O Garoto Feito de Sol e Terra

27 Capítulo 27 — O Tempo Que Passa e o Que Fica


Os dias em Orlando passaram como um borrão colorido de luzes, filas intermináveis e vozes misturadas em dezenas de idiomas diferentes.

Eduardo e Helena exploraram os parques juntos, tiraram fotos em frente aos castelos e se perderam na imensidão dos outlets. Mas, em meio a tudo isso, havia uma ausência que era impossível ignorar.

Frederico sumia para reuniões todos os dias. Homens importantes, jantares importantes, contratos importantes. Enquanto mãe e filho se aventuravam pelos brinquedos, ele discutia números e estratégias em salas de conferência luxuosas.

— Seu pai trabalha demais. — Helena comentou certa noite, enquanto caminhavam por um shopping, as vitrines iluminadas refletindo em seus rostos.

O tom dela não era exatamente de reclamação. Era algo mais profundo, algo que Eduardo não sabia nomear completamente.

— Ele é viciado nisso. — Eduardo respondeu, enfiando as mãos nos bolsos.

Helena soltou um riso curto.

— Ele sempre foi assim. Desde que conheci seu pai, ele está sempre indo atrás de algo maior.

— E você, mãe?

Ela parou por um instante, observando o reflexo no vidro da vitrine.

— Eu? Eu gosto de estar aqui com você.

Eduardo ficou em silêncio, absorvendo aquilo. Era estranho pensar que, enquanto Frederico se afundava cada vez mais em seus negócios, Helena parecia encontrar refúgio na companhia do filho.


◄☼►


Nos últimos dias antes da volta para o Brasil, Eduardo decidiu comprar algumas lembranças para os amigos. Passou uma hora inteira andando pelos corredores do outlet, indeciso sobre o que escolher.

Pegou alguns chaveiros para Carla, Bruno e Davi. Nada muito elaborado, mas ainda assim o suficiente para que eles não dissessem que ele voltou de mãos vazias.

Também escolheu chaveiros para Tiago, Hugo e Giovane. Os três viviam fazendo piada com qualquer coisa, então provavelmente zoariam o presente, mas Eduardo já contava com isso.

Para Kayla, escolheu um chaveiro da Minnie dourada, algo que combinava com o estilo dela, mas sem ser exagerado.

E, para Leo…

Ele parou em frente à prateleira cheia de chapéus do Mickey.

Segurou um, analisando a aba larga, as orelhas redondas e pretas que saíam do topo.

Sorriu sozinho.

Leo ia odiar.

Mas ia usar, só por ironia.

Comprou o chapéu sem pensar duas vezes. E, no fundo, mal podia esperar para voltar para casa e ver a reação dele.


◄☼►


Assim que desceu do carro e pisou de volta em São Tomás, Eduardo sentiu como se o peso da viagem inteira finalmente saísse de seus ombros.

O ar da cidade pequena parecia mais leve, mais familiar. E havia apenas um lugar onde ele queria estar.

Ele mal esperou a mala encostar no chão da sala. Assim que pisou de volta em casa, já estava indo embora de novo.

— Eduardo, pelo menos desfaz a mala primeiro! — Helena chamou, vendo o filho atravessar a porta como um raio.

— Depois, mãe! — Ele respondeu, já descendo os degraus da varanda.

— Onde você vai?!

Eduardo virou apenas o suficiente para gritar de volta:

— Na fazenda!

E, sem esperar qualquer resposta, disparou pela rua.

Ele pedalou o mais rápido que pôde, cortando as estradas de terra com o vento batendo contra o rosto e a poeira subindo sob os pneus da bicicleta. Nada importava naquele momento, nem cansaço, nem fuso horário, nem o fato de que tinha acabado de voltar de outro país.

Ele só queria ver Leo.

Quando chegou à fazenda, largou a bicicleta de qualquer jeito e foi direto para dentro.

O primeiro rosto que encontrou foi Gustavo, que estava encostado na varanda, tomando um copo de água.

— Opa, Edu! Finalmente voltou, hein?

Eduardo estava sem fôlego, mas sorriu.

— O Leo tá aí?

— Tá sim. No celeiro, limpando o feno.

Eduardo nem esperou mais nada. Saiu correndo.

O cheiro da fazenda, o barulho das galinhas ciscando, o som distante dos cavalos, tudo aquilo parecia um abraço familiar que ele nem sabia que sentia tanta falta.

Mas nada se comparava ao momento em que ele chegou no celeiro e viu Leo.

Ele estava de costas, jogando um monte de feno para o lado, concentrado no trabalho, sem perceber a presença de Eduardo de imediato. Os cabelos loiros estavam desalinhados, sujos de poeira.

Foi só quando Eduardo pisou mais forte no chão de madeira que Leo se virou, franzindo a testa.

E foi aí que Eduardo parou de pensar.

Simplesmente saiu correndo na direção dele.

Leo nem teve tempo de perguntar nada.

Quando percebeu, Eduardo já estava em cima dele, agarrando sua camisa com força e o beijando desesperadamente.

Era um beijo cheio de saudade. Cheio de tudo o que Eduardo sentiu nas últimas semanas, mas não conseguia dizer.

Leo demorou um segundo para reagir, mas então retribuiu.

Ele segurou Eduardo pela cintura, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. O cheiro da pele, o peso confortável daquele momento.

Eduardo agarrou a nuca dele com os dedos, como se estivesse com medo de soltar.

E quando finalmente se separaram, Leo deu uma risada curta, a respiração ainda acelerada.

