensagens novas de Leo na tela.
O peito apertou. Doía saber que Leo estava do outro lado, finalmente mandando mensagens, finalmente quebrando o silêncio… E agora era ele quem não sabia como responder.
Ficou encarando a tela do celular. Suspirou, passando a mão no rosto, cansado.
Os dedos pairaram sobre o teclado. Escreveu algo. Apagou. Escreveu de novo. Apagou de novo. No fim, respondeu o mais simples possível.
Eduardo: eu tô bem
Eduardo: n se preocupa
A resposta veio rápido.
Leo: como assim "n se preocupa"?
Leo: vc bateu a cabeça, porra
Eduardo sentiu um sorriso fraco ameaçar surgir. Mesmo brigado, Leo ainda era Leo.
Eduardo: sério, leo. tô bem. fica de boa
Os três pontinhos ficaram na tela por um tempo, indicando que Leo estava escrevendo. Mas então, sumiram.
Eduardo ficou olhando para a tela por um tempo.
Nenhuma nova mensagem veio.
Leo tinha parado ali. E talvez fosse melhor assim.
Fale com o autor