O Garoto Feito de Sol e Terra
28 Capítulo 28 — O Medo Que Ainda Paira
Os dias de férias passaram em um borrão de tardes despreocupadas e risadas fáceis. Eduardo e Leo pareciam ter entrado num mundo só deles, onde nada além da fazenda, da bicicleta de Eduardo cortando a estrada de terra e dos momentos compartilhados entre um e outro pareciam importar.
Eduardo ia para a fazenda quase todos os dias. Esquecia do tempo ali. Às vezes, ajudava Leo com alguma coisa, mas, na maioria das vezes, só ficavam jogados em algum canto, conversando sobre tudo e sobre nada, provocando um ao outro, rindo até perderem o fôlego.
Mas nem sempre ficavam só na fazenda. Algumas vezes, Eduardo levava Leo até sua casa. Era diferente estar ali, entre os móveis modernos, o cheiro de casa sempre arrumada, longe da poeira e do campo aberto da fazenda.
Mas Leo nunca reclamava. Pelo contrário, gostava do jeito que Eduardo parecia relaxar ali também, no quarto, onde ninguém os incomodava.
E, nessas visitas, acontecia.
No começo, eram apenas beijos rápidos, roubados entre uma conversa e outra, como se precisassem confirmar, vez ou outra, que aquilo ainda estava ali. Mas, com o tempo, os beijos foram ficando mais longos, mais intensos.
E sempre havia um medo pairando no ar.
Toda vez que Leo ia até a casa de Eduardo, a primeira coisa que Eduardo fazia era trancar a porta do quarto. O barulho da chave girando era discreto, mas carregado de significado. Porque era necessário. Porque o medo sempre existia.
Mas, entre quatro paredes, eles podiam esquecer um pouco do mundo.
Naquela tarde, estavam no quarto de Eduardo, jogados sobre a cama. O jogo no videogame já tinha sido esquecido há um tempo, os controles largados de qualquer jeito no colchão.
O que restava agora eram eles.
Os beijos eram lentos no início, mas foram ganhando pressa sem que percebessem. Leo sentia a respiração de Eduardo contra sua pele, Eduardo sentia os dedos de Leo apertando sua camisa. Era uma sensação nova, urgente, intensa.
E então aconteceu.
Seus corpos se moveram no mesmo ritmo. Os toques se tornaram mais firmes, mais inconscientes. E, sem perceber, seus membros se encostaram, enrijecidos, despertos pela proximidade.
O choque foi imediato.
Os dois congelaram. O beijo foi interrompido no mesmo instante, como se tivessem ultrapassado uma barreira que não sabiam que existia.
Até aquele momento, nada entre eles tinha passado dos beijos intensos. O contato nunca tinha sido além disso, não porque não pensavam nisso, mas porque sabiam que era um passo grande demais.
Sexo não era um mistério. Ambos sabiam o que era, sabiam o peso que carregava, sabiam o que significaria entre eles.
Era uma linha que parecia existir ali, silenciosa, inquebrável. Uma linha que ambos viam, mas nunca ousavam atravessar. Não porque não queriam, mas porque, talvez, não estavam prontos para descobrir o que vinha depois.
Leo piscou, a respiração acelerada.
Eduardo sentiu o rosto arder.
Se desvencilharam rápido, como se tivessem feito algo errado, mas sem entender exatamente por quê aquilo parecia tão grande.
E então, como se o mundo precisasse voltar ao normal, Leo riu.
Baixo, meio sem jeito, meio sem saber o que fazer com a situação.
Eduardo riu também.
E o assunto morreu ali.
Mas a sensação permaneceu.
◄☼►
Depois que Leo foi embora, Eduardo ficou no quarto, preso em seus próprios devaneios.
O silêncio ao redor contrastava com a confusão dentro dele.
Nunca tinham chegado tão perto disso antes. Nunca tinham ultrapassado aquele limite, nem sequer falado sobre isso. O máximo que acontecia era um beijo que se prolongava mais do que deveria, um toque na nuca, nos cabelos, nos rostos. Mas sempre havia um limite, uma linha invisível que nenhum dos dois ousava cruzar.
