O Garoto Feito de Sol e Terra
5 Capítulo 5 — Pelas Ruas de São Tomás
Naquela manhã, a escola parecia mais silenciosa do que o normal. Eduardo chegou e imediatamente percebeu que algo estava errado. O lugar onde Leo costumava sentar na sala estava vazio. Leo não apareceu, e nem mesmo Bruno, Carla ou Davi sabiam o que havia acontecido.
— Estranho… Leo nunca falta sem avisar — murmurou Carla.
— Será que aconteceu alguma coisa na fazenda? — perguntou Bruno.
Eduardo sentiu um aperto no peito. Algo dentro dele dizia que não era apenas um dia de preguiça ou alguma desculpa qualquer. Sem pensar duas vezes, decidiu que precisava ir até lá.
Quando o sinal tocou para o fim das aulas, Eduardo correu para casa, jogou a mochila em um canto e pegou a bicicleta. A estrada de terra que levava à fazenda parecia mais longa naquele dia, como se cada metro pedalado fosse cheio de uma preocupação crescente.
Assim que chegou à entrada da fazenda, viu algo que fez seu coração apertar ainda mais: Leo estava sentado nos degraus da varanda, de cabeça baixa, os olhos vermelhos. Suas irmãs, Mariana e Sofia, estavam abraçadas a ele, chorando baixinho.
Eduardo saltou da bicicleta e se aproximou rapidamente.
— Leo! O que aconteceu?
Leo ergueu o rosto, e Eduardo viu algo que nunca tinha visto antes: tristeza profunda, daquelas que deixam marcas silenciosas.
— O Nico… — Leo começou a falar, mas a voz falhou.
Eduardo sentiu o estômago revirar.
— O quê?
— Ele morreu…
Eduardo piscou, tentando processar aquelas palavras. O Nico, o cachorro que sempre corria na fazenda, que sempre recebia Eduardo abanando o rabo e pulando de alegria, que adorava se deitar na sombra da árvore perto do curral… morto?
— Mas… como? Ele estava bem outro dia…
Leo passou as mãos pelo rosto, tentando conter as lágrimas.
— Ele já estava doente há algumas semanas, mas a gente achou que ele ia melhorar. O veterinário disse que era cinomose. A gente fez tudo o que podia, mas…
Ele não conseguiu terminar a frase.
Mariana e Sofia choravam agarradas uma na outra, e Rita, que estava parada na porta da casa, olhava para os filhos com um semblante triste, mas tentando manter a calma.
Eduardo sentiu um nó na garganta. Ele se ajoelhou ao lado de Leo e colocou a mão no ombro dele.
— Eu sinto muito, cara. De verdade.
Leo não respondeu, apenas abaixou a cabeça.
Por alguns minutos, ninguém falou nada. Só o som do vento balançando as folhas e dos soluços das meninas preenchia o ar.
Então, Gustavo, o irmão mais velho de Leo, apareceu com uma pá nas mãos.
— Vamos enterrar ele no quintal. No lugar onde ele gostava de dormir.
Leo assentiu lentamente e se levantou, enxugando o rosto com a gola da camisa. Eduardo se levantou também.
Ele não precisava falar nada. Sabia que, naquele momento, a única coisa que importava era estar ali, do lado do amigo. Porque, às vezes, a única coisa que se pode fazer pela dor de alguém é simplesmente ficar ao lado dela.
◄☼►
Na manhã seguinte, Eduardo chegou à escola mais cedo do que o normal. Ele sabia que Leo iria naquele dia, mas não sabia como ele estaria.
Quando Leo entrou pelo portão da escola, ficou claro que ele não era o mesmo garoto animado de sempre. Seu olhar estava baixo, os ombros caídos. Ele caminhava devagar, sem pressa, como se cada passo fosse um peso.
Bruno, Carla e Davi o viram se aproximar e foram até ele imediatamente.
— A gente soube do Nico… — Bruno começou, com um tom de voz mais suave do que o habitual.
— Sinto muito, Leo. Eu sei o quanto você gostava dele. — Carla falou, cruzando os braços, sem saber muito bem como lidar com aquilo.
Davi, que normalmente era o mais agitado do grupo, manteve-se quieto por um momento antes de dizer:
— Ele era um cachorro muito legal. Todo mundo gostava dele.
Leo assentiu lentamente, sem levantar os olhos.
— Valeu, pessoal. — disse, com a voz mais baixa do que o normal.
Bruno tentou mudar de assunto, contar alguma piada sem graça, mas ninguém riu de verdade.
O recreio foi mais silencioso naquele dia.
Leo estava ali, mas, ao mesmo tempo, parecia distante.