— Caramba, riquinho. O Mickey te deixou assim, foi?

Eduardo bufou, rindo junto.

— Cala a boca.

Leo sorriu, passando a mão pelos cabelos loiros para tirar um pouco da poeira.

Mas o olhar dele dizia tudo.

Ele também tinha sentido saudades.

O silêncio ainda era carregado pelo beijo quando Eduardo, com um brilho travesso nos olhos, enfiou a mão no bolso da jaqueta e puxou um pequeno pacote.

— Antes que eu me esqueça… trouxe um negócio pra você.

Leo franziu a testa, pegando o embrulho com um olhar desconfiado. O papel amassado, dobrado às pressas, denunciava a falta de habilidade de Eduardo com presentes.

Desfez o nó e abriu o pacote.

E então, congelou.

Segurou o item nas mãos, piscou devagar, depois olhou para Eduardo, depois para o presente de novo.

— Não acredito que você trouxe isso.

Eduardo explodiu em risada.

— Promessa é promessa.

Era o chapéu de Mickey, com as orelhinhas e tudo.

Leo soltou um suspiro longo, segurando o chapéu pelo topo, analisando como se fosse uma praga enviada para ele.

— Eu devia te jogar no meio dos cavalos.

Eduardo cruzou os braços, provocador.

— Você disse que usaria por pura ironia. Só tô garantindo que você cumpra.

Leo estreitou os olhos, suspeitando da armadilha.

— Se eu colocar isso na cabeça, você nunca mais fala no assunto.

— Fechado.

Leo bufou, balançou a cabeça, mas colocou.

E, no exato segundo em que o chapéu pousou na cabeça dele, Eduardo puxou o celular e tirou uma foto.

— Ah, NÃO! — Leo se deu conta tarde demais.

Eduardo já tinha registrado o momento, e pior, já estava gargalhando, segurando o celular como um troféu.

— MEU DEUS! — Eduardo quase caiu de tanto rir. — Ficou perfeito, sério, você deveria usar sempre.

Leo avançou para pegar o celular.

— Apaga isso AGORA.

Eduardo desviou, rindo ainda mais.

— Nem ferrando! Isso aqui vai direto pro grupo.

Leo arregalou os olhos.

— Eduardo, eu JURO…

— O que foi? Vai me tacar no coxo?

— Isso é uma ameaça.

Eduardo mordeu o lábio, segurando o riso.

Leo bufou, mas acabou rindo também, porque, no fundo, ele tinha sentido falta disso.


◄☼►


Mais tarde, já deitado na cama, Eduardo não resistiu.

Pegou o celular, abriu a galeria e olhou para a foto icônica de Leo de orelhinhas de Mickey.

Era perfeita. O fundo rústico do celeiro, o chapéu destoando completamente da cena, a expressão de puro desgosto de Leo.

Sem pensar duas vezes, abriu o grupo do WhatsApp — aquele que tinham criado enquanto ele estava na Disney — e mandou a foto.

A legenda?

"Eis o verdadeiro Príncipe Encantado da Disney."

O caos começou em questão de segundos.


Carla: MEU DEUS KKKKKKKKKKK

Bruno: LEO???? É VC???

Carla: o ícone do agronegócio e do entretenimento ao mesmo tempo!

Davi: eu pago pra ver ele na disney com essa orelha aí. mentira, n tenho grana p isso

Bruno: em pleno magic kingdom, andando de braço dado com o mickey

Carla: eu tô IMAGINANDO ele assistindo o show de fogos com isso na cabeça, chorando de emoção

Davi: ou melhor, tirando foto com as princesas

Bruno: "prazer, princesa, eu sou o fazendeiro dos seus sonhos"


Enquanto as notificações explodiam, Eduardo estava chorando de rir.

Mas então, Leo mandou no grupo:


Leo: EU VOU TE MATAR, EDUARDO

Leo: APAGA ISSO AGORA

Leo: SEU FILHO DA P***

Leo: EU JURO QUE TE ENTERRO NO ESTÁBULO

Leo: ISSO É UMA DECLARAÇÃO DE GUERRA


Eduardo estava sem ar de tanto rir.


Eduardo: relaxa, só tô compartilhando a sua beleza com o mundo

Leo: VC VAI PAGAR POR ISSO

Eduardo: já tô esperando. mas só se for com terra fofa, pq pedra machuca

Leo: NÃO TESTA MINHA PACIÊNCIA, CASTILHO

Carla: KKKKKKKKKK

Bruno: vou comprar um porta-retrato e colocar essa foto no meu quarto.

Leo: EU ODEIO TODOS VCS


Eduardo guardou o celular, ainda rindo.

Ele sabia que Leo estava revoltado, mas também sabia que, no fundo, ele estava rindo também.

Porém, o celular logo vibrou novamente.


Davi: agora falando sério, cadê meu chaveiro, castilho?

Carla: exatamente, eu pedi um moletom e até agora NADA

Bruno: tô esperando meu lanche do tamanho da minha cabeça

Eduardo: MEU DEUS, CALMA

Eduardo: vai todo mundo receber uma lembrancinha, relaxem

Leo: o unico que não merece nada de ngm aqui é o eduardo, pq eu ainda tô decidindo se vou enterrar ele vivo ou não

Carla: mas ele merece ser enterrado por alguém de orelhinhas de mickey, pelo menos, né leo?

Davi: o mínimo

Bruno: concordo

Leo: eu ODEIO vcs