Só que, dessa vez, passaram por ela sem querer.
Eduardo virou de lado na cama, encarando o teto, sentindo ainda o calor residual daquele momento. O que isso significava?
Eduardo tinha percebido na hora.
O toque, o calor, a respiração acelerada.
E então, havia sentido.
Leo também estava duro como ele.
A constatação viera como um choque silencioso, um peso estranho no peito. Aquilo estava ali, inegável, tão real quanto o ar entre eles.
Eduardo fechou os olhos, soltando um suspiro pesado, sentindo o próprio corpo ainda ressoar com o momento.
Não sabia se queria pensar naquilo.
Mas, ao mesmo tempo...
Era impossível não pensar.
◄☼►
As férias passaram rápido demais. Parecia que, num piscar de olhos, Eduardo tinha saído da fazenda, das tardes despreocupadas com Leo, e estava de volta ao ambiente abafado das salas de aula.
Os corredores cheios, os barulhos familiares, o cheiro de material novo misturado com suor e perfume caro. Era o mesmo ciclo de sempre, mas, dessa vez, algo parecia diferente.
Agora tinham catorze anos, e Eduardo logo voltou a se misturar com seu grupo de sempre: Tiago, Giovane e Hugo. Nos primeiros dias de aula, os três estavam elétricos, cheios de novidades das férias, e não demorou para arrastarem Eduardo de volta para a rotina familiar de conversas no pátio, partidas improvisadas de futebol e discussões intermináveis sobre qual era, afinal, o melhor jogo de videogame do momento.
Mas uma coisa logo chamou sua atenção: Tiago estava diferente. Havia um ar convencido nele, um jeito mais espalhafatoso de falar. Não demorou muito para Eduardo descobrir o motivo.
— Eu tô namorando. — Tiago anunciou, estufando o peito como se tivesse acabado de vencer um campeonato.
Eduardo franziu a testa, pegando um pedaço do lanche.
— O quê?
— Isso mesmo que você ouviu. Eu e Samanta. Oficial. — Tiago deu um sorriso de canto.
Giovane e Hugo assobiaram em deboche, mas Tiago parecia gostar da atenção.
— Aí sim, hein? — Hugo comentou, batendo no ombro dele.
— E vocês começaram a namorar nessas férias? — Eduardo perguntou, tentando parecer casual.
Tiago riu baixo, abaixando um pouco o tom de voz.
— Sim, a gente começou a ficar, oficializamos e… e rolou mais do que apenas isso.
Eduardo franziu o cenho.
— Mais do que isso, como assim?
Tiago arqueou uma sobrancelha, como se fosse óbvio.
— Perdi minha virgindade, Castilho.
A frase caiu como uma bomba silenciosa. Eduardo piscou. Giovane e Hugo reagiram como esperado, dando tapas nas costas de Tiago e soltando exclamações de surpresa. Eduardo, no entanto, só ficou quieto. Não sabia exatamente o que dizer.
Nunca tinha pensado muito sobre aquilo, pelo menos, não da forma como Tiago falava agora. Sexo sempre parecia uma coisa distante, algo que aconteceria em algum momento da vida, mas nunca algo concreto, tão próximo.
Mas Tiago tinha feito. E agora falava daquilo como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— E aí, Castilho, tá na hora de você também, né? — Tiago deu um sorriso provocador, cutucando o ombro de Eduardo. Eduardo soltou uma risada curta, desviando o olhar.
— Sei lá, Tiago. Não tô com pressa.
— Ah, cara, isso é só desculpa. — Tiago revirou os olhos. — Você não quer ou não teve oportunidade ainda?
Eduardo não soube o que responder. Não era tão simples assim. Porque, no fundo, sabia que sua primeira vez não ia acontecer do jeito que Tiago imaginava. E isso era algo que ele não estava pronto para explicar.
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