Eduardo estava ao lado dele o tempo todo, sem dizer nada. Sabia que Leo precisava apenas disso: de alguém que estivesse ali, mesmo no silêncio.
◄☼►
Os dias seguintes passaram em um ritmo arrastado. A fazenda de Leo, normalmente cheia de vida, parecia silenciosa sem o latido animado de Nico correndo pelo quintal. Na escola, Leo estava presente, mas não completamente ali. Ele sorria de leve para os amigos, respondia quando falavam com ele, mas era como se uma parte dele ainda estivesse sentada na varanda da fazenda, com o olhar perdido no chão de terra batida.
Eduardo não o pressionava. Apenas ficava ali, ao lado do amigo, em cada intervalo, em cada caminhada até em casa, sem dizer muito, mas presente.
Com o passar das semanas, aos poucos, Leo começou a voltar a ser o garoto cheio de energia que Eduardo conhecia. Ainda havia momentos de silêncio, instantes em que a tristeza aparecia em seu olhar, mas eles estavam se tornando mais raros.
Até que, em uma tarde quente, após o término das aulas, como se quisesse sacudir qualquer peso que ainda estivesse sobre ele, Leo cutucou Eduardo com um sorriso travesso no rosto.
— Aposto que você não me alcança.
— O quê? — Eduardo arqueou a sobrancelha, confuso.
Mas antes que pudesse entender direito, Leo já estava correndo.
— Ei! — Eduardo riu e disparou atrás dele.
O vento quente soprava pelo rosto de Eduardo enquanto ele tentava acompanhar o amigo. Os dois disparavam pelas ruas de São Tomás, desviando de bicicletas encostadas nas calçadas, pulando poças de água deixadas pela última chuva e rindo sem fôlego.
— Você nunca vai me alcançar, riquinho! — provocou Leo, olhando para trás com um sorriso malandro.
— Veremos! — Eduardo respondeu, forçando as pernas a correrem mais rápido.
Passaram pela praça central, onde um grupo de crianças jogava bola de meia no chão de pedra. Na padaria da dona Célia, o cheiro de pão recém-assado invadia o ar. Alguns senhores estavam sentados nos bancos da praça, conversando sobre o clima e os negócios da cidade.
São Tomás era assim: uma cidade pequena onde todo mundo se conhecia.
Havia o centro, onde ficavam as casas mais antigas e imponentes, pertencentes às famílias que tinham mais influência. Era ali que moravam os Castilho, a família de Eduardo. Seu pai, Frederico, era um dos homens mais respeitados da cidade desde que investiu nos negócios locais, ajudando a modernizar a produção agrícola.
O sobrenome Albuquerque também dominava a cidade. O senhor Albuquerque, pai de Kayla, era dono de várias empresas e considerado um dos homens mais poderosos da região. Sua família morava no maior casarão de São Tomás e promovia eventos importantes, atraindo políticos e empresários.
Já na periferia da cidade, os bairros eram mais simples, formados por ruas de terra e casas mais modestas, com quintais grandes e portões baixos. Muitas famílias trabalhavam diretamente no campo ou em pequenos comércios.
A zona rural, onde ficava a fazenda dos Souza, a família de Leo, se estendia por terras vastas, com pastagens e plantações. O pai de Leo, que falecera anos antes, havia deixado a responsabilidade da fazenda para Rita e Gustavo, o irmão mais velho. Eles trabalhavam duro para manter tudo funcionando, vendendo leite, ovos e queijos caseiros.
Mas, apesar das diferenças sociais, a cidade tinha um senso de comunidade forte. Todos se conheciam, todos sabiam dos problemas uns dos outros e, de certa forma, se ajudavam.
Eduardo e Leo viraram a esquina e pararam, ofegantes, em frente à mercearia do seu Osvaldo. O senhor de barba branca, sempre simpático, os observou com um sorriso no rosto.
— Cansaram, garotos?
— Eduardo cansou. Eu tô só começando! — Leo zombou, respirando fundo.
— Não se ache, Leo. Se essa corrida fosse até o portão da minha casa, eu teria ganhado.
Seu Osvaldo riu.
— Vocês dois vivem correndo por aí. Um dia ainda vão quebrar alguma coisa.
Leo se encostou na parede, ainda recuperando o fôlego.
— E a gente vai consertar depois, né, Eduardo?
Eduardo revirou os olhos, mas sorriu.
Enquanto descansavam, observaram o movimento da rua. A senhora Clarinda varria a calçada com paciência, enquanto dona Célia trocava fofocas com a vizinha. Alguns homens descarregavam sacas de milho em um armazém.
Esse era o coração de São Tomás. Pequeno, simples, mas cheio de vida.
E, no meio disso tudo, Leo e Eduardo corriam pelas ruas, como se fossem donos do tempo.
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